4 POSSIBILIDADE DE ALTERAÇÃO DO PRENOME DO TRANSEXUAL À LUZ
4.5 DECISÕES JUDICIAIS A RESPEITO DA TEMÁTICA
4.5.3 Recurso Especial nº 1.008.398 SP (2007/0273360-5)
Quanto ao entendimento do STJ a respeito do assunto, é importante mencionar que, em decisão peculiar, a Corte Superior garantiu a dignidade humana e determinou a expedição de uma nova certidão de registro civil, sem que constasse a anotação acerca da decisão judicial que autorizou a mudança de prenome e gênero. Essa decisão se refere ao julgamento do REsp 1008398-SP 2007/0273360-5, no qual foi relatora a ministra Nancy Andrighi, com julgamento no dia 15 de outubro de 2009. Cumpre transcrever alguns trechos da emenda:
Direito civil. Recurso especial. Transexual submetido à cirurgia de redesignação sexual. Alteração do prenome e designativo de sexo. Princípio da dignidade da pessoa humana. Sob a perspectiva dos princípios da Bioética – de beneficência, autonomia e justiça –, a dignidade da pessoa humana deve ser resguardada, em um âmbito de tolerância, para que a mitigação do sofrimento humano possa ser o sustentáculo de decisões judiciais, no sentido de salvaguardar o bem supremo e foco principal do Direito: o ser humano em sua integridade física, psicológica, socioambiental e ético-espiritual. A afirmação da identidade sexual, compreendida pela identidade humana, encerra a realização da dignidade, no que tange à possibilidade de expressar todos os atributos e características do gênero imanente a cada pessoa. Em última análise, afirmar a dignidade humana significa
354 CAMOLESI, Marcos Roberto Haddad. Registro civil das pessoas naturais: o exercício pleno da dignidade da pessoa humana. Porto Alegre: Nuria Fabris, 2016. p. 367.
355 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Extraordinário: RE 670422/RS. Relator: Ministro Dias Toffoli. Data: 11.09.2014. Disponível em: <https://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/311628936/repercussao- geral-no-recurso-extraordinario-rg-re-670422-rs-rio-grande-do-sul/inteiro-teor-311628946.> Acesso em: 02 jun. 2017.
356 RAMALHO, Renan. STF analisa se transexual precisa de cirurgia para mudar registro civil, mas adia decisão. Disponível em: <http://g1.globo.com/politica/noticia/stf-analisa-se-transexual-precisa-de-cirurgia-para- mudar-registro-civil-mas-adia-decisao.ghtml>. Acesso em: 02 jun. 2017.
para cada um manifestar sua verdadeira identidade, o que inclui o reconhecimento da real identidade sexual, em respeito à pessoa humana como valor absoluto. Assegurar ao transexual o exercício pleno de sua verdadeira identidade sexual consolida, sobretudo, o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, cuja tutela consiste em promover o desenvolvimento do ser humano sob todos os aspectos, garantindo que ele não seja desrespeitado tampouco violentado em sua integridade psicofísica (Grifo Nosso)357.
Cuida-se de Recurso Especial interposto por Clauderson de Paula Viana contra acórdão proferido pelo TJ/SP. Em primeira instância, o transexual havia obtido autorização para mudança do prenome e designação de sexo, porém o Ministério Público apelou ao TJ/SP, que reformou o entendimento negando a alteração.
O requerente, do sexo masculino, de prenome “Clauderson”, almeja a alteração do assento do seu registro de nascimento civil para que dele passe a constar o prenome “Patrícia”, bem como a modificação do gênero masculino para feminino. Acrescenta que a aparência de mulher, por contrastar com o nome e o registro de homem, causa-lhe diversos transtornos e dissabores sociais, além de abalos emocionais e existenciais.
O recorrente alega que cresceu e se desenvolveu como mulher, com hábitos e aspecto físico tipicamente femininos. Assevera que “tendo sido submetido a tratamento multidisciplinar, identificou todos os transtornos e dúvidas existentes ao longo de sua vida, com o diagnóstico de transexualismo”. Aduz que foi submetido à cirurgia de mudança de sexo e que, ainda que tenha obtido sucesso no procedimento cirúrgico, seus documentos de identificação ainda lhe provocam grandes transtornos, já que não condizem com sua atual aparência, que é completamente feminina.
A Ministra afirma que, apesar de não existir norma específica no ordenamento jurídico brasileiro regulando a alteração do prenome no registro civil, o fato social da transexualidade não pode ficar sem solução jurídica, sendo aplicável à espécie o disposto nos arts. 4º da LINDB e 140 do NCPC, com o intuito de suprir a lacuna legislativa.
Assenta, ainda, não ser razoável submeter o recorrente ao constrangimento de ter de identificar-se como homem no exercício de suas atividades cotidianas, de modo que apenas a alteração de seu prenome será capaz de solucionar essa a incômoda situação. Nas palavras da ministra, “vetar a alteração corresponderia, portanto, colocá-lo em uma insustentável
357 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso especial: REsp 1008398/SP 2007/0273360-5. Relatora: Ministra Nancy Andrighi. Data: 15.10.2009. Disponível em:
<https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/5718884/recurso-especial-resp-1008398-sp-2007-0273360-5>. Acesso em: 27 mai. 2017.
posição de angústia e conflitos, que inegavelmente atinge a dignidade da pessoa humana assegurada pela Constituição”358.
Importante descrever o voto da ministra:
Forte em tais razões CONHEÇO e DOU PROVIMENTO ao presente recurso especial, para julgar procedente a pretensão do recorrente, determinando assim a alteração de seu assento de nascimento, a fim de que nele constem as alterações do designativo de sexo, de “masculino” para “feminino”, e do prenome, de “CLAUDERSON” para “PATRÍCIA”. Determino, outrossim, que das certidões do registro público competente não conste que a referida alteração é oriunda de decisão judicial, tampouco que ocorreu por motivo de redesignação sexual de transexual359.
Em que pese ser possível vislumbrar demandas judiciais em que os transexuais tenham obtido a retificação do prenome e do gênero no assento de nascimento, “isso não isenta o Estado de criar uma lei específica e ampla, ou até mesmo de modificar lei já existente, para que possa assegura àqueles o direito à realização da cirurgia de redesignação do estado sexual e suas consequências jurídicas”360.
É fundamental que as relações jurídicas tenham aproximação com a realidade e a evolução social e cultural da sociedade, de modo que a Justiça e o Direito devem estar na vanguarda dessas mudanças, buscando resguardar a segurança e a proteção jurídica de todo cidadão. Com essas considerações, será apresentada a conclusão deste trabalho monocrático, tendente a responder à problemática de pesquisa e atender aos objetivos propostos.
358 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso especial: REsp 1008398/SP 2007/0273360-5. Relatora: Ministra Nancy Andrighi. Data: 15.10.2009. Disponível em:
<https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/5718884/recurso-especial-resp-1008398-sp-2007-0273360-5>. Acesso em: 27 mai. 2017.
359 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso especial: REsp 1008398/SP 2007/0273360-5. Relatora: Ministra Nancy Andrighi. Data: 15.10.2009. Disponível em:
<https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/5718884/recurso-especial-resp-1008398-sp-2007-0273360-5>. Acesso em: 27 mai. 2017.
360 FUSSEK, Lygia dos Santos. Os direitos civis do transexual em relação à mudança de gênero e prenome. Revista IOB de Direito de Família, São Paulo, v. 15, n. 82, p. 75, fev./mar. 2014.
5 CONCLUSÃO
Consagrado como Direito da Personalidade, o nome aposto no registro civil de nascimento é primordial para concretizar o direito da identidade e resguardar a dignidade da pessoa humana. Com o objetivo de impedir que o indivíduo seja exposto a situações vexatórias ou constrangedoras, o constituinte originário brasileiro dedicou uma legislação específica para regulamentar formas de proteger o nome. Nessa senda, tão embora por um grande lapso de tempo na história da humanidade tenha prevalecido o princípio da imutabilidade, essa regra foi aos poucos sendo mitigada, a fim de atender ao uso constante do nome como forma de distinção das pessoas e respeito ao Direito da Personalidade.
Na sociedade contemporânea, a identidade de gênero é considerada um dos atributos componentes da personalidade, sendo essencial à identificação do indivíduo. Nesse contexto, surge a figura do transexual, que acredita pertencer a sexo oposto ao do seu anatômico e que, em razão disso, sente repulsa pelo próprio corpo, depressão, angústia e sofrimento profundo. Pode-se afirmar, assim, que a questão da disforia de gênero demonstra que a sexualidade vai além do conceito biológico e alcança o entendimento do sexo psicológico.
Não se pode olvidar que os transexuais se deparam com o preconceito, a discriminação e até mesmo a intolerância, em razão dos valores culturais, morais e históricos que se encontram inseridos na sociedade. Sabe-se que, após passarem por um longo período de tratamento hormonal e, em algumas situações, se submeterem à realização da cirurgia de redesignação sexual, esses indivíduos ainda enfrentam outro grande problema: a possibilidade de alterar o seu prenome no registro civil.
Impende destacar que o transexual, como qualquer outro cidadão, merece proteção e amparo legal. Diante desse cenário, o Estado deve assegurar a saúde físico- psíquica e o dever de adequar a identidade civil desses indivíduos frente a sua nova realidade. Como o enfoque deste trabalho foi verificar se os transexuais podem alterar o prenome no registro civil, é possível constatar que o legislador não editou, ainda, leis regulamentadoras específicas para disciplinar essa questão. Desse modo, foi respondido o problema de pesquisa, dado que frente a essa lacuna tem-se demonstrado que o princípio da dignidade da pessoa humana é a norma base que vem possibilitando a alteração do prenome do transexual, uma vez que a inexistência de leis não pode ser um empecilho para atender as novas demandas sociais.
Observou-se, nas consultas às decisões judiciais realizadas na presente pesquisa, que o princípio supradito tem sido apontado pela jurisprudência como a cláusula geral dos Direitos da Personalidade, como norma alicerce na solução dos litígios que versam acerca da possibilidade de os transexuais alterarem o sexo e, consequentemente, o prenome no registro civil.
Constatou-se que, nos dois julgados do TJ/SC, o transexual obteve autorização para mudar o prenome mesmo sem realização da cirurgia, sendo que o magistrado embasou sua decisão na dignidade da pessoa humana. Outrossim, foi trazido à discussão um julgamento inédito do STJ, que autorizou a mudança do prenome e do gênero no assentamento de nascimento, de modo que, na ocasião, foi determinada a expedição de uma nova certidão de registro civil, sem que nesta constasse que essa alteração se deu por sentença judicial, a fim de que fosse respeitada a dignidade humana.
Não obstante seja possível afirmar que a doutrina dominante e a jurisprudência têm se inclinado para efetivar a garantia da dignidade dos transexuais, esse posicionamento não é unânime, de modo que ainda é possível constatar manifestações em sentido contrário.
Nessa perspectiva, faz-se premente a elaboração de uma lei que garanta a mudança registral do prenome dos transexuais, sendo fundamental que o Legislativo discipline essa matéria com o intuito de evitar a insegurança jurídica e proporcionar uma regulamentação plena para a questão. O reconhecimento da sexualidade e consequentemente do nome com que a pessoa se identifica é um dever do Estado, ainda que o indivíduo opte por não realizar a cirurgia de redesignação sexual.
Assim, o direito tem a obrigação de acompanhar as mutações e o desenvolvimento social, seja na esfera Legislativa ou Judiciária, a fim de atender os anseios dos transexuais que almejam a inclusão social, através do reconhecimento da identidade de gênero e da adequação do prenome no registro civil. Nesse desiderato, torna-se urgente inovar e progredir no que tange aos direitos desses indivíduos, visto que em um Estado Democrático de Direito devem ser asseguradas a todos a identidade, a honra e a felicidade, tendo como com respaldo, em especial, o princípio da dignidade da pessoa humana.
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