PARTE II CORPO IMERSO NA CULTURA
2.2 MEMÓRIAS DO CORPO QUE DANÇA
2.2.4 O rastro transgride e cria
Chegamos à conclusão de que as questões identificadas no corpo de cada DIC, através dessa primeira fase do processo de criação, estiveram associadas à crença na divindade dos ventos, a Iansã Oya. Sem tecer esclarecimento algum sobre o processo seguinte, buscamos testar essa referência em nossos próprios corpos, deixando fluir o “acaso” no processo de improvisação.
Buscamos estímulos através de indicações verbais que nos trouxeram como referência a natureza do mito da “mulher-búfalo” (em anexo), descrito na história iorubana. Intencionávamos encontrar sinalizações emergentes, referenciadas pela natureza desse mito. Consolidamos esse propósito por pressentir que o corpo das duas DICs estavam impregnados de dados significativos, internalizados na memória corporal e religiosa, os quais poderiam ser representativos nessa experiência que agora descrevemos.
Ao iniciar as atividades de aquecimento do corpo das duas primeiras DICs, começamos com exercícios de transferência de peso, juntamente, com flexões e extensões de partes do corpo sobre o solo, considerando, na execução dos movimentos de oposição, suas extremidades e ele como um todo. Com o desenvolvimento da atividade, começamos a emitir, através da voz, estímulos sonoros, considerando as imagens que emergiam na mente das DICs. Ao participar ativamente da observação sobre o como àqueles corpos reagiam aos estímulos que dávamos, com a emissão de palavras e sons em forma de metáforas78, pudemos perceber como eles construíam as ações corporais e os gestos que eram investigados e interpretados. Até esse momento, trabalhávamos sem nenhum
78
Greiner (2003, p. 142) destaca que: “Partindo dos estudos da lingüística e da possibilidade de corporificação das palavras, os pesquisadores começaram a identificar o que Johnson chamou do corpo na mente (“the body in the mind”), E, para tanto, estudaram diferentes processo de representação e, particularmente, aqueles de origem metafórica que possibilitam entender e experimentar alguma coisa em termos de outra”.
recurso musical, focalizando a investigação apenas no corpo, motivo pelo qual utilizávamos os sons para estimular os desdobramentos das ações corporais, emitidos de forma distinta para cada corpo, já que observávamos que cada DIC possuía um jeito próprio de construir significados que estimulavam a criação dos movimentos no ato investigativo.
Ao final desse encontro, podemos observar que à medida que as metáforas- palavras eram lançadas, surgiam metáforas-movimentos, que iam sendo construídas no corpo das DICs. O mito da “mulher-búfalo” foi reconhecido por uma delas como “a transformação da mulher-animal”, associada à mitologia de Iansã Oya, fator principal que motivou a criação da segunda parte da primeira cena. Ao final do processo, discutíamos sobre as sensações e a natureza confortável que emergia na investigação experienciada por cada uma delas. A primeira DIC fazia associações com a história da mitologia iorubana, que se inter-relacionava com a interpretação das suas sensações e sentimentos que as nutria. A mesma associação se fez presente na nossa memória, no momento em que ocorreu a vontade de produzir sons para estimular a criação nesses corpos. Já a segunda DIC não fez nenhuma relação com o mito e, sim, com a qualidade dos sons emitidos, com os princípios evidenciados nas ações de oposição das extremidades corporais, exercitadas para o desenvolvimento das habilidades, por meio dos estímulos imagéticos produzidos pela fala. Vale salientar a maneira como ela absorveu as informações e as investigou em seu corpo. Nesse sentido, destacamos que, mesmo sem fazer nenhuma relação com o mito iorubano, os movimentos inusitados surgiam como rastros dessa informação sentida e compreendida em seu próprio corpo.
Observávamos aquelas construções, a fim de especializar os movimentos e recolocá-los na preparação do corpo, desenvolvendo as habilidades necessárias à sua execução. De posse dessa orientação emergente no aquecimento e na improvisação, cuja congruência de significados esteve relacionada ao tema central selecionado pelas DICs, inferimos, então, o propósito de investigar o mito: “A mulher-búfalo e os caçadores”, implicado na mitologia iorubana da divindade Oya. Por conseguinte, recorremos novamente aos estudos de Judith Gleason (2006, p. 172), que procura “desvendar uma notável história do repertório do oráculo de Ifá que detalha duas transformações: do búfalo em mulher humana e dela em orixá”. Nessa literatura, buscamos apenas conhecer alguma conexão com o que foi
construído poeticamente nesses corpos, na intenção de alcançar o que esteve involuntariamente na história de cada corpo, no ato de criação.
Após essa primeira experiência, foram incluídas no processo mais duas dançarinas, que participaram dos comentários sobre o que acabara de ser construído no corpo das duas primeiras DICs. Então, demos início à preparação corporal, a partir dos movimentos que aparentavam possuir maior grau de dificuldade na execução. Ao experienciá-los, outras ações corporais surgiam e alteravam a ordem seqüencial das frases em movimento, em função da necessidade de aquecer determinada parte física de cada corpo. As organizações seqüenciais se configuravam como estrutura móvel e adaptável, destacando-se o domínio corporal ao interpretá-lo.
No ato de repetir, elas iam descobrindo outras possibilidades, buscando demarcar seus territórios no espaço circundante. Então separávamos umas das outras, para que pudessem ter mais liberdade de movimento no espaço. Distintas ações corporais surgiam, como, por exemplo, saltos, rolamentos, caídas e suspensões, com torções e fluxos de movimentos que iam desenhando o espaço. Apurávamos o vigor físico dos movimentos, acentuando o fluxo contínuo e desacelerado, ativando o fortalecimento da musculatura do corpo, especialmente, da região central (abdômen) e das extremidades (pernas e braços), com a intenção de propiciar melhor habilidade de suas ações.
Concluímos que, ao final dessa investigação, as DICs já possuíam noção da relação simbólica do objeto com o tema que acabara de ser proposto, motivo pelo qual solicitávamos a atenção aos significados que surgiram na improvisação. Todas elas haviam desenvolvido habilidades, tanto para acionar a memória no ato criativo, como para desenvolver o aprimoramento técnico dos materiais surgidos na improvisação. Por conseguinte, demonstravam, individualmente, diferentes motivos que foram desdobrados pelos dois corpos, posteriormente, inseridos.
Vale destacar que as duas últimas DICs possuíam intima vivência com a cultura e religião do candomblé, motivo pelo qual se identificaram imediatamente com esse processo, mesmo considerando o período de tempo para integrarem-se na proposta de investigação, a partir das referências que traziam consigo, aliadas ao tema que foi proposto pelas primeiras DICs. Nesse período, a primeira DIC foi afastada do processo de criação, em virtude de já estar no sétimo mês de gestação
e já sentir certo desconforto em desenvolver as atividades de ensaio. Entretanto, continuou assistindo, juntamente com as outras dançarinas o registro em vídeo. Permaneceram, a partir daí, apenas cinco DICs.