2. Enquadramento Conceptual
2.9 Processos de Comunicação e Interacção em e-learning
O processo educativo implica um processo comunicativo, ou seja, em educação há forçosamente comunicação, e esta é fundamental entre professor e alunos, permitindo um ambiente de partilha de recursos, comunicação e apoio entre si (REIS, 2004). A comunicação educativa é um processo interactivo (bidireccional ou multidireccional) que visa estabelecer com o aluno relações pessoais e pedagógicas, estimulando o interesse, apoiar e facilitar a aprendizagem; embora numa perspectiva tradicional tenha sido durante décadas um processo de comunicação unidireccional.
Esta dualidade no processo comunicacional fundamenta-se em dois níveis de estratégias comunicativas (BITTI, 1997):
- o primeiro nível caracteriza-se por estratégias comunicativas centradas na organização, em que o professor adopta um papel central onde predomina um estilo comunicativo rígido, as questões directas e fechadas, sem possibilidade de comentários ou intervenções por parte dos alunos, conduzindo a um controlo total do processo;
- o segundo nível fundamenta-se em estratégias comunicativas centradas nas capacidades cognitivas e comunicativas dos alunos, dos seus conhecimentos e experiências, sendo a comunicação estimulada pelo professor no sentido de serem os alunos a intervir, estabelecendo esquemas comunicacionais que permitem contextualizar e tornar significativos os conteúdos.
2.9.1 A transformação da relação comunicacional pela tecnologia
As tecnologias de comunicação utilizadas neste processo determinam formas de comunicar que se distinguem pelos sentidos de comunicação (TELLA, 1995):
- (dialogic communication) como a comunicação interpessoal, com interacção presencial entre emissor e receptor, sem recurso a meios mecânicos ou electrónicos;
- (monologic communication), em que a relação comunicacional se orienta num só sentido, como é o caso da rádio e da televisão;
- (telelogic communication) ou (computer mediated human communication - CMC), centrando- se na capacidade de o utilizador decidir em termos de oportunidade, a forma, o meio, quantidade e qualidade das suas pretensões comunicacionais. Este tipo de comunicação é facilitado pelas novas tecnologias de informação e comunicação, modificando a comunicação em termos espaciais e temporais e atenuando sentimentos de isolamento e solidão.
Esta transformação da relação comunicacional é demonstrada através do seguinte diagrama, (GARTON; HAYTHORWAITE; WELLMAN, 1997), estabelecendo relações individuais e de grupo:
Figura 2.6 - Relação comunicacional interpessoal e intergrupal
(Adaptado de Studying Online Social Networks, Garton, Haythorwaite, Wellman, 1997)
Na Fig 2.6 é clara a proximidade entre relações de comunicação e a interactividade necessária aos processos educativos baseados em estratégias síncronas ou assíncronas, possibilitando ambientes de interacção e colaboração, que independentemente do meio (impresso, rádio, televisão, redes de computadores, entre outras) conduzem à comunicação dinâmica entre professores e alunos, rompendo com esquemas tradicionais baseados na comunicação unidireccional (GOMES, PEZZI e BÁRCIA, 2002).
Considerando uma pedagogia dirigida a processos de aprendizagem mediada por computador o uso de metodologias síncronas e assíncronas é um modo de garantir a interactividade, considerada fundamental no ensino não presencial. É evidente que há uma diferença qualitativa entre o ensino presencial, em que a comunicação é verbal é em tempo real e por exemplo um fórum de discussão onde a comunicação é assíncrona e por escrito (TAYLOR, 1999), pelo que o ensino à distância de uma forma geral necessita de linguagens e metodologias específicas distintas das utilizadas em formação presencial (REIS, 2004).
2.9.2 A transformação do processo educativo pela tecnologia
O processo de ensino aprendizagem é de carácter social, necessitando de ambientes onde professores e alunos possam aceder e partilhar recursos, comunicar e ter apoio na realização das suas actividades, numa perspectiva activa e interactiva (RYAN, 2000), (HARASIM, 2002).
Em contexto universitário, e face à massificação do ensino, as características deste processo têm sido relegadas para segundo plano, conduzindo a actividades baseadas fundamentalmente em recursos textuais muito rígidos, dificuldade em apoiar e responder a um número significativo de alunos e consequentemente a uma reduzida interacção entre os intervenientes.
Considerando que em processos de ensino e aprendizagem à distância on-line ou off-line, os intervenientes se encontram nas suas casas ou locais de trabalho, recorrendo em parte a tecnologias de informação e comunicação para aceder a informação e contactar com o professor ou colegas, torna-se essencial uma abordagem específica na concepção de conteúdos e na forma de os dinamizar (RYAN, 2000).
A concepção de conteúdos terá que possibilitar ao aluno auto-aprendizagem, desenvolvendo hábitos de estudo, necessitando de uma menor intervenção do professor na exposição de conteúdos, adequando-os ao ritmo e perfil dos alunos.
O processo educativo é em si um processo dinâmico e interactivo. Com a introdução das tecnologias de informação e comunicação a interactividade assume especial relevância, onde o aluno interage não só com a informação (conteúdos), com os colegas e professores mas também com o próprio meio tecnológico de suporte (FREITAS, et al., 1997).
Estabelecem-se deste modo níveis de interactividade entre intervenientes, conteúdos, ferramentas tecnológicas e que influenciam as actividades e as tecnologias que as suportam, (MANTYLA, 2001): Nível de Interacção Aluno/ Professor Aluno/ Aluno Aluno/ Especialista Aluno/ Comunidade Aluno/ Ferramentas Aluno/ Conteúdos Aluno/ Ambiente Desenvolvimento de Actividades
Conteúdo Processo Interacção Competências Reflexão
Tecnologia
Texto Áudio Vídeo Computador Internet Tecnologias
Combinadas
Quadro 2.4 - Modelo de selecção de tecnologias (Tradução e Adaptação de Blending e-Learning, Karen Mantyla, 2001)
Igualmente autoras como Laurillard, Harasim e Salmon têm desenvolvido modelos educativos em que as tecnologias de informação e comunicação assumem um papel relevante como meios de comunicação e interacção no processo educativo. Estes modelos complementam-se entre si nos princípios e características seguidamente enunciados.
A um nível elementar Laurillard propõe um modelo baseado em dois níveis: - um nível discursivo, onde existe uma troca cíclica de informação entre professor e aluno ao nível das descrições e redefinições conceptuais (representações teóricas e conceptuais); - um segundo nível interactivo, que se refere às actividades e resposta do aluno ao professor, estabelecendo a interactividade necessária (LAURILLARD, 2002); no entanto este modelo apresenta uma lacuna, ou seja, a interactividade entre alunos.
Harasim por outro lado propõe um modelo onde considera as diferentes metodologias de ensino (presencial, à distância e on-line), em que a sua intersecção define processos de ensino interactivos, e onde o aluno é o principal actor na construção do conhecimento, pela capacidade de interacção e participação em actividades (síncronas ou assíncronas) que requerem níveis diferenciados destas competências (HARASIM, 2002). Serão assim gerados ambientes de aprendizagem dinâmicos em função da troca de informação e participação e que permitem a redução de preconceitos comunicacionais baseados na origem social, aspecto físico, sexo e etnia.
Numa outra perspectiva Salmon apresenta um modelo de ensino e aprendizagem através da comunicação mediada por computador, onde as componentes fundamentais são o suporte técnico e a moderação sob a de orientação do processo de ensino. Este modelo é apresentado em cinco passos ou níveis (five-step model) (Fig 2.7) de modo reduzir a intervenção do professor e gradualmente, ampliar a autonomia, as actividades individuais e a discussão entre alunos (SALMON, 2000).
Figura 2.7 - Modelo de ensino e aprendizagem on-line pela CMC (Adaptado de E-Moderating, Salmon, 2000)