PARTE II: ESTUDO QUALITATIVO
CAPÍTULO 2 – METODOLOGIA
2.4 Procedimentos
2.4.2 Procedimentos de tratamento/Análise de dados
Depois de ter os dados disponíveis, o investigador examinou-os cuidadosamente, para identificar conceitos e padrões que emergem. Neste caso, White e March (2006) defendem que o investigador pode, de forma legítima, alterar os seus interesses e questões de investigação para prosseguir com este novo padrão. Foi o que aconteceu com o presente trabalho, impelindo para a integração dos Diretores Adjuntos Pedagógicos como novo grupo de participantes.
Appolinario (2011) afirma que qualquer discurso deve ser analisado, uma vez que, é uma expressão do pensamento, fala (escrita ou verbal), sucessão de preposições e ou argumentos que pressupõem um significado. Para Severino (2017) trata-se de uma “metodologia de tratamento e análise de informações constantes de um documento sob forma de discursos pronunciados em diferentes linguagens: escritas, orais, imagens, gestos, figurativas, documentais”. Esta análise envolve não só o conteúdo das mensagens, mas também os enunciados dos discursos, a busca do significado das mensagens. O mesmo autor explica ainda que, os indicadores significativos e indispensáveis para a compreensão dos problemas ligados à práticas humanas e a seus componentes psicossociais são “as linguagens, a expressão verbal e os enunciados” (Severino, 2017, p. 121). E, ele sintetiza que se trata de compreender criticamente o sentido manifesto ou oculto das comunicações.
Neste presente estudo transcrevemos todas as entrevistas na íntegra. De acordo com Riessman, citado por Braun e Clarke (2006), se o pesquisador faz uma entrevista a transcrição é um passo importante para que venha a conduzir uma análise temática bem-feita. Mais ainda, o autor defende que o processo de transcrição torna-se um excelente caminho que faz com que o pesquisador venha a começar a familiarizar-se com os dados por ele recolhido. Os autores focam ainda os pensamentos de Bird, Lapada e Lindsay que defendem que a transcrição de dados é uma fase chave de uma análise interpretativa profunda na metodologia qualitativa. Seguidamente efetuamos a leitura cuidada e integral das entrevistas, com a finalidade de absorver e reter a primeira impressão do conteúdo do discurso das declarações dos entrevistados e ainda identificar eventuais tendências e padrões relevantes (Ritchie & Lewis, 2003).
Procedeu-se pois ao início de análise do conteúdo das entrevistas o que para Bardin (1993) corresponde à transformação dos dados brutos do texto por recorte, agregação também a enumeração.
As entrevistas transcritas foram analisadas numa abordagem semi-indutiva e com recurso ao
NVIVO11, um software de análise qualitativa. O Softwhare NVIVO 11 permitiu o processo
acessível de triangulação dos dados facilitando assim a análise dos dados. Foram utilizadas as várias funções básicas do Softwhare sobretudo: a frequência de análises, formulação de categorias e subcategorias, seleção dos conceitos chaves nos dados recolhidos, frequência de conceitos, a visualização constante e a geração de concordâncias dos termos e conteúdos, seleção de argumentos que comprovam as declarações dos próprios entrevistados. Portanto,
colecionamos os dados ou respostas próprias dos entrevistados, tais como elas são, colocamo- las em categorias e subcategorias em vista a uma discussão dos resultados. A partir desta técnica de processamento de dados em NVIVO 11 surgiu o esquema geral ou sistema geral, a partir do qual efetuamos a descrição dos dados para posteriormente passarmos à discussão e análise de resultados. Neste passo, procuramos ser o mais concretos possível na extração e colocação dos dados em vista a uma maior transparência e coerência dos dados recolhidos com aquilo mesmo que foi reportado pelos mesmos entrevistados, isto não só no que diz respeito na simples descrição das declarações dos entrevistados, mas também no que diz respeito às razões e justificativas que eles apresentam sustentando as suas declarações - a isto podemos chamar de análise do conteúdo dos dados.
Concretamente, no nosso trabalho, depois de recolher os dados junto dos estudantes finalistas e da sua transcrição, procedeu-se à análise do seu conteúdo recorrendo ao Software NVIVO 11 do qual resultou uma árvore de categorias (Anexo 7). Procedimento semelhante foi realizado com as entrevistas ao grupo dos Diretores Adjunto Pedagógicos elaborando um sistema- esquema próprio de representação das categorias (uma árvore de categorias-Anexo 9). Seguidamente efetuamos a respetiva apresentação de dados, e no fim usaremos os resultados processados das entrevistas com ambos os tipos de participantes constituindo assim, todo esse processo, a nossa análise e discussão de resultados em geral – triangulação de fontes.
Ao fazermos a análise do conteúdo dos participantes estamos - de acordo com Ramos e Naranjo (2014, p. 201) – a fazer o devido processamento de dados que “significa organizá-los, trabalhá-los, classificá-los de maneira que se possa fazer uma análise o mais objetivo e fiável possível da referida informação”. Realizaram-se pois as seguintes operações (Ramos & Naranjo, 2014):
- codificação: que é a atribuição de símbolos ou números a toda ou a cada uma das categorias de respostas recolhidas na informação.
- a tabulação: processo que permite determinar a frequência do fenómeno objeto de investigação, isto é, respostas e variáveis: respostas de um número de participantes e que por suas vezes, essas, variam entre elas.
- categorização: que consiste no agrupamento das respostas em tendências, aspetos positivos e negativos ou outros. Tal pressupõe a descrição, isto é, para cada uma das categorias foi produzido um texto síntese onde expressamos o conjunto de significados presentes nas diversas unidades de análise incluídas em cada uma delas (Anexos 6 e 10). Para Moraes (1999) o momento da descrição é, sem dúvida, de extrema importância na
análise de conteúdo, momento de expressar os significados captados e intuídos nas mensagens analisadas. O autor defende que as categorias devem ser válidas, exaustivas e homogéneas e a classificação de qualquer elemento do conteúdo deve ser mutuamente exclusiva e consistente. E, em geral, quanto mais subdivididos os dados e quanto maior o número de categorias, maior a precisão da classificação, embora também um número grande de categorias pode introduzir dificuldades de compreensão. Portanto exige-se um esforço constante de reduzir as categorias pois o objetivo básico da análise de conteúdo é produzir uma redução dos dados de uma comunicação. Quando se afirma que um conjunto de categorias deve ser exaustivo pretende-se dizer que deve possibilitar a categorização de todo o conteúdo significativo definido de acordo com os objetivos da análise, deve haver a inclusão de todas as unidades de análise e nenhum dado significativo deixa de ser classificado. Isto é ter possibilidade de enquadrar todo o conteúdo.
De acordo com Braun e Clarke (2006) identificam-se temas de análise e produz-se assim um esquema-guia que conduz o processo de análise de conteúdo passo por passo com determinados códigos. Para ele, a análise envolve um movimento constante de avanço e de retorno procurando ter a certeza dos dados fidedignos com conteúdos triangulados e com uma evidência lógica das provas. Para tal ficamos atentos ao significado dos termos existentes nos dados coletados. Segundo Braun e Clarke (2006) há necessidade de familiarização profunda com os dados pelo pesquisador durante a análise dos mesmos. Então, como pesquisador, procuramos nos sentir imersos em todos os aspetos dos dados por ele recolhidos.
Neste processo todo, foi necessário observar os principais critérios de constituição de categorias na análise de conteúdo: devem ser válidas, pertinentes ou adequadas. Para Moraes (1999) dizer que uma categorização deve ser válida significa dizer que deve ser adequada ou pertinente. Esta adequação se refere aos objetivos do tema em estudo, à natureza do material que está sendo analisado e às questões que se pretende responder por meio da pesquisa. O autor defende que a validade ou pertinência exige que todas as categorias criadas sejam significativas e úteis ao tema do trabalho, proposto, sua problemática, seus objetivos e sua fundamentação teórica.
O tratamento dos dados foi realizado pelo autor deste trabalho, sendo discutido constantemente com outro autor investigador - triangulação de investigadores (Ritchie & Lewis, 2003).
Ao longo do processo das entrevistas com os estudantes finalistas, sua transcrição e análise, fomos observando que os últimos entrevistados não expressavam algo de novo que viesse a acrescentar ao que os autores haviam declarado. Fontanella et al. (2011) falam do passo da constatação da saturação teórica para cada pré-categoria ou nova categoria que consiste em constatar uma tendência, nas respostas, de não mais haver novas ocorrências ou novos detalhes adicionais nas declarações dos últimos entrevistados. Em outras palavras, a autora defende que a coleta de novos dados por meio de novas entrevistas acrescentaria supostamente poucos elementos para discussão em relação à densidade teórica já obtida. Isto é, trata-se do momento em que começam a escassear novos tipos de enunciados ou temas. Santos, e da Lima-Nóbrega, (2002) defenderam que a mostragem teórica de qualquer categoria termina quando ela estiver num processo de saturação teórica. Cassiani e Pelá (1996), parafraseando Strauss e Corbin já haviam defendido que a saturação teórica não se refere apenas à cessação da emergência de novas categorias ou temas relevantes para a análise, pois a saturação teórica implica também que cessem de surgir novas propriedades, dimensões e variações nesses temas e categorias. Sendo assim, para estes autores a decisão de interromper a inclusão de novos casos surge quando cessam de emergir novos códigos e propriedades desses mesmos códigos relativos as categorias, subcategorias e temas.
No caso do presente trabalho, a saturação teórica foi atingida com 26 entrevistas de estudantes finalistas. A opção feita quanto aos Diretores Adjuntos Pedagógicos não integra o objetivo de atingir a saturação teórica. Portanto, as informações e conteúdos que recolhemos analisamos e interpretamos procurando que sejam de pessoas fidedignas que relataram as suas realidades de vida com objetividade e sinceridade. Procuramos elementos que nos fazem garantir a veracidade das experiências e os métodos e as técnicas que nos garantem a validade dos resultados do nosso estudo.
Assim foi dada a voz aos participantes individuais para podermos compreender uma determinada realidade vivida objetivamente e que eles traduziram no ato da palavra. Tomamos muita atenção sobre os termos mais usados ou focados nas expressões dos entrevistados acerca de um assunto questionado pelo pesquisador e construímos as categorias e as subcategorias.
Seguiu-se depois a discussão dos dados: de acordo com Moraes (1999) uma boa análise de conteúdo não deve limitar-se à descrição pois precisa atingir uma compreensão mais aprofundada do conteúdo das mensagens através da inferência e interpretação. O termo interpretação está mais associado à pesquisa qualitativa mesmo que esteja também presente
nos estudos quantitativos. Nesta parte procuramos apresentar a interpretação feita através de uma exploração dos significados expressos nas categorias da análise. Portanto, para o autor a teorização, interpretação e compreensão constituem um movimento circular em que a cada retomada do ciclo se procura atingir maior profundidade na análise.