• Nenhum resultado encontrado

7 PLANEJAMENTO DE TRANSPORTE

7.3 PROCESSO E ETAPAS

Tedesco (2008) destacou o fato de o conceito de planejamento de transporte, nos autores selecionados por ela, ser feito muita vezes com referência às suas etapas. Por se tratar de um processo, faz sentido utilizar esse tipo de definição para o planejamento de transporte. Reunindo as definições desse tipo em Tedesco (2008), consegue-se listar entendimentos diferentes de diversos autores sobre as etapas do planejamento de transporte:

• Definição de metas e objetivos; pesquisa e análise das condições existentes; previsão quanto ao uso do solo e padrões de movimentos; desenvolvimento de alternativas de rede; análise das alternativas; avaliação; e implementação (Buchanan apud Bruton);

• Adequação da demanda à capacidade; definição de prioridades para os investimentos; localização espacial da demanda futura (Barat);

• Pesquisa e análise; previsão e formulação do plano; avaliação (Bruton);

• Coleta de dados; reconhecimento do ambiente urbano, político, organizacional e fiscal; diagnóstico; identificação de alternativas, projetos e estratégias; análise das alternativas; avaliação das alternativas; orçamento e programação; desenvolvimento e implantação; e monitoramento (Meyer e Miller);

• Pré-análise (identificação do problema, formulação de objetivos e metas; coleta de dados; formulação de alternativas); análise técnica (levantamento de uso do solo; caracterização do sistema; análise dos impactos); e pós-análise (avaliação; escolha; implementação da alternativa; monitoramento) (Pas apud Huang);

• Compreensão do sistema existente; identificação dos problemas; previsão; controle de cenários futuros e propostas de soluções (Mantra);

• Diagnóstico e formulação de objetivos; análise das possíveis soluções; avaliação e seleção de alternativas; e implantação (Molinero e Arellano); e

• Formulação e avaliação de cenários (identificação dos problemas no sistema; definição de objetivos; avaliação e seleção de alternativas) (Huang).

Hutchinson (1979), por sua vez, considera uma morfologia de planejamento baseada em cinco etapas: (i) definição do problema; (ii) geração de solução; (iii) análise de solução; (iv) avaliação e escolha; (v) implementação. O processo de engenharia de sistemas de Hall

etapa de definição do problema inclui, entre outras atividades, a determinação dos objetivos.

A etapa de definição do problema de Hutchinson (1979) é considerada pelo autor como a mais crítica de qualquer processo de planejamento de sistemas, já que, para ele, as outras etapas são condicionadas à definição do problema, e dentro dela estão os objetivos.

A etapa de definição de objetivos também pode ser observada no processo de planejamento de transporte urbano de Morlok (1978). A figura 7.1 apresenta seus passos básicos:

Dados que representam a cidade A cidade como ela é

Modelos de predição

Avaliação Objetivos

Decisões e ações Planos

Figura 7.1 - Planejamento de transporte (modificado - Creighton apud Morlok, 1978) Morlok (1978) explica que esse processo inicia com a identificação da região servida pelo sistema de transporte (“a cidade como ela é”), que inclui a reunião dos dados necessários para serem usados nas outras etapas do processo. A partir daí se identificam problemas; se permite ter mais nitidez nos problemas conhecidos; e alimentam-se modelos de previsão. A análise dos profissionais e líderes políticos e da sociedade civil permite determinar os objetivos e os planos. A avaliação contínua com uso dos modelos realimenta o processo de elaboração, e as decisões e ações modificam a realidade, reiniciando o processo de coleta de dados.

De um ponto de vista mais específico, Vuchic (2005), ao tratar de transporte público, considera que o planejamento pode ser representado em oito passos:

1. Definição de metas e objetivos para o futuro do sistema;

2. Inventário ou coleta de dados sobre a cidade e o sistema de transporte; 3. Previsões de mudanças e condições no ano alvo selecionado para os planos; 4. Listagem de critérios para avaliação do plano derivados das metas e objetivos; 5. Desenvolvimento de planos alternativos que sejam previstos para alcançar as metas definidas nas condições futuras projetadas;

6. Elaboração técnica e teste dos planos alternativos considerando seus impactos na demanda projetada e no desenvolvimento urbano;

7. Avaliação comparativa dos planos alternativos usando lista de critérios baseados nos critérios e em audiências públicas para seleção do plano a ser aplicado; e

8. Finalização do plano selecionado e preparação de sua implementação.

A forma como esses passos são encadeados se apresenta na figura 7.2.

Definição de metas e objetivos

Inventários – condições atuais

Previsões

Desenvolvimento de planos alternativos

Testes e ajustes do plano

Avaliação comparativa de alternativas, audiências públicas e seleção do plano

Finalização e implementação critérios 1 2 3 5 6 8 7 4

Figura 7.2 - Planejamento compreensivo (modificado - Creighton apud Vuchic, 2005) Corroborando com a constante presença da definição de objetivos dentro das etapas do planejamento de transporte, Vuchic (2005) considera como a condição básica para um plano ser bem desenhado a definição clara de seus objetivos e metas. Ele ainda considera

que, enquanto as metas e políticas são em geral impostas politicamente, os objetivos e padrões são técnicos.

Para além da análise restrita das etapas do planejamento de transporte, alguns autores guardam a preocupação de enquadrá-lo em um contexto mais abrangente de planejamento. Magalhães (2004), por exemplo, baseado em Vasconcellos cria uma “proposta de compreensão do planejamento de transportes dentro de um contexto estratégico de planejamento”. Para o autor, o planejamento da circulação está contido no planejamento de transportes e este nos processos de planejamento urbano, regional e nacional (figura 7.3).

Planejamento Nacional Planejamento Regional Planejamento Urbano Planejamento Transportes Planejamento da Circulação

Figura 7.3 - Compreensão estratégica do planejamento de transportes (Magalhães, 2004) Morlok (1978), mantendo sempre presente a idéia do transporte como uma atividade ligada às outras atividades, também considera como ponto importante do planejamento do setor o seu devido enquadramento na hierarquia de planejamento (do mais abrangente para o mais restrito). A figura 7.4 apresenta, em uma tradução livre, a síntese da estrutura hierárquica do planejamento do transporte e do uso do solo elaborada por Morlok (1978).

Planejamento compreensivo regional Planejamento Nacional

Planejamento de transporte regional

Planejamento de transporte de pequena área

Desenho da infra-estrutura ou serviço

Planejamento das operações ou gerenciamento do sistema

Figura 7.4 - Planejamento do transporte e uso do solo (modificado - Morlok, 1978) Para Morlok (1978), o planejamento nacional preocupa-se com políticas gerais com foco no desenvolvimento econômico e da população, e a infra-estrutura de transporte relacionada. Já o planejamento compreensivo regional é focado nos padrões de uso do solo e do sistema de transporte, determinando pontos específicos para a infra-estrutura de transporte que serão objeto do nível inferior (planejamento de transporte regional).

O planejamento de pequenas áreas, segundo Morlok (1978), relaciona-se a recorte de definição de planejamento para distritos, corredores, etc. e o desenho de infra-estrutura ou serviço define a construção e disponibilidade de instalações e infra-estruturas específicas para determinada área. Para o autor, o planejamento final (das operações ou gerenciamento do sistema) são os planos de operação das infra-estruturas (programação, regulação, etc.).

Hutchinson (1979), por sua vez, considera a falta de relacionamento entre os níveis de planejamento e tomada de decisão como uma grande deficiência de muitos estudos de sistemas de transporte metropolitano no passado. O autor sugere a estrutura da figura 7.5, elaborada por Smith apud Hutchinson (1979), como uma boa solução a essa deficiência.

PLANO CONCEITUAL PLANO DELINEADOR PLANOS DIRETORES PLANOS ESTATUTÓRIOS OU CONSULTIVOS PLANOS DETALHADOS DE DESENVOLVIMENTO

Figura 7.5 - Níveis do planejamento (modificado - Smith apud Hutchinson, 1979) A estrutura da figura 7.5, de Smith apud Hutchinson (1979), assim como as figuras 7.3 e 7.4, respectivamente de Magalhães (2004) e Morlok (1978), permitem inferir que existem questões que fogem à limitação do transporte e devem ser diretivas para os planejamentos setoriais. Entende-se, dessa forma, que não cabe ao transporte definir e solucionar isoladamente dimensões muito maiores que a sua capacidade de intervenção.

Ainda assim, Hutchinson (1979) afirma que, devido ao fato do conhecimento de então sobre o sistema urbano ser tão relativo, planeja-se ele como um conjunto de subsistemas semi-independentes (e entre eles o de transporte), cujas interações não são completamente compreendidas.

As variáveis do sistema podem mudar de acordo com o autor e os procedimentos podem ser confusos ou divergentes. Pode-se inferir, entretanto, como afirma Tedesco (2008), que de forma geral as etapas do planejamento de transporte são similares, sendo mais detalhadas ou menos conforme a necessidade e adequação ao uso.

Vasconcellos (2000) ainda se refere a mais um modelo (modelo de quatro etapas) como procedimentos técnicos necessários para o alcance dos objetivos do planejamento de transporte. Entretanto, o Modelo UTPS (Urban Transportation Planning System), ou de Quatro Etapas, em verdade é um tipo de Análise de Sistema de Transporte (Hensher e Button, 2005) mais enquadrado como uma ferramenta de modelagem de demanda.