Capítulo 4: Fundamentos e trajetória metodológica da pesquisa
9- Procedimentos de análise do material coletado
A análise dos dados extraídos das informações coletadas numa pesquisa constitui-se numa das fases do processo investigativo, contudo por se tratar de uma pesquisa qualitativa a ação de analisar começa a existir, já, durante o processo de recolhimento das informações, mesmo que informalmente. Devido ao número de sujeitos envolvidos, das técnicas e dos recursos utilizados para a obtenção das representações sociais dos professores sobre o poder profissional da docência, o material coletado passou por duas análises.
A primeira análise foi considerada preliminar e se deu logo após cada entrevista e trabalho com cada grupo focal. Essa iniciativa pretendeu buscar, a partir da compreensão das primeiras informações obtidas, um suporte para o encaminhamento das atividades seguintes, como: verificar pontos que ficaram obscuros em algum encontro, mas que eram considerados indispensáveis para o estudo; explorar tópicos que foram tratados insuficientemente; esclarecer certos argumentos que pudessem potencializar a análise; introduzir novas questões e, ainda, aprimorar o desempenho da moderadora/pesquisadora. Esse primeiro momento de análise seria, pode-se dizer, um olhar criterioso sobre os conteúdos manifestos.
A segunda análise ou análise final exigiu, além do olhar criterioso, outros requerimentos que foram mobilizados para desvendar o que significariam os conteúdos comunicados. Essa análise teve seu início marcado por um temporário estado de paralisia da pesquisadora diante de um grande cabedal de informações coletadas, que precisava, até mesmo, de uma disposição estética. Naqueles primeiros momentos, o acervo apresentava linhas sinuosas, às vezes paralelas, sugerindo a desesperança do encontro (linhas paralelas na perspectiva euclidiana). Esse momento para a pesquisadora foi único e solitário, o que a fez lembrar de Bachelard (1989, pp. 108 - 109), quando esse autor conta suas lembranças do ato de escrever sob uma lâmpada:
O ser sonhado concentra-se aí para lembrar o ser que trabalhava. (...) O verdadeiro espaço do trabalho solitário é dentro de um quarto pequeno, no círculo iluminado pela lâmpada. (...) A solidão aumenta se, sobre a mesa iluminada pela lâmpada, se expõe a solidão de uma página em branco. A página branca! Esse grande deserto a ser atravessado, jamais atravessado. (...) A solidão se obstina contra o solitário quando é aquela de um trabalhador que não somente quer se instruir, que não somente quer pensar, mas que quer escrever.
Mas era preciso começar a tratar aquele conjunto de informações para torná-lo inteligível, isto é, capaz de responder ao problema da pesquisa, ou como diz o autor era “preciso ter aventuras de consciência” (p.110). Dessa forma, extrair desse acervo, informações relevantes e transformá-las em dados para a análise tornaram-se um desafio. Por essa razão, a sistematização e a análise dos dados constituiu a fase mais desgastante emotivamente para a pesquisadora. Todavia, esse desgaste reuniu-se a um misto de prazer pelo conhecimento que ia sendo construído.
Sendo assim, foi feita a opção pela análise temática dos discursos dos sujeitos da pesquisa, isso porque quando se procura, por meio de uma pesquisa social empírica, apreender representações sociais, sobre determinado objeto, faz-se necessário
considerar que essas representações só podem ser visualizadas como um depoimento discursivo, entendendo este como “a manifestação lingüística de um posicionamento diante de um dado tema, composto por uma idéia central e seus respectivos conteúdos e argumentos” (LEFEVRE, 2005, p.13).
Desse modo, a escuta cautelosa acompanhada dos registros das informações que, implícita, e às vezes explicitamente, carregavam conceitos relacionados ao objeto de pesquisa, iam sendo dispostas de forma panorâmica e, em seguida, o diálogo entre as informações coletadas e o aporte teórico selecionado começava a dar forma a um texto compreensível.
Estudar as representações sociais dos professores, formadores de professores no ensino superior, implicou conhecer o que Spink (1995b, p. 90) chama de dupla face das representações, isto é, o seu processo e o seu produto. Enquanto processo as representações dos professores desta pesquisa emergiam em seu estado constituinte, isso significa que a pesquisa buscava entender o processo de construção e transformação dessas representações. Dessa forma, as técnicas verbais e não verbais buscavam os determinantes (sociais, políticos, culturais, históricos, outros) das representações. Como produto, as representações foram estudadas como pensamento constituído, extraindo-se delas: informações, imagens experiências e outros elementos, mas considerando-se os contextos de sua produção e de sua circulação.
Os trechos ou fragmentos das declarações dos sujeitos pesquisados compõem a estrutura de análise deste texto. Ao final de cada declaração recortada das entrevistas ou dos trabalhos com os grupos focais, há uma identificação que segue a seguinte sequência: Geração Pedagógica (1.ª = 1 ou 2.ª = 2); Gênero do sujeito pesquisado: Masculino (M) ou Feminino (F); Inicial do(s) nome(s) do curso de licenciatura onde o
sujeito da pesquisa realiza o seu trabalho docente13; e Tipo de Instituição de Ensino Superior: Pública (P) ou Privada (PR).
Por se situar na interseção social/individual, o caminho metodológico já descrito, com suas técnicas e instrumentos, possibilitou momentos de reflexão individual e coletiva aos sujeitos participantes desta pesquisa.
Portanto, o relevo deste texto reside nas falas dos sujeitos pesquisados e, concordando com Moscovici (1988, p. 239), ao mostrar sua reserva à rigorosidade metodológica: “(...) o objetivo é de desenvolver um domínio de saber original que nos ajude a compreender o que as pessoas fazem na vida real e em situações significantes”. Dar voz a esses sujeitos, evitando-se a imposição de pré-concepções, e promover o diálogo entre a teoria e os discursos dos sujeitos, também, reafirma a natureza qualitativa desta pesquisa.
Com efeito, o processo de investigação que se utiliza de técnicas verbais propicia a reflexão, que por sua vez possibilita reconhecer de que “lugar” o docente fala e, assim, favorece a compreensão do “lugar” onde o docente se situa ao discursar ou a ouvir determinado discurso (da instituição formadora da docência, dos colegas professores formadores de professores, dos licenciandos, etc.).
13 Pedagogia (P); Geografia (G); Ciências Biológicas (CB); Psicologia (Ps); Química (Q); Ciências
Agrárias (CA); Letras (L); Física (F); História (H); Filosofia (F); Educação Física (EF); Matemática (M); Ciências sociais (CS).
Em longo prazo, a conversação (os discursos) cria nós de estabilidade e recorrência, uma base comum de significância entre seus praticantes. As regras dessa arte mantêm todo um complexo de ambiguidades e convenções, sem a qual a vida social não poderia existir. (...) O pensar é feito em voz alta. Ele se torna uma atividade ruidosa, pública, que satisfaz a necessidade de comunicação e com isso mantém e consolida o grupo, enquanto comunica as características que cada membro exige dele.(MOSCOVICI, 2003, pp. 50-51).
Capítulo 5 - Os processos de construção das representações sociais do poder