CAPÍTULO V – PROFESSOR DE CURSINHO: REALIDADE NUA E CRUA
5.2. Professor de cursinho: visão do vestibulando
Registra-se que o colégio onde se realizou esta pesquisa não trabalha em prol da aprovação em apenas uma instituição ou em um curso específico, todavia, há o esforço em estimular e valorizar junto aos alunos a aprovação em vestibulares realizados pelas
universidades ou faculdades públicas. Como esses em geral são os mais concorridos, o sucesso do aluno na conquista de uma vaga reflete em tese o êxito do colégio o que contribui para sua afirmação no mercado. Tal como explicitado na pesquisa de Abramovai e Castro (2003), entende-se neste trabalho que a qualidade do ensino de um colégio é avaliada pela sua capacidade de aprovação dos estudantes em exames mais disputados.
O colégio não realiza qualquer procedimento classificatório ou seletivo do alunado no ato da matrícula e na composição das turmas, ou seja, não é exigida do estudante uma pré- avaliação realizada mediante provas, testes, entrevistas ou análise do histórico escolar. Isso faz com que as turmas tenham um caráter altamente heterogêneo. Seus alunos são oriundos tanto da rede pública quanto privada muitos com Ensino Médio já concluído, outros em conclusão, muitos atuam no mercado de trabalho – especialmente os alunos do noturno – outros dedicam o seu tempo apenas aos estudos.
Uma vez matriculado em um colégio preparatório e com a finalidade de obter sucesso em seus objetivos, o vestibulando alimenta expectativas sobre o Cursinho. A maioria dos estudantes declara que procura em um Cursinho suprir as deficiências do Ensino Médio, um meio em que todos buscam uma mesma finalidade, despertar uma visão crítica e entrar em uma universidade pública. Tais expectativas são enunciadas da seguinte maneira:
Minha espectativa é de poder estar em um meio onde todos buscam um fim em comum e também de estar aprendendo o que não tive a oportunidade no segundo grau (A6, Goiânia/2003).
O cursinho é um local onde a pessoa vem para ampliar e rever matérias do ensino médio. No meu caso, já aprendi muitas coisas (conteúdo) no cursinho que nunca tinha visto no 2.º grau. O cursinho é um lugar bom, onde muitos jovens e adultos se reúnem para aprimorar seus conhecimentos (A7, Goiânia/2003).
Melhor preparação do aluno para o mundo podendo despertar nossa visão crítica (A11, Goiânia/2003).
Que me dê um preparo adequado para que eu seja inserido dentro de uma faculdade pública (A18, Goiânia/2003).
As minhas expectativas em relação ao cursinho foram de: estar mais informada por opiniões mais esclarecidas em relação aos fatos históricos e políticos (atuais), isto é, na área de humanas, já na de exatas tentar “aprender” o que “mais” cai no vestibular (A3, Goiânia/2003).
Para possibilitar uma percepção da identidade do professor de cursinho, é preciso levar em conta a afirmação de Silva (2000), de que a identidade depende da diferença e essas
são inseparáveis. Woodward (2000) explica que a identidade não é o oposto da diferença, mas que aquela depende desta, uma identidade é sempre produzida em relação a outra. E, portanto é formada de modo relativo a outra e não absoluto.
Considerando essas assertivas, na presente pesquisa propôs-se aos vestibulandos que tentassem fazer uma análise comparativa entre o professor de Cursinho e os professores com os quais conviveram ao longo do Ensino Médio. Entendeu-se que para identificar um quadro de diferenças que auxiliassem a delinear a identidade do professor de cursinho com base na contribuição do aluno, era preciso que este possuísse um referencial para emitir sua avaliação.
Ao utilizar o procedimento classificatório binário, mencionado no Capítulo 1, empregando os termos, professor de Cursinho e professor de Ensino Médio, não se negligenciou o alerta de Woodward (2000) quanto à possibilidade de crítica a esta visão. O alerta a respeito das críticas também foi considerado por Silva (2000).
Os autores demonstraram que, para alguns intelectuais, no pensamento construído por meio de oposições dualistas, um dos termos é sempre valorizado mais do que outro, ou seja, enquanto um dos termos é privilegiado, o outro recebe uma carga negativa. Registra-se que os depoimentos dos alunos confirmam e legitimam essas críticas, uma vez que é possível perceber a alta valorização do professor de Cursinho em oposição a uma imagem negativa atribuída ao professor do Ensino Médio.
Ante a visão dualista, o professor de Cursinho é apresentado na avaliação da maioria dos alunos como alguém que se preocupa com o aprendizado do aluno; é interessado em passar o conhecimento, instruído, dinâmico, motivado e motivador; é amigo, descontraído, bem-humorado; não perde tempo e possui controle de sala. Já os professores do Ensino Médio com os quais estudaram recebem pesadas críticas negativas tais como: monótono, indiferente ao aprendizado do aluno, irresponsáveis, incompetentes, desatualizados, embromadores, enroladores, sem graça e sem compromisso em transmitir o conteúdo. Essas visões podem ser constatadas nos depoimentos a seguir:
Professores de cursinho não costumam perder tempo e conseguem tomar controle da situação dentro da sala de aula, enquanto no ensino médio essa idéia é totalmente contrária (A20, Goiânia/2003).
Ensino Médio: desinteressado com o aluno, muito embromador, enrola o conteúdo, aparece para dar aula quando quer, faltas constantes, relaciona o conteúdo com uma realidade indiferente aos dias de hoje, sério (sem graça). Cursinho: preocupados com o aprendizado, sintetizador mostra o caminho mais fácil, sempre há professor na sala, simplifica fazendo comparações com o dia-a-dia, descontraído a ponto de fazer com que o aluno se simpatize pela disciplina por ele dada (A5, Goiânia/2003).
Os professores do ensino médio, em sua maioria, eram pessoas desinteressadas, desmotivadas, não interessavam se os alunos estavam aprendendo ou não, nunca traziam novidades para as salas de aulas, atividades fora do cronograma escolar. Já os professores de cursinhos em sua maioria, não quero dizer todos, são pessoas interessadas, onde preocupam em parte se seus alunos estão compreendendo ou não (A13, Goiânia/2003).
Ao responderem a questão alguns vestibulandos foram além da mera descrição e expressaram suas opiniões indicando causas que os levaram a enfatizar características do professor. Eles também avaliaram as circunstâncias que contribuem para o melhor ou pior desempenho de um e de outro profissional.
Quanto aos professores de Cursinho entendem que esses são mais cobrados, uma vez que o seu trabalho é mais pressionado pela necessidade da aprovação dos alunos no vestibular; possuem uma melhor remuneração; dispõem de melhores recursos didáticos e trabalham com alunos predispostos ao aprendizado.
Os professores de cursinho parecem ser mais compromissados do que os professores de ensino médio. Acho que é porque eles são mais cobrados, precisam da aprovação dos alunos (A28, Goiânia/2003).
O professor de cursinho ganha muito melhor de que um professor do Estado, comparando a hora-aula; tem recursos como vídeo, mapas, transparência e outros mais. Suas aulas são mais dinâmicas, ou seja, os alunos estão ali para aprender mesmo, é quase que uma obrigação absorver tudo, o que ele fala, o seu preparo é muito maior. O professor do Estado não tem os recursos necessários de complemento à suas aulas, estão desamparados nesse sentido. Sem falar como ganham mal. Com esse quadro, como dar um aula de qualidade? (A33, Goiânia/2003).
No que diz respeito à questão salarial, os professores que trabalham no Cursinho Garra possuem remuneração fixada pelo número de aulas semanais de acordo com que estabelece o art. 320 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Atualmente (2004), o
valor recebido vem sendo de R$ 13,00 (treze reais)38 por aula. Como a maioria dos alunos pesquisados é procedente de escolas públicas, os seus referenciais para comparações salariais foram de seus professores da rede estadual. Nesse sentido, não estavam errados em apontar as diferenças de ganho entre o professor de Cursinho e os professores do Ensino Médio. Registra-se que o professor graduado, concursado e em início de carreira na rede estadual de
ensino do Estado de Goiás, recebe R$ 3,63 (três reais e sessenta e três centavos) por hora/aula.39
Outros alunos como A1 relativizam a comparação:
São professores que dedicam muito mais aos alunos, estão sempre atentos aos alunos, mas como todo caso tem exceção, também tem professores que não colaboram muito e só querem o seu pagamento igual a seus colegas da rede pública (Goiânia/2003).
Anota-se que também houve respostas em que os estudantes afirmaram a não- existência de possibilidades para uma análise comparativa, que estabelecesse diferença substantiva entre ser professor de Cursinho e ser professor de Ensino Médio, uma vez que atuam em realidades diferentes, com exigência de papéis profissionais distintos. Isso se confirma nos seguintes depoimentos:
Nenhuma, pois no cursinho com certeza é um outro cotidiano a ser seguido (A18, Goiânia/2003).
[...] Nem tem como comparar um com o outro, pois cada um exerce um papel (A19, Goiânia/2003).
Observa-se haver certas circunstâncias que contribuem para a formação da representação da existência de uma maior proximidade entre o professor e o aluno no ambiente do Cursinho do que no Ensino Médio clássico. Essa identificação contribui para que alguns alunos vejam nos professores de Cursinho a figura de profissionais preocupados com a realidade social na qual o estudante está inserido e com suas dificuldades de aprendizagem, como pode-se verificar nos depoimentos a seguir:
No ensino médio há um certo distanciamento do professor em relação ao aluno embora haja mais tempo. Já no cursinho os professores possuem uma preocupação maior com a vida social do aluno (A11, Goiânia/2003).
No cursinho os professores são interessados em passar o conhecimento para os alunos e os professores tem interesse de saber como o aluno está desempenhando seus estudos já os professores do ensino médio jogam a matéria no quadro e o aluno se quiser se vira (A27, Goiânia/2003).
Apesar de muitos alunos se identificarem melhor com o professor de Cursinho, houve vestibulandos que foram críticos, denunciando que por força das limitações de tempo, próprias da modalidade semi-extensivo, os professores não possuem condições de
________________
38 Dados cedidos pelo Cursinho Garra.
diagnosticar as dificuldades e de estimular o crescimento de cada aluno. A resposta seguinte ilustra esta situação:
Sempre há a comparação. Observei claramente um melhor preparo dos professores do cursinho no sentido da clareza e objetividade ao explicar os conteúdos, além da já citada dinamicidade e descontração. Porém, a falta de tempo faz com que eles não tenham tempo para perceber as dificuldades e estimular as potencialidades de cada aluno (A32, Goiânia/2003).
A seguir serão feitas análises dos dados que melhor indicam as características do processo de ensino e aprendizagem nas salas de Cursinho e que, também, se relacionam com a identidade do professor.