2 A CONCESSÃO DE SERVIÇOS PÚBLICOS E SEU REFLEXO SOBRE O
3.4 Receitas Extraconcessão e Outras Receitas das Concessionárias de
Preliminarmente, antes de adentrar o estudo das delimitações à liberdade contratual de venda de produtos e serviços pelas concessionárias distribuidoras de energia, devem ser observados alguns aspectos conceituais sobre as receitas extraconcessão e as outras receitas.
Assim, após a análise de aspectos gerais da concessão de serviços públicos e de um estudo a respeito do setor elétrico, cabe observar os aspectos relevantes ao objeto do presente trabalho, quais sejam as receitas obtidas pelas concessionárias que extrapolam o objeto da concessão.
Como já explicitado em itens anteriores a reestruturação do setor elétrico ocorrida na década de 1990, durante o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, que ocasionou a desverticalização das atividades de geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia, e possibilitou a existência de consumidores livres e cativos43, resultou na diminuição no âmbito de atuação das empresas e propiciou a implantação de um ambiente competitivo, em um setor onde há um monopólio natural44. Um mercado monopolista não traz quaisquer vantagens para o desenvolvimento da economia, por buscar unicamente a maximização dos lucros, daí se observa a necessidade da regulação neste setor, como exposto anteriormente.
Diante do cenário onde se observa a regulação por parte das agências reguladoras e a liberalização de clientes específicos, quais sejam os clientes livres,
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43 Para melhor compreensão os clientes cativos são aqueles que não podem escolher o fornecedor
de energia, enquanto os livres podem optar por comprar energia diretamente dos Produtores Independentes de Energia – PIE.
44 O termo monopólio natural é empregado em situações em que na produção de serviços ou bens
observa-se a impossibilidade de fragmentação do processo de produção, e a oferta do serviço ou bem somente é realizada com eficiência por apenas uma ou poucas empresas fornecedoras do setor, a exemplo do que se observa no setor elétrico com as empresas de transmissão e distribuição de energia.
as concessionárias tiveram que buscar excelência em seus serviços, pois isto impactaria em seus ganhos e na recuperação dos investimentos realizados.
As privatizações fomentaram nas empresas concessionárias de distribuição uma política de melhoria de suas instalações com o intuito de reduzir custos e acelerar a recuperação do investimento inicial, aumentando a rentabilidade da empresa.
Estratégias de marketing passaram a ser aplicadas com o objetivo de vincular uma marca de qualidade aos serviços prestados pela empresa, que acarretaria uma valorização da mesma no mercado.
Estas empresas, diante das mudanças verificadas no setor elétrico, observaram a importância do segmento de grandes consumidores, que constituem os clientes livres, e passaram a oferecer produtos adicionais aos mesmos, como forma de obter a sua fidelização.
Percebe-se que esta política mercadológica passou a ser praticada pelas empresas de distribuição de energia elétrica sejam elas públicas ou privadas, nacionais ou estrangeiras ou de localização regional.
A diversificação na venda de produtos e serviços pelas empresas do setor elétrico passou a ser uma realidade concreta, observando-se a obtenção de novas receitas denominadas outras receitas e receitas extraconcessões.
A Nota Técnica nº 052, de 03 de março de 2003, da Superintendência de Regulação Econômica (SRE) da ANEEL, constituiu o primeiro registro regulatório para definir o tratamento dos ganhos obtidos pelas empresas, através das receitas extraconcessão45 e outras receitas, estas tidas como atividades complementares e adicionais ao serviço básico.
Em 19 de maio de 2006, a ANEEL editou a Nota Técnica nº 167, da Superintendência de Regulação Econômica (SRE), a qual, efetivamente, deve ser considerada quando tratamos das outras receitas relacionadas ao objeto da concessão do serviço público de energia elétrica.
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45 Receitas Extraconcessão: são aquelas decorrentes da participação da concessionária em outras
empresas e cujas atividades não guardam qualquer relação com a prestação do serviço básico concedido.
Cabe inicialmente esclarecer que o concessionário ao auferir outras receitas, realizaria atividades não previstas no contrato de concessão, não estando estas ligadas à distribuição de energia, à demanda e ao consumo de energia.
Conforme se extrai da nota técnica abaixo destacada:
Outras Receitas (OR) são aquelas que não decorrem exclusivamente das tarifas, mas que mantêm relação, mesmo que indireta, com o serviço público prestado ou com os bens afetos à sua prestação. Em outras palavras, são as receitas oriundas de outras atividades que não a prestação direta do serviço público delegado, mas que com a delegação guardem relação, de modo que a possibilidade de sua obtenção decorra da própria delegação. Essas outras atividades são denominadas também de atividades complementares e adicionais ao serviço básico (ACA).46
A oferta dos serviços que geram outras receitas pode ser verificada em duas situações distintas. Em uma o serviço utilizaria a mesma infra-estrutura do serviço básico da concessão e existiria demanda dos consumidores. Pode-se exemplificar este caso no setor da distribuição de energia elétrica, com as atividades de aferição de medidor, religação normal, verificação de nível de tensão.
Em outro caso, a oferta do serviço utilizaria parcialmente ou totalmente a mesma infra-estrutura do serviço básico da concessão, enquanto a demanda seria de terceiros.
Observe-se que as receitas extraconcessão são outras receitas, que não estão conectadas à concessão do serviço, como por exemplo, no setor de distribuição de energia elétrica, o oferecimento de seguros, que podem ser contratados pelos clientes da concessionária e suas mensalidades cobradas na fatura de energia47, portanto, se relacionam indiretamente com a infra-estrutura do serviço básico da concessão.
Na tratativa comercial, exemplificada no parágrafo anterior, teremos como partes as figuras da companhia seguradora e a corretora, devidamente autorizadas a exercer suas atividades pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) em todos os ramos de seguros, e a estipulante, no caso a concessionária, empresa
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46 ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica. Superintendência de Regulação Econômica – SRE.
Nota Técnica nº.167/ANEEL/2006. Revisão Tarifária Periódica da Concessionária de Distribuição. Disponível em <http//www.aneel.gov.br> Acesso em 12 jan. 2010.
47 A Resolução ANEEL nº 456, de 2000, faculta à concessionária a cobrança de outros serviços e
produtos na fatura de energia elétrica, de forma discriminada, após expressa autorização do consumidor titular da conta de energia.
constituída sob as leis brasileiras, tendo como objeto social fornecimento e distribuição de energia elétrica no âmbito territorial, com o interesse em oferecer aos seus clientes outros produtos.
Na situação acima descrita observa-se a formação de parcerias entre empresas de setores diferenciados.
A Lei nº 8.987, prevê em seu artigo 11, a possibilidade de obtenção de outras receitas pelos concessionários, ou seja, aos mesmos é permitido auferir receitas complementares ou acessórias à prestação do serviço básico com o objetivo de favorecer a modicidade tarifária, verbis:
Art. 11 No atendimento às peculiaridades de cada serviço público, poderá o poder concedente prever, em favor da concessionária, no edital da licitação, a possibilidade de outras fontes provenientes de receitas alternativas, complementares, acessórias ou de projetos associados, com ou sem exclusividade, com vistas a favorecer a modicidade das tarifas, observando o disposto no art. 17 desta Lei.
A Lei nº 9.427, que instituiu a Agência Nacional de Energia Elétrica, combinada com o Decreto nº 2.335, de 1997, disciplinou que cabe a ANEEL orientar as atividades finalísticas do setor elétrico, nos ramos de produção, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica, de modo a criar condições para a modicidade das tarifas, sem prejuízo da oferta e com ênfase na qualidade do serviço de energia elétrica, promovendo um ambiente que incentive o investimento, de forma que os concessionários tenham asseguradas a viabilidade econômica e financeira, nos termos do respectivo contrato de concessão.
A Lei nº 10.848, de 2004, alterou disposições do artigo 4º da Lei nº 9.074, de 1995, e restringiu a atuação das concessionárias na obtenção de outras receitas e no exercício de atividades extraconcessão, conforme se observa da transcrição legal abaixo:
Art. 4º As concessões, permissões e autorizações de exploração de serviços e instalações de energia elétrica e de aproveitamento energético dos cursos de água serão contratadas, prorrogadas ou outorgadas nos termos desta e da Lei nº 8.987, e das demais.
§5º As concessionárias, as permissionárias e as autorizadas de serviço público de distribuição de energia elétrica que atuem no Sistema Interligado Nacional - SIN não poderão desenvolver atividades:
I - de geração de energia elétrica; II - de transmissão de energia elétrica;
III - de venda de energia a consumidores de que tratam os arts. 15 e 16 desta Lei, exceto às unidades consumidoras localizadas na área de concessão ou permissão da empresa distribuidora, sob as mesmas
condições reguladas aplicáveis aos demais consumidores não abrangidos por aqueles artigos, inclusive tarifas e prazos;
IV - de participação em outras sociedades de forma direta ou indireta, ressalvado o disposto no art. 31, inciso VIII, da Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, e nos respectivos contratos de concessão; ou
V - estranhas ao objeto da concessão, permissão ou autorização, exceto nos casos previstos em lei e nos respectivos contratos de concessão.
Observe-se, ainda disposição contida nos contratos de concessão dos serviços públicos de distribuição de energia elétrica que dispõem na Cláusula do Objeto as restrições ao exercício de atividades extraconcessão, verbis:
Cláusula Primeira – Objeto do Contrato
Quarta Subcláusula - A CONCESSIONÁRIA aceita que a exploração dos serviços de energia elétrica que lhe é outorgada deverá ser realizada como função de utilidade pública prioritária, comprometendo-se a somente exercer outra atividade empresarial com prévia comunicação ao PODER CONCEDENTE e desde que as receitas auferidas, que deverão ser contabilizadas em separado, sejam parcialmente destinadas a favorecer a modicidade das tarifas do serviço de energia elétrica, que será considerada nas revisões de que trata a Sexta Subcláusula da Cláusula Sétima deste Contrato.
Conforme disposto na Lei nº 8.987, de 1995, e nos Contratos de Concessão as outras receitas obtidas pelas concessionárias devem ser revertidas em benefício da modicidade tarifária, fazendo-se necessário que existam incentivos regulatórios que motivem o incremento da geração dessas receitas, sem que haja prejuízo na execução do serviço básico. Ressalte-se, porém, que os instrumentos regulatórios não prevêem que a totalidade da receita obtida em atividades extraordinárias à concessão seja revertida para modicidade tarifária, com o intuito de assim, incentivar a concessionária em obter este tipo de receita adicional.
Cabe à agência reguladora definir o procedimento para destinação e o percentual das receitas extraordinárias que será destinado à concessionária e revertido ao usuário através da modicidade das tarifas.
Dentre as atividades tidas como geradoras de outras receitas, destaca-se o compartilhamento de infra-estrutura e a prestação de serviços a terceiros.
Cabe ressaltar que diante dos parâmetros regulatórios observa-se que no setor elétrico vigora aspectos restritivos à participação das concessionárias em atividades extraconcessão.
Pode-se observar que é permitida à concessionária a ampla realização atividades que têm relação direta com a concessão, ou seja, aquelas que a concessionária pode exercer em razão da delegação recebida.
Ressalte-se que as tarifas de energia elétrica pagas pelos usuários não beneficiam estas atividades complementares do serviço básico, pois estas contemplam exclusivamente a remuneração dos custos da concessionária associados a uma gestão eficiente e a uma estrutura adequada à prestação do serviço básico, não havendo inclusão de custos associados a outras atividades.
A exceção a esta determinante encontra-se no caso do compartilhamento de infra-estrutura, por se constituir um benefício econômico e social, decorrente de obrigações impostas à concessionária, que refletem diretamente em custos incluídos nas tarifas de energia elétrica.
A empresa concessionária quando do gerenciamento eficiente de seus recursos, superando as expectativas regulatórias, pode designar de maneira parcial recursos humanos e materiais para execução de outras atividades, podendo reter os ganhos oriundos das mesmas.
Neste caso ao ente regulador cabe a tarefa de garantir que essas atividades não prejudiquem o atendimento dos padrões de qualidade do serviço básico.
No caso das receitas de atividades cujos custos compõem as tarifas do serviço básico, as mesmas deverão ser revertidas, para a modicidade tarifária, visando a recuperação desses custos.
Há ainda as atividades que não são cobertas pelas tarifas, neste caso cabe destacar os serviços cobráveis ou taxados, que possuem sua precificação definida pela ANEEL e pelas práticas habituais do mercado, tendo sempre em conta os custos adicionais incorridos pelas concessionárias na sua execução. Estas receitas decorrentes de atividades que não têm custos cobertos pelas tarifas do serviço básico não devem ser revertidas à modicidade tarifária, conforme entendimento de parte de doutrinadores que estudam este tema.
4 VENDA DE PRODUTOS E SERVIÇOS PELAS CONCESSIONÁRIAS