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Processos comunicativos para a formação das redes

No documento sheila prado saraiva (páginas 39-42)

CAPÍTULO 3 Comunicação organizacional e o trabalho em rede 3 1 Comunicação organizacional: novas perspectivas

3.4 Processos comunicativos para a formação das redes

Este tópico está baseado em artigo12 de ROSSETTI (s.d.) sobre os sete princípios para se estruturar uma rede social, conteúdo do livro “Da árvore à floresta – A história da Rede ANDI Brasil”, que relata a experiência do trabalho em rede promovida pela Agência de Notícias para os Direitos da Infância. Reúne ainda considerações de Bernardo Toro, filósofo e educador colombiano, em palestra proferida sobre as razões que fazem uma rede funcionar e de Albert László Barabási, físico e pesquisador húngaro.

Segundo ROSSETTI (s.d.), os princípios necessários para que seja possível formar uma rede social são os seguintes:

1) Construir confiança

“Para construir confiança é necessário que as pessoas envolvidas numa rede saibam como cada participante reagirá em situações de pressão (...) é nessas situações que se conhecem os princípios e valores de cada um”.

2) Compartilhar valores

“(A cada encontro) é preciso reafirmar os valores, re-pactuar os princípios (...) os valores devem ser sempre re-visitados, reeditados, pois a realidade muda constantemente”.

3) Dar e receber

“As pessoas participam de redes que trazem benefícios individuais (...). A missão da rede tem que estar inscrita nos objetivos de cada pessoa e organização membro”.

4) Criar produtos e eventos

“A simples troca de informações, por site, por e-mail ou e-group, não é suficiente para armar uma rede social. As tecnologias da informação são meio, não fim”.

5) Investir em lideranças

12 O artigo mencionado encontra-se em na página:

http://www.gife.org.br/redegifeonline_noticias.php?codigo=6944&tamanhodetela=3&tipo=ie, acessado em 11 de jan. 2006. A palestra proferida por Bernardo Toro e utilizada pelo autor como referência aconteceu durante o

“Redes não são uniformes. Há sempre elos e conjuntos de elos muito mais conectados do que outros”.

6) Sistematizar conhecimentos

“Toda rede precisa sistematizar suas aprendizagens, o que implica não só produzir materiais escritos, como manter processos estruturados de oferta desses conhecimentos – manuais, cursos, tutoria por pares, etc.”.

7) Aprender fazendo

“Cada rede é uma rede, as relações e os objetivos são únicos, é sempre uma nova aprendizagem. Cada rede tem uma cultura, seus princípios e valores. Para construir esse tipo de identidade é necessário se arriscar e aprender fazendo”.

Todos os princípios acima mencionados são tocados ou são em si processos comunicativos e vão muito além da troca de informações. Demandam a construção de elos, falam em compartilhar valores, em cultura, em aprendizado coletivo. O uso de ferramentas de comunicação ou o uso de tecnologias servem, neste caso, como suporte para que essas relações se estabeleçam, são o meio, não fim.

Os dois primeiros princípios, construir confiança e compartilhar valores abordam a aproximação e o estabelecimento dos primeiros elos entre os membros de uma rede embrionária, ou seja, a base que sustentará este modelo de relacionamento e de trabalho. Para que estes princípios sejam colocados em prática demandam o contato mais profundo entre o grupo, através de vivências, troca de experiências, de situações em que se possa conhecer o outro e o estímulo ao diálogo e o debate, para que se tenha a oportunidade de compartilhar de fato as visões de mundo, as crenças, as opiniões.

Podemos inferir, neste primeiro momento, que transparece a necessidade de incorporar atividades presenciais com os participantes e, se possível, um período de vivência que extrapole o tema central de trabalho e dê espaço para o contato humano. Aqui nos distanciamos das redes que são criadas e mantidas exclusivamente via Internet, focadas somente num tema proposto, e passamos a um modelo o fortalecimento do vínculo entre o grupo e deste com a missão da rede.

Nota-se que este modelo de rede, embora não seja o único e nem mesmo unanimidade entre estudiosos do assunto – especialmente no que se refere ao estabelecimento de vínculos mais ou menos fortes - tem sido adotado por diversas organizações do Terceiro Setor no Brasil. É representado por redes com tamanhos e propósitos distintos, como veremos em alguns perfis analisados neste estudo, que usam as tecnologias disponíveis, em especial a plataforma da Internet, para fomentar a construção coletiva de uma nova realidade, pautada pela vontade de transformação e pela missão que motiva o grupo.

O terceiro ponto, dar e receber traz a questão da troca de experiências, a importância de que todos os participantes da rede percebam, individualmente, os benefícios que esta agrega para si. Bernardo Toro destaca que para a rede entrar em funcionamento sua missão deve estar incorporada aos objetivos pessoais (ou de cada organização envolvida) e traga vantagens a cada um, sob o risco de que uma outra motivação inicial, totalmente altruísta, se perca diante de novas prioridades.

No item seguinte, criação de produtos e eventos destacam-se as possibilidades de uso de diferentes ferramentas de comunicação para dar suporte e incrementar o relacionamento e a troca entre o grupo. A utilização da Internet como meio exclusivo de relacionamento é considerada um tanto fria e insuficiente para o modelo de rede proposto.

Por outro lado, cabe ressaltar que se a Internet não é indicada como meio único de comunicação, tornou-se hoje fundamental para a manutenção do trabalho em rede. A velocidade de acesso, a capacidade de troca de arquivos, de conectar pessoas de diferentes regiões, a possibilidade de disponibilizar informações continuamente são apenas alguns dos fatores que estimulam a consolidação do contato entre os membros de uma rede.

Além disso, apesar de existir limitações para o acesso, como o custo de conexão e equipamentos, é uma ferramenta com boa relação custo-benefício para as organizações sociais se comparada ao uso de telefone, deslocamento ou correio, por exemplo.

O quinto princípio, investir em lideranças, esclarece que redes não são uniformes, ou seja, existe uma diversidade grande entre nodos, sendo que as competências e capacidade de multiplicação são bastante variáveis. Por isso, segundo BARABÁSI (apud ROSSETTI, s.d.),

pontos descobrindo suas potencialidade e formando grupos de afinidades que facilitem a distribuição das tarefas. O autor ressalta ainda a importância de existir o que define como “líder chato”, responsável por manter o cronograma de trabalho e os compromissos da rede.

O item seguinte destaca a necessidade de sistematização do conhecimento e processos de trabalho. A primeira razão para isso é cuidar para que não se perca a história e o conhecimento gerados pelo grupo. A segunda é a rotatividade ou crescimento das redes, que tende a “diluir os princípios e valores”. Por último, o conhecimento sistematizado pode ser replicado e também disponibilizado para outros grupos.

O último princípio, aprender fazendo, fala por si e expressa o que tem sido a experiência de diversas redes no Brasil. As redes são sistemas vivos, dinâmicos e com características próprias do grupo que as compõem, o que as tornam únicas. Por isso mesmo, o aprendizado acontece no dia-a-dia e vive-se uma metamorfose constante, influenciada pelos contextos externos e internos do ambiente do qual faz parte.

Em resumo, do ponto de vista da comunicação organizacional, vemos a partir dos princípios aqui colocados que para se armar uma rede criar não é suficiente criar canais de comunicação ou utilizar-se de bons recursos tecnológicos apenas. É necessário ir além com um planejamento que contemple a compreensão das características do grupo, de suas possibilidades de trabalho e propor ações para estimular, fomentar e consolidar os vínculos e a missão da rede.

No documento sheila prado saraiva (páginas 39-42)