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Projetos e perspectivas de modificações legislativas

CAPÍTULO I A SOCIEDADE INFORMATIZADA DO SÉCULO XXI E A

1.3. Aspectos legais do uso da Internet

1.3.2. Projetos e perspectivas de modificações legislativas

Seria impossível ao legislador contemplar, nos textos legais, todos os casos que se possam verificar em concreto na seara jurídica. Por este motivo, nos casos de lacunas na legislação, o próprio ordenamento dita os meios a supri-lo, cabendo ao Poder Judiciário o grande papel de apreciar a questão sob a alegação de falta de disposição legal quanto à matéria.

Não se concebe, porém, que os operadores do direito vejam-se obrigados a utilizarem, por longo lapso temporal, as fontes subsidiárias para a resolução dos problemas surgidos em decorrência dos fatos jurídicos. A necessidade de criação da norma pode ser indicada por diversos fatores, dentre estes, a conjectura econômica, política ou social do país.

Para Candido Rangel Dinamarco32, "pela primeira vez na história do

direito há a possibilidade da existência de normas de aplicação instantânea, que, ao invés de simplesmente proibirem um comportamento e estipular sanção para um certo ato, impeçam sua prática. Nada mais frustrante do que ver uma Lei desrespeitada por pura falta de coerção estatal".

Seria de bom alvitre uma análise profunda da atuação do legislador pátrio diante das inúmeras modificações que tem experimentado a sociedade brasileira nos dias de hoje, principalmente no que se refere a uma das maiores revoluções na área da comunicação em toda a história da humanidade: a Internet.

32 DINAMARCO, Candido Rangel. O Homem, o Direito e a Máquina,, 1995. Disponível em:

Sabe-se que algumas tentativas já foram feitas, outras se encontram em estágio embrionário, mas o certo é que se percebe a preocupação com as mudanças decorrentes do avanço da tecnologia da comunicação. Em 1999, como dito acima, foi editada uma lei que prevê a possibilidade do envio de petições para o Poder Judiciário, através de mensagens eletrônicas. E encontram-se, também, em tramitação no Congresso Nacional, como veremos abaixo, vários projetos-de-lei que versam sobre os mais variados assuntos, do spam ao comércio eletrônico, dos contratos via Internet aos crimes praticados na rede.

- Os Projetos de Lei n.º 1713/96 e n.º 3258/97, da Câmara Federal, dispõem sobre o acesso, a responsabilidade e os crimes cometidos nas Redes integradas de computadores, procurando caracterizar como crime a divulgação por essas Redes de material pornográfico ou informações que insitem ou facilitem o acesso a drogas ilegais. Um outro projeto também de 1997 (n.º 3692) dispõe sobre a publicação das listas de assinantes da Internet.

- O Projeto de Lei, PLS nº 331/99, que altera o art. 151 do Código Penal Brasileiro, para atualizar a tipificação do crime nele previsto e alterar respectiva pena.

- Os Projetos de Lei PLC n.º 65/2000 e PLS n.º 228/2000, que altera a lei 9.800/99, autorizando as partes a utilizarem sistema de transmissão de dados e imagens, inclusive fac-símile ou outro similar, incluindo a Internet, para a prática de atos processuais que dependam de petição escrita.

- O Projeto de Lei n.º 76/2000 em tramitação no Senado Federal, define e tipifica os delitos informáticos e dá outras providências, enquanto que o PLS n.º 137/2000 estabelece nova pena aos crimes cometidos com a utilização de meios de tecnologia de informação e telecomunicações.

- Projeto de Lei da Câmara Federal n.º 2937/00, que, alterando a Lei de Imprensa, proíbe as propagandas que incentivem ou divulguem a prostituição de menores, adolescente e adultos, nos meios de comunicação de massa, incluídos aí o telefone e a Internet.

- O PL n.º 2558/2000 acrescenta artigo ao Código Penal, punindo crime de violação de banco de dados eletrônico, invasão de Redes de comunicação eletrônica e, em especial, a invasão da Internet por parte dos hackers.

- O PL n.º 3360/00 que dispõe sobre a privacidade de dados e a relação entre usuários, provedores e portais em Redes eletrônicas.

- PL 3891/00 que prevê o registro de usuários pelos provedores de serviços de acesso à Redes de computadores, inclusive à Internet, obrigando os provedores desta a manterem registros de seus usuários e dados referentes a cada transação verificada na Rede. O objetivo deste projeto é solucionar o problema da identificação do usuário em caso de utilização ilícita da Rede nos crimes cometidos por hackers ou crakers.

- O PLS n.º 90/2001 dispõe sobre o registro de nomes de domínio na Internet brasileira, que contenham sexo ou violência.

- O PL n.º 4906/2001 que dispõe sobre o comércio eletrônico, secundando o PL n.º 1589/99, o qual, além de dispor sobre o comércio letrônico, trata da validade jurídica do documento eletrônico e da assinatura digital.

- PL n.º 5403/2001, que trata sobre o acesso à informações da Internet.

- Dois outros Projetos em tramitação na Câmara Federal (PLC n.º 95/2001 e PLC n.º 71/2002) alteram o Código de Processo Civil, para admitir as decisões disponíveis em mídia eletrônica (inclusive na Internet) entre as suscetíveis de prova de divergência jurisprudencial, dispondo também sobre a informatização do processo judicial.

- O PL n.º 7093/2002 dispõe sobre a correspondência eletrônica comercial e o PL 6210/02 limita o envio de mensagem eletrônica não solicitada (SPAM).

- Dois projetos importantíssimos cuidam da identificação dos protagonistas da Rede, os PL n.º 4972/01 e n.º 6557/02. O primeiro exige que os provedores de acesso à Internet realizem o cadastro das contas dos usuários, de forma a permitir a identificação e definir a política de uso do serviço prestado, enquanto que o segundo trata da identificação dos participantes das salas de bate-papo (chats) ou encontros virtuais.

- Vários outros projetos tratam de adaptar o Estatuto da Criança e do Adolescente às novas formas de práticas criminosas pela Internet, principalmente imagens ou quaisquer outros atos ou conteúdos pornográficos envolvendo crianças e adolescentes. Outro Projeto de Lei, PL nº 148, trata da assinatura digital e fatura eletrônica. Os temas de ambos os Projetos de Leis correspondem a aspectos fundamentais para a validade jurídica dos documentos formulados e subscritos na Internet.

Pelo que se observa, as medidas do legislativo, adotadas até o momento, contudo, revelam-se absolutamente insuficientes para atribuir solidez às relações travadas por meio da Rede. Contudo, como veremos no decorrer do presente trabalho, diversos diplomas legais em vigor podem perfeitamente adaptar-se às relações decorrentes do uso da Internet.

Entendem alguns estudiosos que, com a superveniência de normas com a função teleológica de impor maior fiscalização e maior controle sobre as operações na Internet, pode resultar na ineficácia da lei correspondente. Isso decorrerá, com certeza, dos novos aspectos apresentados por essa forma revolucionária de comunicação, que tem colocado em polvorosa não só o mundo econômico, mas também o político e o jurídico.

Se o Brasil resolver o problema de adaptação da legislação, diminuindo a defasagem com relação à política legislativa dos países de expressão mercadológica internacional, aí então haverá um ajustamento favorável e salutar.

Outro aspecto que merece destaque no presente estudo (vide item 1.3.3), refere-se aos crimes praticados através da Internet. Alguns dos atos ilícitos e típicos efetivados na Rede podem ser caracterizados como crimes previstos no vigente Código Penal Brasileiro. Contudo, os constantes ataques de hackers representam estado de alerta para todos aqueles que se utilizam da Rede, tanto do ponto de vista educativo, quanto mercantil. Ataques clandestinos aos dados de empresas, corporações ou até de pessoas físicas podem trazer inúmeras implicações a todo o universo jurídico.

Assim, no nosso caso, cabe ao Poder Legislativo brasileiro importante papel na regulamentação das relações celebradas por meio da Internet, nos seus mais diversos aspectos, nas suas variadas formas de utilização. A inexistência de leis específicas, adaptadas às peculiaridades dessa nova forma de comunicação, inevitavelmente

aumentará a incidência de pedidos de reparação de danos e a provocação de procedimentos criminais, por conta das imprecisões e das lacunas pertinentes à matéria.

Um dos maiores problemas que já está afetando fornecedores e consumidores da Internet é a questão internacional, quando surge o dilema: aplicar a legislação alienígena ou a nacional numa compra realizada por internauta brasileiro a fornecedor estrangeiro ? Na medida em que as relações vão surgindo com o uso da Internet, fronteiras se rompem, havendo maior necessidade de se recorrer a regras de Direito Internacional para solução dos conflitos.

Pergunta-se: no estágio atual, o Direito Internacional está devidamente adaptado para resolver todos esses problemas ? Haverá necessidade de criação de tribunais supranacionais para solução dos litígios decorrentes do uso da Internet ? Como as mudanças na área da Informática e da Internet acontecem de forma veloz, é bom que estejam todos os profissionais do Direito preparados para debater e buscar soluções para esses questionamentos.

O mundo virtual, em seu atual estágio de evolução, não se conforma com as normas existentes no mundo físico. Porém, o mundo físico não pode esperar que a sociedade virtual evolua até que as leis sejam entendidas como algo necessário também no ciberespaço, salienta o estudioso do mundo virtual, Omar Kaminski33.

Segundo ele, a novíssima área e futura disciplina, o “Direito da Internet”, deve encorajar e conduzir estudos sobre valores éticos e questões legais relativas ao ciberespaço, incluindo a liberdade de expressão, proteção da privacidade, segurança dos dados pessoais, o domínio público e a utilização moderada, a propriedade intelectual, a violência, o racismo, a pedofilia e a consequente aplicação dos direitos humanos fundamentais no ciberespaço.

No texto " Navigando nel web, con partenza da Tar on line" citado por Kaminski, o magistrado italiano Francesco Brugaletta fala sobre a revolução jurídica que se aproxima, alertando que, na prática, todos os sujeitos e protagonistas do mundo da

33 KAMINSKI, Omar. A esfinge do Ciberespaço desafia o mundo jurídico. Revista Eletrônica Consultor

justiça, da administração pública e do legislativo, estão conectados a alguma Rede. Isto fará com que aumente a presença de dados jurídicos globais com suas revolucionárias características: imediatidade, tempo real, interatividade, baixo custo, acessibilidade a todas as coisas via Internet. Em outras palavras, está em curso a nova idéia apregoada por Negroponte, como “processo di disintermediazione”.

Com a revolução digital contínua e a Internet tornando-se cada vez mais popular, alguns mais afoitos já apontam o Direito da Internet (Cyberspace Law ou

Cyberlaw) como emergente dessa nova área especializada. Como categoria acadêmica, o

Direito da Internet pode ser chamado também de Direito da Informação, e algumas disputas podem se dar também no campo das Telecomunicações e da Multimídia.

Uma característica importante do pretenso “Direito da Internet”, segundo esses estudiosos, é sua natureza e abrangência internacional. O Ciberespaço apresenta um enfoque internacional e a Internet é uma entidade global. A World Wide Web, por exemplo, permite às pessoas que, literalmente, sejam transferidas de um site brasileiro para um outro situado, por exemplo, na Ásia a um clique do mouse, abrindo diversas janelas, cada uma contendo um site de um país diferente.

O correio eletrônico ou e-mail pode ser enviado para outros continentes tão facilmente quanto pode ser enviado ao vizinho de apartamento. Tipicamente não há como se fazer previsão de quais divisas internacionais poderão ser atravessadas virtualmente, pois uma mensagem pode atravessar muitas fronteiras até chegar ao seu destinatário final.

Diante das implicações nacionais e internacionais, os estudos dos internacionalistas devem rumar para uma análise de quais instrumentos legais poderão ser aplicados ao caso concreto e se é possível promover a adoção de princípios básicos de democracia, soberania, leis e tratados internacionais.

A comunidade jurídica inevitavelmente irá tornar-se cada vez mais envolvida pelo ciberespaço. Leis serão propostas, ações serão ajuizadas e importantes decisões serão gradativamente proferidas, adaptando as disposições legais existentes aos inevitáveis acontecimentos verificados no mundo cibernético.