METODOLOGIA GERAL
1. Objectivo da Investigação
3.2. Questionário de Perspectiva Temporal de Futuro
Para a avaliação da Perspectiva Temporal de Futuro (PTF) recorremos ao questionário “Eu e o meu futuro” (QEMF; Carvalho, 2007), que é constituído por 26 afirmações, formuladas a partir do conjunto de características associadas ao conceito de PTF e distribuídas numa escala de tipo Likert (1932) com cinco alternativas de resposta, entre 1 (Não se aplica nada a mim) e 5 (Aplica-se bastante a mim). A opção por este tipo de escala fundamenta-se sobretudo na sua fácil construção e utilização, pela sua adaptabilidade a diferentes estudos, em especial relacionados com o comportamento, bem como pelo elevado grau de garantia em diversos estudos (Nunnaly, 1978).
O QEMF baseia-se em algumas propostas, designadamente de Lens e Tsuzuki (2005) e, em especial, de Stouthard e Peetsma (1999), que defendem a existência de diversas dimensões que caracterizam a PTF. Sendo este conceito geralmente descrito como uma representação ou conceptualização, projectada no tempo, de um domínio de vida particular, como seja a carreira profissional ou as relações sociais (Peetsma, Hascher, & van der Veen, 2005) e que, por sua vez, pode apresentar uma projecção maior ou menor no futuro (Peestma, 2000), o conteúdo dos itens do questionário foi formulado tendo em conta áreas distintas (carreira escolar e profissional, relações interpessoais, lazer e desenvolvimento global enquanto pessoa) e o grau de maior ou menor projecção para o futuro. O conteúdo de cada um dos itens foi apresentado com uma determinada valência, positiva ou negativa, no sentido de se enfatizarem elementos afectivos, relacionados com a valorização da experiência actual em função de objectivos futuros.
62
A “Perspectiva Temporal de Futuro (PTF)” será analisada como variável quantitativa e expressada pela média dos resultados de todos os itens da escala, em que valores mais elevados correspondem a maior amplitude da PTF do jovem, isto é, a uma maior orientação individual em relação a objectivos, representações e projectos pessoais futuros, os quais são valorizados. Jovens com pontuações mais elevadas têm assim perspectivas mais extensas, integram e atribuem maior valor à experiência presente, em função da antecipação de objectivos futuros.
De forma a recolhermos alguns dados sobre a homogeneidade neste questionário, avaliámos o grau em que o conteúdo de cada item se adequa a uma PTF global. Assim, considerámos a correlação de cada item com o total da escala, sendo que os resultados, obtidos com a amostra em estudo (N = 351) e referidos no Quadro 10 sugerem a existência de homogeneidade do conjunto de itens na avaliação a PTF.
Quadro 10
Correlações de Cada Item com a Medida Total (PTF)
Item rPTF
1. O que faço na escola é muito importante na minha vida presente .468** 2. O modo como me relaciono actualmente com os meus amigos é muito importante .428** 3. Não faz grande diferença o que ando a aprender na escola este anoª .513** 4. Tenho com que me divertir nos meus tempos livres .354** 5. Estou muito interessado no que eu serei no meu futuro enquanto ser humano .327** 6. Gosto de manter actualmente ligações à minha família .502** 7. Não sei bem o que fazer nos meus tempos livresª .429** 8. No futuro, não vai ter grande importância a relação que tiver com a minha famíliaª .452** 9. Espero vir a explorar as minhas capacidades e talentos na minha vida futura .460** 10. Não tem importância o relacionamento que tenho actualmente com os meus familiaresª .559** 11. Estou pouco preocupado com a minha vida daqui a alguns anosª .400**
12. Gosto das coisas que aprendo na escola .421**
13. Daqui a alguns anos, não sei bem como irei ocupar o meu tempo livreª 329** 14. Acho muito importante desenvolver as minhas capacidades agora .519** 15. O que faço presentemente na escola tem pouca utilidade para o meu dia-a-diaª .468** 16. Estou pouco preocupado com o desenvolvimento das minhas capacidades e talentosª .494** 17. Costumo pensar no meu futuro enquanto estudante ou trabalhador .517** 18. Gosto de pensar no que farei quando tiver férias e dias livres no meu futuro .467** 19. Gosto de pensar nos amigos que manterei daqui a alguns anos .427** 20. No futuro, o que eu fizer nos meus tempos livres será muito importante para mim .442** 21. O modo como me relaciono com os meus familiares é muito importante para mim .548** 22. Sei que, daqui a alguns anos, quer esteja a estudar ou a trabalhar, a educação que tive
não terá muita importânciaª
63
23. Quando penso no futuro, não acho que tenha importância o tipo de pessoa que vou serª .553** 24. O modo como ocupo os meus tempos livres faz-me aprender muitas coisas .404** 25. A minha educação hoje tem um grande valor para o meu futuro trabalho .597** 26. Estou já a pensar e planear o que vou fazer depois deste ano lectivo terminar .428** Nota. N = 351. ªItens com cotação invertida. **p < .01.
A análise da consistência interna do instrumento, através do coeficiente alfa de Cronbach, indica um índice bastante aceitável (α = .832) para a utilização deste instrumento com esta amostra (Pallant, 2005).
3.3. MMPI-A
O Minnesota Multiphasic Personality Inventory – Adolescent (MMPI-A; Butcher et al., 1992) é um inventário de auto-relato de avaliação da personalidade e da psicopatologia, destinado a adolescentes dos 14 aos 18 anos. O MMPI-A foi publicado no início dos anos noventa, na sequência da utilização frequente do questionário original com adolescentes, e proporcionou trabalhos em vários domínios, verificando-se uma grande “popularidade” entre os clínicos (Archer & Newsom, 2000) e um foco de atenção substancial ao nível da investigação (Archer, Handel, & Lynch, 2001).
O MMPI-A é constituído por quatro escalas de validade e atitude de resposta, treze escalas clínicas e as suas subdivisões (escalas de Harris-Lingoes e de introversão social), bem como por quinze escalas clínicas de conteúdo e seis escalas suplementares (Archer, 2005b; Krishnamurthy & Archer, 1999). Relativamente ao papel do MMPI-A, podemos afirmar que a sua utilidade se perspectiva em duas vertentes: estudo da personalidade (sobretudo em contextos não clínicos) e estudo da psicopatologia (utilização em contextos clínicos, sobretudo numa lógica de avaliação e diagnóstico).
Quadro 11
Escalas do Perfil Básico de MMPI-A
Escalas de validade Descrição
Cannot say (?) Número de itens omissos ou de resposta inválida
VRIN e TRIN Consistência de resposta; escalas constituídas por pares de itens, que deverão ser respondidos de forma consistente. Infrequency (F) Indicador de atipicidade, que pode indicar um grau severo de
desajustamento. Ou tentativa de transmitir uma imagem negativa de si próprio.
Lie (L) Auto-descrições favoráveis e positivas, não realistas e idealizadas.
64
Escalas clínicas Características avaliadas
1. Hipocondria (Hs) Sintomatologia característica da hipocondria, designadamente preocupações com a saúde e com a doença.
2. Depressão (D) Insatisfação global com a vida, falta de esperança e de energia. 3. Histeria (Hy) Gestão do stress de forma histérica, que inclui reacções
motoras ou sensoriais sem base orgânica.
4. Desvio psicopático (Pd) Padrão de comportamentos problemáticos, indisciplina, mentira, roubo, zanga, promiscuidade e abuso de substâncias.
5. Masculinidade- Feminilidade (Mf)
Resultados elevados: padrão de interesses associados ao estereótipo do sexo oposto.
6. Paranoia (Pa) Sintomatologia paranóide, incluindo desconfiança, sentimentos de perseguição e rigidez no pensamento.
7. Psicastenia (Pt) Sintomatologia neurótica, actualmente associada a sintomas de natureza obsessivo-compulsiva.
8. Esquizofrenia (Sc) Bizarria e atipicidade nos processos mentais e na percepção, isolamento social, perturbação do humor, do comportamento e da concentração.
9. Hipomania (Ma) Sintomas associados à hipomania, como sentimentos de grandiosidade, irritabilidade, fuga de ideias, egocentrismo e excitação psicomotora.
0. Introversão Social (Si) Problemas de relacionamento interpessoal, desconforto e isolamento social e baixa auto-estima.
Para além das escalas do perfil clínico base, descritas no Quadro 11, o MMPI-A apresenta ainda escalas de Conteúdo, escalas Suplementares e subescalas de Harris- Lingoes e de Introversão Social. As escalas de Conteúdo surgiram na sequência do reconhecimento crescente de uma abordagem de construção de escalas com base no conteúdo dos itens (Williams et al., 1992). De acordo com Butcher e colaboradores (1992), as escalas baseadas no conteúdo dos itens têm-se revelado válidas na descrição e predição de variáveis relacionadas com a personalidade e mais facilmente interpretadas devido à sua homogeneidade do conteúdo facial dos itens. As escalas de conteúdo podem assim ser usadas para complementar ou refinar a interpretação das escalas clínicas do MMPI-A. Por sua vez, as escalas suplementares consistem num conjunto de seis medidas, criadas por diversos investigadores ao longo do tempo (e.g., Archer, Pancoast, & Gordon, 1994; MacAndrew, 1965; Welsh, 1956, cit. in Archer, 2005b) e apresentam várias semelhanças com o MMPI-2. Por fim, são ainda de mencionar as subescalas Harris e Lingoes, criadas para determinar o conteúdo assinalado pelos respondentes, em escalas clínicas com elevações. Os autores analisaram os itens assinalados em cada escala e aqueles que se assemelharam em conteúdo ou que
65
reflectissem uma atitude ou traço simples, foram agrupados numa subescala. Tratou-se assim de um processo subjectivo em que se considerou que os itens associados reflectiam uma atitude subjacente (Archer, 2005b). A lista de todas estas escalas e subescalas é apresentada no Anexo E.
Esta descrição genérica das escalas do MMPI-A revela a variedade de medidas que este instrumento inclui e que podem ser usadas em diferentes níveis de análise, em função dos objectivos e dos contextos de avaliação. Com efeito, para além das escalas clínicas, os dados recolhidos através do MMPI-A providenciam informação muito vasta que, podendo ser analisada em níveis distintos (escalas e subescalas), pode também ser integrada em dimensões psicológicas significativas. As dimensões PSY-5 do MMPI-A, apresentadas no ponto seguinte, correspondem a um exemplo dessa tentativa de integração e, neste sentido, configuram-se como uma estratégia viável e útil para a organização dos factores da personalidade no presente trabalho.
3.3.1. As dimensões PSY-5 do MMPI-A
As cinco dimensões da personalidade PSY-5 do MMPI-A (McNulty, Harkness, Ben- Porath, & Williams, 1997), decorrentes dos estudos iniciais de Harkness e McNulty (1994), correspondem a um modelo descritivo e dimensional de potenciais perturbações ao nível da personalidade, que se baseia num sistema conceptual de cinco factores principais, constituídos, por sua vez, por factores de segunda ordem ou facetas (Archer, 2005b). As dimensões PSY-5 enfatizam os traços da personalidade ou as diferenças disposicionais específicas, mais do que em dimensões da psicopatologia (McNulty et al., 1997). Descrevemos a seguir as cinco dimensões PSY-5, cujos itens se encontram mencionados no Anexo F.
Quadro 12
Dimensões PSY-5 do MMPI-A
Dimensão Características
AGGR. Agressividade - Tendência para a hostilidade e comportamento combativo, com ênfase na agressividade instrumental e ofensiva;
- Sentimentos de grandiosidade face aos outros e desejo de poder e domínio social;
- Disposição para experienciar zanga;
- Descontrolo dos impulsos, agressões e comportamentos de passagem ao acto.
66
PSYC. Psicoticismo - Contacto com a realidade e precisão de modelos cognitivos sobre o mundo envolvente, criados pelo indivíduo;
- Fenómenos sensoriais e perceptivos pouco usuais; - Suspeição em relação aos outros;
- Comportamentos de natureza psicótica, ansiedade e obsessões. DISC. Desinibição - Baixa aversão ao risco;
- Ausência de desejo por ordem e planos de acção; - Tendência para acções impulsivas;
- Moral não tradicional e dificuldade no cumprimento de regras;
- Comportamentos de externalização, passagem ao acto, consumo de drogas e comportamentos delinquentes.
NEGE. Neuroticismo Disposição afectiva para experienciar emoções negativas, como ansiedade, nervosismo, preocupação e culpa, o que leva a sofrimento interno.
INTR. Introversão - Reduzida emocionalidade positiva;
- Tendência global para desvalorizar ou evitar experiências sociais; - Ausência de energia para actividades e definição de objectivos de vida (low drive);
- Isolamento social, fraca comunicação e alienação. Nota. Adaptado de Archer (2005b) e de McNulty et al. (1997).
Tendo em conta a abordagem parcimoniosa a que o PSY-5 corresponde, consideramos que a presente investigação, sobretudo face aos seus objectivos, beneficiará de uma lógica de análise com base em dimensões transversais e significativas. Pela sua natureza, estas dimensões fornecem-nos informação sobre as características de personalidade dos adolescentes e estabelecem perspectivas de ligação aos aspectos clínicos associados a padrões comportamentais específicos. De forma a podermos adoptar esta estratégia nas análises do presente trabalho verificámos se cada uma das dimensões apresenta bons indicadores de consistência interna, através do cálculo do coeficiente alfa de Cronbach.
Quadro 13
Alfas de Cronbach Para o MMPI-A e Dimensões PSY-5
Escala Nº itens α
MMPI-A 478 .942
AGG. Agressividade 20 .729
PSYC. Psicoticismo 21 .728
DISC. Desinibição 24 .721
NEGE. Neuroticismo/Emocionalidade Negativa 22 .739 INTR. Introversão/Baixa Emocionalidade Positiva 28 .735
67
Foram obtidos valores aceitáveis, todos situados acima de .70 e em linha com os valores que outros estudos com estas dimensões têm vindo a identificar (e.g., McNulty et al. 1997; Stokes et. al, 2009). Estes dados vêm, por isso, oferecer segurança relativamente à consistência interna das dimensões PSY-5 com esta amostra.
3.3.2. Diferenças entre os sexos nos resultados do MMPI-A
Face à existência de normas para cada um dos sexos no MMPI-A (Butcher et al., 1992), verificámos também se, na presente amostra, há diferenças entre os sexos nos resultados. Esta tarefa teve como objectivo sustentar a decisão de fazer análises diferenciadas por sexo quando se considerar a personalidade e ainda de, nos restantes, incluir a variável sexo como potencial moderadora. Assim, recorremos a uma análise multivariada (MANOVA) one way no sentido de verificar potenciais diferenças entre os sexos (variável independente) nas escalas básicas e nas dimensões PSY-5 do MMPI-A (variáveis dependentes). Efectuámos uma análise preliminar das assunções da MANOVA, designadamente a normalidade, linearidade, ausência de outliers univariados e multivariados, homogeneidade de matrizes de variância-covariância e ausência de multicolinariedade (Tabachnick & Fidell, 2007).
Os resultados mostram diferenças significativas entre o sexo masculino e sexo feminino quer nas escalas básicas, F(15,335) = 10.19, p < .001, Λ de Wilks = .69, ηp2 = .31, quer nas dimensões PSY-5, F(5,345) = 15.06, p < .001, Λ de Wilks = .82, ηp2 = .18, o que indica um efeito do sexo nos resultados do MMPI-A. Quando são considerados separadamente os resultados para as variáveis dependentes, verificamos que ocorrem diferenças significativas na generalidade escalas básicas e nas dimensões Desinibição e Neuroticismo do PSY-5, tal como referido no Quadro 14.
Quadro 14
Comparação Entre Sexos nos Resultados Brutos das Escalas Básicas e Dimensões PSY-5 do MMPI-A
Escala básica Sexo M DP F(1,349) ηp2
F-Infrequency F M 8.05 9.72 5.74 7.71 5.37* .02 L-Lie F M 4.55 4.58 2.66 2.24 0.13 n.s. .00 K-Defensividade F 11.17 3.94 6.71* .02
68 M 12.35 4.53 Hs-Hipocondria F M 10.22 8.55 5.33 5.05 8.64** .02 D-Depressão F M 24.79 21.33 5.61 5.69 31.63*** .08 Hy-Histeria F M 22.68 21.25 5.99 5.32 5.24* .02 Pd-Desvio Psicopático F M 19.81 18.77 5.68 4.83 3.14 n.s. .00 Mf-Masc.-Feminilidade F M 25.92 19.19 5.56 6.05 114.98*** .25 Pa-Paranóia F M 12.56 12.07 4.69 4.75 0.89 n.s. .00 Pt-Psicastenia F M 22.46 19.37 8.15 9.15 10.89*** .03 Sc-Esquizofrenia F M 22.55 21.87 10.14 11.43 0.34 n.s. .00 Ma-Hipomania F M 21.05 22.45 4.97 4.39 7.28** .02 Si-Introversão Social F M 30.03 26.85 7.04 7.38 16.54*** .05
Dimensão PSY-5 Sexo M DP F(1,349) ηp2
AGG. Agressividade F M 8.17 8.60 3.70 3.55 1.17 n.s. .003 PSYC. Psicoticismo F M 5.06 5.37 2.91 3.57 0.76 n.s. .002 DISC. Desinibição F M 5.40 7.35 3.30 3.26 29.36*** .08 NEGE. Neuroticismo F M 12.60 10.45 3.65 4.28 25.45*** .07 INTR. Introversão F M 6.65 6.46 4.17 3.56 0.19 n.s. .001 Nota. *p < .05. **p < .01. ***p < .001
No que concerne às escalas clínicas onde se observaram diferenças significativas, com a excepção da Ma-Hipomania, é o sexo feminino a apresentar médias mais elevadas. Nas escalas PSY-5 verificamos que os rapazes obtêm resultados superiores na Desinibição e as raparigas no Neuroticismo. A Figura 2 ilustra o perfil clínico médio de MMPI-A, para cada um dos sexos, e indica as escalas onde foram observadas diferenças significativas nas notas-T.
69
Figura 2. Perfil clínico médio de MMPI-A, por sexo. **p < .01. ***p < .001.
Temos, portanto, várias diferenças entre os sexos no perfil básico e nas dimensões PSY- 5 do MMPI-A. Consideramos que será mais curial a realização de análises diferenciadas por sexo e/ou a inclusão dessa variável enquanto potencial moderadora em análises conjuntas, sempre que estiverem envolvidas as variáveis da personalidade.
4. Procedimento
Recolha e processamento de dados
Para a realização da investigação, foi necessário implementar um conjunto de tarefas relativas a processos formais de autorização para aplicação de instrumentos e também relativas ao planeamento das aplicações e organização dos dados. Assim, foi previamente consultada a Direcção Regional de Educação da Madeira, através do seu Director Regional, que autorizou a recolha de dados desde que a mesma recebesse a anuência dos órgãos de gestão das escolas e dos encarregados de educação dos alunos. Foram depois contactadas diversas escolas do 2º e 3º ciclos do ensino básico, bem como do ensino secundário. Participaram no estudo escolas do 2º e 3º ciclos e ainda escolas secundárias dos concelhos do Funchal, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Calheta, Porto Moniz e Porto Santo. Os contactos com os órgãos de gestão ocorreram através de correio electrónico e/ou telefone e ainda através dos profissionais dos serviços de psicologia e orientação das respectivas escolas. Nestes contactos, foi efectuada uma explicação genérica dos objectivos do estudo e, na sequência da disponibilidade demonstrada, discutido um agendamento de sessões para aplicação dos instrumentos.
70
Foram entregues pedidos de autorização para os encarregados de educação, que foram devolvidos pelos alunos antes das aplicações.
As aplicações ocorreram em contexto de turma, nos meses de Maio e Junho de 2010, o que corresponde ao terceiro período do ano lectivo de 2009/2010. Tendo em conta a extensão total do conjunto dos instrumentos, optou-se por duas sessões de aplicação em momentos distintos. Assim, atribuiu-se um código a cada um dos questionários, de forma a emparelhá-los correctamente no final. Na primeira sessão, com duração entre 45 e 60 minutos, foi dada aos jovens uma explicação genérica dos objectivos do estudo e do procedimento, sendo depois entregue o Questionário sobre o Percurso Escolar e o Questionário de Perspectiva Temporal de Futuro, respondidos por esta ordem. Na segunda sessão, com uma duração de 90 minutos, os jovens responderam ao MMPI-A.
Foi depois constituída a base de dados, sendo que, relativamente ao MMPI-A, foi efectuada uma leitura óptica das folhas de resposta através de equipamento e programa próprios (Teleform Reader) e a cotação e transformação dos resultados brutos em de notas-T para a base de dados no SPSS foram efectuadas mediante um programa próprio. Foram depois acrescentados manualmente os resultados obtidos com os restantes instrumentos. Face à inexistência de normas Portuguesas do MMPI-A, na conversão dos resultados brutos em notas-T, foi utilizada a norma original americana. Os protocolos de MMPI-A foram previamente avaliados relativamente aos indicadores de validade e de consistência de resposta.
Análise de dados
Esta investigação compreende diversos estudos quantitativos, que contribuem para o objectivo de compreensão do modo como factores individuais (dimensões estruturais e motivacionais da personalidade) e factores contextuais (variáveis sociodemográficas) se relacionam com o percurso escolar.
No primeiro estudo, apresentado no Capítulo VI, procurámos compreender a importância das variáveis sociodemográficas no percurso escolar, sendo que, para tal, comparámos diferentes grupos sociodemográficos em indicadores relativos à vida escolar, através de análises multivariadas de variância (MANOVA). Para cada MANOVA realizada na investigação, foram previamente verificadas as assunções de
71
normalidade, linearidade, ausência de outliers univariados e multivariados, homogeneidade de matrizes de variância-covariância e ausência de multicolinariedade (Tabachnick & Fidell, 2007).
Os estudos restantes da investigação focam a relação entre dimensões estruturais e motivacionais da personalidade e o percurso escolar dos adolescentes, recorrendo a metodologia correlacional e diferencial. No Capítulo VII, analisamos a relação das dimensões da personalidade PSY-5 com diversos indicadores relativos à vida escolar. Seguimos uma metodologia correlacional, através de correlações de Pearson e de análises de regressão múltiplas, adoptadas em modelos stepwise de predição de resultados em variáveis escolares em função das dimensões da personalidade. Nos estudos de regressão, analisámos previamente os pressupostos da distribuição normal, homocedasticidade e independência dos erros, através de validação gráfica para os dois primeiros e através da estatística de Durbin-Watson para o terceiro pressuposto, como descrito em Maroco (2007). Utilizámos o VIF para diagnosticar a multicolinariedade e considerámos para todas as análises uma probabilidade de erro tipo I (α) de 0.05. Recorremos ainda a um modelo de regressão multinomial no sentido de analisar se o modo como os adolescentes se percepcionam a si enquanto alunos é influenciado pelas dimensões PSY-5 da personalidade.
No Capítulo VIII, focamos o segundo nível da personalidade e analisamos a relevância da PTF para a compreensão da vida escolar. Foram calculados os coeficientes de correlação de Pearson e efectuadas regressões lineares simples, no sentido de predizer os resultados nas variáveis escolares, em função da PTF. De forma a verificar se estudantes com diferentes planos escolares/profissionais têm resultados distintos na PTF, recorremos ainda a análises univariadas (ANOVA de Welch, de forma a comparar diferentes grupos) e ao teste t de Student (comparação entre duas amostras independentes). No segundo estudo, inserido neste capítulo, pretendemos testar modelos de mediação da PTF na influência de dimensões estruturais da personalidade sobre variáveis escolares. Para tal, recorremos ao cálculo dos coeficientes de correlação de Pearson da PTF com as dimensões PSY-5 e ainda a análises de regressão múltipla, em que também utilizámos o teste de Sobel para avaliar a significância dos respectivos modelos de mediação.
72
Nos estudos inseridos nos Capítulos IX e X, analisamos as alterações aos padrões de comportamento dos adolescentes, particularmente os problemas de comportamento, os