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A PROVÍNCIA DAS MINAS: DO OURO, DO DIAMANTE E DA

No documento javerwilsonvolpini (páginas 36-42)

2 A MULHER NO MODELO BRASILEIRO DE SOCIEDADE

2.3 A PROVÍNCIA DAS MINAS: DO OURO, DO DIAMANTE E DA

Na capitania de Minas Gerais, tivemos uma presença mais tímida de mulheres livres no início de sua colonização, visto que a grande importância das terras mineiras no cenário colonial se deu, principalmente, a partir de finais do século XVII e se intensificou durante o século XVIII, com a descoberta de ouro e diamantes. Segundo Luciano Figueiredo (2015) foram das distantes minas das gerais que vieram a segurança e a soberania de Portugal numa época de intensas disputas entre as principais nações europeias.

Assim, antes do início do século XIX, nosso recorte temporal para o objeto de estudo, não podemos deixar de perpassar o momento mais importante dessa região no fortalecimento de Portugal, por meio de suas riquezas naturais que atraíram a atenção de toda a Colônia, estabelecendo uma grande migração de muitos colonizadores ávidos pelo enriquecimento repentino, prometido pelas novas descobertas. Diante disso, cabe-nos apresentar as investigações acerca da participação das mulheres nesse processo, compilando historicamente sua presença nessa sociedade.

Para Figueiredo (2015, p. 142), em Minas Gerais, as mulheres “estiveram excluídas de qualquer exercício de função política nas câmaras municipais, na administração eclesiástica, proibidas de ocupar cargos da administração colonial que lhes garantissem reconhecimento social”. Isso corrobora com o papel da mulher na sociedade colonial do Brasil, reproduzindo o que se conhecia na Metrópole. Embora seja observada por esse historiador a presença de algumas mulheres proprietárias de terra nesse período, ele assinala uma participação de grande diferença em relação aos homens: de uma mulher para cada 35 homens que receberam sesmarias em Minas. “Mesmo assim, para que recebessem terras, além das exigências habituais

10 O Segundo Reinado no Brasil durou de 1840, com a declaração de maioridade de D. Pedro II, até

1889, com a queda da monarquia e a proclamação da república. Essa foi uma época de grande progresso cultural e de grande significância para o Brasil, com o crescimento e a consolidação da nação brasileira como um Império independente e como importante membro entre as nações americanas. Ocorreram mudanças profundas na esfera social, como a gradativa libertação dos escravos e o incentivo da imigração europeia para se juntar à força de trabalho brasileira. Nesse período, houve a expansão da urbanização das grandes cidades e a construção das estradas de ferro, além da introdução dos telégrafos elétricos que interligavam as províncias brasileiras e demais países sul-americanos.

que se fazia aos homens, como possuir número considerável de escravos, das mulheres era exigido o consentimento do pai ou do marido” (FIGUEIREDO, 2015, p. 143). Sua “independência” estaria sempre submetida à chancela de uma figura masculina.

Por outro lado, é possível observar uma maior participação econômica e social das mulheres em Minas Gerais, principalmente nas camadas menos favorecidas, onde sua presença se tornava muito mais expressiva, atuando em diversos setores, tradicionalmente reservados a elas, como cozinheiras, costureiras, fiandeiras, rendeiras, doceiras e também parteiras. Isso mudou um pouco, quando confirmamos uma atuação mais forte de outras mulheres como roceiras em pequenas propriedades, atividade geralmente desempenhada pelos homens, mas que em Minas Gerais, principalmente na passagem do século XVIII para o XIX, com o declínio da mineração, passa a ser exercida fortemente por elas. Assim, era comum encontrar “mulheres criando gado, aves, produzindo queijos, aguardente e pão” (FIGUEIREDO, 2015, p. 143). Diversos relatos de viajantes do século XIX sobre a província de Minas Gerais apresentam essa atuação feminina no setor agropecuário, indo em desacordo com a percepção da mulher reclusa ao lar, ocupada apenas com os afazeres domésticos, pontuados em outras áreas da Colônia.

A busca pelo ouro e pedras preciosas em Minas Gerais possibilitou uma conturbada colonização de caráter mais urbano por meio da formação de muitas vilas, nas cercanias do caminho de escoamento dessas riquezas até o porto de Parati, no Rio de Janeiro. Nesses espaços urbanos, desenvolvidos sem nenhum planejamento, carentes de quase tudo e desprovidos de organização social, observamos uma província tão rica, mas, ironicamente, composta por uma população bastante pobre quando comparadas às grandes famílias patriarcais do nordeste brasileiro. Nesse cenário, veremos florescer muitas atividades desenvolvidas por mulheres em busca de seu próprio sustento e de sua família, em muitos casos, recebendo o aval do chefe da família, marido ou pai.

Foi comum na Vila Rica11 do século XVIII a expansão de pequenas vendas e tabernas comandadas por mulheres, em grande parte negras forras, em um ambiente marginal e de circulação de todo tipo de gente. “Nas vendas, muitas delas dirigidas por mulheres, diferentes grupos sociais se reuniam para beber e se divertir; em seu interior escondiam-se atividades escusas como contrabando de ouro e pedras, abastecimento de quilombos e prostituição”

11 Atual cidade de Ouro Preto, Vila Rica foi a capital da Província de Minas Gerais desde 1720 e ficou

muito conhecida por ser a sede da Inconfidência Mineira. Devido à sua importância econômica para a Colônia, com a extração do ouro, recebeu de D. Pedro I, em 1823, o título de Imperial Cidade de Ouro Preto, tendo se tornado um importante centro urbano em Minas Gerais. Continuou sendo também a capital do atual Estado mineiro até 1897, quando então, perde o posto para a recém-criada Belo Horizonte.

(FIGUEIREDO, 2015, p. 153). Aliás, a prostituição em Minas Gerais foi um problema muito sério em torno das atividades de mineração, em que muitas negras e mulatas, cativas ou forras, se viam obrigadas a sucumbir, seja por imposição de seus proprietários, enquanto escravas, como mais uma fonte de exploração escravagista, ou por necessidade de sustento para mulheres alforriadas.

Se o binômio miséria e exclusão do mercado de trabalho transforma o cotidiano da sobrevivência das mulheres num verdadeiro inferno, oferece também a medida exata de sua enorme capacidade de luta e resistência naquela sociedade. Muitas mulheres precisaram adotar a prostituição como estratégia de sobrevivência e manutenção de suas unidades domésticas. Também homens, incapazes de prover seus lares como pais ou padrastos, negociavam suas filhas e dependentes (FIGUEIREDO, 2015, p. 163-164).

A verdade é que, numa sociedade composta por muitos aventureiros que ali se encontravam de passagem, essa prática fez crescer, tanto nas principais cidades como Vila Rica e Tijuco12, como em outras vilas, a exemplo de Barbacena e São João del-Rei, uma atividade que proporcionou um grande número de crianças enjeitadas e homens arruinados, fruto dessa miséria social, que representava a prostituição em solo mineiro.

Ainda a respeito da prostituição, numa outra ponta dessa atividade, vale ressaltar a título de curiosidade, que oriundo dela tivemos duas expoentes “personagens” femininas da história mineira do século XVIII e XIX: Chica da Silva, no Tijuco, negra que viveu em concubinato com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, mais rico súdito da coroa portuguesa, levando vida de rainha; e a cortesã Anna Jacintha de São José, de Araxá, conhecida como Dona Beja, que teve influência política junto ao ouvidor Dom Joaquim Inácio Silveira da Mota, na reintegração do Triângulo Mineiro à jurisdição de Minas Gerais, em 1816. Ambas foram biografadas, com suas histórias romanceadas em registros do escritor mineiro Agripa Vasconcelos sob os títulos Chica que manda (1966) e A vida em flor de Dona Beja (1957).

Mas, além dessas exceções, nos perguntamos: onde estavam as mocinhas e sinhás nas terras de Minas Gerais? Grande parte da história mineira tem origem nos relatos dos viajantes estrangeiros que visitaram as diferentes regiões dessa província tão grande em extensão territorial. Aliás, esse fator oferece uma enorme oscilação entre o perfil social, econômico e cultural, apresentando variações também na atuação das mulheres mineiras dessas regiões. Não podemos pensar na presença dessas mulheres no seio da família mineira sem entender as

12 Atual cidade de Diamantina, o Tijuco foi outro importante centro urbano mineiro do período colonial,

desenvolvido graças à descoberta de diamantes que, junto à extração aurífera, representou uma das maiores riquezas da Colônia.

relações de casamento nessa província. Por se tratar de instituição bastante onerosa naquela época, as uniões consensuais dominavam grande parte da Colônia e mais ainda nas cidades mineiras, caracterizadas por uma população flutuante e transitória de diversas origens. O viajante francês Auguste de Saint-Hilaire fez este registro em suas viagens a Minas:

Uma das causas que contribuem principalmente para o empobrecimento dessa capitania é o desprezo que aí se tem pelos laços de família. Os casamentos lá são raros, e levados a ridículo, o que provêm, claramente, da imoralidade dos antigos colonos. Os brancos vivem na devassidão com mulheres de cor e índias; interessam-se pouco pelos filhos que nascem dessas uniões momentâneas, e não procuram aumentar um patrimônio que devem deixar a colaterais. Suas amantes, sabendo que não podem contar com uma longa afeição, tratam de se aproveitar do ascendente que exercem sobre eles, e acabam de arruiná-los (SAINT-HILAIRE, 1974a, p. 238).

Por todo o século XVIII, a Igreja católica tentou regular a vida em família, repreendendo as uniões ilegítimas, visando uma tentativa da própria Coroa Portuguesa em manter seu poderio nas mãos de “raças puras”, expressa pelos brancos portugueses. Outra grande dificuldade para isso era a existência de poucas mulheres nessas condições em solo mineiro, multiplicando a mestiçagem entre homens brancos e mulheres negras e ou mulatas.

Observamos a presença da mulher aristocrática mais nas dependências dos lares responsáveis pela administração das cidades, como dos intendentes, alferes e outras patentes representantes do poder de Portugal. Novamente nos relatos de viagem de Saint-Hilaire, encontramos nas regiões mais ricas de Minas, como o Tijuco, a presença de mulheres representantes de uma elite com maior sociabilidade.

[...] chegamos enfim à capital do Distrito dos Diamantes. Como procediam a reparos no edifício da Intendência o Sr. da Câmara tinha sido obrigado a passar para uma casa que apenas dava para sua família; fui então hospedado em um prédio outrora habitado pelos intendentes do Distrito, mas as refeições eu ia fazer em casa do Sr. da Câmara [...]. A senhora da Câmara, mulher de modos distintos, fazia as honras da casa. Ela e suas filhas não se escondiam nunca; comiam conosco e, adotando os hábitos europeus, admitiam o convívio dos homens (SAINT-HILAIRE, 1974a, p. 32).

Em outros relatos de suas viagens, por volta do ano de 1816, Saint-Hilaire (1974b) registra o contrário na cidade de Vila Rica. O naturalista pontua a ausência da sociabilidade feminina, dizendo ter tido apenas uma oportunidade de observá-las em uma noite de baile no palácio do governador, reafirmado os modos da mulher aristocrática mineira não deixar a desejar aos das europeias: dançaram, tocaram e cantaram, proporcionando uma noite muito

agradável. No entanto, nos dias seguintes, em tantas visitas feitas aos maridos, não mais avistou sequer uma dessas senhoras em suas casas. Registrou que as sinhás e mocinhas de Vila Rica não se exibiam frequentemente.

Apesar da Igreja não conseguir manter a tutela de toda a constituição familiar em Minas Gerais, observamos que a influência religiosa foi muito grande na difusão dos valores cristãos, o que corroborava para o pensamento da mulher virtuosa e recatada, submissa ao marido conforme observado em toda a Colônia. A maior movimentação social girava em torno das festas religiosas, tanto nos domínios urbanos quanto nas fazendas. Era nessas festividades que as mulheres mineiras mais se mostravam na sociedade.

Com o declínio do ciclo do ouro, já entrando no século XIX, houve uma transformação na economia mineira por atividades que aconteciam paralelamente, quando os proprietários de terra que ali haviam se estabelecido tiveram que reinventar para permanecerem em seus domínios. Assim, Minas Gerais, que se desenvolveu em função da extração aurífera, teve que adaptar suas atividades econômicas para a agricultura e a pecuária. Foram muitos os fazendeiros no início do século XIX que fizeram fortuna com essas atividades, voltadas tanto para a subsistência interna da própria Província, quanto para abastecer às necessidades de consumo de gêneros alimentícios outras regiões do Reino, como a corte do Rio de Janeiro e a província de São Paulo.

Diferente do que vimos até aqui, em Minas foi muito comum, no século XIX, encontrar mulheres como chefes de famílias. Embora isso tenha ocorrido em famílias com menos recursos, há relatos históricos de grandes sinhás gerindo os negócios com mãos de ferro. Um caso conhecido e objeto de muitos estudos é o de Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco, casada com o Capitão Inácio de Oliveira Campos e que se tornou uma grande matriarca da passagem do século XVIII para o XIX em Minas Gerais, ficando conhecida como Dona Joaquina de Pompéu, também biografada e romanceada por Agripa Vasconcelos, como Sinhá Braba (1966).

Em meados de 1790, Dona Joaquina administrava cerca de dez fazendas na região da Vila de Pitangui e na Vila de Paracatu do Príncipe, além disso, cuidava da comercialização dos produtos de suas fazendas. [...] Desde o início do casamento percebemos que Dona Joaquina auxiliava seu marido no trato das propriedades, no entanto, é a partir da mudança para a fazenda do Pompéu que a matriarca passa a cuidar com maior autonomia dos negócios da família. Em 1795 capitão Inácio é acometido por uma doença e fica de cama até o seu falecimento em 1804. Após o falecimento do marido Dona Joaquina não contraiu segundas núpcias, viveu sozinha até 1824 quando faleceu (OLIVEIRA, 2011, p. 3).

Era recorrente, em Minas, que as mulheres viúvas continuassem os negócios do marido após seu falecimento, prosperando na missão de chefiar a casa e gerenciar os bens da família. Essas mulheres, ao assumirem o comando dos negócios na ausência da figura masculina, não abdicavam de suas atividades na administração do lar, nem no cuidado com a educação dos filhos. Foram essas características que destacaram em histórias como a de Dona Joaquina e que se repetiam em muitas outras regiões da província. Alguns estudos têm apontado que na Zona da Mata Mineira, durante o século XIX, algumas fazendas prosperam com o cultivo de café, sob a responsabilidade de muitas sinhás viúvas, corroborando com o conceito de matriarcado apresentado por Freyre (1977), ainda que de forma bastante isolada.

A cidade do Paraibuna da primeira metade do século XIX, atual Juiz de Fora, oferece dois exemplos dessas matriarcas, ambas na família dos Ferreira Lage. Uma delas foi a Baronesa de Sant’Ana (?-1870), mãe de Mariano Procópio Ferreira Lage, um dos responsáveis pela construção da Estrada União Indústria, ligando Petrópolis a Juiz de Fora.

Conhecida entre os sobrinhos pelo apelido “Tia Maria Gorda”, ela é o exemplo cabal da mulher oitocentista das ilustres famílias proprietárias de terra, a aristocracia rural do Brasil no século XIX: concentrou suas forças no cuidado com a família e, na viuvez, com a administração da Fazenda Fortaleza de Sant’Ana. Fazenda próspera (dedicada às culturas do café e cereais, e à pecuária), cuja produção obteve medalhas em exposições nacionais e estrangeiras (GOMES, 2009, p. 36).

Assim como a Baronesa de Sant’Ana, sua nora Maria Amália Coelho de Castro Ferreira Lage (1834-1914), oriunda de importante família da elite do café fluminense e esposa de Mariano Procópio Ferreira Lage, também assumiu os negócios da família após a morte do marido.

A sua vida foi dedicada aos cuidados com a família, à filantropia, à sua aptidão para a música e para a pintura. No seio da elite juiz-forana ela brilhou no solar de seu marido, um dos locais mais interessantes de nossa cidade da época que, a partir de 1861, tornou-se cenário de encontros sociais e artísticos frequentados também por estrangeiros. A morte de seu marido, em 1872, obrigou-a a gerenciar diretamente o patrimônio familiar e a educação dos seus dois filhos ainda vivos, Frederico e Alfredo, a qual foi completada na Europa, residência dessa pequena família por alguns anos antes de retornarem para Juiz de Fora (GOMES, 2009, p. 36-37).

Esse perfil de mulher na província de Minas Gerais representa algumas das mudanças que serão um pouco mais acentuadas a partir da segunda metade do século XIX, quando será possível observar, tanto na elite agrária, quanto nas famílias urbanas, muitas mulheres

recebendo um tipo de educação, antes privilégio apenas do sexo masculino. Isso possibilitou uma formação feminina mais atuante do que vimos apresentando até agora, principalmente com ecos oriundos da Corte do Segundo Reinado.

Entre as mineiras também localizamos muitas mulheres de destaque, que contribuíram com as letras naquela Província, sendo a maioria delas também silenciada pela cânone literário. Sobre essas escritoras mineiras a mais conhecida talvez seja a poetiza Bárbara Heliodora13, com uma atuação mais presente ainda no século XVIII, mas também podemos citar a herdeira dos Brandão, Beatriz Francisca de Assis Brandão14, cuja família se tornou bastante conhecida em Minas devido às estreitas relações com a família imperial e Emília Augusta Gomide Penido15, grande colaboradora do Jornal das Famílias.

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