2.2 Learning Analytics (LA)
2.2.4 Questões éticas e privacidade
Já no Big Data se apresenta alguns desafios com a questão da ética, por se tratar de uma tecnologia que poderá responder a uma complexa pergunta: “Quem é você?”, envolvem questões além dos meros dados, conforme pode ser observado nos estudos de Fiesler et al. (2015) e Gumbus e Grodzinsky (2015).
Especificamente, no que tange a LA, como colocado em debate por Conde et al. (2015) estas preocupações criam um confronto das visões éticas sobre o uso de LA, que podem complementar ou antagonizar. Para se obter determinadas informações, que podem ser tidas como pessoais e intransferíveis, a partir destes sistemas que implementam LA, faz-se necessário averiguar as questões legais e éticas.
Diante do crescimento de LA, tem emergido uma variedade de questionamentos no tocante a ética e privacidade. Este segmento representa um importante e relevante passo para a incorporação de LA nas IES, sendo hoje uma significante lacuna na literatura.
Salinas (2018) indaga sobre questões ligadas a esta questão ética dentro das IES: como os diferentes setores das IES utilizam os dados que utilizam privilégio de acesso? Quais estruturas regulatórias são utilizadas para processar estes dados? Quais são os benefícios que a IES terá em obter uma estrutura exclusiva de governança dos dados?
No estudo de Khalil e Ebner (2015) são incorporados em seu framework, oito dimensões de limitações, pertinentes ao uso de LA, ocasionadas por questões éticas quando se envolve a aplicação de LA em conjunto de dados educacionais, que são: privacidade – pois estes dados podem revelar informações pessoais; acesso – se faz necessária uma autenticação para assegurar-se que apenas as pessoas autorizadas terão acesso aos dados; transparência – divulgação dos caminhos a serem percorridos de forma transparente a todos os envolvidos; política – ajuste de políticas nas instituições para se adequar as questões éticas; segurança – manutenção dos dados protegidos com camadas de criptografia, tornando-os confidencial, íntegro e disponível; precisão – garantia de resultados confiáveis; restrições – considerar a proteção de dados e as leis de direitos autorais; e a propriedade – perspectivas sobre de quem é o proprietário dos dados gerados.
Enfatiza-se aqui a dimensão da propriedade dos dados: é dos discentes ou da IES? Por se tratar de um ponto bastante complexo, que demandam sérias considerações, Jones et al. (2014) defendem que não seja nem de um e nem de outro e sim, um modelo híbrido de propriedade. Se por um lado os dados podem representar para a IES uma oportunidade de melhorar a qualidade da educação a partir do seu AVA, desenvolvendo novas ferramentas com a sua personalização, por outro lado, para os discentes podem representar também melhoria e eficiência em seu aprendizado, sem deixar de lado a consideração pelas questões éticas.
A personalização é um fator interessante, pois, diante dos recursos computacionais existentes, não se pode interagir com os discentes como se estes fossem todos iguais. Os dados, sejam individualizados ou coletivos, podem ser extraídos através de uma Application Programming Interface (API)50 de vários softwares como Youtube, Facebook, Google+, Google Drive, Twitter, StackExchange
50 Do português Interface de Programação de Aplicativos, basicamente, trata-se de uma “janela” de um software/aplicativo capaz de disponibilizar a utilização de suas funcionalidades/serviços por terceiros.
e WordPress. Quanto ao fator ético, pode ser amenizado quando estes valores extraídos são retornados para o discente, a partir de um formato aberto/livre (SCLATER, 2017).
Sclater (2014a) apresentou uma revisão da literatura, retratando como algumas instituições consideram estes tipos de questionamentos de direito. Diante deste estudo foram analisados códigos de éticas e diretrizes em diversas instituições que culminaram nos principais conceitos-chaves que aparecem frequentemente em seus respectivos códigos: transparência, clareza, respeito aos usuários e controle do usuário, consentimento, prestação de contas e acesso. Ainda, o autor enfatiza que o grande e atual desafio é o desenvolvimento de um compreensivo código de prática, envolvendo as questões éticas e legais para a implementação de LA.
Do ponto de vista legal, em nível internacional, tendo em vista que a Europa assumiu a posição que a privacidade individual é de extrema importância e que a regulação de suas práticas atuais é necessária, em maio de 2016 entrou em vigor a General Data Protection Regulation (GDPR) (EUROPEAN COMMISSION, 2018), sendo aplicado a partir de maio de 2018.
Trata-se do novo documento de proteção de dados da união europeia, que regula o processamento por indivíduo, empresa ou organização de dados pessoais, representando a mais importante mudança na privacidade de dados dos últimos 20 anos51. No seu artigo 5º, por exemplo, relacionado aos princípios para processamento de dados pessoais prevê que estes devem ser processados de forma legal, justa e transparente em relação à pessoa em causa.
No Brasil, tem-se a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) que foi sancionada pela Lei nº 13.709/2018 (BRASIL, 2018a) e vem sendo alterada pela Medida Provisória nº 869/2018 (BRASIL, 2018e), tendo como principais metas o aumento da garantia à privacidade dos dados pessoais, assim como, proporcionar mais poder as entidades reguladoras a fim permitir mais controle sobre os dados e criação da autoridade nacional de proteção de dados (ANPD).
O recente relatório de Slade e Tait (2019) considera diretrizes globais para questões éticas cruciais na incorporação de LA, porém alerta que não tem a intenção de contemplá-las em todos os países do mundo, pois se deve considerar a
particularidade de cada um destes, seja por questões legislativas e/ou culturais, apenas identificando as principais e relevantes questões neste contexto.
Tendo em vista que estudos, ainda incipientes, mostram que estes regulamentos legais afetarão a área de LA de diversas maneiras (VUORIKARI; MUÑOZ, 2016), esses passos na esfera legal são relevantes e necessários no tocante a essas questões éticas e privacidade de dados.
Nota-se, portanto, conforme abordado por West et al. (2016), que a compreensão da necessidade de relacionar LA às questões éticas ainda estão prematuras (por exemplo, essas primeiras regulamentações iniciaram em 2018) e insuficientes, para que as aplicações de LA sejam efetivamente consideradas com princípios éticos relevantes e consistentes.