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O processo de esbulho das terras dos Guarani e Kaiowá no sul do Mato

Capítulo I A espiral das retomadas: contextualizando os acampamentos indígenas na

1.1 O processo de esbulho das terras dos Guarani e Kaiowá no sul do Mato

Os contatos com os Kaiowá e Guarani, por parte dos brancos26, no contexto da colonização, segundo fontes históricas, datam de meados do século XVII com a presença das reduções jesuíticas e de viajantes. No entanto, o processo histórico de esbulho do território Kaiowá e Guarani no sul do MS27 e o contato interétnico mais intensivo iniciaram no final do século XIX. Esse momento pode ser descrito por três diferentes e subsequentes fases.

A primeira delas é iniciada, após a Guerra do Paraguai (1864-1870)28, ainda no século XIX com a instalação da Companhia Matte Laranjeira em 1882, quando Thomaz Laranjeira29 conseguiu a concessão para explorar a erva mate, em terras brasileiras30. A Companhia se estabeleceu em território indígena e durante o tempo que realizou a atividade de extração e exportação da erva nativa se utilizou da mão de obra indígena (BRAND, 1997). O monopólio da Companhia Matte Laranjeira chegou a ter cinco milhões de hectares (CAVALCANTE 2013, 22) e atuou na região até 1943. A

25 Os dados apresentados acima constam no Censo Populacional do IBGE de 2010, na SESAI e na FUNAI. Para mais informações também consultar Cavalcante, 2013.

26 Branco é uma das categorias utilizadas pelos Guarani e Kaiowá (como por outros povos indígenas) para se referir aos não indígenas, embora em campo também tenha ouvido os termos como bahiano, paraguaio, maranhense para fazer essa distinção. O termo nativo Karaí também é usado para se referir aos não indígenas, mas ele, da mesma forma, pode ser usado para falar de índios de outras etnias. De modo geral, a categoria branco é utilizada com mais frequência, principalmente quando os indígenas falam dos fazendeiros. Essa categoria e seus diversos sentidos, mereceria um estudo específico e um investimento etnográfico e reflexão mais aprofundada inclusive, trazendo uma contextualização histórica, uma vez que contribui também para discutir temas como da mistura entre as sociedades indígenas, temática já tratada por uma ampla bibliografia da etnologia indígena. Me limito, neste trabalho a mobilizá-la conforme meus interlocutores a acionavam quando se tratava dos sentidos dados aos acampamentos.

27 Vale ressaltar que até 1978 só existia o estado do Mato Grosso. O estado de Mato Grosso do Sul foi desmembrado e oficializado em 1º de janeiro de 1979. Sem desconsiderar esse fato histórico, mas, com uma finalidade prática, nesse trabalho sempre será feita referência ao estado de MS.

28 A Guerra do Paraguai ou da Tríplice Aliança, também impactou a vida do Kaiowá e Guarani, pois grande parte das áreas onde se travou a guerra, ocorreram no território ocupado pelos indígenas, afetando principalmente a mobilidade desses povos.

29 Thomaz Laranjeira, também atuou na comissão de demarcação de fronteiras entre Brasil e Paraguai. 30 Do lado paraguaio, Thomaz Laranjeira já fazia a exploração dos ervais desde 1877.

Companhia é apontada por vários autores por ter preservado as áreas sobre o seu domínio, visto seu caráter extrativista, garantindo que os Guarani e Kaiowá, nesse momento, não fossem expulsos e continuassem a viver em seus territórios. Em contrapartida, outro elemento unânime entre os pesquisadores, é quanto a exploração da mão de obra indígena, sendo muitas vezes caracterizado como um regime de escravidão ou semiescravidão, que acabou contribuindo para a desagregação social dessa população. A esse respeito Crespe escreveu:

Se a companhia teve pouco impacto sobre os territórios, o mesmo não pode ser afirmado no que se refere à mobilidade indígena. À época muitos homens saíram para trabalhar nos ervais, promovendo o deslocamento de muitas famílias, ou parte delas, para os acampamentos de trabalhadores da companhia (2015, 95).

Nesse mesmo sentindo, Chamorro (2015) afirma que uma das principais consequências da atuação da Companhia para os Kaiowá da região foi o fim do isolamento dessa população, uma vez que favoreceu o crescimento de centros populacionais - muitas pessoas vinham em busca de trabalho nos ervais. Os deslocamentos dos Kaiowá, é apontado pela autora como uma “mobilidade forçada, que dispersou as comunidades indígenas e perturbou as suas formas de produção, consumo e sociabilidades tradicionais” (2015, 122).

A segunda fase, faz referência ao período entre os anos de 1915 a 1928, quando o Serviço de Proteção ao Índio (doravante SPI) 31 criou oito reservas no sul de MS destinadas aos índios dos povos Guarani Kaiowá, Guarani Ñandeva (ambos da família linguística Tupi-Guarani) e Terena (pertencentes à família linguística Aruak). De 1915 a 1924 foram criadas as seguintes reservas: Benjamin Constant (1915), atualmente TI Amambaí; Francisco Horta (1917), TI Dourados e a reserva José Bonifácio (1924), TI Caarapó. Em 1928 foram criadas mais cinco reservas: TI Aldeia Limão Verde, no município de Amambaí; TI Pirajuy em Sete Quedas; Porto Lindo, hoje, TI Yvy-Katu, em Japorã; TI Sossoró em Tacuru e TI Takuapiry em Coronel Sapucaia. É flagrante mencionar que destas oito Terra Indígenas, apenas a Takuapiry, não teve sua área reduzida no processo de demarcação (Crespe, 2015: 112).

31 O Serviço de Proteção ao Índio (SPI), foi criado em 1910 pelo tenente-coronel Cândido Marino Rondon, visando não apenas a proteção dos povos indígenas, mas também a garantia do processo de integração dos índios. No início dos anos 1960, o SPI foi abalado por denúncias de corrupção e genocídio das populações indígenas. E em 1967 ele é extinto para dar lugar à recém-criada Fundação Nacional do Índio - FUNAI, órgão que perdura até os dias atuais.

Figura 2. Reserva Indígenas criadas pelo SPI em MS entre 1924 e 1928. Fonte: MORAIS (2016, 48).

Segundo Souza Lima (2002) o SPI, se utilizava da forma de atuação de tradição sertanista, isto é, as populações indígenas, assim como ocorria no período colonial, foram atraídas e pacificadas – no período colonial, o processo de reservamento da população indígena contou com a ajuda das missões jesuíticas e com a catequização dessa população. Contudo, no tempo do SPI, a política sertanista apareceu também com o rótulo de proteção dessas populações, se veicula essa imagem ao mesmo tempo em que liberavam as terras indígenas para o “interesse nacional” e ocupação colonial. A criação dessas reservas são, portanto, reflexo de uma política indigenista que, tinha como objetivo a integração e a tutela dos povos indígenas, esses últimos usurpados de suas terras, sempre que havia interesses econômicos pelo território, com a finalidade de abrir novas fronteiras de colonização agrícola, como o caso do MS.

Com a criação das reservas, a população indígena no sul do MS sentiu o impacto da colonização. Diversas famílias destas etnias foram retiradas do seu território e “confinadas” nas reservas, como defendeu o historiador Antônio Brand (1993; 1997). As reservas se tratavam de pequenas unidades administrativas que não levavam em consideração a organização social dos diferentes grupos étnicos relacionados. Assim, esses espaços não apresentavam as condições necessárias para a reprodução física e cultural das sociedades em questão (PEREIRA, 2014; BARBOSA da SILVA, 2007; CRESPE, 2009). Segundo Barbosa da Silva, “o SPI territorializaria os indígenas,

obrigando-os a residir em espaços restritos, com fronteiras fixas. Tal processo, obviamente tinha como corolário a liberação de terras para a colonização da região” (2007:46).

Anteriormente a isso, os Kaiowá nunca haviam vivido a experiência da reserva e nem concebiam a existência das fronteiras em seu território, estas fronteiras tomaram contornos concretos ao serem instituídas pelo órgão indigenista oficial e pelas cercas das fazendas. As oito reservas demarcadas no MS se localizavam perto de cidades e/ou vilarejos, mais uma estratégia que destinava aos Kaiowá o papel de mão de obra barata para agricultura e pecuária na região. Para Antônio Brand, o processo de esbulho das terras Kaiowá e a violência contra essa população indígena aconteceu com a omissão e a conveniência do SPI, que estava a serviço da terra produtiva (1993:68).

Outra estratégia praticada pelo SPI no estado de MS foi a de inserir alguns grupos de indígenas da etnia Terena, principalmente na reserva de Dourados, para acelerar o processo de integração dos Kaiowá à sociedade, pois os Terena eram vistos pelos indigenistas, que instituíam as políticas de Estado, como um povo pacificado e mais “civilizado”.

Os anos de 1930 é marcado pela chegada de Getúlio Vargas ao poder, depois da Revolução de 30. Durante o Estado Novo, entre os projetos de maior destaque desse período está o da política intitulada Marcha para o Oeste. O governo, neste momento, volta seu interesse aos interiores do país, principalmente a região central, com o intuito de povoar, colonizar e aumentar as fronteiras agrícolas no interior. Essa política atingiu diferentes populações indígenas, como os Kaiowá no MS, dado que, esses povos, na maior parte das vezes, eram obrigados a deixar suas terras, sendo levados para as áreas de reservas criadas pelo órgão indigenista oficial - SPI.

É nessa conjuntura que em 1948 é criada a Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND). A CAND tinha como plano a instalação de colonos em pequenas propriedades estimulando a agricultura (BARBOSA da SILVA, 2007). Essa política representou um aumento demográfico na região da grande Dourados, principalmente nos anos 1950 com a chegada de migrantes vindos, principalmente, do Nordeste e nos anos 1960 e 1970, vindo do Sul do país. As áreas das colônias destinadas aos migrantes/colonos, foram implementadas em território indígena - embora isso não tenha sido levado em consideração pelo governo. Por isso, a terceira fase do processo de colonização do MS foi marcada pela chegada da CAND, que representou o aumento de fazendas na região e o avanço das atividades agropecuárias, agravando ainda mais a

situação dos Kaiowá e Guarani, expulsos de suas terras e coagidos pelas cercas das fazendas.

Nos anos de 1970 o MS vive um grande período de desmatamento, reflexo do aumento das plantações de soja e cana-de-açúcar no estado, gerando um impacto ambiental com a consequente destruição dos restos de mata que ainda existiam nas fazendas. Muitas famílias indígenas conseguiram permanecer nestas áreas de mata, ou escondidos do fazendeiro, ou mantendo com ele vínculos de trabalho. Esses índios ficaram conhecidos na literatura como índios de “fundos de fazenda” (BRAND, 1997; PEREIRA, 2004; CRESPE, 2009). Essas áreas eram habitadas por índios que além de resistirem ao modelo de aldeamento, permaneciam nesses espaços de mata em troca de trabalho, como uma maneira de não se afastar de seus locais de origens (BRAND, 1997; PEREIRA, 2004; CRESPE, 2009 e 2015). Circular pelas mediações do seu antigo território era uma possibilidade de manter viva a esperança de retorno ao seu lugar. Acontece que, o desmatamento quase total do sul do MS completou o processo de “expulsão dos índios das suas terras tradicionais, intensificando o confinamento nas reservas” (BRAND, 1997:88).

Observa-se, que as transformações do modo de vida dos Kaiowá estão intimamente relacionadas com o processo de colonização do sul do MS, bem como com o projeto indigenista, ambos adotados num determinado contexto, amparados por um discurso teórico e por estratégias políticas que deram sustentação para tais ações. As retomadas e os acampamentos indígenas não podem ser compreendidos fora dessa lógica, pois eles são reflexos desses mesmos processos (CRESPE e CORRADO, 2012).