CAPÍTULO III – Apresentação e interpretação de resultados: O olhar de oito
5. Abordagem sobre a Intervenção do Serviço Social:
5.2. Procedimentos face a situações concretas de HIV/SIDA
Quisemos ainda compreender os procedimentos face a situações concretas de
HIV/SIDA, identificando-se dois aspectos: num, a assistente social resolve a situação pessoalmente/internamente e no outro que recorre ao apoio de outros profissionais. Houve, em
ambas, um igual número de respostas.
Antes de procedermos à interpretação e análise do discurso das entrevistadas deve sublinhar-se que esta questão foi colocada, quer a profissionais que já experienciaram no contexto da sua prática, no passado ou no presente, casos de utentes com HIV/SIDA, quer a profissionais que nunca passaram por essa experiência na intervenção. Desta forma, as respostas obtidas tiveram como pressuposto a experiência concreta e a condicionalidade de uma possível experiência.
Resolve a situação pessoal/internamente
Quatro das entrevistadas referem resolver a situação pessoalmente e internamente, centrando a intervenção na pessoa, guardando o sigilo e enquadrando-a nas actividades diárias da instituição.
“Já tive uma pessoa infectada […] ele foi enquadrado exactamente como todos os outros. Portanto foi inserido no grupo normalmente […] Nós não temos que ter cuidados extra pelo facto de termos uma pessoa portadora de HIV dentro de uma instituição […] esses cuidados já devem já existir […]”(E3).
“ […] A rotina da instituição não pode ser alterada se tivermos uma situação dessas…nós temos que obedecer à vontade da pessoa, porque faz parte da intimidade de cada um, lá está, os cuidados que podemos ter com essas pessoas são os cuidados que nós devemos ter com outras quaisquer […]” (E5).
Destas respostas apenas uma não teve casos concretos. Ainda que por suposição, a entrevistada sublinha que “[…] eu creio que a rotina diária do centro não se iria alterar por nós termos uma pessoa portadora […] encontraríamos internamente uma saída, com certeza […] ” (E4).
Recorre a outros profissionais
O recurso a outros profissionais face a situações concretas de HIV/SIDA está também presente no discurso de quatro das entrevistadas. As duas primeiras têm experiência de casos na instituição e, quer uma quer a outra, face a situações concretas, procuraram apoio junto de profissionais que conhecem e trabalham diariamente com o problema.
“Quando eu comecei a verificar que havia pessoas com o problema, houve realmente necessidade de recorrer ao GADS. […] Pensei para comigo. Isto não pode ser só ficar por uma acção de formação ou de informação. Isto se calhar tem eu ir a outro nível… […] era necessário ir mais além e eu não me sentia com competência para fazê-la. Isto não ia lá só com a minha intervenção. […] Era importante realmente ter uma formação ao longo do tempo, feita por alguém que domine […] O doutor X do Centro de Epidemiologia do Hospital, fez a ponte com o Centro de Saúde […]” (E2).
“ […] Aqui há uns 15, 20 atrás, ainda não se sabia muito, a Segurança Social pediu-me apoio, para acompanhar dois casos em SAD e pedi até ao médico do Centro de Saúde de Cascais que nos desse alguma informação que nos desse apoio nessa matéria […]” (E7).
“Olhe a primeira coisa que fazia era contactar a colega do GADS para tentar perceber a problemática um bocadinho melhor […] eu tive a possibilidade de contratar uma pessoa com HIV e antes de ligar à senhora para lhe para lhe fazer a proposta, telefonei à colega do GADS para saber quais eram as envolvências e como é que eu poderia tratar se ela realmente fosse contratada, como é que eu iria proceder, se era preciso comunicar às colegas, se tinha de comunicar à direcção […]” (E6).
“ […] Articularia com colegas da área de saúde para a colaboração da prestação de cuidados e também de informação para mim […] e para melhor acompanhar socialmente o caso, da pessoa, da sua família […] estar atenta aos outros utentes aqui dentro […]” (E8).
Nestas duas últimas entrevistas, ainda que não tenham a experiência de casos na instituição, manifestam de igual modo a necessidade de recorrer a profissionais que conheçam o problema com mais profundidade.
Como já referenciado no quadro teórico, o HIV/SIDA é um fenómeno recente. Este facto eventualmente responsável pelo parco conhecimento do problema faz com que as participantes, independentemente existirem ou não casos nas instituições, recorram a profissionais de outras áreas para intervirem no problema. A interpretação dos seus discursos permite-nos atribuir um
duplo sentido a esta posição: positivo e negativo, que nos remete para a interdisciplinaridade, abordada no capítulo II. Assim, dando-lhe uma conotação positiva podemos, por analogia, considerá-la uma interdisciplinaridade complementar, onde diferentes disciplinas, no estudo ou na intervenção sobre determinado objecto, não se anulam mas completam-se. Neste caso, a partir das necessidades diagnosticadas pelas assistentes sociais, a alternativa para abordar o tema da sexualidade e do HIV/SIDA, foi o recurso aos centros de saúde e ao GADS. A posição interpretada como “negativa”, face à solução adoptada, tem por base a constatação que, o recurso a profissionais de outras áreas tinha subjacente alguma insegurança e desconhecimento relativamente ao problema, que como revelam estes dois exemplos podem traduzir-se numa
“prática de anulação”:
[…] Era necessário ir mais além e eu não me sentia com competência para fazê-la. Isto não ia lá só com a minha intervenção […]” (E2).
[…] Eu tive a possibilidade de contratar uma pessoa com HIV e antes de ligar à senhora para lhe para lhe fazer a proposta, telefonei à colega do GADS, para saber quais eram as envolvências e como é que eu poderia tratar se ela realmente fosse contratada, como é que eu iria proceder, se era preciso comunicar às colegas, se tinha de comunicar à direcção […]”(E6).
Tendo em conta a posição assumida pelas entrevistadas e reportando ao quadro teórico considera-se que este tema apela, não apenas à pertinência da especialização profissional em determinadas áreas, bem como à consciencialização por parte destas profissionais para essa necessidade. É importante que se crie a cultura de um processo formativo contínuo e que este tenha subjacente uma “educação problematizadora na medida em que esta se faz a partir de um esforço permanente, através do qual os homens vão percebendo, criticamente, como estão sendo no mundo com que e em que se acham” (Freire, 1994:41).
Face aos problemas emergentes e às necessidades deles decorrentes, o Serviço Social terá de encontrar mecanismos que garantam uma renovação contínua e que lhe permitam uma postura que não seja a da adaptação ou da acomodação, do deixar para o outro que é “especialista”, porque como refere Carlos Montaño (2009:144) “ (…) hoje, especialmente na área do social não se podem demarcar espaços profissionais, compartimentando, ou estabelecendo fronteiras exactas onde começa uma e acaba a outra”.