Retomando o método de pesquisa proposta pelo Interacionismo Interpretativo (Denzin, 2001), surge-nos a terceira etapa: apreensão do fenómeno. Esta etapa centrou-se na recolha de dados orientada pelo método biográfico, isto é, através das narrativas sobre a experiência vivida a partir de determinado momento da vida dos participantes.
A recolha de dados decorreu entre setembro de 2011 e março de 2012 junto dos utentes do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Ave III - Famalicão, tendo-se procedido previamente ao contacto com as Instituições de Saúde alvo, às quais foi entregue um documento escrito com os elementos essenciais da pesquisa com particular enfoque nos objetivos do estudo e na metodologia de recolha de dados; foram feitos esclarecimentos adicionais durante o contacto com as equipas de enfermagem.
Os critérios de inclusão estabelecidos, delimitando quem poderia participar no estudo foram: homens, mulheres ou ambos a viver a parentalidade de filhos gémeos com idade inferior a 4 anos; que mantivessem a vida conjugal e que os participantes fossem utentes do ACES do Ave III.
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O estabelecimento deste período na idade dos filhos prende-se com o facto de existirem durante esta fase mudanças na relação entre Pais e filhos. Durante o primeiro ano vida os Pais são essencialmente cuidadores, satisfazendo as necessidades básicas dos filhos e promovendo o seu desenvolvimento, a partir do segundo ano surgem os primeiros ensaios da criança no sentido da autonomia o que introduz no papel parental a vertente de orientação e controlo dos comportamentos que se consolidam nos anos seguintes, passando os Pais a ter uma atitude também restritiva e disciplinadora. Segundo Cruz (2005) os papéis materno e paterno vão-se diferenciando entre os dois e os três anos de idade. Este período inicial da vida dos filhos é de grande exigência e exige uma concentração de esforços no desempenho do papel, sendo este esforço maior quando os filhos são gémeos. Seis meses após o nascimento a mulher, mãe de gémeos, avalia a sua experiência como mais pobre do que as mulheres que têm um filho por conceção, têm pior perceção do seu bem-estar e mais sintomas de depressão (Sheard et al., 2007) os quais se mantêm aos nove meses de idade dos filhos (Choi et al., 2009) e entre os dois e cinco anos as mães de gémeos continuam menos felizes que as outras mães com filhos da mesma idade (Olivennes et al., 2005).
O requisito de que os Pais mantivessem a sua vida conjugal justificou-se pela necessidade de aproximar experiências já de si únicas e distintas, uma família monoparental ou reconstituída obriga a uma reorganização e resposta às necessidades da família o que alinharia num outro estudo.
A restrição de seleção dos participantes a um ACES deveu-se ao facto de o contexto social, cultural e institucional ser determinante na compreensão de um fenómeno. Tivemos presente que os relatos biográficos tivessem um grande potencial de “riqueza de informações” e diversidade de vivências, considerando que a narrativa conta a sequência de eventos que são significantes para o narrador e para o pesquisador (Denzin, 2001). Este também é o determinante para delimitar o tamanho da amostra do estudo, atendendo que importa maximizar as oportunidades para descobrir variações, comparando factos ou acontecimentos, sendo as pessoas o meio de obtenção desses dados (Flick, 2005; Strauss & Corbin, 2008). Estima-se por isso que são necessárias múltiplas histórias, ricas e diversificadas, para dar consistência ao estudo.
Para a apreensão do fenómeno e localização das epifanias, as biografias das pessoas que participaram no estudo foram obtidas por entrevistas semiestruturadas, gravadas e transcritas posteriormente. As entrevistas
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Numa primeira etapa e com o objetivo central de verificar se as perguntas tinham potencial de gerar as informações pretendidas para o estudo, assim como a habilidade do investigador que conduziria as entrevistas, foi realizada uma entrevista a uma mulher casada cuja filha mais velha tinha 20 anos de idade. O fio condutor da entrevista foram as vivências da família, na perspetiva da informante, ao longo do ciclo vital da sua família desde a sua formação até ao momento da entrevista. Numa segunda etapa e depois da transcrição e análise dos dados e atendendo ao objetivo do nosso estudo, consideramos que foi dada ênfase excessiva a etapas do ciclo vital da família anteriores às que serão alvo do nosso estudo; entendemos que as questões do tipo reflexivo foram pouco exploradas pelo que procedemos à reformulação do guião de entrevista.
Na sua reformulação tivemos em atenção que as questões fossem facilitadoras de uma narrativa biográfica e favorecedoras de uma atitude critico-reflexivo por parte dos informantes, assim temos como questões orientadoras:
- Gostaria que me falasse sobre o que é para si ser mãe/pai de gémeos; Como começou, como se sentiu?
No intuito de obter uma maior profundidade do testemunho, formularam-se questões que pudessem ajudar a clarificar a questão inicial:
- Que mudanças ocorreram na sua vida depois de ser pai/mãe? - Como é que a sua vida e da sua família se foi alterando?
- Como é que reorganizaram a vossa vida desde o nascimento dos seus filhos? - Que dificuldades ocorreram ao longo deste percurso?
- Olhando para trás o que percebe que foi mais importante? - Ser pai/mãe tem sido diferente do que imaginava?
A elaboração do guião da entrevista foi condicionada pela questão que norteou o estudo bem como os tópicos que estavam a ser investigados.
Foram recolhidos dados que visavam a caraterização do grupo dos participantes: idade, idade do cônjuge, tempo de conjugalidade, escolaridade e atividade profissional de ambos, número e idade dos filhos e composição familiar.
A recolha de dados decorreu considerando os princípios éticos referidos anteriormente e após explicar os contornos do estudo e depois dos participantes lerem e assinarem o termo de consentimento livre e esclarecido.
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