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Realidade inventada

No documento Capítulo 3 Mudanças e permanências (páginas 40-49)

É comum encontrarmos, na história da criação de imagens, situações e seres irreais e imaginários, de sonho e de fantasia, contando histórias de deuses e mitos, mas com aparência de realidade. A obra O nascimento de Vênus, de Botticelli, que você viu anteriormente, é um exemplo. Representa uma história mitológica, mas o artista procurou dar a ela uma aparência de realidade, as formas dos personagens são, de forma geral, proporcionais; as asas do personagem alado lembram asas de aves reais; a concha sobre a qual está Vênus, embora gigante, parece de verdade. Há imprecisões na anatomia dos personagens, como o pescoço de Vênus que é muito longo, e seu ombro que é muito caído, mas é possível notar um esforço do artista em fazer sua pintura próxima à aparência real das coisas, mesmo sendo uma cena que não poderia ocorrer no mundo concreto.

A fotografia ofereceu aos artistas a possibilidade de captar com precisão a aparência da realidade como os nossos olhos a veem. Mas a realidade é limitada, e as imagens de situações fantasiosas não podem ser captadas do mundo real. A fotomontagem foi uma das técnicas utilizadas pelos artistas para contornar essa limitação.

Observe a imagem.

Grete Stern. Série Los sueños (Os sonhos), década de 1940.

1. Em que esta imagem te faz pensar?

2. Que sentidos você atribui a ela?

3. O que ela possui em comum com a outra obra de Grete Stern que você viu anteriormente?

Estimule os alunos a atribuir seus próprios sentidos à imagem a partir dos elementos que a compõem. Chama a atenção o fato de que ela representa uma mulher subindo aparentemente uma montanha, olhando para baixo e puxando uma pedra praticamente de seu tamanho, amarrada a uma corda. Trata-se de uma situação irreal, em que as dimensões dos objetos foram alteradas, assim como a imagem anterior que viram de Grete Stern. Converse com os alunos sobre os sentidos metafóricos dessa imagem. Eles podem a relacionar com a ideia de força, mas também de dificuldade, de se carregar um peso maior do que se pode aguentar.

Questione-os sobre como o fato de ser uma mulher na imagem influencia sua percepção, e estimule para que relacionem com a mulher presente na outra fotografia de Grete Stern. O que estas duas representações femininas têm em comum?

Essa é mais uma obra de Grete Stern, artista de quem você já viu uma imagem anteriormente.

Grete já tinha uma carreira consolidada como fotógrafa na Alemanha quando mudou-se em 1935 para a Argentina, país de seu marido, o também fotógrafo Horacio Coppola (1906-2012), que ela conheceu enquanto estudava na Bauhaus, uma importante escola moderna de arte, arquitetura e

design alemã. Por ser de origem judaica, Grete emigrou da Alemanha durante a ascensão do governo nazista, naturalizando-se argentina em 1958. Em 1935 ela e seu marido montaram uma exposição considerada precursora da fotografia moderna na Argentina.

A partir da década seguinte, Grete realizou uma série de fotomontagens de caráter surrealista, chamada Los sueños (Os sonhos) para a revista feminina Idílio. Nesta revista, havia uma coluna que recebia cartas das leitoras contando seus sonhos, que eram interpretados por um psicólogo.

Grete Stern, baseando-se nos sonhos relatados, criava imagens que eram publicadas acompanhando a resposta.

Apesar de terem sido criadas como ilustrações para as cartas, as fotomontagens de Grete ganharam destaque por si mesmas, e hoje são vistas como obras de arte inovadoras desta artista.

Mesmo representando situações irreais, é notável um caráter de crítica aos papéis tradicionais das mulheres na sociedade argentina da época, em condições desvalorizadas e subalternas. Essa característica aproxima seu trabalho ao de Hannah Hoch, e reflete uma outra mudança na arte moderna: a presença cada vez maior de artistas mulheres, que expressam em suas obras questões relacionadas à sua identidade de gênero. Até o século 19, as mulheres não eram permitidas nas escolas e exposições de artes e poucas tiveram suas obras reconhecidas publicamente.

Aborde este aspecto da produção artística a partir do século 20, em que as mulheres deixam de ser somente objetos de representação, “musas inspiradoras”, para tornarem-se sujeitos na criação de suas próprias obras, e isto reflete-se também nos temas e questões que se relacionam à sua identidade de gênero. Aproveite para sugerir aos alunos que relacionem esta transformação à outros papéis assumidos pelas mulheres ao longo de tempo, mudanças que, apesar de sofrerem com a rejeição de parte da sociedade, que defende valores patriarcais, continuam acontecendo. Peça que deem exemplos de como percebem estas transformações em seu cotidiano.

Grete Stern criava as imagens da série Os sonhos usando técnicas de fotomontagem que as faziam parecer “reais”, embora representem situações impossíveis. Há diferentes formas de se criar essa impressão de realidade nas fotomontagens. Atualmente, com as tecnologias digitais, é possível manipular imagens de forma muito mais fácil e rápida com programas de computador e até aplicativos de celular. Mas por muito tempo não foi assim, e os fotógrafos exploravam diferentes técnicas. Uma delas é realizar recortes e colagens das imagens fotográficas, depois fotografando-as novamente, deixando a impressão final sem resquícios da colagem. Outra forma era revelar negativos de filmes fotográficos diferentes sobrepostos. O negativo é uma superfície transparente com uma emulsão sensível à luz, que permite o registro da imagem (que sai negativa, ou seja, invertida). Cada negativo na fotografia analógica corresponde à uma imagem. Ao serem sobrepostos, é possível combinar imagens de negativos diferentes em uma mesma impressão. Para serem revelados, ou seja, passarem do negativo para o papel da impressão fotográfica, os negativos precisam passar por um processo com substâncias químicas. Outra forma de sobrepor duas imagens na fotografia analógica é com dupla exposição, quando um mesmo negativo é usado mais de uma vez ainda na câmera fotográfica.

Inserir imagem de negativos fotográficos, se possível como essa, em que são vistos sobrepostos, para ilustrar o conceito

German Lorca. Fotografia com dupla exposição.

Inserir uma imagem de fotografia com dupla exposição, pode ser outra. Imagem retirada de: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra28987/menino-correndo-dupla-exposicao-no-negativo

Falando nisso...

A popularização cada vez maior da fotografia, especialmente depois do surgimento das tecnologias digitais, faz com que hoje seja muito comum artistas utilizarem e manipularem imagens fotográficas em suas obras, das formas mais variadas. As imagens a seguir são obras de dois artistas brasileiros

contemporâneos, a carioca Celina Portella (1977) e o pernambucano Marcelo Silveira (1962). São artistas que atuam com diferentes linguagens e meios, e nessas obras usaram a fotografia.

Observe as imagens:

Celina Portella. Sem título, 2016, foto-objeto, 80 cm x 1,10 m.

imagem retirada de: http://www.premiopipa.com/pag/celina-portella/

Marcelo Silveira. Revista. Recife : Ed. do Autor, 2009. [96] p. : il. p&b. 30 x 23 x 1 cm.

1. Como a fotografia é usada em cada uma delas?

2. Que relações você percebe entre estas obras e as que viu anteriormente, de Hannah Hoch e Grete Stern?

Incentive os alunos a observarem as obras em detalhes, e a relatarem as relações possíveis entre elas e as que viram anteriormente. A mais evidente é entre a obra de Celina Portella e de Grete Stern, já que a mesma imagem de uma mulher puxando uma pedra, enorme para seu tamanho, se repete. A diferença é que nesta imagem, a pedra é colocada amarrada fora do quadro, onde aparece a fotografia da mulher. Mas é possível perceber outras relações, como o fato de a segunda imagem, de Marcelo Silveira, mostrar colagens feitas com papéis recortados, aparentemente à mão, de imagens muito diferentes entre si, o que pode remeter à obra de Hannah Hoch.

Celina Portella trabalha com dança e artes visuais, e explora muito em sua produção o corpo, suas possibilidades expressivas e sua relação com o espaço. Ela usa fotografias, vídeos e objetos na criação de suas obras, que abordam, muitas vezes, a relação entre imagem e realidade. A obra anterior faz parte de uma série em que ela fotografa a si mesma, e combina sua imagem, dentro do espaço do quadro, com objetos que ocupam o espaço real, como a pedra pendurada fora do quadro, amarrada por uma linha.

Marcelo Silveira apropria-se constantemente de objetos e materiais em sua produção. A obra Revista trata-se de um livro de artista, que como o nome diz, é um tipo de obra de arte em formato de livro. Pode ser um livro feito manualmente que contenha trabalhos feitos pelo artista, e neste caso é uma obra única. Ou pode ser uma publicação com várias tiragens, como é o caso desta obra de Marcelo Silveira. Revista é composta por páginas com reproduções impressas de colagens em preto e branco feitas pelo artista. Por sua vez, as colagens originais foram realizadas com recortes

de imagens impressas apropriadas pelo artista de revistas e livros. Desta forma, o artista brinca com a lógica da produção e reprodução de imagens, criando uma revista feita de impressões de colagens de imagens de revista.

Prática

FOTOMONTAGEM COM FOTOGRAFIAS PRÓPRIAS

Agora você irá fazer uma fotomontagem utilizando fotografias tiradas por você, explorando as relações de proporção e desproporção para criar imagens fantasiosas e impossíveis. Você pode realizar essa proposta de dois jeitos:

Opção 1: imprimir as fotografias que você tirar, recortando e realizando uma colagem;

Opção 2: manipular as fotografias usando programas de computador ou aplicativos de celular.

Você pode escolher de acordo com sua preferência ou considerando os recursos que tiver disponíveis. Se tiver como fazer dos dois jeitos, a turma toda pode experimentar realizar as fotomontagens das duas formas. Assim, poderão experimentar as diferenças entre elas.

Materiais:

 Câmeras fotográficas (pode ser de celulares);

Para a opção 1:

 Impressora;

 Papel, tesoura e cola (os mesmos materiais da prática anterior) caso opte pela colagem.

Para a opção 2:

 Computadores com programas de manipulação de imagem ou celulares com aplicativos de manipulação de imagem;

 Nesta opção, o resultado também pode ser impresso no final.

Etapas:

1. Realize as fotografias pensando na imagem que gostaria de criar. Você pode fotografar lugares, situações e pessoas em casa, na rua ou mesmo na escola. Observe como se fotografar algo de perto, sua dimensão ficará maior no espaço da fotografia do que se fotografar de longe. Essa pode ser uma forma de explorar as relações entre as dimensões das coisas e as proporções. Você pode fotografar sua própria imagem, se quiser usá-la em sua fotomontagem. Tire uma selfie ou peça para algum colega te fotografar, orientando-o sobre como você quer a foto.

2. Opção 1: Escolha as fotografias que quer usar e as imprima. Você pode ampliar ou diminuir a dimensão das imagens antes, usando programas de computador ou mesmo máquinas

fotocopiadoras que possuam essa função. Recorte, monte a composição e cole, seguindo as mesmas orientações da prática de colagem realizada anteriormente.

Opção 2: Escolha as fotografias que quer usar e manipule-as digitalmente, usando programas de computador ou aplicativos de celular. Atualmente, estas opções são muito comuns, e várias podem ser instaladas gratuitamente. Caso nunca tenha usado uma delas, procure descobrir suas ferramentas, pesquisando na internet ou pedindo ajuda a alguém que saiba. Mas o processo de cortar e colar desses programas é semelhante, na essência, ao realizado com papel, tesoura e cola, embora eles costumem oferecer várias outras funções de tratamento e manipulação de imagens.

Você pode mostrar o resultado de seu trabalho na tela de um computador, tablet ou celular ou imprimi-lo, se possível.

Observem juntos os resultados de todos e realizem uma roda de conversa a respeito.

 Como ficaram as fotomontagens?

 Quais exploraram a proporção e desproporção de forma mais interessante? Por quê?

 Elas ficaram parecendo situações reais?

 Elas parecem contar histórias fantasiosas?

 De que formas vocês manipularam as fotografias?

 Os recursos usados foram diferentes entre os alunos? O que muda de uma forma para a outra?

Comente com seus colegas como foi seu processo de criação.

O objetivo desta proposta é que os alunos trabalhem com a técnica da fotomontagem a partir da criação de suas próprias fotografias, explorando também relações de proporção e desproporção entre as figuras. Aqui são sugeridas duas possibilidades de realizar o trabalho, utilizando diferentes recursos. Caso os alunos não tenham acesso a eles, você pode sugerir outras alternativas para realizar um trabalho similar. Uma possibilidade é que, não tendo como fotografar e imprimir, ou fotografar e manipular as imagens com programas de computador, utilizarem fotografias deles mesmos pré-existentes, que possam fotocopiar e usar as cópias para fazer a colagem. Neste caso, podem complementar o trabalho usando imagens apropriadas de outros meios também. O mais importante é realizarem a proposta com foco nas relações de proporção e desproporção entre as formas.

 Ajude-os a realizar as diferentes etapas da proposta, organizando o uso dos recursos necessários caso sejam fornecidos pela escola.

 Para realizar a opção 2, é necessário utilizar conhecimentos de programas de computador ou aplicativos de celular de manipulação de imagem. Caso não tenham contato anterior com eles, ajude-os a pesquisar sobre eles, escolher qual usar, e aprender como funcionam. Oriente também aqueles que já conhecem os programas a auxiliar os colegas que estão aprendendo. Atualmente estes programas são bastante autoexplicativos, mas é possível pesquisar tutoriais na internet para compreender melhor como usar suas ferramentas. Esclareça que muitas vezes pesquisar e aprender a usar as ferramentas para realizar um trabalho é parte do processo artístico.

 Ao final, organize para que mostrem os resultados para os colegas, e oriente a conversa para que percebam as diferenças técnicas utilizadas, assim como também para que comentem sobre o que mais lhes chama a atenção nas imagens criadas. Quais acharam mais interessantes? Por quê? Eles cumpriram com a orientação de explorar as relações de proporção e desproporção? Como isso influenciou os resultados das imagens?

Para realizar uma reflexão sobre o percurso de aprendizagem realizado, retome com os alunos o que viram sobre fotomontagens e o uso da fotografia nas artes visuais, e as experiências realizadas por eles. Promova a reflexão sobre a presença da fotografia não só na arte, mas também em suas vidas cotidianas, e como a

manipulação de imagens fotográficas é hoje muito popularizada. Aborde a relação da criação de imagens com o tempo, e como a fotografia pode ser um meio recente para realizar algo que é ancestral entre os seres humanos: a criação de imagens oriundas da imaginação, que representam ideias simbólicas ou além da realidade concreta.

(Momento 3)

DANÇA

No documento Capítulo 3 Mudanças e permanências (páginas 40-49)