2. DO AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE
3.3. Proposta procedimental
Ultrapassadas as questões pertinentes aos fundamentos da aplicação do princípio da insignificância pelo Delegado de Polícia, propor-se-á um procedimento a ser seguido pela Autoridade Policial quando da utilização do postulado em comento.
Ao tomar conhecimento da prolação da voz de prisão pelo condutor, através da condução do flagranteado à Delegacia, deve a Autoridade Policial realizar uma investigação prévia e sucinta, através de conversas informais com o condutor, testemunhas, conduzido, vítima, dentre outras pessoas que tenham algum conhecimento do fato.
Percebendo que se trata de um crime de bagatela, por força de todos os motivos expendidos neste trabalho, deverá aplicar o princípio da insignificância, liberar o conduzido, não lavrar o Auto de Prisão em Flagrante e,
por corolário, não instaurar inquérito policial, fazendo-se premente a confecção de um Termo Circunstanciado para documentar o ocorrido e informar o Ministério Público.
Primeiramente, realizará a oitiva de todos os envolvidos: condutor, testemunhas, vítima e conduzido. O condutor e as testemunhas serão oitivados em Termo de Depoimento, devendo prestar compromisso, ao passo que a vítima e o conduzido não o prestarão. Quanto ao último, não será ouvido em Termo de Qualificação e Interrogatório, já que não será indiciado, mas em Termo de Declarações, assim como a vítima. Empós assinarem os respectivos depoimentos, todos serão liberados.
Em seguida, elaborará uma decisão devidamente motivada elencando os motivos fáticos e jurídicos que ensejaram a incidência do princípio da bagatela ao caso em prejuízo da lavratura do Auto de Prisão em Flagrante.
A referida decisão será acostada aos depoimentos tomados, perfazendo o Termo Circunstanciado, que será remetido ao Ministério Público, o qual poderá tomar as seguintes providências: ofertar denúncia com as informações do Termo, requisitar diligências, requisitar instauração de Inquérito Policial, situação em que o Delegado ficará jungido, e, por fim, quedar-se inerte, caso compartilhe com o entendimento da Autoridade Policial.
Vale ressaltar que, mesmo na hipótese de o membro do Parquet requisitar a instauração de inquérito, o princípio da liberdade ainda será atendido, uma vez que o autor do fato permanecerá em liberdade. Igualmente, se a ação penal for intentada com base nas informações constantes do Termo Circunstanciado, o autor também responderá em liberdade.
Como visto, o Delegado não se imiscui nas atribuições do Ministério Público, no sentido de que, ao aplicar o princípio da insignificância, estará arquivando o inquérito policial. Ora, se ao utilizar tal postulado, a Autoridade Policial não lavrará o Auto de Prisão em Flagrante e, consequentemente, não instaurará Inquérito, como poderá arquivá-lo?
Trata-se de hipótese de não instauração de inquérito em razão da insignificância do resultado ou da baixa ofensividade da ação, não de
arquivamento de Inquérito Policial pelo Delegado como preconizam alguns autores.
Por outro lado, o Ministério Público terá ciência do fato através do Termo Circunstanciado a ser lavrado pelo Delegado, podendo adotar as providências que entender cabíveis, como demonstrado supra.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Analisando-se tudo o que foi expendido no decorrer deste trabalho, conclui-se pela possibilidade de aplicação do princípio da insignificância pela Autoridade Policial ao invés de ratificar a voz de prisão proferida pelo condutor.
Ao assim proceder, o Delegado evita uma verdadeira atrocidade, qual seja, o encarceramento de uma pessoa que sequer praticou um crime, uma vez que ausente a tipicidade material, requisito essencial para a configuração do delito.
A aplicação do princípio da bagatela pela Polícia Judiciária é medida que se impõe, em razão do postulado constitucional da liberdade, além de prestigiar a dignidade humana.
Em outra banda, evita-se a instauração desarrazoada de inquéritos policiais, reduzindo a quantidade de feitos policiais e contribuindo para a elucidação de crimes de maior gravidade, pois os investigadores terão condições de dedicar-se com maior afinco a estes. Auxilia, também, o Poder Judiciário, na medida em que menos inquéritos lhes serão remetidos, diminuindo o número de processos criminais.
Não há o que se falar em arquivamento de inquéritos pelo Delegado, porque, ao não lavrar o Auto de Prisão em Flagrante, sequer será instaurado o procedimento inquisitório. Além disto, o Parquet será informado do fato através do Termo Circunstanciado que lhe será remetido, podendo, inclusive, propor ação penal, se entender necessário.
Inadmissível a resistência oposta pela doutrina no que tange à utilização do princípio da bagatela pelo Delegado, pois este possui plenas condições para tanto, além de enaltecer os postulados constitucionais de maior relevo: a liberdade e a dignidade da pessoa humana.
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