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O TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NO CAMPO DA SAÚDE MENTAL

3. TRABALHO E SERVIÇO SOCIAL

3.3 O TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NO CAMPO DA SAÚDE MENTAL

Desde o surgimento do Serviço Social no Brasil a partir da década de 1930 observa-se a relação entre a profissão e a área da saúde mental, o que se demonstra inclusive pela existência de componentes curriculares relacionados à saúde (BRAVO; MATOS, 2012) e à higiene mental (VASCONCELOS, 2002) no currículo dos primeiros cursos de Serviço Social do país. Nesse período, o contexto histórico brasileiro se caracterizava pelo incentivo à industrialização e urbanização bem como pela instituição de várias políticas sociais, dentre elas a saúde, sendo que as principais ações nesta área se voltavam para o saneamento das cidades e para o combate às endemias.

A influência europeia e, mais tarde, norte-americana, contribuíram para a inserção dos assistentes sociais no campo da saúde mental. O trabalho do assistente social norteava-se por um viés moralizante e normativo da classe trabalhadora, o que se relacionava com as ações de saúde no Brasil, pautadas em um olhar higienista (VASCONCELOS, 2002). A influência norte-americana ampliou a abordagem do Serviço Social na saúde mental, através da análise

psicologizante e do Serviço Social de caso. Dessa forma, o assistente social trabalhava no ajustamento dos indivíduos ao modo de produção capitalista, em uma perspectiva funcionalista (IAMAMOTO; CARVALHO, 2009).

[...] a constituição do Serviço Social como profissão no Brasil é marcada, tanto pela vertente doutrinária católica quanto pela influência do movimento de higiene mental, por abordagens com forte ênfase nos aspectos individuais e psicológicos de problemas com dimensões políticas, sociais e econômicas mais amplas, construindo uma clara estratégia de hiperpsicologização e individualização normatizadora e moralizadora da força de trabalho e da população em geral, como estratégia do Estado, das elites empresariais, da Igreja Católica e da corporação média (VASCONCELOS, 2002, p. 185, grifos do autor).

Ao contextualizar a relação entre o Serviço Social brasileiro e o campo da saúde mental em meados do século XX, Vasconcelos (2002) aponta que o trabalho do assistente social nos serviços de saúde mental, especialmente nos hospitais psiquiátricos, ocorria de forma subalterna aos médicos, tendo em vista a hierarquia do saber psiquiátrico e médico nesse espaço sócio-ocupacional.

Conforme o autor, nesse contexto a “doença mental” era isolada e a atenção médica incidia completamente sobre ela, desconsiderando-se as demais necessidades do indivíduo (VASCONCELOS, 2002). Logo, “tudo o que não é concebido como diretamente associado com o especificamente psíquico e somático não é considerado como problema [...] e é empurrado nestas instituições para o Serviço Social e/ou através dele, encaminhado [...] ou simplesmente negligenciado” (VASCONCELOS, 2002, p. 188).

Com o processo de reforma psiquiátrica, esse contexto começa a se transformar, impondo um modelo de atenção em saúde mental baseado nos serviços comunitários e na desinstitucionalização. Dessa forma, o questionamento em relação à hierarquia do saber psiquiátrico, a ampliação das discussões e o rompimento com as abordagens isoladas e fragmentadas conduz a uma abertura da área da saúde mental para as diferentes áreas do saber e profissões, visando à formação de equipes democráticas e o desenvolvimento de ações interdisciplinares10 (VASCONCELOS, 2002).

Nesse processo de redirecionamento da atenção em saúde mental no Brasil, os assistentes sociais inserem-se efetivamente nos processos de trabalho coletivos, uma vez que “a polarização do campo da saúde mental por abordagens mais comprometidas teórica e politicamente, principalmente pela perspectiva da desinstitucionalização, abriu novas

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Para Vasconcelos (2002, p. 47), na interdisciplinaridade há reciprocidade e “uma tendência à horizontalização das relações de poder entre os campos implicados”. Dessa forma, no trabalho interdisciplinar existe uma finalidade em comum definida a partir de demandas que são comuns à equipe (VASCONCELOS, 2002).

possibilidades de aproximação com o processo de reconceituação dentro da profissão” (VASCONCELOS, 2002, p. 210).

O movimento de reconceituação do Serviço Social que se inicia nas últimas décadas do século XX contribuiu para a construção de um novo olhar da profissão em relação às lutas sociais, posicionando-se na defesa dos interesses da classe trabalhadora. O projeto ético- político, que tem como princípios fundamentais a liberdade, autonomia e emancipação e que se afirma na defesa intransigente dos direitos humanos e da democracia (CFESS, 1993), favoreceu a inserção do Serviço Social no movimento de reforma psiquiátrica e sanitária, lutando pela garantia do acesso à saúde e por políticas públicas voltadas ao atendimento das demandas da área da saúde mental.

Nesse sentido, é importante destacar que a partir dos anos 1990 se estabelece no âmbito do Serviço Social uma crítica ao projeto hegemônico da profissão, em especial ao seu viés teórico-metodológico. Tal crítica, expressa especialmente na área da saúde, afirma a dicotomia entre teoria e prática e a necessidade de construir um saber específico sobre a saúde no Serviço Social (CFESS, 2010). Observa-se que alguns assistentes sociais, ao assumirem atividades na área de gestão, assessoria e pesquisa, por exemplo, não as compreendem como competências ou atribuições profissionais, deixando de percebê-las como trabalho do assistente social (CFESS, 2010).

Nota-se ainda “a tentativa de obscurecer a função social da profissão na divisão social e técnica do trabalho” (CFESS, 2010, p. 28), distanciando-se do objetivo da profissão e fragmentando o trabalho do assistente social na saúde. Conforme documento11 do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) em relação à atuação do assistente social na saúde, o objetivo profissional “na área da saúde passa pela compreensão dos determinantes sociais, econômicos e culturais que interferem no processo saúde-doença e na busca de estratégias político-institucionais para o enfrentamento dessas questões” (CFESS, 2010, p. 28).

[...] nas equipes de saúde mental, o assistente social deve contribuir para que a Reforma Psiquiátrica alcance seu projeto ético-político. Nessa direção, os profissionais de Serviço Social vão enfatizar as determinações sociais e culturais, preservando sua identidade profissional. Não se trata de negar que as ações do assistente social no trato com os usuários e familiares produzam impactos subjetivos, o que se põe em questão é o fato do assistente social tomar por objeto a subjetividade, o que não significa abster-se do campo da saúde mental, pois cabe ao assistente social diversas ações desafiantes frente às requisições da Reforma Psiquiátrica tanto no trabalho com as famílias, na geração de renda e trabalho, no controle social, na garantia de acesso aos benefícios (ROBAINA, 2009 apud CFESS, 2010, p. 41).

11 O documento intitula-se Parâmetros para Atuação de Assistentes Sociais na Política de Saúde, publicado

Portanto, entende-se a utilização de referenciais que abordam temas ligados às doenças e ao campo psicológico, desde que o assistente social tenha clareza e não se distancie dos fundamentos teórico-metodológicos e ético-políticos que orientam o Serviço Social. Independente de seu campo de atuação, o assistente social necessita estar atento ao movimento da realidade, apreendendo as diferentes expressões que a questão social assume na contemporaneidade, bem como as diversas demandas que o profissional é chamado a atender. Ressalta-se novamente a importância do assistente social reconhecer-se como um profissional inserido em processos de trabalho coletivos, identificando também as “possíveis

contribuições particulares na elaboração de um produto comum” (IAMAMOTO, 2010, p.

110, grifos do autor). Assim, considerando-se os elementos apresentados sobre o trabalho do assistente social e o modelo de atenção em saúde mental, o capítulo a seguir apresentará os resultados obtidos através da pesquisa de campo.

4. INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA E TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL: A