5. COMPREENSÃO NORMATIVA DO VALOR SOCIAL DO TRABALHO NA
5.1. O PROCESSO DE INSERÇÃO DO VALOR SOCIAL DO TRABALHO NO
Adverte Floriano Corrêa Vaz da Silva ser discutível o tom pacífico em que se sustenta não terem as constituições liberais (1824 e 1891) contemplado
73 os direitos soci is, um vez que “h vi vários dispositivos que se referi m explícit ou implicit mente o regime econômico e soci l”186
.
A advertência se justifica pelo tratamento conferido, desde então, ao trabalho humano, ainda que atrelado aos ideias liberais, concernentes ao valor produtivo do trabalho, ao consignar, a Constituição de 1824, a vedação à proibição de qualquer ofício ou profissão (art. 179, § 24187) e a abolição das corporações de ofícios (art. 179, § 25188).
É digna de nota a norma preconizada no art. 15, § 24, que condiciona a liberdade de trabalho, cultura, indústria ou comércio ao respeito à segurança e saúde dos cidadãos, revelando alguma preocupação com os direitos não circunscritos à individualidade.
A Constituição de 1891, por sua vez, não avança na matéria social, ou, mais especificamente, na incorporação do valor social do trabalho ao texto, o que só viria a ocorrer com a promulgação da Constituição de 1934, sob a influência direta da experiência constitucional alemã (1919), mexicana (1917) e espanhola (1931), os quais foram mantidos, doravante, em maior ou menor medida, em todas as Constituições, inclusive naquelas de índole autoritária (1937 e 1969).
Nesse contexto, destaque-se que, mesmo tendo sido abolida a escravatura em 1888, a Constituição de 1988 guardou silêncio eloquente no que diz respeito aos direitos dos libertos, que formavam a granda massa populacional e, inclusive, de mão-de-obra para o ciclo do café, malgrado tenha sido substituída pela força dos imigrantes.
Já no texto de 1934, em que pese o forte dirigismo estatal, foram inseridos, dentre outros, os seguintes direitos: reconhecimento, pluralismo e autonomia sindical, no art. 120, e diversos preceitos em vista à proteção social do trabalhador, no dispositivo subsequente, tais como isonomia salarial, salário-mínimo, jornada não superior a oito horas, limitação do trabalho do menor e da mulher, repouso semanal remunerado, férias anuais remuneradas, indenização em caso de dispensa sem justa causa, dentre outros.
186
SILVA, Floriano Corrêa Vaz da. Direito Constitucional do Trabalho. São Paulo: LTr, 1977. p. 65.
187 “Nenhum gênero de tr b lho, cultur , indústri ou comércio pode ser proibido, um vez que n o se
oponh os costumes públicos, à segur n e s úde dos cid d os”.
74 Importante também mencionar a instituição da Justiça do Trabalho, n dic o do rt. 122, “p r dirimir questões entre empreg dores e empreg dos, regid s pel legisl o soci l”.
Assinala Floriano Corrêa Vaz da Silva que a Constituição assegurou t mbém um “verd deiro „direito o tr b lho‟”, o dispor, no rt. 113, n. 34, que “A todos cabe o direito de prover à própria subsistência e à de sua família, mediante tr b lho honesto”189
.
Está-se, portanto, diante de dispositivos que guardam correspondência íntima com o valor social do trabalho, sendo dele decorrentes, não havendo por que não dizer que este princípio, atualmente explicitado na Constituição Federal de 1988, já esteve presente, de maneira implícita, nas entrelinhas da Constituição Social de 1934, mediante a materialização de direitos trabalhistas.
A Carta de 1937, assim denominada porque o constitucionalismo pátrio nega-lhe o epíteto Constitui o, “procurando-se assim sublinhar a sua origem espúri ”190
, mantém os direitos dos trabalhadores, até mesmo porque sustentáculo do regime do Estado Novo.
Por outro lado, arranha, sobremaneira, o valor social do trabalho, implicitamente presente, ao limitar sobremaneira a atuação sindical e proibir o direito de greve, por ser este considerado nocivo ao trabalho e ao capital (art. 139).
O valor social do trabalho só foi expressamente enunciado na Constituição Federal de 1946, em capítulo atinente à ordem econômica, ao assim dispor: “Art. 145 – A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça social, conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho humano (...) A todos é assegurado o trabalho que possibilite existência digna. O tr b lho é obrig o soci l”.
O primeiro aspecto que chama a atenção é a similitude da primeira parte do dispositivo ao art. 170 da atual Constituição. Desde então, a ordem econômica conforma um modelo econômico que tenta condicionar o desempenho da livre iniciativa econômica à valorização do trabalho, como contributo para a promoção da justiça social, apontando, portanto, para uma social democracia.
Saliente-se, igualmente, a dimensão do trabalho como obrigação social, presente na Constituição de 1946, seguindo a linha d C rt de 1937 (“o
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SILVA, Floriano Corrêa Vaz da. Direito Constitucional do Trabalho. São Paulo: LTr, 1977. p. 86.
190
75 trabalho é dever social. art. 136) e das Constituições europeias, que assinalavam o dever ao trabalho, atrelada à ideia de colaboração social, indispensável ao crescimento econômico do Estado.
A Constituição de 1967, bem como a que lhe sucedeu, em 1969, não alterou a essência do dispositivo, suprimindo, contudo, a dicção que propugnava o trabalho como obrigação.
Percebe-se, portanto, da apertada síntese histórica, como acentua Manuel Jorge e Silva Neto, “que incorpor r um v lor soci l o tr b lho hum no já f z p rte d hist ric constitucion l br sileir ”191
, seja de modo explícito ou implícito. Por outro lado, é ainda possível reservar à Constituição Federal de 1988 um papel de destaque no processo histórico da evolução do valor social do trabalho, enquanto princípio inserto no constitucionalismo pátrio, como assinala M noel Jorge e Silv Neto, ress lt ndo importânci “result nte de residir expressão em trecho de tão elevado significado dentro do sistem constitucion l”192
. O autor se refere à inserção do valor social do trabalho no capítulo reservado aos Princípios Fundamentais (capítulo I da Constituição Federal de 1988), posto até então inalcançado pelo princípio do valor social do trabalho, que passa a ser não apenas contributo basilar da ordem econômica, como também fundamento da República Federativa do Brasil, ou seja, princípio estruturante, conformador da ordem econômica.
5.2. O VALOR SOCIAL DO TRABALHO COMO PRINCÍPIO POLÍTICO