3.4. Definição das sistemáticas de programação e controle da produção
3.4.2. Programação e controle dos fluxos puxados
Primeiramente, para administrar as interfaces entre os sistemas empurrados e os sistemas puxados, é necessário utilizar o backflushing com ordens fantasmas. Isso significa que os itens agrupados nas subfamílias que serão programadas e controladas pela lógica de puxar a produção (kanban, duas gavetas, sinal) deverão ser marcados como fantasmas para que o MRP não gere ordens de produção para eles.
A definição dos sistemas de programação e controle para os fluxos puxados pode ser feita com base em dois tipos de sistemáticas de reposição de inventário: a de pedidos com quantidades constantes e de ciclo de pedidos constante. Estas sistemáticas foram inicialmente introduzidas pelo sistema OPOQ de programação e controle (tópico 2.4.1). Contudo, de acordo com Rother (1999), estas duas formas de reposição de inventários também podem ser aplicadas como sistemática de reposição do sistema kanban, embora não tenha explicado exatamente como.
Nesse sentido, é proposto a seguir a sua aplicação na reposição dos tipos de sistema kanban contemplados no escopo deste trabalho (kanban de produção, 2 gavetas/kanban de sinal).
a) Programação e controle por quantidades fixas
A programação e controle dos fluxos puxados por “quantidades fixas” está baseada na sistemática de reposição de inventário em que uma quantidade fixa será pedida para o processo anterior toda vez que o estoque deste item atingir um determinado nível. Neste caso, a quantidade pedida é fixa, mas a data do pedido é variável.
A seguir é apresentada uma visão esquemática dessa lógica utilizando o quadro semáforo e kanbans de produção.
Figura 58: Sistemática de programação por quantidade fixa e períodos variáveis com kanbans de produção
Note que, embora exista uma freqüência média de tempo de reposição (TPT) por trás da quantidade de cartões no quadro, não há como afirmar precisamente o dia em que o item deverá ser produzido, pois irá depender da chegada do primeiro cartão na faixa amarela. Por isso, o número de kanbans a ser reposto
sempre será uma quantidade fixa de 5 cartões, mas o período irá variar conforme a demanda.
Essa mesma sistemática é a mais apropriada para a reposição de itens controlados por kanbans de sinal e duas gavetas.
Figura 59: Sistemática de programação por quantidade fixa e períodos variáveis com kanbans de sinal e duas gavetas.
Os principais critérios para o seqüenciamento dos itens a serem produzidos são:
A indicação de urgência no quadro semáforo
A indicação de consumo iminente por parte do consumidor Alguns critérios secundários são:
A ordem de chegada do cartão no quadro Atender o menor ou o maior pedido primeiro Fazer o mais rápido ou o mais demorado primeiro
Essa política de reposição é a tradicionalmente utilizada no sistema
kanban. A sua principal vantagem é a simplicidade de realizar o disparo e a gestão
visual do sistema como um todo.
Porém, quando um centro produtor possui vários tipos de itens e uma alta oscilação da demanda a priorização e o sequenciamento da reposição pode se tornar num problema complexo, mesmo com o auxílio do sistema de cores do quadro semáforo.
Em centros produtores com alta variedade de itens e demanda desnivelada pode ocorrer dos cartões também chegarem ao ponto de reposição (amarelo) do quadro de forma desnivelada. Isso significa que o centro produtor pode se deparar ora com sobrecarga, causada pelo excesso de cartões no amarelo ou vermelho, ora com ociosidades, causada pela falta de cartões no amarelo. Resumidamente, a reposição por quantidades fixas em ambientes de alta variedade tende a ser mais afetada pelo desnivelamento da demanda, resultando também no desnivelamento da produção.
Para estas situações uma forma alternativa para se programar a produção dos kanbans é a sistemática de “reposição por período fixo”.
b) Programação e controle por período fixo
A programação e controle da produção dos fluxos puxados por período fixo consiste numa sistemática de reposição de inventário baseada em dias ou horários fixos, mas a quantidade pedida varia.
Figura 60: Sistemática de reposição por período fixo (a cada 3 dias) e quantidades variáveis
O bom funcionamento dessa sistemática depende da elaboração de uma lista com o mix dos itens a serem produzidos num mesmo período (hora ou dia). É importante também vincular os dias do TPT com os dias do mês, como referência
para os operadores saberem o grupo de itens a serem produzidos no dia, desde que haja cartão no quadro.
Na figura abaixo foi elaborada uma lista com o mix diário dos itens com TPT de 3 dias. A elaboração desta lista deve considerar principalmente a distribuição dos itens de forma balanceada, de modo a respeitar a capacidade produtiva do dia. Propõe-se também que seja feita uma legenda que contenha a amarração dos dias do TPT com a agenda do mês.
Figura 61: Distribuição diária dos itens com TPT de 3 dias e amarração dos dias do TPT com agenda do mês
A princípio, o sequenciamento dos itens ao longo dos dias do TPT poderá ser feito numa base diária, ou seja, o mais importante seria a definição do grupo de itens a serem produzidos em cada um dos três dias do TPT. A ordem dos itens a serem produzidos “dentro” do dia ficaria a critério do operador, embora seja possível também trabalhar com esse nível de detalhamento.
As principais vantagens da reposição por período fixo são:
Possibilita um melhor nivelamento da reposição dos kanbans, mesmo diante de uma demanda desnivelada.
Auxilia no enfoque e priorização dos itens a serem produzidos num determinado dia.
A troca e o aproveitamento de ferramental podem e devem ser tratados como um fator estratégico. Peças com dispositivos e ferramentais semelhantes podem ser encaixadas num mesmo período de reposição.
Naturalmente, deve continuar prevalecendo o aviso de urgência do quadro semáforo, ou seja, componentes que não estejam programados para um determinado período, mas que estão no vermelho e/ou com perspectiva de consumo pelo processo puxador, deverão ser antecipados.
As principais desvantagens desse sistema são:
Pode incorrer no desperdício de superprodução e estoques desnecessários ao permitir a reposição de itens cujos cartões ainda não chegaram na faixa amarela.
Requer um maior esforço na manutenção do sistema como um todo (revisões para alteração do TPT, atualização da agenda mensal, balanceamento da carga de trabalho do dia).
Com base nos argumentos supracitados a empresa deve analisar e, se possível testar, qual das duas sistemáticas seria mais apropriada para o loop em estudo. Vale ressaltar que é possível aplicar as duas sistemáticas em loops diferentes de um mesmo fluxo de valor.
Embora o sistema puxado exista para amortecer as flutuações da demanda, o emprego desse sistema de controle de forma estática não garante a reposição dos kanbans em períodos de aumento significativo e duradouro da demanda. Logo, é preciso projetá-lo robusto e flexível, de forma a conter procedimentos claros para fazer frente aos diferentes patamares de demanda.