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PARTE I – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

1.5. Papel do Suporte Social

1.5.1. Processo de Diferenciação Intrapessoal

Segundo uma perspectiva desenvolvimental, existe uma considerável evidência de que o processo de diferenciação intrapessoal acelera durante a adolescência, dada a proliferação de múltiplos Eu’s que variam em função do contexto social. Vários estudos vieram revelar que as auto-descrições dos/as adolescentes variam consoante os diferentes papeis, construindo diferentes selves face aos pais, às mães, amigos/as próximos/as, parceiros românticos e colegas de escola (Griffin, Chassin & Young, 1981; Hart, 1988; Harter, Bresnick, Bouchey & Whitesell, 1998; Harter & Mousour, 1992; Rosenberg, 1986, cit. in Harter, Waters & Whitesell, 1998). Além disso, a valência dos auto-atributos associado a diferentes relacionamentos varia (Harter et al., 1998, cit. in Harter, Waters & Whitesell, 1998). Tal como mencionado por Harter, Waters e Whitesell (1998), ao olharmos para o constructo do auto-valor global (também referido na literatura como auto-estima global), a investigação evidencia que, considerando a existência de um sentimento de identidade, existem flutuações em torno deste

núcleo do auto-retrato, as quais podem decorrer de variações situacionais ou temporais. Numa linha semelhante, outros/as autores/as (Heatherton & Polivy, 1991; Leary & Downs, 1995, cit. in Harter, Waters e Whitesell, 1998) afirmaram que os indivíduos exibem traços de personalidade e de auto-estima.

A adolescência é um período particularmente sensível às flutuações dos contextos interpessoais (Blos, 1962; Demo & Savin-Williams, 1992; Harter, 1990; Leahy & Shirk, 1985; Rosenberg, 1986, cit. in Harter, Waters & Whitesell, 1998). Tem sido mesmo sugerido que a pesada dependência da auto-avaliação das fontes sociais durante este período de desenvolvimento pode resultar na percepção de que diferentes pessoas significativas têm diferentes impressões do self, levando à adopção de diferentes atitudes específicas face ao impacto diferenciado dos outros sobre a percepção do valor pessoal (Deci & Ryan, 1987, 1995; Greenier, Kernis & Waschull, 1995; Rosenberg, 1986, cit. in Harter, Waters & Whitesell, 1998).

Harter, Waters e Whitesell (1998) procuraram prosseguir esta questão de forma empírica, examinado a hipótese do sentido de valor pessoal do/a adolescente poder variar consoante os diferentes tipos de contextos relacionais. Procederam então à avaliação da auto-estima face a dois contextos de interacção com adultos/as (pais/mães e professores/as) e a dois contextos de interacção com os pares (colegas de escola do género masculino e feminino).

Investigação prévia sobre a adolescência revela que a aprovação ou validação percebida por parte de pessoas significativas (pais, mães e pares) é um poderoso indicador da auto-estima global (Harter, 1990, 1998; Rosenberg, 1979, cit. in Harter, Waters & Whitesell, 1998), dada a importância da aprovação destas duas fontes que permanecem ao longo dos anos da juventude. Apesar da aprovação parental continuar a ser crucial, a aprovação por parte de outros/as adultos/as, como é o caso dos/as professores/as, também se revela fundamental, já que a tentativa por parte dos pais e das mães de fomentar a autonomia dos/as filhos/as faz com que os/as adolescentes procurem fontes alternativas de suporte

por parte de outros/as adultos/as (Cooper, Grotevant & Condon, 1983, cit. in Harter, Waters & Whitesell, 1998). O suporte por parte dos pares numa arena mais pública, nomeadamente a aprovação por parte dos/as colegas de turma, revelou-se como sendo mais significativo do que o suporte de amigos/as próximos/as (Harter, 1990; Harter et al., 1996, cit. in Harter, Waters & Whitesell, 1998), presumivelmente porque reflecte mais atitudes do ―outro generalizado‖ (Mead, 1934, cit. in Harter, Waters & Whitesell, 1998).

Harter e colaboradores/as (1998) colocaram a hipótese do suporte em forma de validação por parte de cada fonte (nomeadamente os pais e as mães, os/as professores/as, os colegas do género feminino e masculino) ser altamente preditivo da percepção da eficácia pessoal no contexto correspondente. Ou seja, a sensibilidade dos/as adolescentes para a aprovação num contexto específico deverá ter um impacto significativo no seu valor pessoal dentro desse contexto relacional. Esta premissa conduz à expectativa da validação do suporte num determinado contexto estar mais fortemente correlacionado com o auto-valor relacional naquele contexto do que com o auto-valor relacional nos outros três contextos. Além do mais, os/as autores/as anteciparam que a validação num determinado contexto será mais preditivo do auto-valor relacional naquele contexto do que do auto-valor global. Neste estudo foi examinada a hipótese dos/as adolescentes revelarem diferentes níveis de auto-estima em função de quatro contextos (pais, mães, professores/as, colegas do género masculino e feminino). Os resultados obtidos providenciaram um claro suporte à hipótese dos/as adolescentes julgarem o seu valor como pessoa de forma diferente através destes quatro contextos. A discrepância entre os valores mais altos e mais baixos obtidos no auto-valor relacional também foi examinada, já que existem pontos de vista diferentes por parte dos/as adolescentes acerca do seu valor nos diferentes contextos. Os resultados obtidos revelaram que uma minoria dos/as adolescentes (aproximadamente um quarto da amostra) não reportou qualquer tipo de variação entre os diferentes contextos. No entanto, uma vasta maioria (quase três quartos

da amostra) revelou que o seu auto-valorvaria em função do contexto.

Um outro objectivo do mesmo estudo era identificar uma das potenciais causas das diferenças ou das semelhanças existentes no auto-valor relacional dos/as adolescentes nos diferentes contextos. De acordo com recentes modelos dos processos de avaliação reflectida (Berndt & Felson, 1993; John & Robbins, 1994; Rosenberg, 1979; Shauger & Schoeneman, 1979, cit. in Harter, Waters & Whitesell, 1998), os indivíduos, aquando da formação das suas auto-apreciações, internalizariam a sua percepção de suporte ou aprovação por parte dos outros. Os/as autores/as referidos/as, tendo como base anteriores esforços empíricos de Harter (1990, 1998), colocaram como hipótese que o suporte específico do contexto, em forma de validação, deveria estar altamente relacionado com o auto-valor dentro do contexto correspondente. Os resultados deste estudo corroboraram que um suporte percepcionado no interior de um determinado tipo de relacionamento está mais fortemente correlacionado com o auto-valor

relacional dentro desse mesmo contexto, comparativamente ao auto-valor

relacional nos restantes três contextos.

Neste estudo o foco foi restringido a dois ambientes, o da família (mais concretamente, os pais e as mães) e o da escola (professores/as e colegas do género masculino e feminino). No entanto, o auto-valor relacional pode variar segundo outros contextos adicionais, tais como os/as dos/as amigos/as próximos/as, parceiro/a romântico/a, colegas dentro da mesma equipa, irmãos/as, mãe versus pai e ―adulto/a especial‖.

Os resultados obtidos foram consistentes com os estudos alcançados por Harter (1990), em que se verificou que os/as adolescentes diferem no seu auto-valor consoante estão com amigos/as próximos/as ou colegas. Ou seja, o auto-valore o respectivo suporte diferem em função do relacionamento com os pares, consoante seja mais íntimo ou mais aberto na escola. Tendo em conta que os domínios de vida da auto-avaliação proliferam com a idade (Harter, 1990) e que a diferenciação de papéis se torna uma importante tarefa desenvolvimental dos/as

adolescentes, é expectável que no final da infância, quando o conceito do auto-valor começa a adquirir um peso significativo, sejam ainda poucos os contextos discriminados.