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PROFISSIONAL DO SEXO E CLIENTE: O QUE PERPASSA ESSA

No documento PR BRIENA PADILHA ANDRADE (páginas 136-139)

“Se existe quem vende prazer é porque existe quem o compra” (BRUNS; GOMES JR, 1996, p.5). Iniciando o terceiro capítulo apresento algumas interrogações, referentes a prática prostitucional das suas casas noturnas de Guarapuava, buscarei esclarecer no decorrer do texto esclarecê-las. Quem são esses clientes? O que eles procuram? Que relação existe entre eles e as profissionais que os assistem?

A ocasião que assinala com maior grau a atividade prostituinte é aquela que vai desde a oferta dos serviços por parte das profissionais do sexo aos seus clientes até a transação comercial, que permitirá a realização de um acordo verbal entre as partes, sobre a forma como se dará o programa (MORAES, 1995). Como é perceptível, os clientes são peças essenciais no labor da prostituição, pois como Bruns e Gomes Jr (1996), p. 5 expõem, só existe o comércio dos prazeres, porque tem quem o busque e pague por ele. Os mesmos autores colocam que os clientes são uma espécie “coautores”, “corresponsável” dessa forma histórica e rentável de vivência da sexualidade, em suas distintas versões.

Corroborando com Bruns e Gomes Jr (1996), Oliveira (2007) vê o cliente como pessoa indispensável para o entendimento do universo da prostituição, visto que é para ele que a profissional do sexo desempenha o seu serviço e habilidades. A atividade prostituinte só existe se houver alguém que fomente e pague por esses préstimos. Esse fato foi bastante perceptível durante a minha pesquisa, pois quando

as mulheres eram questionadas sobre o seu trabalho e o desenrolar deste, os clientes eram muito citados, por vezes, as práticas com esses realizadas, o momento da negociação, o tipo de cliente, foi o fio condutor do depoimento.

4.3.1 Mas, afinal, quem são esses clientes?

Os clientes que frequentam aqui geralmente são homens de bastante idade, vem alguns novos também, a maioria casados, mas tem os solteiros, são héteros, até agora não veio nenhum gay (CAMÉLIA).

Eu tenho clientes de todas as idades, velhos, jovens, meia idade, de todos os tipos. Na casa só não é permitida a entrada de mulheres, só nós que trabalhamos aqui e algumas amigas, mas poucas vêm aqui (SABRINA). A maioria dos clientes são homens, sem descrição de idade, desde aquele que tem dezoito anos, porque sendo menor de idade não pode vir, até o de cem, se existir um com cem anos, ele ainda vem. E às vezes vem alguma mulher, como já vieram casais, sabe? Então é bem diversificado (HILDA) A maioria dos clientes são casados, acima de 30 anos de idade, mais novo que isso eu não faço muita questão de atender, porque demora mais, é uma coisa mais automática, o menino é mais complicado, o mais velho é rápido, o sexo é mais rápido, o dinheiro entra mais fácil (CAPITU).

Como foi possível observar nos relatos, não existe o perfil único de clientes, são pessoas com variadas características e interesses, que procuram os serviços de prostituição. É observável, que algum tipo público predomina como é o caso de homens, heterossexuais, acima de 30 anos. Foram raras as vezes que elas relataram fazer programas com mulheres, os clientes são, sim, em maioria, homens. Esse fato pode ser associado à questão que a sexualidade da mulher, ainda é vista como restritiva em relação à do homem; casas de prostituição, são vistas como locais totalmente inapropriados para uma mulher, pois essa, seria desvirtuada e comparada a uma profissional do sexo. Diferentemente dos homens, as mulheres devem manter os seus desejos com certa postura, não podem ou não devem, buscar meios alternativos de satisfação. Apropriando-me de um conceito trazido na obra O uso dos prazeres de Foucault (1984), as mulheres devem ser temperantes, ou seja, controlarem os seus desejos.

O cliente bom é aquele que não quer ficar me pegando, não queira dar tapa em minha bunda, não fique querendo por as mãos nos meus seios, isso eu odeio aquele que tenha bastante dinheiro, isso em primeiro lugar, trezentos, quinhentos, dinheiro mesmo, ainda que saiba conversar. Gosto de cliente que fica com duas, três, quatro meninas, bebendo, uma conversando com a outra, com ele, isso é muito bom, o resto é putaria (SABRINA).

Um cliente bom é aquele querido, que chega e gasta com todo mundo, que tem a carteira cheia de dinheiro, faz festa com todos, não escolhe uma pessoa só, não troca o lugar que você trabalhar por outro, que pega do dinheiro e vem gastar direto aqui (CAPITU).

O cliente ruim para mim é aquele muito sarna, aquele que paga uma dose, uma bebida e já se acha meu dono, fica com ciúmes, você não pode olhar para os lados, conversar com ninguém, quer mandar em você (LOLA). Da mesma forma que os clientes instauram critérios de escolha em relação às profissionais do sexo, elas também desenvolvem recursos que em certa dosagem lhes permitem exercer uma espécie de comando de seus clientes, podendo esta se dar através de uma seleção preliminar (MORAES, 1995). Esses critérios por elas elencados, de aceitação ou rejeição, fundamentam-se em contradições, que demonstram os mesmos princípios vistos pela comunidade, em geral, por meio de um dualismo, ou seja, como bons ou ruins. Por exemplo, cliente cortez/agressivo, sadio/doente, honesto/desonesto, entre outros (MORAES, 1995).

Gaspar (1985) explana algumas características do bom cliente, o que é alvo das profissionais do sexo. Sendo aquele que cumpre com o pagamento e, por vezes, paga além do combinado, que a trata com sutileza na relação sexual, que apresenta uma boa conversa. Esse cliente pode vir a ser um verdadeiro confidente dessa mulher, tornando-se o seu cliente fixo. Assim, a profissional do sexo, mesmo que de forma sutil, apresenta certo poder em relação a sua clientela, baseado na seleção realizada do bom e mau cliente.

Na relação de profissional do sexo e clientes, o exercer o poder fica bastante alternado. No desenrolar da atividade, ambos têm momentos em que exercem certo grau de poder sobre o outro, como será abordado no texto. Louro (1997) apresenta que os povos dominados são, em diversas situações, eficazes em transformar os locais e momentos de opressão, em locais de firmeza e prática do poder. A figura da profissional do sexo é, muitas vezes, vista sob duas óticas, como a detentora do saber sexual e também como a vítima da situação, que submete- se a qualquer coisa para satisfazer o seu cliente e lucrar. Na prática, isso não se esculpe, pois ao selecionarem os clientes preteridos, estipularem horários, preços, ações que serão ou não realizadas, as profissionais detém uma espécie de poder nessa relação. Ao passo que esses clientes também realizam o poder sobre elas, quando lhes obrigam a realizar práticas e as desvalorizam por serem profissionais, quando acham que, porque estão pagando, o corpo da profissional é público, quando elas se sentem obrigadas a simular um orgasmo para agradá-los, para se sentirem viris, dentre

outros. São essas simbologias que remetem ao domínio do cliente na atividade da prostituição.

No documento PR BRIENA PADILHA ANDRADE (páginas 136-139)