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4. O QUE PODE O CORPO?

4.2 O que podem os cinco sentidos do corpo humano?

4.2.2 O que pode o Olfato?

O olfato foi o primeiro sentido a se desenvolver, e de forma tão bem-sucedida que, com o tempo, a pequena bolha de tecido olfativo no alto dos filetes nervosos transformou-se no cérebro (ACKERMAN, 1996, p. 42). De acordo com Moreno (2004, p. 92), quando o homem primitivo ainda andava de quatro, o olfato tinha primazia sobre o sentido da visão, porque era com sua sensibilidade olfativa que ele dirigia seu comportamento e tomava decisões.

Hoje, a área cerebral, encarregada de processar os estímulos olfativos, é bem menor do que a que se dedica aos outros sentidos. Moreno (2004, p. 92) diz que, apesar do tamanho

106 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Jb4GolexHac. Acesso em: set. 2017. 107

“Surround” nada mais é do que o 3D do som, ou seja, a imersão da música e dos efeitos sonoros na sala de projeção.

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Textos originais: “fantastic experience”; “natural and lifelike”; “breathtaking"; “sound you can feel. Tradução livre.

reduzido, os sensores do olfato chegam ao cérebro mais rapidamente do que os sensores dos demais órgãos. Ackerman descreve esse curto trajeto por meio do seguinte exemplo:

Quando levamos uma violeta ao nariz e inalamos, as moléculas do odor penetram a cavidade nasal seguindo até a parte posterior da ponta do nariz, onde são absorvidas pela mucosa que contém as células receptoras, dotadas de pelos microscópicos chamados cílios. Cinco milhões dessas células disparam impulsos ao centro olfativo do cérebro. (ACKERMAN, 1996, p. 31)

Assim como a violeta, tudo o mais que o homem cheira – pão, cebola, plástico, etc. – são, enfim, moléculas voláteis condutoras de diferentes mensagens conduzidas para dentro dele. Malnic (2008, p. 21) explica que essas moléculas que flutuam pelo ar e entram em nosso nariz são chamadas de odorantes. E acrescenta:

Quando um determinado cheiro entra na cavidade nasal, ele ativa receptores proteicos localizados nos cílios dos neurônios olfativos, o que gera a produção de sinais elétricos nestas células. Estes sinais são levados para o bulbo olfativo e daí para diferentes regiões do cérebro, como o córtex olfativo, desencadeando a percepção e a discriminação dos cheiros. Os sinais olfativos são transmitidos também para o sistema límbico, responsável pelo desencadeamento de emoções e memórias. Alguns cheiros fazem com que o sistema límbico ative o hipotálamo – região do cérebro que regula a temperatura corporal, sede, apetite, sono e outros. Outra região que pode ser ativada por cheiros é o hipocampo – região do cérebro com papel central no processamento de memórias. Um cheiro específico pode desenterrar memórias de nossa infância ou de experiências que foram emocionantes, sejam boas ou ruins. O cheiro de uma maionese estragada que causa indigestão poderá deixar uma memória que nos acompanhará por vários anos, e que nos impedirá de comer qualquer prato, por mais delicioso que seja, que contenha maionese. (MALNIC, 2008, p. 18-19, 48-49, grifos nossos)

Vê-se, assim, o quanto o olfato está intimamente ligado às regiões do cérebro envolvidas com a afetividade. É por isso que determinados odores conseguem alcançar as regiões mais profundas do cérebro, evocar memórias e deflagrar emoções. O olfato é, portanto, muito importante para a manutenção dos registros afetivos do homem.

Sabendo-se com Malnic (2008, p. 17) que a maioria dos tipos de neurônios encontrados no cérebro não pode ser regenerada – ou seja, quando são destruídas, não podem crescer novamente –, por que será que justamente os neurônios olfativos seguem um caminho contrário? Segundo a autora, “se eles forem danificados, em um mês ou dois novos neurônios serão formados”. É provável que essa característica do órgão olfativo esteja intrinsecamente ligada à sobrevivência afetiva e ao desenvolvimento emocional do ser humano109, fatores primordiais para a interação intersubjetiva entre os indivíduos. Como declara Moreno (2004, p. 97): “desde que nascemos somos atravessados por registros olfativos que vão se

109 De acordo com o documentário “O corpo humano: paladar e olfato”, o sistema límbico do cérebro é o banco de memória do olfato, por isso esse sentido do corpo é tão ligado à memória e às emoções. (grifo nosso) Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fxz42FiZnu8&t=989s. Acesso em: 01 mar. 2017.

acumulando em nossa pele como um código cifrado de nossa sensibilidade pessoal”, tanto que, para Ackerman (1996, p. 25-41), uma imagem ou um determinado som pode desaparecer rapidamente da memória, mas dificilmente se esquecerá de um cheiro. Por isso, certas lembranças somente são acessadas pelo olfato, o que faz com que “cada um de nós possua suas próprias memórias aromáticas” (MORENO, 2004, p. 92-96). O autor lembra que esse sentido consegue despertar associações e analogias de todo o tipo.

A norueguesa Sissel Tolaas dedica-se a catalogar aromas e a divulgar a importância que o olfato tem na vida humana. Segundo ela, o olfato interfere no modo como o mundo é percebido: “Nossa sociedade é dominada pelo visual. Não somos estimulados a usar o nariz a não ser para respirar. Mas quando cheiramos, imediatamente ativamos o nosso inconsciente”110

.

Ackerman afirma que “não é tarefa fácil descrever um cheiro”:

Quando usamos palavras, tais como esfumaçado, sulfuroso, floral, de frutas, doce, descrevemos os aromas em função de outras coisas (fumaça, enxofre, flores, frutas, açúcar). Por isso possuímos a tendência de descrever a sensação que nos provocam: alguma coisa cheira desagradável, intoxicante, enjoativa, agradável, deliciosa,

estimulante, revoltante. (ACKERMAN, 1996, p. 28)

Ackerman (1996, p. 32) sugere que os cheiros podem ser agrupados em algumas categorias básicas, como, por exemplo, cores primárias: mentolado (hortelã), floral (rosas), etéreos (peras), almiscarado (almíscar), resinoso (cânfora), desagradável (ovo podre) e acre (vinagre). Mesmo que seja quase sempre muito difícil descrever o cheiro de alguma coisa para alguém que nunca o tenha sentido, “como, por exemplo, o cheiro das páginas de um livro, o olfato é extremamente preciso” (ACKERMAN, 1996, p. 26).

Comer é uma festa para todos os sentidos: olhar o alimento; saboreá-lo; cheirá-lo; tocá-lo; no entanto, os protagonistas dessa comemoração são o olfato e o paladar. “90% do que sentimos como gosto é, na verdade, cheiro. O olfato é 10.000 vezes mais sensível que o paladar. É ele que dispara o processo gustativo”111

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As células humanas, receptoras de cheiros, estão em menor número do que as de muitos animais, como o coelho; no entanto, Moreno (2004, p. 92) esclarece que “nossas células olfativas são capazes de identificar milhões de odores diferentes, desde que não estejam mesclados”. Essa capacidade olfativa de distinguir diversos paladares é confirmada

110 Trecho da reportagem “Me dê um cheiro”, da Revista Superinteressante, dezembro de 2015, p. 22. 111

“O corpo humano: paladar e olfato”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fxz42FiZnu8&t=989s.

por Malnic (2008, p. 67). Para ela, muitas pessoas pensam que é a língua que determina todos os sabores dos alimentos, mas ela é capaz de reconhecer apenas seis tipos: o amargo, o doce, o ácido, o umami, o salgado e o azedo112. Portanto, grande parte do gosto dos alimentos depende mesmo do seu cheiro: “Se bebermos vinho quando estamos gripados, verificaremos que ele tem sabor de água [...]. Isso significa que tudo o que podemos chamar de sabor é, na realidade, odor” (Ibid, p. 67). Isso ocorre porque a anatomia do sistema olfativo é ligada diretamente à anatomia do sistema gustativo. Existe uma glândula nas fossas nasais chamada de pituitária que, quando é estimulada por um aroma, envia informações químicas pelos neurônios associados para as glândulas salivares presentes na cavidade bucal. Esse processo pode ser comprovado quando o indivíduo, ao sentir o aroma de uma comida, percebe sua boca salivando instantaneamente.

Por fim, falta ressaltar que os cheiros estimulam o aprendizado e a retenção do conteúdo estudado. Sobre essa questão, Ackerman (1996, p. 32) traz uma interessante experiência protagonizada por um professor: “Morris narra que quando as crianças receberam informações olfativas junto com uma lista de palavras, essa lista era lembrada mais facilmente do que uma outra que tivesse sido dada sem suportes olfativos”. O neurobiólogo Ivan Araújo, durante seu doutoramento na Universidade de Oxford, na Inglaterra, mostrou como estímulos olfativos quimicamente idênticos podem gerar respostas diferentes em função de um segundo estímulo externo, como uma palavra113. Ele tentou mostrar que um estímulo olfativo pode gerar construções imaginárias mais amplas e sensíveis quando conjugado com outro estímulo externo. Isso comprova a possibilidade de se conjugar a capacidade olfativa – e, por que, não, também auditiva, gustativa, táctil e visual – do aluno com a sua capacidade linguístico- discursiva para ler textos escritos. Portanto, quando utilizados de acordo com objetivos pedagógicos bem definidos, os estímulos olfativos assim como os demais estímulos, podem contribuir de forma significativa para o desenvolvimento da cognição e da sensibilização humana, principalmente nas aulas de leitura.

Durante a pesquisa sobre as potencialidades olfativas do corpo humano, procurou-se observar também se essa habilidade tem sido valorizada como recurso capaz de potencializar a captação, na leitura dos variados tipos textuais produzidos fora da escola. Notou-se, por exemplo, que o foco na potencialização de estímulos sensoriais para captação do público-alvo

112 O gosto chamado umami significa, em japonês, sabor delicioso, e corresponde ao sabor do monoglutamato de sódio, ou o famoso Ajinomoto, utilizado como um intensificador de sabores (MALNIC, 2008, p. 67).

há anos vem impulsionando cientistas japoneses a desenvolver um aparelho de televisão capaz de transmitir odores. Em 15/03/2009, o programa Fantástico (Rede Globo) apresentou uma matéria intitulada “Japão testa televisão com cheiro114”, mostrando as pesquisas realizadas na escola de engenharia do Instituto Tecnológico de Tóquio. O objetivo era conseguir transmitir pela TV, por exemplo, a imagem de um prato bonito, colorido, apetitoso e, ao mesmo tempo, o seu cheiro; assim, os cientistas acreditavam na possibilidade de se produzir água na boca de quem assistisse à TV – uma forma, portanto, de proporcionar ao corpo humano experiências sensoriais o mais concretas possível. Ainda não se sabe se tal equipamento já foi inventado, mas acredita-se que isso seja possível no futuro. De qualquer modo, se constata, mais uma vez, o interesse do mercado multimídia em ampliar as experiências sensoriais a fim de proporcionar maior interação dos indivíduos com a comunicação midiática.

Confirma-se, assim, que na sua função biológica, o órgão do Olfato, juntamente com o cérebro, é capaz de captar os cheiros, discriminá-los e evocar memórias e emoções. Já na sua função social, ele contribui para a sobrevivência afetiva e o desenvolvimento emocional do ser humano, além de também estimular o aprendizado e a retenção do conteúdo.