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Segundo o Tribunal de Contas de Pernambuco, em site oficial46, O Programa Leite de Todos está vinculado a Secretaria de Produção Rural e Reforma Agrária do Estado de Pernambuco tendo como os dois principais pilares incrementar a Bacia Leiteira do Estado e reduzir as deficiências nutricionais das “populações carentes”, com prioridade para crianças, gestantes, nutrizes e desnutridos.

Esses dois pilares principais elencados pelo Tribunal de Contas de Pernambuco referentes ao Programa Leite de Todos nos mostram bem o caráter contraditório desse Programa que não é muito diferente do caráter contraditório mais amplo em que estão inseridas as políticas sociais no neoliberalismo, cfr capítulo 1 e 2 dessa dissertação. Se por um lado tenta garantir alguns direitos básicos para a classe trabalhadora por outro lado fortalece ainda mais o capital.

O Programa Leite de Todos será descrito a seguir, no entanto, antes de especificá-lo melhor, destacamos ser relevante a existência de estudos posteriores para melhor análise das seguintes

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http://www.tce.pe.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=916&Itemid=460

informações. Dentre elas identificamos que esse Programa ao incrementar a Bacia Leiteira do Estado é uma importante fonte de subsídio estadual não apenas para o Desenvolvimento da Cadeia de Bolvinocultura do Leite, mas também, insere-se na lógica da acumulação financeira proposta pelo capitalismo financeiro, cfr capítulo 1 dessa dissertação. Daí questiono qual será realmente o verdadeiro objetivo desse Programa do Leite de Todos?

Foi lançado edital para o desenvolvimento da Cadeia de Bolvinocultura do Leite a partir do dia 30 de agosto de 2007 até o dia 30 de setembro de 2007, fato que nos traz dados relevantes para o nosso estudo e que comprova as mediações existentes entre o subsídio estatal para o capital (seja pequeno ou médio produtor), através do capitalismo financeiro do BID, e indiretamente a vinculação desse processo com a existência do Programa do Leite de Todos.

O Governo do Estado de Pernambuco assinou o supracitado contrato de empréstimo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para financiamento parcial do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável da Zona da Mata de Pernambuco (PROMATA). A Secretaria de Planejamento e Gestão (SEPLAG) do Estado de Pernambuco é o órgão executor responsável pela implementação do PROMATA. O Programa tem um prazo de execução de cinco anos e um custo total estimado de US$ 150 milhões[...]Nestes termos, a SEPLAG, por meio da Unidade de Gestão do PROMATA – UGP/PROMATA, torna público, para ciência dos interessados, que se acha aberto, pelo período abaixo indicado, na forma deste edital e seus anexos, a convocatória para a seleção de projetos de desenvolvimento da cadeia produtiva da bovinocultura de leite na Zona da Mata de Pernambuco objetivando a implementação de planos de negócios associativos a serem apresentados por operador de negócios para obtenção de apoio através da Componente de Apoio à Agronegócios do Subprograma de Apoio à Diversificação Econômica do PROMATA, parcialmente financiado pelo BID. A presente seleção será regida pelas normas e procedimentos do BID inseridas no próprio contrato de empréstimo e, subsidiariamente, pela Lei nº 8666/93. Em caso de conflito prevalecerão as normas e procedimentos do BID. Poderão participar desta seleção empresas e entidades[...] pequenos e médios produtores agropecuários e agricultores familiares dos 14 municípios da Zona da Mata de Pernambuco que sejam elegíveis para o Programa. Estas empresas e entidades deverão ser brasileiras e/ou originárias de países membros do BID.(IDB585-708 (Online Only) BRASIL PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA ZONA DA MATA DE PERNAMBUCO Serviços de Consultoria DESENVOLVIMENTO DA CADEIA DA BOVINOCULTURA DE LEITE Empréstimo Nº 1357 OC/BR). Disponível: < http://licitacoes.dgmarket.com/tenders/np-notice.do~1913581 > Acesso em: 12/ 08/ 2009.

Após essas observações poderemos tecer um olhar mais crítico dos dados oficiais referentes aos objetivos e funcionamento do Programa Leite de Todos. De acordo com a apresentação desse Programa no site oficial da SARA47, o seu objetivo central é apontado como a redução das deficiências nutricionais das populações “carentes”, com prioridade para crianças, gestantes e nutrizes, através da distribuição diária e gratuita de um litro de leite fluido pasteurizado por família.

Espera-se, no Programa Leite de Todos que as estratégias utilizadas alcancem os seguintes

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resultados:

• Redução da mortalidade infantil e incidência de doenças dos beneficiários;

• Promoção da melhoria dos padrões de saúde e qualidade de vida das “famílias carentes”; • Fortalecimento das cadeias produtivas da bovinocultura;

• Redução do êxodo rural.

Esse Programa teve início no ano de 2000 e visava atender, 38.000 famílias, com a distribuição de 1 litro de leite pasteurizado, diariamente, em 184 organizações comunitárias, devidamente credenciadas e localizadas em 97 municípios de Pernambuco.

Atualmente, segundo informações oficiais disponíveis em:

www.sara.pe.gov.br/.../PROGRAMA_LEITE_DE_TODOS_v2.pdf, a meta é “tornar o Programa Leite de Todos permanente. No atual governo, são atendidos 155 municípios através da distribuição de 93.439 litros em 770 Entidades, considerando todas as ‘comunidades carentes’ do Estado.”

Vale destacar que apesar de ser mencionada como meta tornar esse Programa permanente não é questionado esse modelo de distribuição por organizações ou lideranças comunitárias. Mais adiante será apresentada algumas das exigências feitas para que essas entidades possam ser cadastradas para a distribuição do leite.

De acordo a apresentação oficial do programa descrito acima, vide site mencionado anteriormente, seus beneficiários:

• São as gestantes (que estejam fazendo o pré-natal), as nutrizes (mães que estejam amamentando) e crianças com vacinas em dia e que tenham entre 06 (seis meses) até 06 (seis anos) de idade completos.

• Só poderá ser cadastrado no Programa Leite de Todos um beneficiário por casa.

• O beneficiário só poderá ser cadastrado em uma única entidade, havendo duplicidade, será descredenciado de todas.

• A família não poderá ter renda maior que 01 (um) salário mínimo.

Vale ressaltar que o público-alvo desse Programa não é muito diferente do público-alvo de outros programas de segurança alimentar nacional de governos anteriores. Alguns deles já mencionados no capítulo 2 do presente estudo. Além disso, podemos vislumbrar que diferentemente dos programas de segurança alimentar em que o acesso era restrito aos trabalhadores, nesse Programa seleciona-se os usuários através da extrema condição de miserabilidade em que se encontram, reproduzindo o atual modelo de intervenção para as políticas sociais brasileiras, pautado

na focalização e alta seletividade do público alvo, onde se perde o caráter da universalidade do acesso. Fato que pode ser identificado na fala da coordenadora Carmem Patrícia, ao comemorar a conquista da segunda colocação do Programa Leite de Todos no Prêmio Josué de Castro, quando faz referência que “mais do que nunca as políticas públicas devem chegar a quem mais precisa neste país”.

O Programa Leite de Todos da Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária é o segundo colocado na final do Prêmio Josué de Castro de Boas Práticas em Gestão de Projetos de Segurança Alimentar e Nutricional.(...)A coordenadora do Programa Leite de Todos, Carmem Patrícia Alexandre, comemorou o resultado, salientando que o reconhecimento vem com apenas dois anos da gestão do Governo Eduardo Campos. "É muito importante

ficarmos entre os três melhores do país, pois mostra que o gerenciamento do Programa está no caminho certo", falou Carmem Patrícia. "Agora mais do que nunca temos o desafio de mostrar que as políticas públicas devem chegar a quem mais precisa

neste país", acrescentou. Disponível em:

<http://www.jusbrasil.com.br/noticias/253691/programa-leite-de-todos- recebe-premio-nacional-josue-de-castro > Acesso em: 11/06/2009

Outro aspecto importante deve ser considerado, ademais da focalização dos beneficiários, evidencia-se uma forma de distribuição direcionada às “comunidades carentes”, ou melhor, nesse sentido, podemos questionar como essas comunidades são credenciadas e até mesmo quem são os responsáveis pela distribuição do Leite nesses locais? Na maioria das vezes, recorrem-se às lideranças comunitárias que geralmente tem vínculos fortes com entidades religiosas, ou que apresentam bastante vulnerabilidade à cooptação política-partidária.

Essa cooptação das lideranças comunitárias em Programas de Segurança Alimentar no Brasil, não é um fato novo, cfr Programa do Leite de Sarney citado no capítulo 2 dessa dissertação, é também, uma estratégia com mediações extremamente complexas e contraditórias, que ao responsabilizar as lideranças comunitárias por um programa estatal, o estado se desresponsabiliza dos custos com contratação de funcionários e técnicos sociais habilitados para execução e divulgação do Programa dentro da lógica da garantia de direitos. Fato que contribui para garantia e a ampliação da ideologia governista. Além disso, essas lideranças gradualmente vão deixando de lado a representação dos interesses do povo ao se responsabilizar em garantir a representação do estado. Mais adiante quando for descrita a estruturação e funcionamento do Programa da Sopa do Instituto de Assistência Social e Cidadania da Cidade do Recife- IASC, poderemos observar que essa lógica é recorrente com as mediações específicas. Diante da relevância dessa temática e da recorrência histórica dessa prática nos Programas de Segurança Alimentar sugiro que seja realizado um estudo sobre a atualidade da cooptação das lideranças comunitárias feitas por governos de esquerda na atualidade.

parceiros desse Programa: a empresa processadora de leite denominadas de Laticínios, as organizações comunitárias denominadas de entidades, e a Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária (SARA) e o Centro de Abastecimento Alimentar de Pernambuco (CEASA/PE – O.S.). A participação da população usuária (pobre) na construção e controle desse Programa parece ser completamente escamoteada em detrimento da participação de outros sujeitos e beneficiados envolvidos. Mais uma vez se confirma a tendência das políticas neoliberais em de subsidiar o capital em momentos de crise através de ações de cunho assistencial.

Retomando a apresentação desse Programa, segundo o site oficial da SARA, dentre as atribuições dos “parceiros” elencados acima podemos observar as seguintes:

1. Empresa Processadora do Leite “Laticínios”:

• Adquirir o leite cru dos pequenos produtores, a fim de, incentivar a produção.

• Disponibilizar, em cada ponto de distribuição do leite, um freezer com capacidade de armazenamento compatível com a quantidade de leite a ser distribuído.

• Entregar o leite no ponto de distribuição, optando pelos seguintes horários: a) das 14:00h às 1800h do dia anterior á distribuição aos beneficiários; b) das 05:00h às 07:00h do mesmo dia da distribuição aos beneficiários.

• Obedecer às normas e os padrões higiênico-sanitários estabelecidos pelo Serviço de Inspeção Estadual e Serviço de Inspeção Federal (SIE e SIF), estabelecidos para o leite cru e o pasteurizado.

• Adotar exclusivamente as embalagens padronizadas determinadas pelo Programa Leite de Todos.

2. Organizações Comunitárias “Entidades”:

• Cadastrar e selecionar os beneficiários do Programa, obedecendo aos critérios estabelecidos pelo Ministério de Desenvolvimento Social/MDS - Fome Zero e pela Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária (SARA).

• Receber, proceder e controlar a distribuição do leite pasteurizado no horário pré- estabelecido.

• Receber, zelar e usar adequadamente o freezer utilizado exclusivamente no acondicionamento do leite do Programa.

• Realizar o controle diário e mensal dos mapas de distribuição do leite. Documentação exigida pelo Programa.

Abastecimento Alimentar de Pernambuco CEASA/PE- O.S., os Mapas de Controle da Distribuição de Leite à População Carente do Estado de Pernambuco, devidamente preenchidos.

• Orientar a organização comunitária, responsável pela distribuição do leite, sobre o preenchimento da cartela de identificação do beneficiário, fornecida pela Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária (SARA)/ CEASA/PE - O.S.

• Anotar diariamente, na cartela de Identificação do Beneficiário, a entrega de leite realizada. • Fornecer mensalmente a Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária (SARA), a relação

atualizada dos beneficiários.

• Excluir e substituir beneficiários que desvirtuarem o objetivo do Programa.

• Destinar, em caso de não comparecimento do beneficiário, a eventual sobra do leite, a Entidades Filantrópicas, reconhecidamente necessitadas, com apresentação de recibos. • Comunicar a substituição do signatário da organização comunitária por qualquer motivo. 3. Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária (SARA) / Centro de Abastecimento Alimentar

de Pernambuco (CEASA/PE – O.S.):

• Selecionar e cadastrar as organizações comunitárias requerentes de acordo com as condições necessárias à implantação do Programa.

• Organizar e implementar o acompanhamento e controle da distribuição do leite aos beneficiários.

• Realizar, sob a responsabilidade do Centro de Abastecimento Alimentar de Pernambuco CEASA/PE - O.S., todo o processo licitatório, visando à definição do preço base para a compra do leite a ser distribuído.

• Promover por meio do Centro de Abastecimento Alimentar de Pernambuco CEASA/PE - O.S., a assinatura dos contratos com os laticínios e a emissão das ordens de fornecimento do leite às comunidades, segundo cotas e áreas pré-estabelecidas.

• Promover por meio do Centro de Abastecimento Alimentar de Pernambuco CEASA/PE - O.S., a liberação dos recursos aos laticínios, obedecendo às cotas e calendários estabelecidos consensualmente.

• Articular canais de comunicação permanente com a organização comunitária e beneficiários. • Compor junto ao Ministério de Desenvolvimento Social (MDS) / Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária (SARA), um banco de dados sobre as organizações comunitárias envolvidas no Programa.

beneficiários.

• Articular, junto aos órgãos governamentais, formas de atendimento, a fim de manter e aplicar as ações do Programa.

• Monitorar a operacionalização do Programa. O controle de qualidade do produto distribuído (leite pasteurizado).

• Proceder, coletas de amostras do leite pasteurizado para análise.

Os critérios adotados para a seleção dos municípios como beneficiários do Programa são: z Contar com a existência de organizações comunitárias organizadas juridicamente e

operacionalmente;

z Acesso fácil, durante todo ano, para o transporte do leite até o ponto de recepção e de distribuição comunitária.

Os requisitos que a organização comunitária deverá preencher são os seguintes: • Estar localizada na periferia das sedes, vilas ou povoados dos municípios selecionados; • Dispor de ponto de fácil acesso e segurança para o recebimento, armazenamento e

distribuição do leite ou coloca-lo à disposição nessas mesmas condições;

• Responsabilizar-se pelo recebimento, armazenamento e pela distribuição do leite;

• Promover a divulgação do Programa sem ônus para o Estado, beneficiárias e/ou fornecedores.

O cadastramento e a seleção da família beneficiada pelo Programa serão realizados pelas organizações comunitárias, em comum acordo com a Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária (SARA) e Centro de Abastecimento Alimentar de Pernambuco (CEASA/PE - O.S.), obedecendo, os seguintes critérios:

• Estar enquadrada em um dos critérios relacionados no item de Beneficiários do Programa; • O beneficiário só poderá ser cadastrado numa única entidade, havendo duplicidade, será

descredenciado de todas;

• A família não poderá ter renda maior que 01 (um) salário mínimo;

• Residir em até 02 (dois) quilômetros do ponto de recepção e de distribuição do leite destinado aos beneficiários do Programa;

• O beneficiário, no ato do cadastramento, receberá uma cartela que o identificará no local de distribuição. Na cartela serão registradas as entregas diárias de leite.

• Omitirem a verdade nas informações cadastrais;

• Não estiverem enquadrados dentro das características na seleção dos beneficiários; • Cederem seus direitos de beneficiários a terceiros, a qualquer título de negociação;

• A perda ou extravio da carteira sem justificativa acarretará no descredenciamento do beneficiário;

• É dever do beneficiário ou responsável cumprir as normas do Programa Leite de Todos; bem como manter um bom relacionamento com a direção da Entidade e responsáveis pela entrega do leite, sob pena de descredenciamento;

Retomando as considerações sinalizadas anteriormente, não podemos de deixar de perceber que ao serem adotadas essas iniciativas governamentais para implementação desses programas de segurança alimentar no Brasil, não se tem como único objetivo acabar com o espectro da fome, associado a esse discurso estão imbricadas lógicas governamentais que mesclam desde o mandonismo local e cooptação de lideranças comunitárias à fragilização e focalização das políticas públicas para a esfera do assistencial combinando a modernização conservadora no campo brasileiro com a “a proposta de distribuição de renda” e incremento do comércio local. Aqui observamos que se por um lado esses programas de segurança alimentar e transferência de renda proporcionam algumas conquistas de imediato para os segmentos mais empobrecidos da classe trabalhadora, por outro lado, o que se sinaliza mais fortemente é um ajustamento desses programas a ordem do capital, seja através da cooptação política de possíveis lideranças comunitárias, seja através do subsídio estatal para o financiamento das empresas envolvidas, ou do seu endividamento perante ao capitalismo financeiro.