5.2 A EPISTEME DO OBSERVADOR
QUADRO 5.2 EPISTEME DO RACIOCÍNIO COMPLEXO DO OBSERVADOR
A descrição dos três raciocínios epistemológicos dar-se-á através de três momentos: um primeiro no qual caracterizam-se os recursos cognitivos do raciocínio; um segundo momento apresenta a natureza da realidade apreendida por estes recursos e por fim apontam-se as implicações da transição paradigmática provocadas por estes raciocínios na episteme e na cognição do próprio observador, criando o domínio lingüístico da episteme cognitiva, ou seja, aquela episteme que não só serve de premissa para o racional, mas também como fonte de aprendizagem e transformação do espírito do observador.
5.2.1 - O RACIOCÍNIO ESTRATÉGICO
1.
O RACIOCÍNIO ESTRATÉGICO CARACTERIZA-SE PELA CAPACIDADE COGNITIVA DE IDENTIFICAR RISCOS E OPORTUNIDADES AMBIENTAIS NA FORMULAÇÃO E ADEQUAÇÃO DE ESTRATÉGIAS COM VISTAS Ã CONSECUÇÃO DE UMA MISSÃO.
O núcleo cognitivo do raciocínio estratégico é dado pelas relações entre a Missão e a Visão de Sucesso, o Diagnóstico Estratégico e o processo de Formulação das Estratégias, conforme esquematizado no Quadro 5. 3. Vamos comentar cada uma das pontas deste fractal.
MISSÃO E VISÃO DE SUCESSO DIAGNÓSTICO ESTRATÉGICO
FORMULAÇÃO DE ESTRATÉGIAS QUADRO 5.3 - NUCLEO COGNITIVO DO RACIOCÍNIO ESTRATEGICO
A primeira etapa de um processo de planejamento estratégico inicia-se, via de regra, por uma introdução, um resgate do histórico e do mandato da organização ou função objeto do planejamento e pela definição da Missão e de sua Visão de Sucesso. Aqui já começa a diferenciação do planejamento estratégico com os demais tipos de planejamento. Enquanto os outros começam pelo diagnóstico das demandas e ofertas, o planejamento estratégico inicia pela definição do horizonte de realização da organização, que é a sua missão, e pela construção de uma imagem com muita força cognitiva que é a imagem da realização da missão, chamada ‘visão de sucesso’. Já nesta primeira etapa o participante é chamado a trabalhar não com um planejamento para o futuro, mas com a futuridade de uma missão para o presente. A segunda etapa é a realização do Diagnóstico Estratégico. É nele que o planejamento estratégico consolida sua diferenciação com os outros tipos
UMA ABORDAGEM COGNITIVA AO PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO - CAPÍTULO 5. 120
de planejamento, pois a metodologia utilizada neste diagnóstico possui uma cognição do tipo dialógica. Mais à frente explicaremos o que quer dizer isto. Por enquanto basta dizer que os procedimento de identificar os pontos fortes e fracos do ambiente interno e os riscos e oportunidades do ambiente externo levam o participante a ‘ver’ a existência de diversas dinâmicas, internas e externas; favoráveis e desfavoráveis, cada uma com uma lógica de funcionamento e comunicação distinta da outra. A terceira etapa num processo de planejamento estratégico é a Formulação das Estratégias, por si só um processo. Esta etapa pode iniciar com a formulação de Questões Estratégicas, destas originando-se as Estratégias e destas as Ações. Numa etapa posterior vem o Ciclo de Implementação das Estratégias com os planos operacionais de cada uma delas.
Missão, Diagnóstico e Estratégias constituem, assim, o núcleo cognitivo do raciocínio estratégico, através do qual o participante inicia- se no domínio lingüístico do tema. Vejamos agora como este domínio pode auxiliar o observador numa apreensão complexa da realidade.
2.
O RACIOCÍNIO ESTRATÉGICO PERMITE AO OBSERVADOR APREENDER A NATUREZA DUAL DA COMPLEXIDADE DOS FENÔMENOS ORGANIZACIONAIS.
Apontamos a seguir nove dualidades para demostrar a complexidade dos fenômenos organizacionais para os quais a aplicação do raciocínio estratégico possui um significado, sempre a partir das distinções realizadas sobre relações e comportamentos observados.
1 ESTRUTURA ORGANIZAÇÃO |
MISSÃO VISÃO |
| CONTINGÊNCIAS FUTURIDADE |
UNIDADE AMBIENTE
1 AMBIENTE INTERNO AMBIENTE EXTERNO |
| PONTOS FORTES PONTOS FRACOS |
RISCOS OPORTUNIDADES |
ANALISE SÍNTESE
O primeiro aprendizado de um participante de um processo de planejamento estratégico sobre a realidade que o cerca é a idéia de organização, com a construção da missão. Ao adentrar no processo, ele faz sua primeira distinção, identificando que esta organização possui uma estrutura interna, dada pelas relações dos diversos componentes e elementos que compõem a organização. A missão emerge da organização enquanto o diagnóstico emerge de sua estrutura. A concepção da missão e a imagem de sua futuridade realizada através da visão de sucesso revelam a dualidade entre presente e futuro, permitindo trabalhar a futuridade do presente e as contingências do futuro ~ ou seja, quais as implicações das tendências futuras para o presente da organização e quais as implicações futuras da manutenção de comportamentos presentes. Por fim, a
construção da missão exige a distinção da última dualidade deste bloco: a organização é uma unidade que projeta a consecução de uma missão num ambiente que envolve e fomece o contexto da unidade e sem o qual esta não existiria.
O segundo conjunto de realidade apreendida pelo participante de um processo estratégico é o que diz respeito à emergência do diagnóstico estratégico. O diagnóstico é o momento de maior revelação de ‘realidade implicada’, para citar um termo do físico inglês David Bohm, aquela realidade que não está disponível na forma de conhecimento ou de suposição teórica de comportamento. O diagnóstico estratégico, através de seu raciocínio dialógico, apreende a realidade implicada do ambiente interno através dos seus pontos fortes e pontos fracos e do ambiente externo através dos seus riscos e oportunidades, além da identificação dos ‘grupos de influência’ de cada um destes ambientes e respectivos interesses e expectativas com respeito à organização.
Um último conjunto de realidade apreendida pelo participante tem na dualidade análise-síntese seu núcleo de cognição. Enquanto o diagnóstico é um instrumento de análise, dissecando a estrutura da organização, o processo de formulação de estratégias que lhe segue é um momento de síntese construtivista por excelência, já que deve contar com todo o poder de criatividade e intuição dos participantes. A última dualidade mostra a capacidade do raciocínio estratégico em descobrir, revelar e, finalmente, distinguir o que realmente é importante e o que é apenas urgente. No cotidiano das organizações e, em especial nas organizações públicas e sem fins lucrativos, na maioria das vezes confunde-se o urgente com o importante, quando não é o caso de simplesmente não se saber o que é realmente importante para a organização.
UMA ABORDAGEM COGNITIVA AO PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO - CAPÍTULO 5. 122
3.
A ABORDAGEM COGNITIVA DO RACIOCÍNIO ESTRATÉGICO PERMITE AO OBSERVADOR APRENDER COM A NATUREZA DIALÓGICA DOS FENÔMENOS COMPLEXOS.
Primeiro apresentamos os recursos cognitivos que caracterizam o raciocínio estratégico. Depois mostramos como estes recursos podem apreender uma natureza dialógica da realidade e agora gostaríamos de trabalhar a idéia de que, ao revelar o raciocínio estratégico como uma episteme do modelo, o próprio observador pode aprender com esta episteme, daí o termo que estamos sugerindo de episteme cognitiva.
Vamos nos valer do clássico esquema de Mintzberg(2) sobre como efetivamente as estratégias são implementadas para falar do componente estratégico da episteme cognitiva. Considere a Figura 5.1:
FIGURA 5 .1 - A EPISTEME COGNITIVA DO RACIOCÍNIO ESTRATEGICO
As Estratégias Formuladas (EF) incorporam um Diagnóstico Estratégico (DE) e buscam a consecução de uma Missão. Ao serem operacionalizadas, estas estratégias são complementadas com Estratégias Emergentes (EE) do próprio ambiente interno e externo à organização e que não são necessariamente estratégias formuladas a partir de um diagnóstico e buscando uma missão. As Estratégias efetivamente Implementadas (EI) são um ‘mix’ dessas duas vertentes estratégicas, cada uma delas com sua própria lógica de existência e valores.
A episteme cognitiva do raciocínio estratégico é, portanto, a possibilidade do observador aprender com o seu próprio operar estratégico, sabendo aproveitar as oportunidades que o universo lhe traz à mão durante o seu caminhar estratégico.
MINTZBERG, Hemy. The Rise and the Fali o f Stratégie Planning.New York:FreePress, 1994,p.24.
5.2.2 - O RACIOCÍNIO ECOLÓGICO
4.
O RACIOCÍNIO ECOLÓGICO CARACTERIZA-SE PELA CAPACIDADE COGNITIVA DE IDENTIFICAR RELAÇÕES ENTRE COMPONENTES E UNIDADES AMBIENTAIS E A EMERGÊNCIA DE SUAS COMPLEXIDADES.
O núcleo cognitivo do raciocínio ecológico é dado pelas relações entre a Homeostase, a Resiliência e a Emergência, condicionadas por um