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Capítulo 5 VOZES DE UM LUGAR DA MASCULINIDADE

5.6 Quem é quem no mundo da rua?

A rua aqui é retratada não somente como espaço de vivências masculinas. Ela é o lugar onde o corpo negro que se lança percebe-se nas suas possibilidade e fragilidades. Se para mulher

185 negra a rua consolidou-se como espaço de busca pela sobrevivência individual e coletiva, para o homem negro é um espaço a ser descoberto e conquistado.

Os sentimentos são contraditórios. Acho que ela expressa a ideia de grupos, territórios, posições, alternativas, caminhos. Por outro lado, pensando minha condição ela expressa sim a ideia de perigo, ameaça, intolerância. Aí eu acho que é contraditória porque ao mesmo tempo que ela te atrai ela te expulsa (Evandro).

Fui trabalhar de fazer carreto na feira, conhecia todas as ruas do pedaço. Não tinha medo não. Até hoje ando de boa na madrugada. A gente tem que saber respeitar pra ser respeitado. Encontro os camaradas nas quebradas e falo “e aí cara, tudo bem, bacana?”, é assim saber conviver, cada um cada um. (Marcelo)

Sempre fui bicho solto. Ajudava, fazia o que tinha que fazer e rua. Isso é normal pro homem né. Homem tem que ir pra rua, conhecer as coisas e saber o que é bom e o que é ruim, fazer sua escolha. Sempre dizem que a rua não presta que tem coisas que não presta. Mas é assim cada um faz sua escolha. Convivi com um monte de cara que se meteram em fria, eles fizeram as escolhas deles. (Marcelo)

A rua nos ensina a nos virar. a rua é que ensina a ser homem de verdade. Porque ali você é testado. E se o cara tem cabeça tudo certo, senão a vida ensina. A rua é assim ela te dar boas oportunidades, mas também pode te levar pro fundo do posso. (Marcelo)

Eu queria ganhar o mundo minha filha. Aquilo não era vida não. Nunca gostei do trabalho na terra. É um trabalho bonito mas tem que gostar. Eu sempre gostei da cidade, daquele vai e vem que tem na cidade. Sempre dava minhas escapulidas e aí pra cidade. Mas meus pais não gostavam, não gostava não. (João)

186 Ao discorrer sobre o tempo vivido como morador de rua Gilson desnuda a noite que o dia esconde. As noites vividas sob a “proteção” de uma lona de caminhão é a melhor imagem para representar corpos negros na noite da cidade. Assim ela é apresentada nas palavras de Gilson:

Fiquei muito tempo, de quatro pra cinco anos. Minha mãe chegou a ir várias vezes, pra me buscar, queria que eu voltasse pra casa. Eu dizia “Tô bem, tô bem”. Tava nada, era um pouco de orgulho, de não dar o braço a torcer. Eu queria que meu padrasto viesse me chamar, mas ele não vinha. Mas eu não entendia que era ele quem mandava a mãe. Eu queria voltar pra casa, mas não podia, porque era machão, né? Saí, fui pra rua. Isso foi um negócio muito duro, na minha vida. Naquela época, a malandragem tava começando, tinha uma certa influência. Dormindo embaixo da lona do Mercado, comecei a conhecer vários aspectos e o pessoal da malandragem. Aprendi coisas muito importantes. Primeiro, como eram os malandros mesmo, que nunca me deixaram entrar pro lado do crime.

Os códigos de conduta estabelecidos são claros:

Você tinha que ter um padrão: não podia ser chorão porque, na rua, você nãopode chorar. Se o cara tomar um negócio de você e você chorar, já viu. Você tem que sentir sua dor, mas não pode chorar. A mesma coisa é o cara que rouba o outro, na rua. Ele te rouba, mas você tem que ser duro, porque toda hora vai encontrar o cara na rua – ele está na rua e você também, toda hora ele vai te explorar. O patrão também te explora, você faz o serviço e ele paga o quanto ele quer. A gente tinha que ter um padrão, um pensamento de viver, uma posição de vida. Você vai dormir debaixo da ponte, mas tem que se preocupar com suas coisas, se alguém vai te roubar. Você está sempre exposto à exploração, a rua é isso.

(...)

As meninas eram acostumadas a viver tendo a paternidade de alguém. Mesmo que não tivessem o seu cafetão, procuravam um porque, para sobreviver no mundo da rua, à noite, tinha que trabalhar pra alguém que desse proteção pra elas. Eu

187 convivia muito com as meninas, conhecia os subúrbios. Eu sentia muito, era um negócio muito chato, porque a gente ouvia o comentário nos jornais, e a vida era outra: ninguém falava que era a polícia que explorava (Gilson).

A rua é a metáfora dos caminhos que esses homens buscam percorrer. Os sentimentos que ela mobiliza é intenso e contraditório. Ela ao mesmo tempo que encanta amedronta, afasta os desejosos da sua conquista. É assim para quem nela se arrisca.

(...)

Chegou aqui, era um sonho. Assustou um pouco, no começo. Minha cidade era pequenininha, no interior de Pernambuco. Chega aqui, você vê um mundo desses. Fiquei pasmo pelo tamanho da cidade, pra se locomover. Lá era pequenininho, você andava a cidade inteira a pé (Vanildo).

Mas sabe que fiquei assustado quando cheguei aqui. Vinha da roça e chego aqui naquela baita cidade, nossa mãe! É de endoidar. Não é igual hoje, mas já era muito movimentada, tinha os roubos, coisa que quase a gente não via na roça né. Dava um pouco de medo sabe (João).

A parada é esse espaço da rua ocupado ao mesmo tempo como uma festa mas também com um ação política. Vejo como uma grande conquista tem os seus problemas né, como em qualquer organização, mas é um espaço conquistado legitimamente e que precisa ser mantido (Evandro).

Esse caminho deve ser constantemente refeito pelas novas gerações como afirma o entrevistado.

Sempre incentivei meus filhos a conhecerem as coisas. Quando eram moleques mandava ir fazer as coisas, pagar conta, buscar alguma coisa. Minha véia ficava brava. Ela dizia que se alguma coisa acontecesse com os garotos a culpa era minha. Mas eu colocava eles na rua, eu falava “vai fazer isso isso, assim assim

188 pro pai”, como cria uns homens que não sabe enfrentar o mundão aí (…) pra mulher é diferente né o perigo é maior (João).

É na rua que outros personagens entram em cena. E o olhar atento capta essas imagens na qual a moça branca ocupa o lugar que no cotidiana estão as mulheres negras. Mas perceber a presença da mulher branca nesse espaço não significa o entendimento do que isso representa. É apenas um dado constatado na memória de Seu João.

Ficava na praça olhando as moças, elas se arrumavam toda e iam pro coreto. Ficava ali, tinha a música que tocava nos alto falantes, e a gente ali papeando olhando o movimento e paquerando também um pouco. (…) Não era fácil chegar nas moças não, elas sempre estavam acompanhada de irmãos, sempre tinha alguem pra tomar conta. Mas a gente sempre dava um jeitinho de chegar um recado um elogio, era muito bom. As moças eram tudo branca. Os pretos e brancos não ficavam junto não. E só as moças brancas passeavam ali. Lá de casa só iam os homens, meus irmãos e meus primos. (…) As meninas ficavam em casa, né?

Os personagens que ocupam lugar “embaixa lona” caracterizam-se por diversas expressões. Na fala de nosso informante, são homens e mulheres, negros e brancos, adultos e crianças. E para cada grupo uma possibilidade de exploração de uma estrutura fincadas na teia do Estado.

É de vários tipos. Por exemplo: quem explora as meninas é a polícia, que fazem elas se prostituir. É a polícia civil, polícia militar, todo tipo de polícia. Nós, também. Eu era explorado ou pela polícia, ou senão pelo próprio pessoal (inaudível). Primeiro, que a gente não era respeitado: desrespeitado, desqualificado, desvalorizado (Gilson).

Nem sei dizer quantas vezes fui parado pela polícia. Nossa… Teve uma época que eu tinha vontade de colocar as mãos pra cima quando via uma viatura. Só não fazia porque não queria morar. Ia ser o passaporte pra eternidade. (Marcelo)

189 O espaço da rua revela disputas em torno das masculinidades. A rua assim como a casa é lugar de encontro e convivência entre o mundo do trabalho e a marginalidade. E não necessariamente há um processo constante de absorvição do primeiro em relação ao segundo. E como isso com o passar do tempo tem mudado. É o que nos revelam Marcelo e Gilson:

Quando era moleque não era assim não, a gente nem chegava perto dos esquemas, os cara não deixavam. Ainda brigavam com a gente e contavam na nossa casa que a gente estava em alguma quebrada. Hoje não a pivetada desde cedo já chefiando os esquenas. (Marcelo)

Isso aconteceu em vários momentos. “Você não, sua vida é outra. Você pode viver com nós, mas não vai participar”, que era fumar maconha, que era roubar... “Você está trabalhando, tem seu dinheiro lá, não tem que se envolver aqui. Nosso negócio, aqui, é outro”. Eu participei da vida deles, como é que era. Era um negócio difícil, toda hora apanhando de polícia (Gilson).

Os caminhos das ruas também levam e trazem as festas. Do grupo de amigo, as agremiações, às expectativas profanas da festa religiosa, tudo é ali articulado, e ganha sentido coletivo. O ritmo impõe a cadência a ser partilhada e o gosto pelas sonoridades ganham novos adeptos.

Nossa… altas festa a genta dava aqui na rua. Tinha uns camaradas que davam baile, assim, o pessoal pagava e eles iam tocas nas festas sabe. Quando não tinham trabalho eles ligavam as caixas aqui na rua e o couro comia. Até amanhecer black, samba, rap, era muito bom. Agora todo mundo casado com filho (Marcelo).

Gostava das festas que fazia na Igreja. A praça ficava cheia sabe. Era sempre festa de santo, e faziam as barracas pra vender comida, essas coisas (João).

Acho que foi um pouco dessa vida que eu tinha na rua. Convivi com o outro lado da vida, que a turma fala que é o submundo. Nessa volta pra cá, eu sempre gostei

190 muito da escola de samba. A referência era a escola de samba, que era algo da minha origem, que era a origem do meu padrasto, que era a origem do meu pai. Eu não podia ouvir um batuque, que ficava fascinado. Era um negócio enraizado por onde quer que passei. Meu pai sempre foi folião e boêmio, meu padrasto também gostava muito dessa coisa. A referência era mais nessa linha, de você viver com um grupo de pessoas que vivem naquele ritmo, e você vai se consolidando naquilo e aprendendo a viver (Gilson).