Capítulo 3
Mudanças e permanências Abertura
Observe as imagens.
Lona do Circo Nerino, fundado em 1913.
http://aclablog.blogspot.com/2012/03/um-presente-de-muita-afeicao-ao-meu.html
Equilibrista do Circo Nerino, fundado em 1913.
http://www.pierreverger.org/br/component/phocagallery/category/594-cirque-nerino.html
Comentado [1]: gostaria que fosse uma imagem do circo Nerino em apresentação. Esta me parece ser de ensaio, treino.
Lona do Cirque du Soleil, espetáculo Amaluna, 2017.
https://www.facebook.com/Amaluna/photos/a.316111341783505.76338.28237440182386 6/1690110791050213/?type=1&theater
Cirque du Soleil, cena do espetáculo Amaluna, de 2017.
https://www.gettyimages.ca/photos/cirque-de-soleil-
amaluna?mediatype=photography&phrase=cirque%20de%20soleil%20amaluna&sort=mo stpopular
Comentado [2]: por favor, ao adquirir a imagem, confirmar essa data
Quais são as semelhanças entre as imagens anteriores? E as diferenças?
As imagens retratam dois circos em diferentes épocas. As primeiras imagens estão em preto e branco e as outras coloridas. Observando apenas a diferença no registro é possível imaginar também diferentes tipos de recursos tecnológicos em cada época. A primeira imagem mostra uma tenda de circo de um tamanho mais comum, que normalmente encontra-se nas cidades. A terceira mostra um circo bem maior, com mais de uma tenda. A segunda imagem mostra um acrobata fazendo (ou treinando) um número de equilibrismo. Na última imagem, aliado ao número, é possível ver o uso de muitas luzes e cores, o que leva a crer que seja um circo que utiliza recursos tecnológicos mais modernos.
As imagens retratam a mesma atividade artística em diferentes épocas: o circo. As primeiras, em preto e branco, mostram um circo de 1913 e as outras, coloridas, um espetáculo de circo de 2017.
Cerca de cem anos separam as imagens.
A primeira imagem mostra diversas pessoas do público na entrada do circo. Faça um rápido exercício de imaginação.
1. Como acha que eram os hábitos e costumes de quem vivia naquele momento? Como era o cotidiano? O que comiam? Como se vestiam? Como eram os objetos da casa?
Eletrodomésticos? Que tipo de lazer tinham? Anote em seu caderno.
2. Agora faça o mesmo a partir da observação das imagens atuais e anote também.
3. Comparando as duas anotações, o que mudou e o que permanece?
Você acha que há hábitos que se mantiveram ao longo dos anos? Quais? Acha que algum deles permanece intacto, tal como era antes? Acredita que algum ainda seja praticado, mas com transformações?
O objetivo é que os alunos percebam a ação do tempo na vida das pessoas. Aponte para as mudanças, as permanências, e o que permanece de forma modificada. Proponha também que conversem com seus familiares e identifiquem os hábitos que mudaram e quais permanecem, e retome o assunto com eles na aula seguinte, verificando o que descobriram.
Ao longo desse tempo, muita coisa mudou no mundo e isso se refletiu nas manifestações artísticas.
O tempo transforma, pois traz consigo descobertas, novas tecnologias, novos encontros, formas de pensar, agir e produzir em todos os âmbitos da vida. E na arte também. Mas, apesar de todas as transformações, nem sempre a manifestação artística original desaparece. Muitas vezes ela permanece e convive com sua variante contemporânea.
(Momento 1)
TEATRO
O circo e o tempo
Habilidades Teatro
(EF69AR24) Reconhecer e apreciar artistas e grupos de teatro brasileiros e estrangeiros de diferentes épocas, investigando os modos de criação, produção, divulgação, circulação e organização da atuação profissional em teatro.
(EF69AR25) Identificar e analisar diferentes estilos cênicos, contextualizando-os no tempo e no espaço de modo a aprimorar a capacidade de apreciação da estética teatral.
(EF69AR29) Experimentar a gestualidade e as construções corporais e vocais de maneira imaginativa na improvisação teatral e no jogo cênico.
(EF69AR30) Compor improvisações e acontecimentos cênicos com base em textos dramáticos ou outros estímulos (música, imagens, objetos etc.), caracterizando personagens (com figurinos e adereços), cenário, iluminação e sonoplastia e considerando a relação com o espectador.
(EF69AR31) Relacionar as práticas artísticas às diferentes dimensões da vida social, cultural, política, histórica, econômica, estética e ética.
Observe a imagem.
https://barrabonita.sp.gov.br/?page=educacao&ver=secretaria-de-educacao-e-circo-de- teatro-tubinho-fazem-programacao-especial-para-alunos-da-rede-municipal
1. Você já foi ao circo? Quando e onde isso aconteceu?
2. Como era esse circo? Quais eram as principais atrações?
3. O que mais chamou sua atenção?
Levante os conhecimentos prévios dos alunos sobre o circo. É possível que, em alguns casos, eles tenham conhecido os circos que se deslocam pelas cidades brasileiras; em outros, tenham ido aos chamados circos contemporâneos; ou, ainda, tenham visto espetáculos de teatro que utilizam a linguagem do circo. Pode ser também que alguns nunca tenha ido ao circo, mas conheçam as atividades circenses por meio da televisão, de filmes ou de grupos que praticam a arte circense em ruas de bairros de algumas cidades.
O conteúdo a seguir abordará aspectos da chegada do circo no Brasil, um pouco de sua trajetória, destacando mudanças e permanências e relacionando com a linguagem teatral.
As imagens que abrem este capítulo mostram diferentes trajetórias do circo.
As fotografias 1 e 2 mostram o Circo Nerino, fundado em 1913. Não por acaso, esse circo levava o nome de um dos membros da trupe. No circo tradicional, que se popularizou no Brasil na primeira metade do século XX, toda a família participa dos espetáculos e os números, nome de cada parte da apresentação, são ensinados de geração a geração. As famílias circenses viajam de cidade em cidade, levando todo o aparato necessário para a apresentação. Além do espetáculo, elas fazem também a montagem dos equipamentos, bilheteria, divulgação e tudo mais que for preciso. O Circo Nerino durou 52 anos e percorreu todo o território brasileiro.
As imagens 3 e 4 mostram o Cirque du Soleil, um circo contemporâneo. Ele foi fundado em 1984 por dois artistas de rua, Guy Laliberté e Daniel Gauthier, na cidade de Quebec, no Canadá, e está em atividade até os dias atuais. Ao contrário dos circos familiares, o Cirque du Soleil é formado por uma equipe de mais de 3 mil integrantes de 40 nacionalidades diferentes. As dezenas de espetáculos do repertório são apresentados simultaneamente em diversos países.
Os espetáculos circenses, tanto tradicionais como contemporâneos, são ricos em atrações bastante diversificadas. Malabarismo, equilibrismo, acrobacias, pirofagia, contorcionismo, cama elástica, mágicos, engolidores de espadas, estão entre os principais números circenses, elaborados para que o artista se mostre um virtuose. E, entre um número e outro, o palhaço, que sabe fazer de tudo um pouco, diverte as plateias.
Pirofagia: arte de manipular o fogo, engolindo, cuspindo ou passando pelo corpo enquanto se faz movimentos corporais.
Virtuose: artista que atingiu elevado nível técnico na execução de sua arte.
Prática
MALABARESNesta atividade, você vai aprender o princípio básico de um dos números circenses mais tradicionais: o malabares. Você vai precisar de três bolinhas de mesmo tamanho. O ideal é que essa bolinha seja do tamanho da sua mão fechada, para que você consiga segurá-la com firmeza.
Podem ser três limões, por exemplo, ou você pode confeccionar as bolinhas conforme a orientação a seguir.
Material:
areia, talco ou arroz;
15 balões de borracha (do tipo que são usados em festas de aniversário).
Preparação:
1. Corte a ponta dos balões, retirando a parte que serve para soprar e o “pescoço”, a parte mais alongada que vem logo abaixo da boca do balão.
2. Encha um deles com areia (ou talco ou arroz) até ficar próximo ao tamanho de um limão.
3. Envolva com mais quatro balões vazios, de forma a tampar o buraco para que o conteúdo não saia de dentro.
4. Repita o processo, produzindo mais duas bolinhas.
Etapas:
1. Comece com uma só bolinha. Jogue de uma mão para a outra, fazendo-a formar um arco mais ou menos até a altura da sua cabeça. Procure não esticar muito o braço. O ideal é que você movimente só a mão, tanto para jogar como para segurar a bolinha. Você precisa conseguir segurá-la com firmeza. pratique com as duas mãos.
2. Assim que estiver seguro, coloque mais uma bolinha. Segure uma em cada mão. jogue a primeira, fazendo o mesmo movimento anterior, e quando ela atingir a altura do topo de sua cabeça, jogue a outra para o lado oposto, atingindo a mesma altura. Assim que jogar a segunda, já se prepare para segurar a primeira. Pratique bastante esta etapa.
3. Depois que tiver treinado bastante e, novamente, quando estiver seguro, coloque a terceira bolinha. Comece com duas bolinhas em sua mão dominante (direita, se você for destro e esquerda, se for canhoto) e uma bolinha na outra. Jogue a primeira de sua mão dominante, seguindo o mesmo processo: para a outra mão, passando pela altura do topo da cabeça.
Quando atingir o topo, jogue a próxima da mão contrária. Quando atingir novamente o topo, jogue a última bola. Nesse processo, assim que uma bolinha sai de uma mão, a outra já está chegando. Dessa forma, você precisa ficar atento para, ao jogar, estar pronto para pegar a próxima, e assim sucessivamente.
É uma atividade que requer treino. Uma dica importante é sempre jogar as bolinhas na mesma altura. Para isso, não estique muito os braços e dose a força necessária para ela chegar sempre do mesmo jeito. Se você jogar uma bolinha muito alto ou longe, terá de se deslocar para pegá-la, o que atrapalhará a próxima etapa. O segredo é manter um ritmo constante.
O objetivo desta prática é que os alunos experimentem um pouco de uma atividade tipicamente circense.
Auxilie os alunos na confecção das bolinhas e nas etapas de aprendizagem da técnica. Elas requerem muita prática, atenção e coordenação.
Algo que facilita é praticar de frente a uma parede, pois dessa forma, eles têm menos interferências visuais.
Se houver alunos que já conhecem a técnica, peça para que auxiliem os outros que ainda não sabem.
Esclareça, entretanto, que talvez eles não consigam de primeira, e isso é normal. Eles podem praticar em casa também.
Ao final, converse um pouco com os alunos sobre as dificuldades encontradas e aproveite para falar sobre a profissão do artista de circo. A partir dessa prática, como imaginam ser o treino de um artista circense para chegar ao apuro técnico necessário? Se houver algum aluno de família circense ou que tenha alguma experiência prévia, peça para que troque seus conhecimentos com os colegas.
O teatro no circo e o circo no teatro
O texto que você vai ler a seguir é um trecho da peça O auto do circo, de Luís Alberto de Abreu. A peça aborda a trajetória do circo no Brasil, desde sua chegada, no século 19. Trata, também, das transformações que o circo sofreu ao longo do tempo. A história é contada por meio das lembranças de Coscorão, um velho palhaço de família circense vinda da Europa. A peça narra duas situações paralelas, ou como denomina-se em teatro, em diferentes planos: o tempo presente, em que Coscorão dialoga com um palhaço mais novo, Ximbeva; e o tempo passado, com a chegada de seus antepassados ao Brasil e a formação do circo de sua família.
O auto do circo
Prólogo
UMA MÚSICA MELANCÓLICA TIRADA DE UM VIOLINO INVADE O AMBIENTE, UMA MÚSICA COMO A TOCADA NA ANTIGA “HORA DA AVE-MARIA”, QUE TODOS OS DIAS, ÀS SEIS DA TARDE, SE OUVIA NO RÁDIO. ENTRA XIMBEVA, UM PALHAÇO JOVEM, DE CABELO BASTO E ESPETADO, SOBRANCELHAS GROSSAS E UNIDAS, EMPURRANDO NUMA CADEIRA DE RODAS, COSCORÃO, UM PALHAÇO VELHO, CARECA E CUJA MEMÓRIA SOFRE AUSÊNCIAS. XIMBEVA EMPURRA A CADEIRA SEGUINDO A CADÊNCIA DA MÚSICA [...]
COSCORÃO (AO PÚBLICO) Boa noite... mas só pra quem merece! e que não devem ser muitos!
XIMBEVA Ih, começou!
COSCORÃO Enquanto o Ximbeva cala a boca, de onde não sai coisa que se aproveite, eu digo pra vocês que isso aqui é um circo de respeito e respeito é uma qualidade rara e nunca é demais! Quero que vocês todos, sem exceção, se divirtam... Quando for a hora! Detesto, odeio risadas na parte do drama da mesma forma que tenho ojeriza de seriedade na hora da comédia!
XIMBEVA Eu aviso quando for uma ou outra. Agora, por exemplo, é a parte cômica! Esperem só o drama pra ver!
COSCORÃO Pra quem ainda não sabe, sou o palhaço Coscorão, dono deste circo, da lona, dos aparelhos, das cadeiras onde vocês estão sentados...
XIMBEVA Do mau humor...
COSCORÃO (INTENCIONAL) Dos animais! Sou de tradicional família circense, um dos poucos ainda na ativa que fazem o legítimo espetáculo circense...
e o que vocês irão assistir, muito comportados e respeitosos é a história da minha família que mistura nobres franceses...
XIMBEVA Ciganos da Hungria...
COSCORÃO Com aristocratas italianos...
XIMBEVA Rueiros da Calábria...
COSCORÃO Artistas da Inglaterra...
XIMBEVA Vagabundos da saxônia...
COSCORÃO Os mais admiráveis artistas dos palcos e picadeiros...
XIMBEVA Saltimbancos de rua, atores de cabaré, cantores de feira...
COSCORÃO Que vieram ao Brasil no século 19, a convite do próprio imperador D.
Pedro II!
XIMBEVA Vieram ao Brasil socados no fundo de um porão de navio que europa no século 19 era uma miséria só. Mas tudo isso é só meia verdade porque Coscorão era, mesmo, filho de um peludo que se agregou ao circo nas andanças pelo Brasil!
COSCORÃO Dobre a língua, tome banho e bote gravata para falar da minha família!... (COSCORÃO PARA O GESTO NO AR E OLHA PARA XIMBEVA COM AR ALHEIO)
XIMBEVA Pronto! ‘tava demorando! A memória de Coscorão está com a pilha gasta e seu cérebro está com problema no arranque!
COSCORÃO Do que é que eu estava falando? Tenho frio nas pernas! Anda, Ximbeva, me leve pro sol!
XIMBEVA Ximbeva isso, Ximbeva aquilo! Lá vamos nós! (EMPURRA A CADEIRA DE RODAS) Essa é a vida de Ximbeva: olhar e cuidar do velho palhaço.
COSCORÃO (AO PÚBLICO) Esta é a vida de Coscorão: alinhar e dar sentido às poucas e caras lembranças que lhe restam. e todas elas são de circo.
(SÚBITO, GRITA PARA XIMBEVA) para! Que é aquilo que eu estou vendo? (APONTA PARA UMA MULHER QUE ENTRA NO PALCO ARRASTANDO UM BAÚ)
XIMBEVA Não moro na sua cabeça! Sei lá que diabo de alucinação você está vendo agora.
COSCORÃO Uma bela mulher de chapéu... com xale e um camafeu no peito.
XIMBEVA Puxando um baú? É sua avó quando ainda não era sua avó.
Chegando ao porto do rio com a família! Todo dia você lembra a mesma coisa! (XIMBEVA EMPURRA A CADEIRA DE RODAS COM COSCORÃO PARA FORA)
Cena 1 – A chegada e os primeiros tempos
SOM DE SIRENE DE NAVIO. UMA TRUPE DE IMIGRANTES SALTIMBANCOS ENTRA NO PALCO CARREGANDO SUAS TRALHAS LIDERADAS POR UMA MATRIARCA COM UM SOTAQUE CUJA ORIGEM É INDEFINÍVEL.
MÁRIA Terra, finalmente! Terra, Deus Bendito! Deus fez o mar, o homem fez o navio... (DÁ UM TAPA NUM SENHOR A SEU LADO) e sua cabeça, Grígori, inventou de nos colocar dentro dele! (GRANDILOQUENTE)
Virishcráina! Idiota fui, idiota não serei mais! Quero ser um cão se você me convence de outra!
GRÍGORI (MANSO) Estamos todos aqui, na América, e vivos!
MÁRIA Não fala comigo! Nunca tive tanto medo, tanto desarranjo nas tripas, nem tanta vontade de ser sua viúva!
GRÍGORI Mas, chega! Já ouvi suas lamentações por trinta dias!
MÁRIA E ainda vai ouvir por trinta anos! Gravótch, náia!
GRÍGORI (RESMUNGA INCONFORMADO) Strábitchtróia!
MÁRIA (FORÇA A VISTA COMO SE LÊSSE UMA PLACA. SOLETRA COM DIFICULDADE) Ri-o de Já-ne-i-ro... (ESPANTADA) Rio de Janeiro? A gente não estava indo para o porto de Nova York?
MIRKO Aqui é América do Sul! (MÁRIA OLHA FURIOSA PARA GRÍGORI QUE SE ENCOLHE COM MEDO. GRITA ELEVANDO AS MÃOS PARA O CÉU)
MÁRIA VikrámBórch! VikrámBorch! (FORMA-SE UM TUMULTO ENTRE A TRUPE. DISCUTEM, BRIGAM E FAZEM MENÇÃO DE SAIR, VOLTANDO AO NAVIO. MÁRIA GRITA) Nem morta! Nem morta e seca eu piso num navio em todo o meu resto de vida! Ficamos aqui!
MIRKO Mãe Mária...
GRÍGORI É melhor. E sei, de ouvir dizer de fonte segura, que este país, Argentina, recebe muito bem aos artistas. (MÁRIA FULMINA GRÍGORI COM O OLHAR. TRUPE CIRCENSE CARREGA SUAS TRALHAS E COMEÇA A FAZER NÚMEROS SIMPLES DE SALTIMBANCOS DE RUA – NÚMEROS DE ACROBACIAS, FORÇA, MALABARISMO, MÁGICA.
XIMBEVA ENTRA EMPURRANDO VELOZMENTE COSCORÃO NA CADEIRA DE RODAS. COSCORÃO AGARRA-SE ASSUSTADO À CADEIRA. XIMBEVA EXECUTA UMA FREADA BRUSCA. COSCORÃO É PROJETADO PARA FORA DA CADEIRA, MAS IMEDIATAMENTE ASSUME A PERSONALIDADE DE NARRADOR – TALVEZ SE DESFAZENDO DE SUA CARECA. AO PÚBLICO)
COSCORÃO Os primeiros tempos não foram fáceis para os antepassados de Coscorão. Gente pobre, de qualquer raça ou nacionalidade, tem, em primeiro lugar, o péssimo hábito de existir. e, em segundo lugar, o malfadado hábito de continuarem existindo, o que incomoda muito as autoridades.
(ENTRA UM GUARDA REPRESENTADO APENAS POR UM CHAPÉU MILITAR)
GUARDA Que desordem é essa, cambada de desocupados?
GRÍGORI Non, desocupado! Trabalho... artista!
GUARDA Vão caçar ofício decente que artistas já temos os nossos, que são poucos e podiam ser menos ainda! Vão fazer a “artizinha” de vocês lá pros arrabaldes, lá pras montanhas, lá pra saída do mundo! Isso aqui é capital do império!
GRÍGORI Mostrei minha arte para o rei da França!
GUARDA Ele não gostou e mandou todos vocês pra cá! Eu não gostei e estou mandando circular! (SAI)
GRÍGORI Não vamos sair!
MÁRIA Vamos! Polícia aqui tem a mesma cara que no nosso país! E deve agir igual! Vamos andar que um dia a gente encontra parada.
GRÍGORI Pra onde?
MÁRIA Pra quem não tem pra onde ir qualquer rumo é caminho!
A TRUPE JUNTA AS TRALHAS E COMEÇA SUA PEREGRINAÇÃO.
COSCORÃO E assim foi. Saíram no caminho de São Paulo que começava a enriquecer com o café, entortaram no rumo de minas de muitas cidades, esbarraram até na divisa da Bahia e voltaram pisando nos passos que tinham ido. Sempre a procura de festas, feiras, colheitas e comemorações públicas onde pudessem trocar sua arte por meios de melhor vida. [...]
XIMBEVA Tanto isso é verdade que, digo a vocês, até o fim da vida, este velho palhaço, já com a memória falha, quase branca de imagens, ainda se lembra das andanças que sua avó Mária contava, pelos sertões do Brasil do final do século 19. E se os primeiros tempos não foram fáceis, os tempos verdadeiramente difíceis vieram logo depois. [...]
ABREU, Luís Alberto de. O auto do circo (2004). p. 2-8.
Prólogo: no teatro é uma cena anterior à narrativa principal, com a função de fornecer alguma informação complementar sobre o que vai acontecer na peça.
Peludo: pessoa que trabalha no circo, retirando do palco os objetos utilizados pelos artistas ao término das apresentações.
Trupe: artistas que atuam em conjunto.
Prática
LEITURAAgora, você e seus colegas farão duas leituras do trecho da peça O auto do circo, de Luís Alberto de Abreu. Sigas as orientações.
Preparação:
organizem as carteiras em roda.
Primeira leitura:
1. Será feita individualmente e em silêncio. Procure prestar bastante atenção para entender todas as passagens do texto;
2. Identifique as principais características de cada personagem e as indicações das rubricas;
3. Se tiver dúvidas sobre algum termo desconhecido ou sobre algum trecho da história, anote para depois perguntar ao professor. Ao fim dessa etapa, tirem todas as dúvidas que surgirem.
Segunda leitura:
1. Os personagens serão distribuídos entre os alunos e um aluno ficará com as rubricas;
2. A partir do que identificou nas rubricas e nas características dos personagens, procurem imprimir intenções e nuances às falas.
Após a leitura, discuta com os colegas:
Quem são os personagens? Quais as características principais de cada um deles?
Qual a narrativa principal do trecho?
Quais os espaços em que se desenvolvem as ações?
O autor optou por apresentar as recordações de Coscorão em um plano paralelo, ao invés de contá-las por meio do personagem. Em sua opinião, qual o efeito que esse recurso traz à cena?
Esta atividade tem o objetivo de trabalhar a leitura de um texto teatral, com seus diversos elementos:
personagens, narrativa, ação, tempo e espaço. Ao mesmo tempo, o texto aproxima os alunos do assunto que será tratado, o circo, ilustrando como foi a chegada das famílias de artistas circenses no Brasil e apresentando um pouco das dificuldades enfrentadas por eles na profissão. Durante a leitura, auxilie os alunos a identificar os dois planos de realidade da peça – o passado e presente –, apontando que mostrar situações de passado e presente por meio de diferentes planos de acontecimentos é um recurso bastante comum em peças de teatro. Esse recurso aproxima o público da história, fazendo-o visualizar todos os detalhes da trama e traz o ponto de vista do personagem que está recordando.
Com relação à leitura, esclareça que ela está sendo feita por todos, não só por aqueles que efetivamente estão dizendo o texto, pois aqueles que estão apenas escutando também estão fruindo da cena. Não é necessário que todos eles digam o texto, mas é possível alternar entre os alunos a leitura de fala de personagens e rubricas. Se possível, promova uma nova leitura, mudando os leitores.
Mais à frente, os alunos vão estudar os tipos de palhaço: branco e augusto. Neste momento, retorne ao texto para identificar quais personagens apresentam as características de cada tipo.
Atualmente, muitas características da atividade circense foram incorporadas a outras linguagens artísticas, como a dança e o teatro. Os grupos pesquisam e usam as práticas circenses como acrobacias, números em tecido e trapézio, palhaços, malabares etc., inseridas na narrativa dos espetáculos. Um exemplo é a Cia. Estável de Teatro.
Observe a imagem a seguir:
http://www.sermig.org/br/340-brasileblog/11784-algumas-imagens-da-ultima-temporada- do-ano-do-espetaculo-qo-auto-do-circoq-cia-estavel
A peça O auto do circo foi escrita em 2004 especialmente para a Cia. Estável de Teatro, pelo dramaturgo Luis Alberto de Abreu, que também é professor e roteirista de cinema e televisão. A imagem anterior mostra uma cena da montagem feita pelo grupo. A Cia. Estável foi formada na cidade de São Caetano do Sul, grande São Paulo, em 2002, e está em atividade desde então.
Além de agregar elementos da linguagem circense às suas montagens, o grupo tem como base a criação em conjunto com a comunidade onde o grupo está localizado. Desde 2006, a sede da Cia.
funciona no Arsenal da Esperança, no bairro do Brás, em São Paulo. O local é um abrigo para mais de mil homens em situação de rua, onde foi armada uma lona de circo que serve de picadeiro e lugar de convivência dos acolhidos.
Arsenal da esperança, São Paulo.
http://3.bp.blogspot.com/-bSvZG0oXUIo/UxXoJHAUGQI/AAAAAAAAR2A/My- 5fhoILrs/s1600/Arsenal+da+Esperança+Dom+Luciano+Mendes+de+Almeida.JPG Como mostra O auto do circo, no Brasil o circo teve início no século 19, com a chegada de famílias vindas da Europa. Essas famílias agruparam-se e foram criando as apresentações, que perambulavam de cidade em cidade. Os grupos formados no Brasil tiveram uma característica peculiar, que foi a criação do circo-teatro na primeira metade do século 20. O Circo Nerino, que você viu no início do capítulo, é um exemplo de circo que também era circo-teatro.
No circo-teatro, não se apresentam somente números circenses, mas também peças de teatro. Geralmente os espetáculos são divididos em dois momentos: na primeira parte são apresentados os números circenses tradicionais e na segunda, a peça teatral.
No circo tradicional, as peças eram feitas pela própria família. Durante a estadia do circo-teatro na cidade, não se repetiam as peças. A cada dia uma peça diferente era apresentada, resultando em um repertório de dezenas de espetáculos teatrais.
Os textos eram adaptações de peças, romances ou filmes famosos. Tudo que estivesse em voga na época geralmente era adaptado ao formato do circo-teatro. E os gêneros eram muito variados também, podendo ser comédias, tragédias, musicais, dramas, melodramas (dramas cantados), dentre outros.
Como as famílias circenses tinham a característica de itinerar por cidades das mais longínquas, o circo-teatro acabou por ser um importante divulgador do teatro em locais em que não haviam teatros.
Uma das obras mais importantes do circo-teatro foi a peça E o céu uniu dois corações, escrita em 1942, de autoria do paulista Antenor Pimenta (1914-1994), fundador do Circo de Teatro Rosário, encenada em 1949 no Circo Nerino e depois em quase todos os circos-teatro do Brasil.
https://www.tubinho.com.br/espetaculos.php?pg=2
A imagem anterior mostra uma montagem de 2018 de E o céu uniu dois corações, feita pelo Circo de Teatro Tubinho, mostrado anteriormente. Esse circo foi fundado em 1918 e tem sua sede na cidade de Piracicaba (SP). Grande parte dos circo familiares e dos circos-teatro não existe mais. O Circo de Teatro Tubinho é um dos circos-teatro que ainda permanecem ativos até os dias de hoje.
Que história é essa?
Observe a imagem.
Benjamim de Oliveira.
http://www.circonteudo.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2432:benj amim-de-oliveira-uma-vida-em-transito&catid=189:erminia-silva&Itemid=510
A história do circo-teatro se confunde com a história de Benjamim de Oliveira (1870-1954), mostrado na imagem. Nascido na cidade de Pará de Minas (MG), o multiartista Benjamim Chaves, que depois adotou o sobrenome de seu primeiro treinador, Severino de Oliveira, foi um dos grandes nomes do circo no Brasil.
Filho alforriado de uma escravizada com um capataz, Benjamim fugiu aos 12 anos com o Circo Sotero, que excursionava por sua cidade.
A partir daí, perambulou por vários circos e como todo circense da época, fez de tudo um pouco:
cuidava dos animais, dos afazeres domésticos, dos equipamentos, treinava acrobacias, números de trapézio, e tudo mais que envolvesse o universo do circo.
Conta a historiadora Erminia Silva que, numa de suas andanças, Benjamim "foi preso por um fazendeiro, que o julgou fugido de uma outra fazenda. Era comum homens e mulheres negros alforriados serem presos, tanto na cidade quanto nos campos, e terem que provar a condição de libertos, com o documento de alforria. Benjamim disse que, além de não ser fugido, possuía uma profissão, era circense. Não tendo nenhum documento que comprovasse a alforria, fez uma demonstração das habilidades acrobáticas aprendidas. Talvez porque a presença negra não fosse incomum nos espetáculos circenses, Benjamim conseguiu um bom resultado em sua demonstração, e foi autorizado a continuar seu caminho”.
Disponível em:
<http://www.circonteudo.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2432:benjamim-de- oliveira-uma-vida-em-transito&catid=189:erminia-silva&Itemid=510>. Acesso em: 10 out. 2018.
Benjamim estreou como palhaço quando, em um dos circos que trabalhou, o palhaço principal adoeceu e ele teve que entrar em seu lugar. É considerado o primeiro palhaço negro do Brasil e um dos primeiros do mundo. Estabeleceu-se no Circo Spinelli, no Rio de Janeiro, onde trabalhou por muitos anos. Entre 1907 e 1912 Benjamim figurava como um dos artistas mais consagrados da
época. Foi nesse período que também trabalhou como músico e cantor, gravando seis discos. Seu sucesso como artista era tão grande que sua imagem era usada na divulgação dos espetáculos do Circo Spinelli para atrair o público.
Palhaço, acrobata, músico, cantor, ator, diretor e dramaturgo, Benjamim é considerado um dos principais responsáveis pela criação e disseminação do circo-teatro no Brasil. No Rio de Janeiro, foi ele quem introduziu essa variação aos espetáculos de circo, unindo também apresentações de música e até projeções de cinema às apresentações.
Divulgação do Circo Spinelli.
http://www.omenelick2ato.com/historia-e-memoria/benjamin-o-filho-da-amnesia-nacional No filme O Palhaço, de 2011, o ator Selton Mello (1972) interpreta o palhaço Benjamim Savalla Gomes, nome criado para homenagear Benjamim de Oliveira e George Savalla Gomes, o palhaço Carequinha. No filme, Benjamim e seu pai Valdemar, interpretado por Paulo José (1937), são a dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue, donos do Circo Esperança, que viaja pelos confins do Brasil.
Imagem do filme O Palhaço, 2011.
http://globofilmes.globo.com/filme/opalhaco/
Sugestão:
Se possível, assista o filme O Palhaço e exiba para os alunos.
O Palhaço, 2011, 90 min. Direção Selton Mello, Coprodução Globo Filmes, Bananeira Filmes.
Observe a imagem a seguir.
Apresentação Amaluna
Comentado [3]: favor inserir data e local da apresentação, de acordo com a imagem adquirida. De preferência desta mesma cena.
https://www.gettyimages.ca/photos/cirque-de-soleil-
amaluna?mediatype=photography&phrase=cirque%20de%20soleil%20amaluna&sort=mo stpopular
O Cirque du Soleil é uma companhia circense que transformou a maioria dos números tradicionais do circo em atividades grandiosas, espetaculares, com muitos recursos tecnológicos, nas quais diversas linguagens artísticas se misturam, como música, dança e teatro. Cada número coloca em cena dezenas de participantes, dentre circenses e atores, com figurinos e maquiagens elaborados, e música ao vivo.
O espetáculo mostrado na imagem anterior e nas que abrem este capítulo é Amaluna, que estreou em 2012 e continua no repertório do grupo. No Cirque du Soleil e no circo contemporâneo, em geral, os artistas são provenientes de escolas circenses e do teatro. Como em grande parte dos espetáculos do grupo, Amaluna conta uma história, entremeada por números circenses:
"Uma ilha misteriosa governada por Deusas. Depois de guiar a cerimônia da chegada à vida adulta de sua filha Miranda, homenageando a feminilidade, a renovação, o renascimento e o equilíbrio, a Rainha Prospera causa uma tempestade. Um grupo de rapazes chega à ilha, desencadeando uma história de amor épica entre a filha de Prospera e um bravo jovem pretendente. Porém, o amor deles será testado".
Disponível em: <https://www.cirquedusoleil.com/pt/amaluna>. Acesso em: 10 out. 2018.
Falando nisso…
Na entrevista a seguir, concedida ao site de crítica teatral Pecinha é a Vovozinha, você irá conhecer dois artistas brasileiros que integram o elenco do espetáculo Amaluna, do Cirque du Soleil. Na matéria, eles contam um pouco de como é o processo de montagem, a rotina das apresentações, a itinerância e falam de suas formações como artistas.
A dupla brasileira de palhaços que viaja o mundo com o Cirque du Soleil
(…)
Dois brasileiros muito queridos no nosso circuito de teatro para crianças e jovens, Gabriella Argento e Thiago Andreuccetti, estão viajando o mundo como o casal principal de palhaços do espetáculo Amaluna, da companhia internacional Cirque du Soleil. (…)
Um show inédito do Cirque du Soleil leva entre um a dois anos de criação. Os ensaios sempre acontecem em Montreal, que foi onde, por incrível que pareça, os brasileiros Gabriella e Thiago se conheceram – apesar de, no Brasil, terem até trabalhado na mesma companhia, mas em épocas diferentes (a Vagalum Tum Tum). Nunca tinham se cruzado. “Todo novo artista é encaminhado a Montreal para as fases de treinamentos, ensaios, maquiagem, figurino”, detalha Gabriella Argento, que tem 43 anos de idade, 23 de carreira profissional e 25 no ofício de palhaço. “Independentemente de onde o show esteja no mundo, primeiro vamos a Montreal. Eu morei em Las Vegas três anos quando atuava no KA. Com o Varekai viajei as Américas do Sul, Central e do Norte, e com o Amaluna já fiz toda a turnê pela Europa e agora estou de volta à América do Sul desde 2017.”
http://www.pecinhaeavovozinha.com.br/cirque-du-soleil-amaluna-brasileiros/
(…)
Gabriella e Thiago não são os únicos brasileiros atualmente nos elencos dos vários shows em repertório do Cirque du Soleil espalhados pelo mundo. “Muitos brasileiros fazem parte hoje do Cirque”, confirma Gabriella. (…) Além dos artistas, há também técnicos brasileiros e uma galera que trabalha nos escritórios, acrescenta Thiago. (…)
PECINHA É A VOVOZINHA – Por que acha que foi escolhido (a) para o Cirque?
(…)
THIAGO ANDREUCCETTI – Fui escolhido por muitos fatores, acho. Primeiro eu fiz um movimento em direção ao Cirque. Depois, eu cumpro uma série de requisitos artísticos nos quais eles estão interessados, como expressividade cênica, capacidade de improviso, saber jogar com o seu parceiro ou parceira, construir um personagem e comunicar uma série de emoções e ideias ao público sem o uso da palavra e por aí vai… Trabalho há 15 anos como ator profissional e nesse tempo sempre estive em busca de me melhorar e aprender coisas que eu não sabia e o circo tem me ensinado muito. (…)
PECINHA É A VOVOZINHA – De que aspectos você está mais gostando e admirando nessa nova turma?
GABRIELLA ARGENTO – Bom, o Cirque já não é mais novidade para mim. É família. A estrutura circense muito me agrada por esse aspecto de trupe, de força do coletivo. Gostos também do fato de o circo não cultuar indivíduos. A estrela é o próprio circo, e eu gosto desse anonimato como artista.
THIAGO ANDREUCCETTI – Estou muito feliz por trabalhar numa companhia que eu admiro há 20 anos e que com certeza me influenciou desde cedo na minha busca por uma comunicação dramática que seja universal, ultrapassando as barreiras da linguagem falada.
A troca com artistas do mundo todo é maravilhosa, não só pelo fato de você ser obrigado a se comunicar em uma ou mais línguas que não a sua, mas também para observar como cada tipo de artista trabalha. Os russos, as trapezistas, os contorcionistas… cada um tem um ritmo e uma maneira de encarar o trabalho. Destaco também a continuidade do trabalho. Numa semana, temos de 8 a 10 espetáculos, e essa carga de apresentações possibilita um apuro técnico que é extremamente rico porque você tem a possibilidade de ao mesmo tempo experimentar coisas novas em busca de melhorar o que for preciso e aprofundar em pontos que já estejam funcionando.
GABRIELLA ARGENTO – (…) Gosto da forma séria e disciplinada com que o trabalho é encarado. Muitas regras a seguir, mas sem elas não seria possível atingir a maestria dos resultados que mostramos ao público.
(…)
Promova uma discussão a respeito das semelhanças e diferenças existentes entre os circos familiares e o circos contemporâneos. Enquanto um itinera levando seus espetáculos de cidade em cidade, o Cirque du Soleil apresenta dezenas de espetáculos simultaneamente em locais diferentes do mundo. Pergunte aos alunos como eles acham que isso se tornou possível ao longo do tempo. Que tipo de estrutura é necessária para que isso aconteça? Quais diferenças, na opinião deles, existem na criação dos espetáculos, tanto em um caso como em outro? E apesar das diferenças, o que os caracteriza como circos? Aponte que os dois guardam características que, apesar de diferentes na forma, permanecem na essência, e os fazem serem reconhecidos dentro desta linguagem, como os números, a figura do palhaço, a itinerância, a estrutura física, dentre outras.
E o palhaço, o que é?
Apesar de tão diferentes, circos tradicionais e contemporâneos guardam características comuns, muito próprias das atividades circenses originais. Uma das mais marcantes é a realizada por uma figura de fundamental importância: o palhaço.
ADI LEITE/FOLHAPRESS
Roger avanzi, o palhaço Picolino do Circo Nerino, na Escola de Circo Picadeiro, em São Paulo, 1998.
SESC, SÃO PAULO
RANDY MIRAMONTEZ/SHUTTERSTOCK
Capa do livro Circo Nerino, editado pelo Sesc em 1997. Na imagem, os Picolinos, palhaços criados por Nerino Avanz.
Você já viu alguma apresentação de palhaço? Foi em um circo ou em outro lugar? Conte como foi aos colegas e ao professor.
A primeira imagem mostra três gerações do mesmo personagem, o palhaço Picolino, do Circo Nerino. Ele foi criado por Nerino Avanzi no início do século 20 e ficou conhecido por meio das itinerâncias do circo pelo Brasil. Na década de 1950, o filho de Nerino, Roger Avanzi, o substituiu, fazendo o mesmo personagem. Dessa forma, o personagem Picolino se manteve ativo por mais de um século, divertindo gerações e gerações de crianças e adultos brasileiros.
Segundo pesquisadores, uma das origens do termo palhaço é a palavra italiana paglia, que significa “palha”. Esse material era usado para revestir colchões e uma das primeiras roupas dos antigos palhaços era feita desse tecido grosso e listrado. A roupa era “fofa” em algumas partes do corpo, porque servia de proteção para as frequentes quedas durante as apresentações.
É difícil dizer com certeza onde e quando a figura do palhaço surgiu, já que várias sociedades pelo mundo, em épocas diferentes, registram a existência de tipos cômicos que apareciam em festas populares e tinham características comuns às do palhaço como hoje é conhecido.
Existem dois tipos tradicionais de palhaço: o branco e o augusto. Geralmente, eles aparecem em cena juntos. O branco representa sempre o tipo que pensa mais, “mais
Comentado [4]: Iconografia: esta foto é ótima pro capítulo, porém está muito ruim enquanto imagem.
Achei ela em versões bem melhores na internet, mas são sites informais e nenhum deles indica a fonte.
Existe um livro que se chama Circo Nerino (que não é este do Sesc). Eu acredito que a imagem seja de lá. E que lá tenham outras imagens também pra abertura do capítulo.
Comentado [5]: http://carapinhe.blogspot.com/2011/03/
circo-nerino-em-exposicao.html
cerebral”. É a figura que manda, o patrão. Está sempre pronto a enganar seu parceiro em cena. No Brasil, é conhecido também por escada.
O augusto representa o bobo, o ingênuo, mais emocional. Ele é sempre dominado pelo branco. Porém, muitas vezes, o augusto supera o branco, fazendo vencer simbolicamente a ingenuidade sobre a esperteza.
Retorne ao texto O auto do circo para identificar essas características nos personagens centrais. Coscorão é o palhaço branco e Ximbeva, o augusto.
O palhaço não é um personagem exclusivo do circo. Ao contrário, sempre ocupou outros espaços:
a rua, a praça, a feira, o palco e o cinema. No circo, o palhaço é quem faz a ponte entre os números, interagindo com o público e preparando a próxima atração.
NEANDER HERINGER
Esio Magalhães, caracterizado como palhaço Zabobrim Macambria Bira Bora Borges Júnior de Alencar, ou, como é mais conhecido, palhaço Zabobrim.
Entre um número e outro do circo ou em um espetáculo, os palhaços fazem as gags.
Gag: palavra inglesa que significa “efeito cômico”. São pequenas situações cômicas improvisadas.
Nelas, existe sempre um problema, que os palhaços tentam resolver das formas mais inusitadas possíveis, o que gera situações engraçadas. Mas não existe um texto, e sim um roteiro, ou seja, uma sequência de situações, às vezes com um final, outras vezes sem a previsão de um final.
Nesse caso, a finalização também é improvisada e varia de acordo com o que acontecer no próprio momento da apresentação, o que surgir da relação com o outro palhaço ou com o público.
Geralmente, gags são situações cômicas corporais, ou seja, nelas não se usa, ou se usa muito pouco, a linguagem falada, o diálogo. O palhaço mostra a situação na ação, no fazer, e não dizendo o que vai fazer. E a graça, a comicidade, se dá pela própria situação realizada, e não em tentar fazer graça, ou seja, quanto menos o palhaço tenta se mostrar engraçado, e quanto mais ele vivencia a situação inusitada como real, mais cômico se torna.
Existem algumas gags mais tradicionais, costumeiramente empregadas nas apresentações. Mas cada palhaço também pode criar a sua ou se basear em alguma que já existe e transformá-la à sua maneira.
Prática
IMPROVISANDO GAGS
Antes de iniciar esta prática, faça algum dos jogos de aquecimento presentes no manual digital.
Nesta atividade, você e seus colegas vão improvisar uma gag. Para isso, primeiro você vai ler alguns roteiros clássicos.
1. A mosca
Uma mosca está incomodando a plateia.
Um dos palhaços faz o som da mosca. O outro palhaço tenta pegá-la. A mosca foge, aparece em outro lugar, “dribla” os palhaços.
Vocês podem alternar quem faz o som da mosca e quem tenta matá-la, para dar a impressão de que a mosca é muito ágil e aparece em vários locais.
Nessa tentativa, os palhaços se trombam, caem uns sobre os outros, quase batem nas pessoas.
Tentam usar um “inseticida”, uma vassoura, uma pá ou outro objeto.
A situação-problema é matar a mosca. O modo como isso vai acontecer pode variar. O final é aberto, acontece na realização da cena ou pode ser criado pela dupla.
2. A sedução
A situação é baseada em uma relação de “sedução” entre um palhaço e alguém do público. O palhaço finge machucar uma parte do corpo por acidente, como o braço, a mão e o dedo. Vai até uma pessoa do público e pede um beijo no local machucado para sarar.
Caso ele consiga o beijo, fica muito feliz, comemora, e no meio disso tudo ele se distrai e bate outra parte do corpo, geralmente o rosto. O palhaço novamente pede o beijinho para sarar. A situação se repete. Ele comemora e machuca outra parte, só que agora um local mais inusitado, como o pé ou as axilas. Novamente pede o beijo, que dessa vez é interrompido antes de acontecer de fato.
Nesta gag, a situação-problema é conseguir os beijos do público. O palhaço deve ser bastante convincente.
3. Limpa e suja
Entra o primeiro palhaço com um balde, um rodo e um pano de chão. Molha o pano (não precisa molhar de verdade), o coloca no rodo e passa no chão. Repete essa ação algumas vezes. Entra o segundo palhaço e, sem se importar que o outro está limpando e sem que ele perceba, suja o chão (não precisa sujar de verdade). Para isso, ele pode estar com o sapato sujo, ou derrubar algo, ou, distraído, jogar alguma coisa no chão (como uma casca de fruta). O primeiro palhaço segue limpando. A situação se repete algumas vezes: o segundo palhaço entra e suja, o primeiro limpa, sempre mudando o ponto que está sujando.
A situação-problema e a comicidade estão em o primeiro palhaço seguir limpando sem perceber que o segundo está sujando, e em esse ciclo parecer que vai acontecer “eternamente”. A finalização
dessa gag deve ser criada ou acontecer de improviso no momento da cena. Algumas possibilidades:
o primeiro pode desistir de limpar, eles podem se ver ou ainda se trombar sem querer.
Depois de ler, siga as etapas:
1. Afastem as carteiras;
2. Escolha sua gag. Para isso, você poderá escolher um dos roteiros anteriores e fazer como a gag proposta ou se basear em alguma delas e transformá-la à sua maneira ou, ainda, criar uma completamente nova;
3. Defina com quem vai trabalhar. Você pode formar uma dupla, um grupo ou trabalhar individualmente, dependendo da gag que for realizar;
4. Depois de escolhida ou criada a gag, é necessário estudar o roteiro. Leia várias vezes e improvise algumas vezes antes da apresentação para ter ideia de como é esse processo, mas lembre-se de que na hora provavelmente vai acontecer tudo de outra forma, pois é uma cena improvisada, feita no momento da ação;
5. Para as apresentações, determinem onde vai ficar o público e onde vai ser o espaço de cena. Cada cena será apresentada aos outros da sala.
O objetivo deste exercício é que os alunos experimentem a improvisação de situações cômicas, a partir das propostas ou de suas criações. Para tanto, eles não precisam se vestir de palhaço ou se pintar. Se necessário, esclareça novamente que a situação em si, se realizada com verdade, torna-se cômica. Geralmente, a tentativa de torná-la cômica, ou como comumente chamamos “fazer graça”, deixa a situação com ar artificial, perdendo a comicidade. O palhaço é, sobretudo, verdadeiro, sincero, acredita de fato no inusitado da situação, e isso é o que nos faz ter empatia por ele e acreditar na situação, por mais absurda que possa parecer, o que a torna cômica.
Auxilie os alunos na organização das apresentações. Avalie, de acordo com o tempo que dispõe, se elas poderão ser realizadas na mesma aula ou em aula posterior.
Ao final, conversem sobre o que foi feito. Quais foram as dificuldades? As situações tornaram-se críveis?
Houve comicidade? A mesma gag foi escolhida por alunos diferentes? Quais foram as diferenças de realização das mesmas situações? Houve gags criadas? Como foi a realização delas? Procure relacionar também este exercício com os conteúdos vistos anteriormente: nas gags em dupla, percebem qual personagem é o branco e qual o augusto? Relembre a leitura que fizeram de O auto do circo. Quem na peça é o palhaço augusto e quem é o branco? Como são as situações de comicidade do texto?
Conexão
SOBRE LAS OLASImagem ilustrativa do compositor
Em 1888, o compositor mexicano Juventino Rosas (1868-1894) escreveu a música “Sobre las olas”, que em português pode ser traduzido como “Sobre as ondas”. O compositor e violinista não chegaria a saber, porque faleceu muito jovem, mas tinha escrito uma das músicas mais famosas de circo, ou música circense, como também é chamada. Rosas faleceu aos 26 anos de idade, mas conseguiu em pouco tempo escrever muitas obras que fazem parte da história da música mexicana do século 19.
O México é um país de grande extensão territorial e tem a segunda maior população entre os países latino americanos, depois do Brasil. Há elementos similares entre os dois países, em especial a diversidade cultural decorrente da influência dos povos originários e da cultura europeia, resultado da colonização espanhola.
Muitos compositores latino-americanos da época de Rosas formaram-se pela tradição artística europeia e escreveram músicas de gêneros europeus.
Rosas escreveu peças de muitos gêneros, quase todos também presentes no Brasil, como mazurcas, polcas e valsas, em sua maioria músicas para dançar. Originalmente chamada “Junto al manantial”, que quer dizer “junto à nascente”, em português, a valsa “Sobre las olas” foi seu maior sucesso.
Uma das particularidades de “Sobre las olas” é sua relação com o circo. Quase todos os números apresentados no circo têm algum tipo de trilha sonora, seja acompanhando os palhaços em cena ou dramatizando os números que incluem proezas perigosas, como no trapézio. E é justamente com o trapézio que ela é relacionada. A música é uma valsa e tem um ritmo em três tempos. Ouça a faixa XX prestando atenção a este elemento e converse com seu professor à respeito.
Toque a faixa direcionando a percepção primeiro ao elemento rítmico que, como toda valsa, carrega uma ideia clara de “balanço”. A valsa é dançada com este elemento muito presente, onde cada primeiro tempo cai alternadamente sobre cada pé:
1. pé direito 2. pé esquerdo 3. pé direito
Comentado [6]: Gui, precisamos ver qual versão encontramos.
1. pé esquerdo 2. pé direito 3. pé esquerdo
Isso se mantém enquanto se gira, com o corpo subindo e descendo a cada compasso, em duplas.
A música é uma peça escrita dentro da tradição da música clássica e a versão original é para orquestra. Estes conceitos você vai aprofundar na seção de música deste capítulo.
Muitas versões foram feitas para ela. Uma das que mais ajudou que “Sobre las olas” ficasse conhecida foi feita para um instrumento automatizado conhecido como “órgão de feira”. É um instrumento que pode ser programado.
Esses órgãos são anteriores aos atuais órgãos eletrônicos e foram muito comuns em feiras (festivais com música, jogos e parques de diversões), assim como parte dos carrosséis, e também presentes em alguns circos já no século 19. Mas foram mais numerosos a partir da década de 1920, com versões elétricas, quando a eletricidade já estava mais popularizada e acessível.
No próximo capítulo há um box com mais informações sobre órgãos e os alunos irão construir um instrumento aerofone que ilustra um pouco do princípio com o qual é produzido o som neste tipo de instrumento.
J.Verbeeck "Victory" Fairground organ.
Qualquer Fairground organ, órgão de feira, ou carrousel ilustraria bem.
(Momento 2)
Artes Visuais
Outras formas de ver
HABILIDADES ARTES VISUAIS
(EF69AR01) Pesquisar, apreciar e analisar formas distintas das artes visuais tradicionais e contemporâneas, em obras de artistas brasileiros e estrangeiros de diferentes épocas e em diferentes matrizes estéticas e culturais, de modo a ampliar a experiência com diferentes contextos e práticas artístico-visuais e cultivar a percepção, o imaginário, a capacidade de simbolizar e o repertório imagético.
(EF69AR02) Pesquisar e analisar diferentes estilos visuais, contextualizando-os no tempo e no espaço.
(EF69AR03) Analisar situações nas quais as linguagens das artes visuais se integram às linguagens audiovisuais (cinema, animações, vídeos etc.), gráficas (capas de livros, ilustrações de textos diversos etc.), cenográficas, coreográficas, musicais etc.
(EF69AR04) Analisar os elementos constitutivos das artes visuais (ponto, linha, forma, direção, cor, tom, escala, dimensão, espaço, movimento etc.) na apreciação de diferentes produções artísticas.
(EF69AR05) Experimentar e analisar diferentes formas de expressão artística (desenho, pintura, colagem, quadrinhos, dobradura, escultura, modelagem, instalação, vídeo, fotografia, performance etc.).
(EF69AR06) Desenvolver processos de criação em artes visuais, com base em temas ou interesses artísticos, de modo individual, coletivo e colaborativo, fazendo uso de materiais, instrumentos e recursos convencionais, alternativos e digitais.
(EF69AR07) Dialogar com princípios conceituais, proposições temáticas, repertórios imagéticos e processos de criação nas suas produções visuais.
ARTES INTEGRADAS
(EF69AR31) Relacionar as práticas artísticas às diferentes dimensões da vida social, cultural, política, histórica, econômica, estética e ética.
(EF69AR35) Identificar e manipular diferentes tecnologias e recursos digitais para acessar, apreciar, produzir, registrar e compartilhar práticas e repertórios artísticos, de modo reflexivo, ético e responsável.
Você já imaginou o mundo sem as imagens criadas pela fotografia? Já parou para pensar com quantas imagens fotográficas você entra em contato no seu dia a dia? Quantas são fotografadas por você? Por muitos séculos, as imagens foram criadas de forma manual, ou seja, por meio de técnicas como desenhos e pinturas. Há quase dois séculos, no entanto, foi inventada e começou a se desenvolver a fotografia, e a possibilidade de captar e registrar com fidelidade imagens da realidade gerou mudanças profundas na nossa forma de enxergar o mundo e também de fazer arte.
Fotografia e fotomontagem
Observe a imagem:
Hannah Hoch. Desfile de moda. 1925-1935, colagem.
imagem retirada de: https://theartstack.com/artist/hannah-hoch/modenschau
1. Quais as características dessa imagem? Há algo nela que te chame a atenção?
2. Como parece ter sido feita?
3. Que sentidos você atribui a ela?
Incentive os alunos a relatarem suas percepções sobre a obra, atribuindo-lhe possíveis sentidos a partir dos elementos que identificam nela. É possível que a obra cause algum estranhamento, já que foi feita com a combinação de recortes de diferentes imagens, criando figuras disformes. Sobre um fundo uniforme, azul claro, a artista realizou uma colagem com figuras variadas, com três figuras femininas que se destacam. Elas foram feitas com recortes iguais de um mesmo vestido, que forma seus corpos, mas a cabeça de cada uma é diferente. São formadas por recortes sobrepostos de traços femininos, alguns aparentemente humanos, e outros que parecem ser pinturas (como na figura mais à esquerda) ou esculturas (como na figura ao centro), alguns adultos e outros infantis (olhos ao centro), e também de diferentes origens étnicas. As relações entre os corpos (vestido) e as cabeças das figuras são bastante desproporcionais e diferentes entre si. Algumas formas pouco claras também são visíveis, como os recortes pretos na base, retângulos cinza no fundo das
figuras, e os que parecem ser algo como linhas de um tapete ou renda, no alto.
Agora, observe a imagem a seguir:
Grete Stern.
O que chama a sua atenção nela?
O que ela possui em comum e o que a diferencia da imagem anterior?
Deixe que os alunos primeiro relatem suas impressões sobre a imagem, e depois proponha que a comparem com a obra anterior. Perceba se apontam que em ambas foi usada a manipulação de fotografias, mas de formas diferentes. Enquanto na obra anterior a colagem é evidente, com combinações desproporcionais e disformes das figuras, nesta a cena representada parece real, mesmo que impossível, pois a mulher possui dimensão muito menor que o homem, do qual se vê a mão e parte do tronco ao fundo. Ela ocupa a posição de um abajur, como um objeto doméstico, parece arrumar os cabelos, e a mão masculina parece apertar um botão para acender a luz. Incentive para que relatem o que esta percepção os faz pensar sobre a imagem, que sentidos atribuem a ela. Perceba se notam que ambas as imagens centram-se em figuras femininas.
As imagens anteriores são obras de duas artistas alemãs, Hannah Hoch (1889-1978) e Grete Stern (1904-1999), e ambas foram feitas a partir de imagens fotográficas. Hoje, vivemos em um mundo povoado de imagens captadas da realidade, realizadas com fotografia e vídeo, criadas e divulgadas pela mídia, como a TV, os jornais, as revistas, os cartazes e a internet, ou por nós mesmos, como as compartilhadas nas redes sociais. Mas nem sempre foi assim. A invenção da fotografia, na primeira metade do século 19, e sua popularização cada vez maior ao longo do tempo, mudaram a relação das pessoas com as imagens, e também sua criação pelas artes visuais. Os artistas começaram a perceber que poderiam usar a fotografia como um meio expressivo, não só ao tirarem fotos, mas também ao manipularem imagens fotográficas de formas variadas. E assim, criaram também novos meios de manifestação artística, como a fotomontagem, técnica usada de formas diferentes por Hannah Hoch e Grete Stern, duas importantes artistas do século 20. Hannah Hoch foi uma pioneira da fotomontagem, realizada por meio de colagens, e sua produção está vinculada ao dadaísmo. Já Grete Stern foi uma importante fotógrafa, e algumas de suas obras mais conhecidas são fotomontagens que podem ser relacionadas ao surrealismo.
Você já ouviu falar destes movimentos artísticos, o dadaísmo e o surrealismo? Conhece alguma de suas características?
Converse com os alunos se sabem algo sobre estes movimentos, e questione a origem de seus conhecimentos. Eles podem já ter estudado algo na escola, ou ter tido contato por outras fontes, como livros, filmes, internet, museus. O surrealismo é provavelmente um movimento mais popular, e a palavra “surreal”
faz parte do vocabulário das pessoas para se referir a algo fora do comum, diferente da realidade.
Que história é essa?
Retome com os alunos o que conhecem sobre a arte moderna, que já estudaram em outros capítulos, como a arte abstrata e a dança moderna, por exemplo, abordadas no capítulo 1. Pergunte se lembram-se de algumas características da arte moderna, ou de algum artista moderno do qual tenham gostado mais. Desta forma, eles retomam conhecimentos prévios e os relacionam aos novos, aprofundando a compreensão sobre o tema.
Como você viu em capítulos anteriores, a arte moderna incluiu uma variedade de movimentos artísticos que tiveram como característica, nas artes visuais, o rompimento com a ideia da arte como imitação da aparência real da natureza. E não é coincidência que seu surgimento seja próximo ao da invenção e popularização da fotografia, entre o final do século 19 e início do 20. Afinal, os artistas viram-se libertos da responsabilidade de reproduzir fielmente a realidade, algo que a fotografia começava a fazer com muito mais precisão.
O surgimento do dadaísmo está ligado profundamente à Primeira Guerra Mundial, que ocorreu entre 1914 e 1918. A passagem do século 19 para o 20 havia sido de otimismo em vários países de tradição ocidental, com muitas invenções tecnológicas e descobertas científicas que prometiam tornar melhor a vida das pessoas, e passavam uma sensação de progresso e bem-estar. A eclosão da Primeira Guerra, no entanto, gerou um estado de pessimismo, desilusão e desespero, que se refletiu nas artes.
Primeira Guerra Mundial: Guerra global, centrada na Europa, ocorrida entre os anos de 1914 e 1918. Envolveu as grandes potências econômicas e militares do período, que se organizaram em duas alianças opostas: os Aliados, Reino Unido, França e Império Russo, e os Impérios Centrais, a Alemanha e Áustria-Hungria. Mobilizou mais de 70 milhões de militares e levou à morte mais de 9 milhões deles.
tradição ocidental: Refere-se às tradições culturais europeias, que disseminaram-se para vários lugares no mundo, como o continente americano, tornando-se culturas dominantes a partir dos processos de colonização. O termo ocidental relaciona-se à posição geográfica da Europa no hemisfério ocidental, mas não necessariamente os países herdeiros de sua cultura estão todos neste hemisfério.
O dadaísmo surgiu em 1916 em Zurique, na Suíça, um país neutro, sem vínculo com a guerra, disseminando-se depois aos Estados Unidos e a outros países. Caracterizava-se pelas ações aparentemente sem sentido de seus artistas, oriundos de diferentes países. O próprio nome do movimento, “dada”, foi escolhido como uma palavra sem sentido, como um balbucio de bebê. O Cabaré Voltaire, um clube noturno com propósitos artísticos e políticos, criado pelo poeta alemão Hugo Ball (1886-1927), sua esposa e também poeta Emmy Jennings (1885-1948), e outros fundadores do dadaísmo, foi onde o movimento começou a se organizar, e os artistas se reuniam e realizavam suas ações. As obras e manifestações dadaístas são carregadas de deboche e rebeldia, misturando elementos das diferentes linguagens e meios expressivos recentes, como fotografia e filmes, e usando referências tiradas do cotidiano, como imagens e textos, em manifestações muito diferentes às das tradições artísticas europeias. Para os dadaístas, aquele momento histórico representava tudo o que tinha dado errado na sociedade ocidental, e seus esforços se concentravam em manifestar-se de forma libertária contra as tradições burguesas que tinham levado à Guerra, inclusive questionando o que se entendia como arte até então. A aparente falta de sentido de suas ações relacionava-se ao próprio absurdo da Guerra e dos milhões de mortos provocados por ela. Para eles nenhuma tradição ou valor moral e cultural, depois daquela Guerra, poderia voltar a ser como antes.
Hugo Ball apresentando poema dadaísta no Cabaré Voltaire, 1916.
O surrealismo surgiu na década seguinte, em 1924, com a publicação do Manifesto Surrealista pelo escritor e poeta francês André Breton (1896-1966), seu principal teórico e líder. O movimento foi muito influenciado por teorias então recentes da psicologia a respeito da consciência humana, principalmente as elaboradas pelo médico Sigmund Freud (1856-1939). A importância dos sonhos e das memórias, mesmo que esquecidas, sobre o comportamento humano, tornavam-se cada vez mais populares, e eram interpretadas pelos surrealistas em manifestações artísticas que remetem à situações absurdas, irracionais e oníricas, com o uso de diferentes linguagens e meios artísticos.
O movimento foi também influenciado pelo dadaísmo, uma espécie de desdobramento de algumas de suas ideias, especialmente como crítica à sociedade burguesa, e vários artistas dadaístas alinharam-se posteriormente ao Surrealismo. Um dos artistas visuais surrealistas mais conhecidos é o espanhol Salvador Dalí (1904-1989).
Salvador Dalí. A persistência da memória, 1931. Óleo sobre tela. 24 × 33 cm. Museu de Arte Moderna, Nova Iorque.
Obra ilustrativa do surrealismo, pode ser outra do Dalí
Embora tenham durado pouco tempo enquanto movimentos artísticos organizados, tanto o dadaísmo como o surrealismo foram muito importantes e exerceram influência sobre a arte no século 20, disseminando-se para vários países além dos europeus.
Manifesto: Texto público que relata princípios e intenções de um indivíduo ou grupo. É comum seu uso como declaração ou denúncia política, mas também na literatura e em outras artes para divulgar suas propostas e ideias. Na arte moderna, diversos artistas utilizaram manifestos estabelecendo os princípios de fundação de um novo movimento artístico.
Hannah Hoch participou ativamente do movimento dadaísta, e foi uma pioneira na criação de fotomontagens feitas com colagens, utilizando imagens, e também letras e palavras, apropriadas de diferentes meios.
Apropriação: Termo usado para se referir à coleta e uso, nas artes, de objetos e imagens tradicionalmente não artísticos, como objetos de uso cotidiano, imagens e textos de jornais e revistas etc. Também pode ser o uso de imagens de outras obras de arte. A apropriação começou a ser realizada pelos artistas modernos, no início do século 20, e se popularizou ao longo das décadas, tornando-se um procedimento bastante comum na arte contemporânea.
Observe novamente a obra anterior de Hannah Hoch, Desfile de moda, e depois, observe a imagem a seguir:
Você já viu essa imagem antes? Sabe algo sobre ela?
Você vê relações entre ela e a obra de Hannah Hoch? Quais?
Essa imagem é de uma obra de arte muito conhecida e reproduzida, e é possível que os alunos já a tenham visto antes, mesmo que não saibam nada a respeito dela. Deixe que expressem livremente se percebem relações entre esta obra e a de Hannah Hoch, inclusive se manifestarem que elas não possuem nada em comum, mas oriente-os a olhar as duas em detalhes. Uma análise minuciosa pode levá-los a notar que parte do rosto da personagem central desta obra foi apropriada por Hannah Hoch em sua colagem.
Essa é uma conhecida obra do artista italiano Sandro Botticelli, que representa o nascimento de Vênus, a deusa do amor na antiguidade romana (chamada de Afrodite pelos gregos). Ela foi feita em uma importante época para a arte e a cultura ocidental, o Renascimento, na passagem do século 15 para o 16, em que várias das regras de representação da realidade na arte foram definidas e tornaram-se padrão a ser seguido pelos séculos seguintes. Ela também representa um tema muito comum na arte de tradição europeia, a mitologia da antiguidade romana e grega. Na obra de Hannah Hoch que você viu, um recorte de fotografia em preto e branco dessa pintura é usado, combinado com outras imagens femininas, com detalhes de rostos reais e de esculturas colocados sobre corpos que são, na realidade, fotografias de um mesmo vestido.
Renascimento: Período de intensa renovação na cultura europeia. A religião cristã começa a deixar de ser a principal definidora da cultura e do comportamento, cedendo espaço para valores centrados na inteligência e na razão humana. Nas artes, muitas inovações ocorreram,