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Questão de credibilidade

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2 MUITO ALÉM DO JORNALISMO

3.2 Questão de credibilidade

Uma das questões mais importantes da contemporaneidade é como todo este conteúdo, produzido por tudo e por todos, é percebido e ajuda realmente o público, de modo a colaborar para que elas participem de forma efetiva e legítima nas questões pessoais, sociais e democráticas ou se, por outro lado, as confinam em um universo individual, tornando-as incapazes ou limitadas em suas articulações sociais.

O fenômeno das notícias falsas (Fake News), que marcaram as eleições presidenciais norte-americanas, em 2016, e as brasileiras, em 2018, pode ser considerado um sintoma desta realidade. Em um ambiente onde todos podem produzir conteúdo, a tarefa de identificar a informação verdadeira, ou com o máximo desinteresse de seus autores, torna-se mais difícil. A própria dinâmica de publicidade digital, que privilegia páginas com maior número de cliques, fortalece esse cenário, pois, geralmente, conteúdos com notícias espetaculares e falsas é bem acessado, atraindo mais publicidade e basicamente mais ganhos para seus produtores. Outro fator é que essas notícias “caça cliques”, muitas vezes, também aparecem disfarçadas em meio às notícias reais.

Os respectivos escândalos envolvendo notícias falsas na esfera pública e que em breve devem atingir com mais força o setor privado abrem um espaço simbólico de resgate à credibilidade na era da pós-verdade9. A expressão reflete o mundo da informação contemporânea, onde “rumores e fofocas se espalham velozmente, formando um cenário propício para a formação de redes cujos integrantes confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional da imprensa” (SANTOS; SPINELLI, 2018, s/p).

No passado, este espaço poderia ser facilmente ocupado pela mídia tradicional, no entanto, mesmo essas instituições estão sofrendo com uma crise acentuada pela audiência fragmentada e pela falta de confiabilidade nas informações, embora ações de Fact Checking

9 A expressão pós-verdade se popularizou durante a campanha do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O termo ganhou visibilidade a ponto de o dicionário Oxford elegê-la como palavra do ano em 2016.

(checagem dos fatos) por parte de grandes veículos jornalísticos estejam aumentando e a “tendência é de que os grandes veículos de comunicação, diante de suas redações cada vez mais enxutas, tenham que usar cada vez mais a mão-de-obra de agências de checagem para auxiliar nesse processo” (SANTOS; SPINELLI, 2018, s/p).

Como dito, não há mais uma única fonte de informação, são várias e todas parecem estar em um mesmo patamar de conceito no ambiente digital e fornecendo notícias. De acordo com Shirky (2012, p. 36), a questão principal não está em quem será o provedor da notícia, e sim o que passa a ser um fato noticioso, este “deixa de ser uma prerrogativa institucional para ser parte de um ecossistema de comunicações, ocupado por uma mistura de organizações formais, coletivos informais e indivíduos”.

Esse vácuo de poder sobre o controle da informação configura-se em um espaço em branco para as marcas assumirem um papel outrora designado à mídia jornalística. Longe do objetivo principal ser o dever cívico e mais próximo da intenção de participar da conversa e gerar lembrança, as empresas estão usando a Agenda Setting e criando informações relevantes à sociedade e que, muitas vezes, se distanciam dos fatos de sua atividade principal, caracterizando quando “As corporações assumem o papel simbolicamente construído de agenciadores de movimentos sociais, de gestos humanitários, de transformações sociais e de comunhão de sujeitos (CASAQUI, 2011, p. 149).

Por exemplo, a Votorantim criou, em 2018, o guia do voto. Trata-se de um conteúdo disponível pela internet e por aplicativo que tinha a pretensão de “ajudar os eleitores no momento de escolher seus representantes” (VOTORANTIM, s/d, s/p)10.

Figura 9 - Guia do Voto Votorantim

O acesso ao conteúdo podia ser feito por meio de um cadastro ou através da opção de entrar sem cadastro. A Votorantim afirma que não tem “acesso a nenhuma informação individual dos usuários, exceto dados básicos de cadastro”. No entanto, na maioria dos casos, o acesso aos dados de consumidores configura-se como um novo tipo de indústria em que informações são comercializadas e “grande parte dos dados sobre clientes é obtida por meios e modos praticamente desconhecidos pelos clientes” (ROGERS, 2018, p. 161). A utilização de dados de consumidores é uma premissa para as marcas que desejam se destacar no cenário contemporâneo, pois é exatamente por meio dessas informações que conteúdos são disponibilizados de maneira customizada para cada indivíduo ou para grupos com características semelhantes.

Por exemplo, o Facebook, a mídia social digital com o maior número de participantes, cerca de 2 bilhões de usuários11, tem reconhecimento no mercado financeiro devido aos dados que acumula de seus usuários “e da capacidade de explorar esses dados como ferramentas inovadoras para os anunciantes, ajudando-os a compreender e a dirigir-se exatamente ao público certo” (ROGERS, 2018, p. 124). Enfim, uma solução para a quantidade de informações, pois “na web, a interatividade não tem limites tecnológicos, mas continua sob fortes limites cognitivos: não importa quem você seja, você só pode ler certo número de blogs, só pode trocar e-mails com certo número de pessoas e assim por diante” (SHIRKY, 2012, p. 50).

Em termos práticos, esta dinâmica de produção baseada em dados influencia a informação que é disponibilizada no ambiente digital, seja ela de caráter informativo – um jornal, por exemplo, pode dar mais destaque à notícia com o maior número de cliques – ou voltada ao consumo – um conteúdo criado especialmente para atrair mais consumidores para a marca. A questão é que “estamos trocando um sistema que tinha um senso bem-definido e debatido de suas responsabilidades e funções cívicas por outro que não tem qualquer senso ético” (PARISER, 2012, p. 54).

A ausência deste senso ético pode ser um dos fatores da crise de credibilidade, que cresce à medida em que as informações se tornam mais individualizadas e sujeitas a mecanismos sem regulamentação. Alguns destes mecanismos, a sociedade não tem nem tempo de conhecer ou conhecimento suficiente para saber do que se trata.

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