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Relação Entre Personalidade e Comportamentos de Risco

PERSONALIDADE E COMPORTAMENTOS PROBLEMA

2. Relação Entre Personalidade e Comportamentos de Risco

Diferenças nas dimensões da personalidade

Numa análise multivariada one way, levada a cabo para estudar a relação entre os comportamentos de risco e a personalidade, verificamos diferenças entre os grupos em todas as dimensões de personalidade PSY-5, F(5,343) = 8.60, p < .001, Λ de Wilks = .89, ηp2 = .11.

122 Quadro 31

Comparação Entre Grupo de Comportamentos de Risco nas Dimensões PSY-5 do MMPI-A

Grupo Sem Comport

de Riscoa Com Comport de Riscob

Dimensão M DP M DP F(1,347) ηp2 AGG. Agressividade 8.11 0.20 10.78 0.60 11.57*** .03 PSYC. Psicoticismo 4.94 0.17 7.80 0.63 20.66*** .06 DISC. Desinibição 5.89 0.19 9.23 0.54 30.57*** .08 NEGE. Neuroticismo 11.52 0.23 14.23 0.61 8.90** .03 INTR. Introversão 6.39 0.22 8.50 0.70 5.46* .02 Nota. Comport. – Comportamento. an = 321. bn = 30.

*p < .05. **p < .01. ***p < .001.

É na Desinibição em que se verificam os resultados com maior magnitude, o que confirma a perspectiva de que as características que definem aquela dimensão da personalidade (e.g., impulsividade, baixa aversão ao risco, pouca orientação para o cumprimento de regras) se relacionam com maior probabilidade de externalização e particularmente de comportamentos de risco. Verificamos também diferenças significativas na restantes dimensões (Agressividade, Psicoticismo, Neuroticismo e Introversão), o que indica que as características que as definem podem associar-se a comportamentos de risco, embora possivelmente por motivos diferentes. Com efeito, o mesmo comportamento de risco pode relacionar-se com diferentes características individuais, nomeadamente de Agressividade (e.g., controlo dos impulsos, hostilidade, comportamento combativo e desejo de domínio sobre os outros), de emocionalidade negativa (e.g., ansiedade, preocupação, estados de humor depressivo e um padrão global de reduzida emocionalidade positiva) ou ainda de Psicoticismo (e.g., alienação e desligamento da realidade, atipicidade, propensão para ideação psicótica e bizarria no pensamento).

Consideramos que os resultados corroboram a Hipótese 2 deste estudo, em que apontámos a Desinibição como a dimensão mais saliente na distinção entre os grupos de comportamento de risco. Para além disso, é de referir também a importância do Psicoticismo nessa distinção.

Diferenças nas escalas clínicas do MMPI-A

Para completar este estudo, levámos a cabo uma análise multivariada one way para avaliar diferenças entre os grupos de comportamento de risco nas escalas básicas do

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MMPI-A. No Anexo I4 encontram-se as médias e desvios-padrão dos resultados brutos das escalas básicas do MMPI-A, por grupo de comportamentos de risco.

À semelhança do que ocorreu nas dimensões PSY-5, os resultados da MANOVA indicam diferenças significativas entre os grupos de comportamentos de risco nas escalas básicas do MMPI-A, F(15,333) = 2.27, p < .01, Λ de Wilks = .91, ηp2 = .09. As escalas em que essas distinções se verificam são indicadas no Quadro 32.

Quadro 32

Estatística F Para as Diferenças Entre Grupos de Comportamentos de Risco nas Escalas Básicas do MMPI-A

Escala F(1,347) ηp2 F-Infrequency 13.92*** .04 Hs-Hipocondria 8.82** .03 D-Depressão 7.26** .02 Hy-Histeria 4.34* .02 Pd-Desvio Psicopático 14.93*** .04 Pa-Paranóia 13.53*** .04 Pt-Psicastenia 13.95*** .04 Sc-Esquizofrenia 20.09*** .06 Ma-Hipomania 13.17*** .04 Si-Introversão Social 6.51* .02 Nota. *p < .05. **p < .01. ***p < .001.

Da comparação das médias, identificamos um claro padrão em que o grupo com comportamentos de risco tem resultados mais elevados em todas as escalas do MMPI- A. Os efeitos de maior dimensão observam-se nas Sc-Esquizofrenia e F-Infrequency, o que ilustra globalmente uma associação entre comportamentos de risco e maior desvalorização das exigências e normas sociais, bem como atipicidade no comportamento. No entanto, não é de ignorar a associação entre comportamentos de risco e um conjunto mais vasto de características psicológicas, quer ligadas ao controlo dos impulsos e auto-controlo, patentes, por exemplo, nos resultados das escalas Ma e Pd, quer do sofrimento interno e da emocionalidade negativa (ilustrados pelas escalas Hs, Pt, D).

Considerados em conjunto, os resultados deste estudo apoiam a hipótese que inicialmente formulámos, de que o grupo com comportamentos de risco produz perfis

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médios mais elevados e que, portanto, existe uma expressão com significado clínico do envolvimento frequente em comportamentos de risco por parte dos adolescentes.

Seguidamente, apresentamos o perfil clínico médio de MMPI-A para cada um dos grupos de comportamentos de risco, por sexo, o que nos permite obter uma percepção do seu traçado e das escalas em que se verificam diferenças (vide Anexo I5 e I6). Os perfis revelam que é no sexo feminino em que há um padrão mais alargado de relações significativas, com quatro escalas na zona borderline, o que indica que foi sobretudo o sexo feminino a contribuir para os resultados do total da amostra, ainda que não tenha existido um efeito de interacção Sexo x Comportamentos de Risco. Como se verifica, o número elevado de escalas em que os grupos se distinguem, no caso sexo feminino, contrasta com distinções entre os grupos somente nas escalas Pd, Pa e Sc no caso do sexo masculino.

Figura 10. Perfil clínico médio de MMPI-A, por grupo de comportamentos de risco (sexo feminino). Sem

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Figura 11. Perfil clínico médio de MMPI-A, por grupo de comportamentos de risco (sexo masculino). Sem

Comportamentos de Risco: n = 131; Com Comportamentos de Risco: n = 8. *p < .05.

Discussão

Com este estudo procurámos aprofundar a análise da relação da personalidade com os comportamentos problema e comportamentos de risco no percurso escolar, de forma a verificar se incidências elevadas daqueles comportamentos correspondem a características da personalidade e de psicopatologia expressas nos perfis do MMPI-A. Ainda que nas escalas clínicas base não se tenham produzido elevações médias muito além da zona borderline do perfil – o que revela uma sensibilidade do instrumento na detecção de pequenas diferenças, ainda que o grupo com comportamentos problema não corresponda necessariamente a um grupo clínico –, identificámos uma tendência consistente para que os grupos mais problemáticos apresentem características de personalidade distintivas e perfis de MMPI-A significativamente mais elevados.

Podemos enumerar algumas escalas e dimensões psicológicas que se mostraram particularmente eficazes na distinção entre grupos. São os casos das dimensões Desinibição e Agressividade, as quais reflectem, respectivamente, dificuldades no controlo dos impulsos, procura de sensações, baixa aversão ao risco, propensão para o incumprimento das regras, bem como hostilidade e combatividade (Archer, 2005b). Relativamente à Desinibição, as dimensões do efeito foram consideráveis, reflectindo uma associação significativa entre aquela dimensão da personalidade e os comportamentos problema no percurso escolar, quer ao nível da indisciplina, conflituosidade e desrespeito por colegas, quer ao nível dos comportamentos de risco

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para a saúde e para a segurança pessoal. Estes resultados confirmam as Hipóteses 1 e 2 do estudo.

Verificámos também que a Hipótese 3 encontrou adesão nos resultados, já que o Psicoticismo apresentou uma associação significativa com os comportamentos de risco, bem como com os problemas de comportamento – em ambos os casos, a maior frequência de comportamento problemático corresponde a resultados mais elevados no Psicoticismo. Constatámos ainda relações significativas entre os comportamentos de risco e o Neuroticismo e a Introversão, o que pode sugerir que os adolescentes exibindo predominância de emocionalidade negativa poderão ter maior propensão para incorrerem em comportamentos que colocam em risco a saúde e/ou segurança pessoais.

Quanto às escalas do perfil base de MMPI-A, é de destacar a Sc-Esquizofrenia, a F- Infrequency e a Ma-Hipomania, cujos resultados médios dos diferentes grupos se coadunam com a ideia de associação entre o comportamento problemático em contexto escolar e alienação, dificuldades de auto-regulação, potencial excitatório e pouca amabilidade. As elevações observadas nas escalas clínicas Pd-Desvio Psicopático e Mf- Masculinidade-Feminilidade (esta última no sexo feminino) confirmam a presença daquelas características em jovens com maior frequência de problemas de comportamento. Assinalamos, por fim, as diferenças significativas observadas nas escalas da zona esquerda do perfil, no sexo feminino, nomeadamente a Hs, D e Hy, cujos resultados ilustram a relação do sofrimento interno, falta de energia e esperança, bem como sintomas acentuados de preocupação com a saúde e com a doença, com o envolvimento em comportamentos de risco. A este propósito, é de referir que de entre os comportamentos de risco mais assinalados pelos jovens, incluem-se os relacionados com o comportamento alimentar, nomeadamente a restrição alimentar.

Estes resultados confirmam o sentido apontado na literatura, que tem demonstrado uma relação entre comportamentos problemáticos e de passagem ao acto e resultados em várias escalas do MMPI, como sejam a F-Infrequency, a Sc-Esquizofrenia, a Ma- Hipomania e a Pd-Desvio Psicopático (Archer et al., 1988; Basham, 1992; Zuckerman & Kuhlman, 2000). Para além disso, as diferenças significativas observadas entre os grupos, nas dimensões da personalidade e nas escalas básicas do MMPI-A, apoiam a ideia de que as características que lhes são subjacentes (impulsividade, desinibição, menor conscienciosidade, pouca amabilidade) se associam à manutenção e/ou

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desenvolvimento de problemas comportamentais, perturbações na conduta e anti- sociais, tal como vários estudos têm evidenciado (Barnown, Lucht, & Freyberger, 2005; Cukrowicz et al., 2006; Frick, 2004; Frick & Dantagnan, 2005; Hill, 2002; Joyce & Oakland, 2005; Latzam, Vaidya, Clark, & Watson, 2011; Lynam & Miller, 2004; Miller & Lynam, 2001; Nelson et al., 2007; Ruchkin et al., 2001; Singh & Waldman, 2010).

Os resultados sustentam ainda o padrão verificado em diversos trabalhos que mostram que, para além dos problemas de comportamento, os diversos comportamentos de risco (consumo de tabaco, álcool e drogas, relações sexuais, condução perigosa, jogo patológico) apresentam uma relação com factores da personalidade (Davey, Eaker, & Walters, 2003; Hoyle, Fejfar, & Miller, 2000; Otten, Rutger, Engels, & van den Eijnden, 2008; Rolison & Scherman, 2002; Vollrath, Knoch &, Cassano, 1999; Vollrath & Torgersen, 2008; Zuckerman & Kuhlman, 2000). De entre as características mais proeminentes identificadas pela investigação destacam-se precisamente a impulsividade e as dificuldades de auto-regulação, a agressividade e pouca cooperação, o sensation seeking e a emocionalidade negativa (Cassin & von Ranson, 2005; Castillo & Dias, 2009; Rolison & Scherman, 2002; Steinberg, 2006; Zaleskiewicz, 2001; Zuckerman & Kuhlman, 2000). Replicamos ainda neste estudo a associação entre os comportamentos de risco e resultados mais elevados em escalas como a Pd-Desvio Psicopático e Ma- Hipomania (Zuckerman & Kuhlman, 2000).

Globalmente, consideramos que estes resultados, obtidos com uma amostra de jovens sem qualquer sinalização psicopatológica, vêm reiterar a importância que a investigação tem atribuído à personalidade na explicação e compreensão das alterações comportamentais (e da probabilidade da sua ocorrência) na adolescência, quer ao nível dos problemas de comportamento quer dos comportamentos de risco (Gute & Eshbaugh, 2008; Hill, 2002; Joyce & Oakland, 2005; Miller & Lynam, 2001; Vollrath et al, 1999; Ruchkin et al., 2001). É neste contexto que salientamos a importância da avaliação de jovens com sintomatologia significativa e com características potencialmente de risco para o desenvolvimento daquelas alterações comportamentais, como sejam aquelas associadas aos resultados mais elevados nas dimensões da personalidade e da psicopatologia. A atenção a estes jovens e a preocupação com a sua avaliação justifica-se pela necessidade de detecção precoce, de prevenção e intervenção posterior, no sentido de evitar trajectórias inadaptativas (Frick, 2004; Frick & Viding,

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2009) ou cascatas desenvolvimentistas em que se acumulem e potenciem dificuldades ao longo do tempo.

A compreensão das diferenças ao nível da personalidade e, sobretudo, a identificação de sinais psicopatológicos reveste-se de particular relevância para a intervenção, dado diversos trabalhos indicarem que o envolvimento em comportamentos problema aumenta com a idade e que determinados comportamentos constituem factores de risco para o envolvimento em comportamentos mais graves (Simões et al., 2006). Até porque os padrões sintomáticos de alterações comportamentais podem apresentar evoluções negativas para situações que comprometam de forma irreversível a saúde pessoal ou ainda para perturbações de natureza anti-social e/ou de mesmo psicopática, que têm o seu início em períodos anteriores e muito precoces do desenvolvimento (Frick, 2009; Gacono & Hughes, 2004; Kotler & McMahon, 2005)12.

A importância de se identificarem estes casos de forma atempada reside ainda no facto de jovens com padrões comportamentais problemáticos estarem inseridos em contextos onde muitas patologias passam despercebidas e onde as intervenções, por se dirigirem à normalidade, não mostram surtir efeito (Gacono & Hughes, 2004). Apesar de, neste estudo, os grupos mais problemáticos não terem um perfil médio que possamos considerar com elevação patológica, os dados mostram uma tendência clara na elevação dos seus resultados médios.

De forma a alcançarmos uma compreensão mais aprofundada da relação entre as características da personalidade e as alterações comportamentais em contexto escolar, consideramos importante o desenvolvimento futuro de investigação sobre os mecanismos específicos que fazem com as características individuais, em interacção com as contextuais, criem condições para o surgimento de problemas comportamentais. Do nosso ponto de vista, será ainda importante analisar a relação entre a personalidade e comportamentos de risco específicos. Por exemplo, será relevante compreender se o Neuroticismo e a Agressividade se encontram relacionados com os mesmos comportamentos de risco ou não. Uma vez que, na presente investigação, incluímos simultaneamente diferentes comportamentos de risco na mesma variável, julgamos que será benéfica uma análise futura mais diferenciada.

12 Loeber, Burke e Lahey (2002), por exemplo, verificaram que a perturbação anti-social no início da

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CAPÍTULO X

PERSONALIDADE E DIFICULDADES NO RELACIONAMENTO