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PSICOLINGUÍSTICA EXPERIMENTAL

No documento carolinagarciadecarvalhosilva (páginas 87-91)

5 METODOLOGIA

5.2 PSICOLINGUÍSTICA EXPERIMENTAL

A Psicolinguística Experimental busca entender quais processos envolvem a produção, a percepção e a compreensão das línguas naturais, criando hipóteses para explicar como ocorre o processamento linguístico na mente humana. Nesta perspectiva, os fenômenos linguísticos são estudados “do ponto de vista da execução pelos falantes/ouvintes a partir de seu aparato perceptual/articulatório e de seus sistemas de memória” (LEITÃO, 2008, p. 221). De acordo com o objetivo da pesquisa, a Psicolinguística utiliza princípios metodológicos específicos, ou seja, experimentos com foco na produção, na compreensão ou na percepção da linguagem, que têm por finalidade acessar, ainda que de modo indireto, os procedimentos mentais envolvidos durante o processamento linguístico.

Existem basicamente dois tipos de experimentos utilizados pela Psicolinguística: on-line e off-line, denominados também cronométricos e não cronométricos (DERWING & ALMEIDA, 2005). Os primeiros têm por objetivo medir as reações ocorridas no momento exato em que o processamento está ocorrendo; por exemplo, toma-se como medida o tempo de reação enquanto a leitura ou a audição de estímulos linguísticos está se desenvolvendo. Por outro lado, os experimentos off-line tomam como medida a reação depois de o processamento linguístico ter sido finalizado; por exemplo, avaliam-se respostas após o indivíduo ter lido ou escutado um estímulo. Garrod (2006) afirma que as técnicas on-line e off-line são complementares. De acordo com o objetivo do estudo, deve-se eleger uma ou outra, ou mesmo usar resultados de ambas.

Ainda segundo Garrod (2006), uma outra classificação entre as técnicas experimentais se refere à natureza das variáveis utilizadas: comportamentais ou neurofisiológicas. As primeiras estão relacionadas, por exemplo, ao movimento dos olhos durante a leitura, tempo de reação, tempo de resposta a uma pergunta, etc.; as últimas, à atividade cerebral durante o processamento linguístico.

Nesta tese, foram elaboradas três atividades experimentais com foco na compreensão, medindo variáveis comportamentais. O primeiro experimento usou a técnica off-line de julgamento de sentenças, e os dois últimos, a tarefa on-line de escuta automonitorada. Em conjunto, as atividades experimentais realizadas poderão trazer evidências do comportamento dos ouvintes diante das pistas prosódicas.

5.2.1 Julgamento de Sentenças

Segundo Derwing e Almeida (2005), tarefas de julgamento de gramaticalidade de sentenças passaram a ser amplamente utilizadas a partir da ascendência da teoria gerativa, entre as décadas de 50 e 60. Posteriormente, a técnica de julgamento passou a ser usada nos estudos não só da sintaxe, mas também da semântica, da morfologia e da fonologia. Um dos problemas apontados pelos autores, neste tipo de tarefa, é o enfoque em julgamentos metalinguísticos, “que são geralmente conscientes e analíticos, ao invés de tarefas mais veladas (supostamente inconscientes) e que requerem menos o uso de processos cognitivos, típicas dos testes cronométricos” (DERWING & ALMEIDA, 2005, p. 406). Para minimizar

essa desvantagem, o pesquisador deve recorrer a duas estratégias: (i) escalas de julgamento, cujos aspectos e dimensões devem se adaptar ao fenômeno linguístico investigado; (ii) rótulos adequados para os participantes do experimento, que não são especialistas, evitando-se termos técnicos.

No presente trabalho, o desafio foi adaptar a técnica, adequando-a ao estudo da prosódia e ao objeto de estudo em questão. Foi proposto um teste que avaliou a oposição entre a prosódia neutra e a prosódia informativa, tendo como apoio uma escala em que os participantes deveriam decidir, para cada frase escutada, se era uma fala natural, pouco natural ou não natural. Dessa forma, evitamos rótulos que pudessem complicar a execução da tarefa, ao mesmo tempo em que não deixamos evidente para os participantes qual era o objeto de estudo do experimento.

5.2.2 Escuta automonitorada

Originalmente, a técnica self-paced reading (leitura automonitorada) foi concebida para se testar a compreensão de enunciados escritos. Essa técnica sofreu adaptações e passou a ser usada também com estímulos auditivos: self-paced listening (escuta ou audição automonitorada). A concepção básica da técnica, tanto com estímulo escrito, quanto auditivo, é a de que o sujeito deve controlar o tempo de leitura/escuta de um texto ou frase previamente segmentado, sendo utilizada, sobretudo, no estudo de análise sintática, compreensão de discurso, resolução de anáforas, dentre outros (GARROD, 2006, p. 253). O modo como o texto/frase é segmentado dependerá, portanto, do objetivo do pesquisador (RAYNER & CLIFTON, 2002).

Kenedy (2011, p. 77) faz um quadro resumo da técnica de leitura automonitorada, descrevendo todas as etapas desse tipo de experimento. Adaptamos a seguir o mesmo quadro, fazendo as alterações necessárias para descrever o paradigma de escuta automonitorada, que foi a técnica utilizada no desenvolvimento da presente pesquisa. Deve-se considerar que o participante está sozinho em uma sala silenciosa, diante de um computador e usando fones de ouvido:

1 O sujeito participante do experimento pressiona uma tecla no computador.

2 Com o acionamento da tecla, o primeiro segmento X de uma frase começa a tocar.

3 O sujeito escuta X conforme a velocidade natural de escuta.

4 Ao concluir a escuta de X, o sujeito pressiona novamente uma tecla no computador.

5 Com esse novo acionar da tecla, X deixa de ser tocado e o segundo segmento Y se inicia.

6 O sujeito passa à escuta de Y e repete os procedimentos citados até que todos os segmentos da frase sejam ouvidos.

7 Após a escuta do último segmento da frase, aparece na tela uma pergunta de caráter interpretativo sobre o conteúdo do que acabou de escutar.

8

Após a emissão de sua resposta, quase sempre uma opção entre “sim” ou “não”, o sujeito pressiona mais uma vez uma tecla no computador para dar início ao primeiro segmento de uma nova frase.

9 Todo o procedimento citado é repetido até que todas as frases do experimento sejam ouvidas pelo sujeito.

10 Após a resposta à última pergunta do experimento, uma frase de agradecimento é apresentada na tela do computador e o teste é encerrado.

Quadro 4: A técnica self-paced listening - adaptado de Kenedy (2011, p. 77)

Acrescente-se que o tempo de escuta de cada trecho das frases é computado. O pesquisador deve eleger quais trechos serão relevantes para o estudo, fazendo a análise estatística das comparações entre as médias obtidas.

Uma crítica feita ao uso dessa técnica no estudo da prosódia é o fato de o estímulo linguístico ser segmentado, interrompendo o contínuo da fala. Apesar dessa relativa falta de naturalidade durante a escuta da frase, a vantagem de se usar esse paradigma é a possibilidade de se obterem medidas de tempo bastante precisas do(s) trecho(s) crítico(s) em uma sentença. No estudo desenvolvido para esta tese, com sentenças potencialmente ambíguas, podemos ter a medida do ponto de mismach, isto é, no momento exato em que há um desencontro entre a

estrutura prosódica e a sintática, usando a técnica de escuta automonitorada. Além disso, diversos trabalhos na área de prosódia já a usaram satisfatoriamente (FERREIRA et al., 1996; DEDE, 2010; ARAÚJO, 2011; FONSECA, 2012), o que justifica seu emprego neste trabalho.

No documento carolinagarciadecarvalhosilva (páginas 87-91)