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Questões legais, administrativas e financeiras

3. A problemática na adopção do e-learning no ensino superior

3.4 Questões legais, administrativas e financeiras

Existe um conjunto de questões paralelas à adopção do e-learning, que numa primeira abordagem parecem não estar relacionadas com o mesmo, no entanto são extremamente importantes e podem condicionar a planificação e implementação.

No que respeita a questões legais, estas passam pela legitimidade e credibilidade do ensino não presencial no sistema de educativo, definindo linhas de orientação técnico – pedagógicas e normativas, quer a nível governamental ou de instituição universitária, designadamente no que se refere a regimes de avaliação específicos que considerem actividades de avaliação presenciais e não presenciais.

3.4.1 Utilização de conteúdos e direito de autor

A problemática dos direitos de autor e da utilização de conteúdos da Internet é algo que tem preocupado quem divulga os seus trabalhos on-line, tendo-se iniciado e desenvolvido ao longo dos últimos anos um novo ramo do Direito, que estuda questões legais relacionadas com a produção, utilização, divulgação e direitos de autor, de informação veiculada pela Web e na segurança informática. Uma das preocupações, em especial dos docentes, relaciona-se com os direitos de autor e da utilização abusiva de conteúdos produzidos pelos mesmos, nomeadamente com questões de propriedade intelectual, pirataria na web e virús informáticos, receando colocar os seus conteúdos em suportes digitais, que podem facilmente ser copiados ou alterados (BERGE, 2004).

Os direitos de autor estão expressos no respectivo Código de Direito de Autor e dos Direitos Conexos (Decreto-Lei nº 63/85, de 14 de Março e sucessivas alterações), nomeadamente no que respeita a conteúdos ou obras de características multimédia. Os artigos 16º ao 20º referem critérios para classificar obras de carácter multimédia e a respectiva titularidade dos direitos. (ROCHA, 1996), no entanto a sua classificação e aplicação em termos efectivos é complexa.

Neste contexto é a utilização e distribuição de conteúdos multimédia on-line, que levanta mais controvérsia, em especial no que se refere a publicações científicas e académicas. Neste horizonte surgem posições que se complementam por parte de diversos autores nesta temática, como André Bertrand, André Lucas, Gervaise Davis, entre outros. 7.

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Conceitos como “fair use” ou “fair dealing” e “direito de citação” são explorados por estes autores sob diversas perspectivas técnico-legais. De acordo com uma publicação da De Monfort University, 2003, o “fair dealing” é um conceito que não está definido legalmente e não permite a autorização para copiar, assumindo-se que em cada caso – documento – é defensável a cópia desde que não prejudique os direitos ou benefícios dos autores.

Às capacidades que o e-learning possui para distribuir informação acresce uma dificuldade na classificação das utilizações de conteúdos originais em documentos para suporte educacional, ainda que parcialmente utilizados. No entanto existe subterfúgios, que passam pela inclusão de forma indirecta, desses mesmos conteúdos, nomeadamente pela indicação do respectivo URL ou

hiper-ligação (FRY, 2002).

No entanto é sustentável que uso educacional, incluindo cópias para os alunos, não infringe o direito de autor, e para que uma utilização seja considerada “fair”, esta deve ser confrontada por quatro factores, (WALKER, 1996):

- o objectivo ou finalidade da utilização; desde que não tenha objectivos comerciais e respeite objectivos educacionais sem fins lucrativos;

- a natureza do trabalho;

- a quantidade de informação utilizada ou copiada face ao todo do trabalho original;

- as consequências da utilização ou cópia, sobre o valor do trabalho e os respectivos direitos de autor.

Nesta temática está incluído o plágio, como uma das situações que preocupa as instituições educativas universitárias. O plágio é uma forma de apresentar como seu um trabalho literário ou científico copiado de outrem, seja integral ou parcialmente, ainda que existam diversas formas de plágio como o auto-plágio e a criptoamnésia.

Com a enorme quantidade de recursos disponíveis na web o plágio ficou mais facilitado, pelo que a prevenção assenta em assumir códigos de conduta e responsabilidade, alertando os alunos para esse problema e determinando eventuais sanções (EVANS, 2000).

3.4.2 Integração dos Serviços Académicos com o sistema de e-learning

A componente administrativa é também referida como uma das principais barreiras, uma vez que os serviços académicos têm que estar articulados com a organização metodológica e curricular e

proceder ao registo de dados de cada aluno, de forma a proporcionar dados de registo para acesso ao sistema e simultaneamente recolher dados que permitam os registos de avaliação.

Torna-se necessário implementar um sistema de informação e apoio à decisão que sustente um fluxo de informação rápido, eficaz e permanentemente actualizado, entre os diversos serviços envolvidos, sejam administrativos, técnicos ou pedagógicos.

3.4.3 Creditação de trabalho docente

A creditação do trabalho docente é um ponto sensível nesta problemática, apesar da introdução de unidades de crédito no que respeita à carga de trabalho por disciplina, os docentes são ainda renitentes em investir tempo que não lhes é contabilizado, na produção de conteúdos e respectivo acompanhamento de alunos via on-line. A solução terá que ser equacionada, adaptando um sistema de contabilização, expresso em legislação regulamentar, que poderá basear-se nos registos de dados das plataformas e na consecução de objectivos científicos e pedagógicos definidos pelos órgãos científicos e pedagógicos de cada instituição.

Esse sistema de unidades de crédito já existe em termos da Comunidade Europeia – o European Credit Transfer System – ECTS8, tendo sido criado no âmbito do Programa Erasmus. Em linhas gerais cada componente ou cadeira de um curso é expresso em créditos em função da carga de trabalho, objectivos atingidos e disponibilidade para apoio aos alunos.

Cada ano curricular corresponde a 60 unidades de crédito, correspondendo a uma carga de trabalho na ordem das 1500 a 1800 horas por curso, que se traduzem em actividades como aulas presenciais, seminários, estudo pessoal, projectos, avaliações, trabalho de grupo, etc..

Além de permitir uma contabilização, as unidades de crédito possibilitam a mobilidade e reconhecimento académico no ensino superior entre países europeus aderentes a este sistema, e que poderá ser uma referência a ser considerada na elaboração de mecanismos de contabilização do trabalho docente.

3.4.4 Custos de implementação e manutenção

Do ponto de vista financeiro, os investimentos iniciais são volumosos, o que coloca em causa a adopção ao nível financeiro pelo investimento que é necessário realizar em infra-estruturas técnicas e de recursos humanos especializados, para apoio técnico e pedagógico.

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Por outro lado o investimento terá que ser realizado com o objectivo de criar receitas financeiras que sustentem o sistema do ponto de vista de funcionamento e manutenção, pelo que o retorno de investimento é uma questão importante no e-learning. A avaliação do investimento e do possível retorno está condicionado por questões institucionais e organizacionais, necessitando de uma análise comparativa com os custos do ensino presencial, nomeadamente: instalações, equipamentos e material de apoio, apoio dos professores, salários, deslocações de alunos e docentes, custos de desenvolvimento e planeamento de cursos e recursos didácticos (MORAN, 2002).

O retorno de investimento, ou ROI (return on investment), não se refere simplesmente a factores financeiros, mas igualmente na capacidade de economia de tempo, recursos de produção e desenvolvimento de conteúdos e na melhoria do desempenho dos alunos.

Verifica-se que em relação à problemática da adopção do e-learning em contexto universitário, existem diversas questões que criam alguns obstáculos à sua implementação. Estes obstáculos estruturam-se de acordo com as principais componentes do e-learning: as instituições/organizações; os intervenientes no processo pedagógico e as questões técnicas.

Os problemas mais evidentes relacionam-se com o desenvolvimento das competências tecnológicas, o tempo necessário à preparação e distribuição dos conteúdos, a aplicação de metodologias de ensino, com recurso a ferramentas de comunicação síncronas e assíncronas, na creditação do tempo docente. As questões pedagógicas relacionam-se com a capacidade de criar e desenvolver novos modelos pedagógicos adequados e que acompanhem a evolução tecnológica (CARDOSO, 2001).

As questões tecnológicas ainda que fundamentais não são determinantes na criação de obstáculos, excepto na questão do investimento financeiro em infra-estruturas.

Perante este cenário é defensável que a adopção de metodologias de e-learning no ensino superior assume especial atenção, quando se pretende introduzir e desenvolver as mesmas, necessitando de um levantamento rigoroso e sistemático das condições institucionais, humanas e técnicas, que podem servir como incentivos ou obstáculos no que se refere à mudança de atitudes a nível organizacional e individual, e que formam a instituição universitária influenciando a sua intervenção sócio-educativa.