4. INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA E TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL: A
4.2 A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA E O TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL: AS
4.2.3 O produto do trabalho
Iamamoto (2010) analisa o produto do trabalho do assistente social através de duas dimensões: uma qualitativa e a outra a partir das contribuições do Serviço Social para o processo de produção e reprodução da vida. A autora considera que a análise sob o ponto de vista da qualidade “é menos problemática” (IAMAMOTO, 2010, p. 66), visto que envolve a compreensão daquilo que o trabalho do assistente social pode oferecer para a instituição empregadora, ou seja, o trabalho que ele desenvolve nos seus espaços sócio-ocupacionais, por exemplo, a prestação de serviços, a viabilização de benefícios e a elaboração de projetos.
Porém, a autora entende que em relação à segunda dimensão – a produção e reprodução da vida – a análise se torna mais complexa, visto que a visibilidade do produto não é imediata (IAMAMOTO, 2010). Nesse sentido, analisar o produto do trabalho sob esta dimensão, é analisar como o trabalho do assistente social interfere no processo de reprodução da força de trabalho e na produção ou reprodução de consensos, de valores e comportamentos (IAMAMOTO, 2010). A partir da realização da pesquisa, identificou-se uma dificuldade dos/as assistentes sociais em perceber os resultados do trabalho.
Poucos assim [...] falando das internações compulsórias [...] a maioria já vem não querendo aderir ao tratamento. Então eu acho que o primeiro passo para ele seria ele querer fazer esse tratamento. Eu acho assim, a internação compulsória ela meio que obriga ele a se tratar, eu acho que isso não funciona assim, essa obrigação não vai resolver o problema dele do consumo de drogas, não vai resolver obrigar ele... [...] Porque ele tem direito à liberdade, ele tem direito a escolher se ele quer ou não se tratar [...] esses dias eu estava ouvindo um psiquiatra falando que “ah, mas no momento ali ele não tá apto a responder por seus atos”, mas ele não tá o tempo todo em uso [...] ele tem os momentos dele pra parar, pra pensar, pra ver se é aquilo que ele quer, ele tem os momentos de lucidez, ele não tá o tempo todo em efeito da droga pra não poder decidir se ele quer ou não fazer o tratamento, mas aí envolve toda questão social (AS1).
[...] os resultados é algo que a gente não consegue visualizar de imediato. Eu acredito que a situação que envolve cada paciente aqui é como se fosse um processo e as nossas intervenções contribuem para que dentro daquele processo [...] ele adquira uma evolução, ele avance nos aspectos que tem limitado ele [...] então não é algo imediato, é como se você tivesse aqui uma construção, cada pessoa coloca um tijolinho de cada vez. Tem pacientes que depois a gente recebe um retorno da rede, do local onde ele foi encaminhado, que traz a melhora, uma boa evolução, por exemplo, o paciente ter superado aquela condição em que ele se encontrava. A gente tem esse retorno e isso é muito legal, tem outros pacientes que a gente já não visualiza assim tão logo, às vezes é mais demorado o processo e o desafio nosso da saúde mental é muita reincidência, a gente tem muita reincidência nas internações, são todas recaídas, mas faz parte do tratamento a recaída (AS2).
Nota-se que a análise dos resultados do trabalho do assistente social pelos sujeitos da pesquisa restringe-se, geralmente, aos resultados da internação compulsória para o usuário, ou seja, da efetividade da internação compulsória como meio para a superação do contexto de vida e do uso de álcool e outras drogas, por exemplo. Os/as assistentes sociais reiteraram ao longo das entrevistas que não há uma efetividade da internação compulsória para o usuário devido à imposição da obrigatoriedade para o tratamento. Assim, observa-se que a liberdade do usuário em optar pela internação ou por outra forma de tratamento para o uso de álcool e outras drogas – visto que este constitui a maior parte das demandas relacionadas à internação compulsória – é fundamental para o atendimento do usuário.
[...] a gente percebe que a maioria é reinternação, por isso que eu acho um pouco que eu sou contra a internação compulsória, as reinternações. Eu acho que se ele tem cinco, seis, sete reinternações, o juiz assinar mais uma, vai ser mais uma internação, porque já deveria ter dado um resultado, digamos na segunda internação, já deveria tá fazendo esse acompanhamento. E eu percebo assim, que a maioria das internações compulsórias, eles meio que querem tirar da sociedade, fazer de conta que... remover... e é isso (AS1).
Nesse sentido, convém destacar algumas características das internações compulsórias, de acordo com a percepção e experiência dos/as entrevistados/as, apresentadas na Tabela 2.
Tabela 2 – Contexto da internação compulsória
Características Percepção do/a entrevistado/a Tempo da internação compulsória Geralmente entre 07 e 21 dias
Número de internações compulsórias por usuário
Geralmente 03 ou mais internações compulsórias
Continuidade do
tratamento/atendimento após a internação compulsória
Geralmente, nem sempre há continuidade do tratamento/atendimento
Conforme se observa na tabela, os usuários geralmente vivenciam três ou mais internações compulsórias e, apenas parte deles continuam o atendimento nos serviços comunitários após a internação. Embora se considere que a internação compulsória não é a alternativa inicial para o atendimento dos usuários, evidencia-se uma reiteração na utilização desse encaminhamento por parte da rede de atenção. Durante a coleta de dados, foi relatada também a ocorrência de evasões dos usuários durante o período em que ele é levado à instituição para avaliar a necessidade da internação compulsória, além das solicitações de alta hospitalar.
Nesse contexto, recordando-se o que afirma Iamamoto (2010) sobre as dimensões de análise do produto do trabalho do assistente social, observa-se uma limitação na compreensão em relação ao produto do trabalho com internações compulsórias. O resultado do trabalho do assistente social se manifesta tanto na reprodução da força de trabalho, através da viabilização de acesso às necessidades e da implementação de ações que interferem nas condições de vida dos usuários, quanto no campo ideológico (IAMAMOTO, 2010).
Deste modo, o produto do trabalho do assistente social em relação à internação compulsória, embora seja imaterial, interfere na vida dos usuários, por exemplo, através da garantia do acesso a um serviço de saúde e à continuidade do atendimento, da socialização de informações, da orientação do usuário e da família. Outro exemplo é a articulação com a rede de atenção e com os demais profissionais da equipe de trabalho visando à viabilização do acesso ao direito ou a construção de estratégias de intervenção, as quais foram citadas pelos/as assistentes sociais como algumas das ações desenvolvidas, e que também podem representar produtos do trabalho, visto que através deles materializam-se alguns princípios do projeto ético-político da profissão.
Desta forma, o produto do trabalho está incidindo na produção de consensos favoráveis aos usuários ao contribuir na construção de alternativas de atendimento que estejam de acordo com os direitos fundamentais e com as necessidades dos usuários. Conforme Iamamoto (2010, p. 68), o trabalho do assistente social “também tem efeitos na sociedade como um profissional que incide no campo do conhecimento, dos valores, dos comportamentos, da cultura, que, por sua vez, têm efeitos reais interferindo na vida dos sujeitos”.
Porém, é importante destacar que, através das mesmas ações, o assistente social poderá contribuir para a reprodução de consensos, de ideologias dominantes. Nesse sentido, considerando que o processo de trabalho se constitui de um objeto de trabalho, dos meios necessários e do próprio trabalho direcionado a um fim, no produto materializa-se todo o processo (MARX, 1983).
Desta forma, evidenciam-se as dimensões do trabalho do assistente social: para definir o seu objeto de trabalho, ele precisa conhecê-lo com profundidade e criticidade; a partir desse conhecimento ele direciona a sua ação para o alcance do objetivo pretendido, acionando os meios, ou seja, as condições e o instrumental necessários para o alcance deste objetivo. Logo, o produto do seu trabalho materializa este objetivo, este processo de trabalho direcionado a um fim.
Assim, o assistente social pode direcionar sua ação tanto para a produção de “subordinação, tutela, submissão, dependência, autoritarismos” (IAMAMOTO, 2010, p. 111) quanto direcioná-lo a partir do projeto ético-político do Serviço Social, contribuindo para a produção de liberdade e autonomia, embora se ressalte que o produto não “depende exclusivamente da vontade e do desempenho individual do profissional” (IAMAMOTO, 2010, p. 111), por também materializar “os fins das empresas, organizações ou organismos públicos que norteiam a organização dos processos de trabalho coletivo, nos quais estão presentes, junto com outros trabalhadores, os assistentes sociais” (IAMAMOTO, 2010, p. 111).
A partir do exposto, observa-se que o produto do trabalho do assistente social, bem como da equipe onde ele está inserido, não objetiva-se somente na superação da situação que contribuiu para a internação compulsória. O resultado do trabalho se apresenta de diversas formas, seja através da criação de um vínculo entre o serviço e o usuário ou familiar, seja contribuindo para o acesso a informações, serviços, direitos. Importa ressaltar, nesse sentido, que o produto é coletivo, assim como o processo de trabalho, ou seja, ele contém as contribuições dos diversos profissionais presentes na equipe de trabalho.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este Trabalho de Conclusão de Curso teve como objetivo a realização de uma análise do trabalho do assistente social nas demandas de internação compulsória no município de Ijuí/RS, durante o segundo semestre de 2013. Sua realização foi motivada pelo interesse da acadêmica sobre o campo da saúde mental, considerando principalmente algumas discussões feitas durante a realização do Estágio Supervisionado em Serviço Social, as quais envolviam o tema de pesquisa.
Assim, o problema que orientou a realização da pesquisa foi: “como vem sendo desenvolvido o trabalho do assistente social no atendimento de demandas de internação compulsória em Ijuí/RS no segundo semestre de 2013?”. Para responder a este problema foram organizadas cinco questões norteadoras que conduziram o processo de coleta de dados, buscando identificar e analisar os elementos constitutivos do processo de trabalho, além dos desafios e possibilidades do trabalho do assistente social com as demandas de internação compulsória.
O assistente social tem como objeto de trabalho a questão social em suas diversas manifestações, cuja gênese encontra-se no desenvolvimento do modo de produção capitalista. Deste modo, o conflito entre capital e trabalho tenciona o Estado para a intervenção na questão social através da garantia de direitos e políticas sociais. Considerando a inserção histórica dos assistentes sociais no âmbito do Estado a partir das políticas sociais, a internação compulsória surge nesse contexto, como parte integrante de uma política social, neste caso a política de saúde mental, representando por um lado a garantia do direito à saúde e por outro a negação do direito à liberdade.
Através da pesquisa, constatou-se que os/as assistentes sociais percebem a internação compulsória como um meio para inserção dos usuários na política de saúde, tendo em vista a insuficiência dos recursos para o atendimento dos usuários. Porém, observou-se também que a imposição deste encaminhamento não tem efetividade, visto que se nega aos usuários um direito humano fundamental que é a liberdade. A partir do exposto, entende-se que a internação compulsória chega para o Serviço Social muitas vezes como uma demanda institucional ou como um problema isolado, como síntese. Somente através do conhecimento da demanda, o assistente social consegue identificar as diferentes determinações que a compõem, reconstruindo desta forma seu objeto de intervenção, ou seja, as expressões da questão social.
Para realizar a reconstrução do seu objeto de intervenção e realizar, de fato, o seu trabalho, o assistente social necessita dos meios de trabalho. É a força de trabalho colocada em ação mediada pelos meios de trabalho, que possibilita a intervenção no objeto de trabalho a fim de produzir os resultados desejados desde o princípio do processo de trabalho (MARX, 1983). Assim, através da pesquisa, constatou-se que as ações realizadas pelos/as assistentes sociais dos espaços sócio-ocupacionais pesquisados situa-se, basicamente, no âmbito do atendimento direto aos usuários, consistindo geralmente do acompanhamento do usuário e da família, do resgate e conhecimento da história de vida dos usuários e da realização de encaminhamentos e articulações com a rede de atenção visando geralmente à continuidade do atendimento do usuário após a internação compulsória.
Para a realização destas ações, identificou-se que dentre os instrumentos e técnicas, a mais utilizada é a entrevista. Em relação aos registros e construção de documentos, geralmente não há instrumentos de registro específicos do assistente social. Neste caso, as informações são registradas nos prontuários individuais dos usuários. No que diz respeito à construção de documentos, utiliza-se geralmente os relatórios sociais e, com menor frequência os estudos sociais. Identificou-se ainda a realização de visitas domiciliares pontualmente, bem como o entendimento de que as reuniões de equipe se constituem como um meio importante de trabalho.
No que diz respeito à percepção dos/as assistentes sociais em relação ao produto do trabalho com demandas de internação compulsória, a análise geralmente limitou-se aos resultados da internação compulsória para o usuário, ou seja, a sua efetividade no atendimento. Nesse sentido, entende-se que o resultado do trabalho do assistente social – e da equipe onde ele se insere, considerando os processos de trabalho coletivo – não se demonstra apenas na superação da situação que originou a internação compulsória, mas manifesta-se de diferentes formas, as quais impactam tanto na reprodução da força de trabalho quanto na criação ou reprodução de consensos (IAMAMOTO, 2010).
A partir do exposto e do problema de pesquisa que norteou a realização deste estudo, compreende-se que o trabalho do assistente social no atendimento de demandas de internação compulsória no município de Ijuí/RS, considerando-se as particularidades dos distintos espaços sócio-ocupacionais, se desenvolve principalmente no atendimento direto dos usuários, visando o reconhecimento das suas demandas e de como as expressões da questão social se manifestam na realidade onde estão inseridos. Nesse sentido, as ações profissionais estão direcionadas para a viabilização do acesso aos direitos através da articulação com os demais profissionais e serviços que integram a rede de atenção.
Considerando a relação entre a amplitude das informações coletadas através da pesquisa de campo e o cronograma de realização da pesquisa, muitas informações coletadas não foram submetidas à análise. Entre esses elementos destacam-se os desafios e as possibilidades percebidas pelos/as assistentes sociais na realização do seu trabalho no atendimento de demandas de internação compulsória.
No âmbito dos desafios, foi assinalada a necessidade de ampliação das equipes multidisciplinares para o atendimento no âmbito da saúde mental diante do aumento da demanda de trabalho, bem como a articulação da rede de atenção. Enquanto possibilidades, destacaram-se a ampliação do atendimento de demandas da área da saúde mental no âmbito da atenção básica, o atendimento da família, a comunicação entre as instituições da rede de atenção e a educação continuada dos profissionais. Refere-se ainda que a discussão sobre o consentimento e o desejo do usuário em receber o atendimento foi transversal em todas as entrevistas realizadas.
Diante do reconhecimento dos limites colocados à pesquisa em virtude do seu cronograma de execução, apresentam-se inúmeras possibilidades de continuidade desta discussão, visto a amplitude e complexidade das informações trazidas pelos profissionais que participaram da pesquisa e as poucas publicações sobre o tema da internação compulsória. Desse modo, o estudo do tema não se esgota: pelo contrário, quanto mais analisado, mais determinações podem ser conhecidas.
Os rebatimentos do modo de produção capitalista em sua fase contemporânea incidem diretamente no cotidiano da população usuária e dos assistentes sociais. Nesse sentido, importa estar atento para identificar as novas manifestações da velha questão social, permitindo que o trabalho do assistente social supere a imediaticidade e contribua no sentido da transformação social, nos rumos defendidos pelo projeto ético-político do Serviço Social, onde a garantia de um direito não conduz à negação de outro.
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