Nesse ambiente o Partido dos Trabalhadores constrói uma plataforma eleitoral para as futuras disputas tendo no “socialismo cubano” e na perspectiva da construção de um governo democrático e popular suas grandes referências políticas.
As resoluções desse Encontro Nacional pautaram em 1988 os programas de governo nas eleições municipais onde o PT, em alianças de frentes populares com partidos de esquerda, venceu eleições em importantes Prefeituras Municipais. Às vitórias nas capitais em São Paulo-SP, com a então deputada estadual Luiza Erundina; Porto Alegre - RS com o sindicalista Olívio Dutra; Vitória - ES, com o deputado constituinte Vitor Buaiz, somam-se as vitórias nos municípios paulistas de Santos, Santo André, São Bernardo do Campo e mais 100 outros municípios no país, contribuindo positivamente para a manutenção de um pensamento e uma formulação de esquerda e com compromissos de classe que a campanha presidencial da Frente Brasil Popular, com a candidatura de Lula da Silva a presidente, assumiu em 1989.
O texto de 1987 auto define-se “Programa Democrático e Popular” vinculando-se a um programa de governo, uma alternativa de esquerda e com uma composição de Frente Popular. Deixa claro que uma saída burguesa para a crise econômica encontrará resistências em nível social e político, da parte da classe trabalhadora e dos setores médios como micro, pequenos e médios empresários, produtores rurais e urbanos, dadas as contradições entre os interesses desses grupos sociais e a burguesia. Para viabilizar essa política, o texto propõe uma política de alianças que articule esses setores com a classe trabalhadora, numa tática de mobilizações contra a transição conservadora em curso e que construa o governo democrático e popular.
Como propostas imediatas o texto levanta as eleições diretas e em todos os níveis em 1988 (que ocorrem em 1989 apenas para presidente e em 1990 segue o calendário com eleições para os governos estaduais, assembleias legislativas e congresso nacional). Propõe ainda, a organização
do PT como partido socialista, independente e de massas; a construção da CUT e a organização do movimento popular independente.
Segundo o texto, o governo democrático e popular não seria socialista, mas deveria realizar tarefas anti-monopolistas, anti-imperialistas e anti-latinfundiárias, listando pontos estratégicos como o rompimento com o Fundo Monetário Internacional (FMI); controle das remessas de lucros ao exterior; desvalorização da dívida interna; reforma tributária como instrumento para aumentar a arrecadação de impostos e distribuir a renda; direito ao ensino público e gratuito em todos os níveis para todos, com a proibição de o Estado destinar verbas para escolas privadas; criação de um sistema único de saúde estatal, público, gratuito, de boa qualidade, com participação, em nível de decisão, da população; estatização da indústria farmacêutica; estatização dos serviços de transporte coletivos; estatização da indústria do cimento, para viabilizar um vasto programa de construção de habitações populares; estatização do sistema financeiro, garantindo crédito ao pequeno e médio produtor agrícola e industrial; reforma agrária sob controle dos trabalhadores; reforma urbana que assegure o direito de todos à moradia, com desapropriação de terras ociosas a baixo custo e pagamento a longo prazo; congelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade, sob controle popular e estabelecimento de critério social para tarifas, taxas e serviços públicos; direito aos trabalhadores de se organizarem em comissões de empresas e acesso dos trabalhadores às informações econômicas e contábeis das empresas; política de elevação dos salários e reajuste mensal automático dos salários e remunerações, pensões e proventos dos aposentados buscando rapidamente repor as perdas salariais e devolver o poder de compra; aposentadoria aos 30 anos de serviço para homens e aos 25 anos para mulheres; jornada semanal máxima de 40, horas, sem redução dos salários; estabilidade no emprego e por fim contra o programa nuclear paralelo e todas as iniciativas que resultam em deterioração do meio ambiente e da ecologia.
A alternativa de governo que o PT apresentou a partir do texto de 1987 não se limitava a ser uma apenas uma alternativa à Nova República.
Ao elencar seu programa, colocava-se como uma alternativa estratégica à dominação burguesa, com um plano econômico capaz de tirar o país da crise. A leitura deste programa de 1987 leva a uma perspectiva de um partido programático que levou muitas dessas propostas às plataformas de governo nas disputas municipais em 1988, nacional em 1989 e estaduais em 1990, em alianças no campo democrático em popular.
As mobilizações populares em 1992, o impeachment do presidente Collor de Melo, os resultados eleitorais de 1992 e principalmente o elevado índice de intenção de votos para Lula da Silva, já candidato para 1994, levaram a direção do partido e seu candidato a pensar a nova disputa presidencial prevista para 1994 com certeza de vitória. Porém o contexto internacional do consenso de Washington e os interesses econômicos no Brasil, construíram uma nova hegemonia neoliberal em torno do PSDB e das candidaturas vitoriosas de Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998.
Na década de 1990 o movimento democrático e popular resistiu, porém sem êxito. Após uma década de hegemonia neoliberal, os setores democráticos e populares acumularam derrotas políticas e sindicais. Contudo, ocuparam espaços institucionais em governos municipais e estaduais e no parlamento. As derrotas em 1989, 1994 e 1998 levaram a mudanças na construção de mais uma candidatura de Lula da Silva ao governo federal em 2002. Essas mudanças ficam expressas na análise dos programas de governo, em particular no “Programa Democrático e Popular” de 1989, elaborado a partir do 5° Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores em 1987 e o programa da nova coligação partidária e social de 2002, “Um Brasil para Todos: Crescimento, Emprego e Inclusão Social”.
Ao aproximar-se das eleições de 2002, a maioria da direção do PT, apresenta um conjunto de teses consolidadas no Programa de Governo “Um Brasil para Todos: Crescimento, Emprego e Inclusão Social” que em sua introdução, afirma que:
[...] para mudar o rumo do Brasil será preciso um esforço conjunto e articulado da sociedade e do Estado. Esse é o
único caminho para pôr em prática as medidas voltadas ao crescimento econômico, que é fundamental para reduzir as enormes desigualdades existentes em nosso País. A implantação de um modelo de desenvolvimento alternativo, que tem o social por eixo, só poderá ter êxito se acompanhada da democratização do Estado e das relações sociais, da diminuição da dependência externa, assim como de um novo equilíbrio entre União, estados e municípios. Da mesma forma, o estabelecimento de segurança e paz para a cidadania, da plena defesa da integridade territorial e de uma orientação externa que permita a presença soberana do País no mundo, são condições necessárias para a construção de um Brasil decente. (COLIGAÇÃO LULA PRESIDENTE, 2002, Item 1, p.02).
O novo programa já não é “Democrático e Popular”. A expressão já não se encontra nas 72 páginas. Fala-se em “Brasil decente” com implementação de políticas sociais como eixo do desenvolvimento. Afirma que “as políticas sociais quase sempre foram tratadas no Brasil como questões marginais, vinculadas ao assistencialismo. Para mudar essa lógica, o primeiro passo é romper com as ações fragmentadas e dispersas, os feudos e loteamentos temáticos e clientelísticos [...]” (COLIGAÇÃO LULA PRESIDENTE, 2002, p. 39). Nessas eleições o PT e seus aliados históricos apresentam outro programa, distinto do apresentado em 1989.
Contudo as expressões históricas, os discursos de Lula da Silva e a polarização partidária se mantem no imaginário de parte da população e principalmente da militância partidária e seus simpatizantes como o caminho a ser trilhado.
Assim, quando a vitória eleitoral chega em 2002, para além do que está escrito, em especial na “Carta ao Povo Brasileiro” (junho de 2002), apresentada pelo então candidato à presidência e seu vice, o senador mineiro José de Alencar do Partido Liberal (PL), como um compromisso de governabilidade dentro das regras do mercado financeiro internacional, há uma expectativa, uma memória coletiva e um imaginário popular em torno da figura do presidente eleito, seu partido e seus aliados históricos que exigem mudanças e mudanças definitivas.