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3 PRINCÍPIOS COM RELEVÂNCIA PARA A REPARTIÇÃO DO

3.3 MODELO PROCESSUAL COOPERATIVO E DIREITO

3.3.5 Reflexões sobre o modelo processual cooperativo brasileiro

O modelo cooperativo surgiu como complemento aos modelos adversarial e inquisitorial – tanto é verdade que nem mesmo a doutrina que defende esse novo modelo é capaz de afirmar que houve a completa superação dos modelos adversarial e inquisitorial – e tem sido considerado por grande parte da doutrina brasileira como a tábua da salvação para viabilizar principalmente a duração razoável do processo.

As reflexões que se seguem referem-se somente ao sistema brasileiro, pois no sistema português o princípio da cooperação, a nosso ver, encontra-se consagrado desde a reforma de 1996, portanto, naquele país a doutrina e a jurisprudência já se encontram evoluídas no entendimento quanto à aplicabilidade desse princípio, diferente do Brasil que introduziu expressamente o princípio da cooperação somente a partir do CPC/2015.

De plano, é preciso refutar essa ideia de que o modelo cooperativo, fundado precipuamente no princípio da cooperação, seja a melhor solução para essa questão da morosidade do processo no Brasil porque não se pode falar em um modelo puro ou único na medida em que a depender da escolha do legislador haverá a adoção do princípio dispositivo – e, portanto, será prestigiado o modelo adversarial –, ou a opção será pelo princípio inquisitivo – com o emprego do modelo inquisitorial –, ou, ainda, a escolha será dirigida ao modelo cooperativo o qual certamente, atualmente, tem prevalecido sobre os demais sem, porém, excluí-los.

Essa tese se fundamenta nas legislações processuais civis do Brasil e de Portugal que previram expressamente os princípios dispositivo e inquisitivo. No Brasil, por exemplo, no art. 262 do CPC/1973 (art. 2º do CPC/2015) e em Portugal no art. 411º do CPCpt.

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REIS, José Alberto dos. Código de Processo Civil anotado, volume III. Coimbra: Coimbra Editora, 1981, p. 325.

Melhor seria, então, falar-se em um modelo misto de organização do processo com predomínio do modelo cooperativo sobre os demais, a partir da vigência do CPC/2015, mas com a harmonização necessária para a coexistência desses modelos o que fica a cargo da doutrina e da jurisprudência através da adoção de regras de hermenêutica.

Por outro lado, ao contrário do que se imagina, não se pode menosprezar a possibilidade real de aumento do tempo de duração do processo a partir da adoção expressa desse modelo cooperativo, notadamente quando um de seus objetivos primordiais é evitar as decisões- surpresa de modo que certamente ensejará a crescente participação das partes no procedimento, o que num primeiro momento vai impactar profundamente o atendimento do princípio da razoável duração do processo que também integra a noção de devido processo legal justo.

Ainda, a ideia de solidariedade no processo, capitaneada pela noção de socialismo processual, é utopia porque a relação processual que se estabelece entre autor e réu é eminentemente litigiosa de forma que não se pode exigir desses sujeitos processuais, que rapidamente atuem em cooperação uns com os outros, sendo necessário o diálogo e esclarecimento por parte do magistrado o que também parece-nos vai impactar negativamente a duração do processo.

A par dessas observações, já existe hoje no Brasil doutrina encaminhando algumas críticas ao princípio da cooperação. Lênio Luiz Streck, em texto produzido juntamente com Lúcio Delfino, Rafael Giogio Dalla Barba e Ziel Ferreira Lopes, por exemplo, considera inconstitucional o princípio da cooperação incluído no CPC/2015. Segundo os autores, a maneira como foi introduzido o princípio da cooperação no ordenamento jurídico brasileiro aponta para uma visão idealista que descamba para o protagonismo judicial, favorecendo para que o juiz atue solapando ou relativizando a ampla defesa das partes bem como implica em violação ao direito constitucional de acesso à jurisdição porque atribui ao juiz poderes para obrigar as partes a cooperarem no processo557.

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STRECK, Lênio Luiz; DELFINO, Lúcio; BARBA, Rafael Giogio Dalla; LOPES, Ziel Ferreira. O “bom litigante” – riscos da moralização do processo pelo dever de cooperação

Todavia, não vislumbramos a inconstitucionalidade apontada, pois o dever de cooperação já era extraído de outras normas descritas no CPC/1973, conforme já consignado em outra oportunidade, e o que fez o legislador com o CPC/2015 foi aperfeiçoar e tornar expresso o princípio.

Ademais, a conduta do juiz descrita pelos autores pode ser encontrada em julgamentos anteriores à vigência do CPC/2015 de modo que não nos parece que o princípio da cooperação, por si só, tenha o condão de generalizar eventuais equívocos por parte dos magistrados brasileiros e, ainda que pudesse causar esse efeito devastador, às partes encontra-se resguardado o direito de recorrerem às instâncias superiores que certamente farão as adequações que forem necessárias para que se procure obter o respeito ao devido processo legal.

Ainda, algumas outras críticas apontadas pelos autores despontam como bastante apropriadas, notadamente quando sustentam que a cooperação deveria partir do juiz para as partes e vice-versa de modo que não deveria se falar em cooperação entre as partes exatamente em virtude do contexto litigioso no qual estão inseridas. Também se mostra plausível o discurso no sentido de que o juiz não deve atuar de modo coercitivo ao invocar o princípio da cooperação para compelir às partes a atender o seu apelo, notadamente quando um dos pilares do princípio é o dever de diálogo do julgador com as partes o que, por si só, já demonstra que o princípio não se dirige para uma porta aberta de discricionariedades ou arbitrariedades por parte do magistrado.

Em outras palavras, até que a jurisprudência dos tribunais brasileiros tenha estabelecido os contornos para o emprego do princípio da cooperação, pensamos que o juiz deve agir com cautela e buscar o diálogo com as partes para estabelecer o bom andamento do trâmite processual e não impor uma cooperação irrestrita e desarrazoada, pois agindo assim estaria então violando o devido processo legal e afrontando a Constituição Federal.

do novo CPC. Revista Brasileira de Direito Processual, Belo Horizonte, ano 24, n. 90, abr./jun. 2015.

Na jurisprudência do STJpt encontramos precedentes interessantes que indicam o nível de evolução que esse princípio da cooperação atingiu em Portugal e que deve ser perseguido pelos tribunais brasileiros, demonstrando que apesar das dificuldades é possível estabelecer parâmetros para aplicação do princípio sem que haja necessariamente violação da Constituição558.

558

Recurso de Revista n. 06A3687, Relator: Conselheiro Sebastião Póvoas, julgado em 21/11/2006. Uniformização de jurisprudência n. 087158, Relator: Conselheiro Miranda Galvão, julgado em 22/04/1997.

CAPÍTULO 4 – A REPARTIÇÃO DO ÔNUS DA PROVA

NO PROCESSO COLETIVO

Neste capítulo, analisaremos a repartição do ônus da prova no processo coletivo, o que indica a necessidade de abordagem do ônus da prova, especialmente noção e ônus da prova subjetivo e objetivo.

Segue a apresentação e delimitação do problema das regras de repartição do ônus da prova no processo coletivo e o desenvolvimento de aspectos da inversão do ônus da prova no processo coletivo, como fundamentos, momento e requisitos.

Logo após é apresentada a solução para a repartição do encargo probatório no processo coletivo, com breve consideração sobre a interpretação em auxílio da investigação, fazendo a distinção entre aquela adotada para o Brasil e outra para Portugal.

4.1 NOÇÕES INTRODUTÓRIAS