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A reformatio in pejus no processo civil

No documento Vitor Luis Artioli Kundrat (páginas 96-98)

6 A REFORMATIO IN PEJUS NO PROCESSO ADMINISTRATIVO DE DEFESA DO CONSUMIDOR

6.3 A reformatio in pejus no processo civil

Conquanto na seara do processo penal exista previsão expressa vedando sua ocorrência, no âmbito do processo civil a reformatio in pejus ganha outros contornos.

A reformatio in pejus no processo civil encontrou previsão inicial no Título 72, Livro 3, das Ordenações Filipinas, também prevista no art.1.581, do Decreto n°2.827, de 15 de março de 1879, chamado de Consolidação de Ribas e, finalmente, no art.692 da Consolidação das Leis da Justiça Federal.

Nestes diplomas, a reformatio in pejus encontrava previsão posto vigorar a ideia de que a apelação era comum.223 Ser comum a apelação, importava, conforme esclarece Pontes de Miranda, em “entender-se que o apelado também apelara e, em consequência, poder-se empiorar a situação do apelante vencido em parte, ainda que esse vencido em parte não tivesse interposto o recurso de apelação”.224

No Código de Processo Civil de 1939, a doutrina majoritária, entendendo pela abolição do princípio do benefício comum, asseverava pela abolição da reformatio in pejus.225

Atualmente, na sistemática do Código de Processo Civil de 1973, uma vez ausente expressa previsão afastando a reformatio in pejus, a doutrina entende estar afastada em virtude do efeito devolutivo da apelação.

Nesse sentido, lecionam Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery:

Também denominado de princípio do efeito devolutivo, a proibição da reforma para pior tem como fundamento o princípio dispositivo: não pode o tribunal piorar a situação processual do único recorrente, retirando-lhe vantagem dada pela sentença, sem que para tanto haja pedido expresso da parte contrária226.

Assim, à vista da ausência de expressa previsão nesse sentido, a vedação à reformatio

in pejus é entendida como um princípio implícito que deriva do quanto disposto no caput do art.515 do Código de Processo Civil, que estabelece que “a apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada”. Em outros termos, conforme leciona Cassio

223 MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Campinas: Millennium, 1999, p.143-144.

224 MIRANDA, Francisco Cavalcante Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil. v.V. Rio de Janeiro: Forense,

1949, p.99.

225 MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Campinas: Millennium, 1999, p.144.

226 NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de processo civil comentado e legislação extravagante. 14.ed. rev. ampl. e atual. São Paulo: RT, 2014, p.1055.

Scarpinella Bueno, “o princípio que veda a reformatio in pejus é implícito no ordenamento jurídico nacional, derivando do próprio papel que é exercido pelo ‘efeito devolutivo’”. 227

Desta forma, o posicionamento doutrinário majoritário, refletido nos excertos acima, funda-se basicamente no princípio dispositivo para reconhecer a vedação à reformatio in

pejus no processo civil.228

Ocorre que essa suposta vedação não é uma máxima no campo do processo civil. Conquanto tenha como fundamento o princípio dispositivo, que vincula a atuação jurisdicional à pretensão recursal, a vedação à reformatio in pejus no processo civil cede lugar na hipótese em que presentes questões de ordem pública, contra as quais não se opera a preclusão, e as matérias tratadas nos arts.267, IV a VI e 301, todos do Código de Processo Civil. O permissivo para tanto, cabe destacar, é encontrado nos arts.515, §§1º a 3º e 516, todos do Código de Processo Civil.

Interessante frisar que não é em virtude do efeito devolutivo do recurso, que decorre do princípio dispositivo e que demanda a inciativa da parte na devolução do tema ao órgão recursal, que a reformatio in pejus poderá ocorrer no processo civil. Sua ocorrência no campo do processo civil decorre, ainda, do efeito translativo da apelação.229

No sentido exposto, são os ensinamentos de Cassio Scarpinella Bueno:

O que pode ocorrer sem violação ao princípio aqui discutido e com observância ao sistema processual civil é que, nos casos em que incide o ‘efeito translativo’ do recurso, manifestação do mais amplo ‘princípio inquisitório’, o órgão ad quem profira decisão mais gravosa ao recorrente e a despeito da ausência de recurso do recorrido quando a hipótese admitir a sua atuação oficiosa. Assim, por exemplo, não há reformatio in pejus no sentido repudiado pelo sistema processual civil brasileiro, na hipótese de o órgão ad quem anular sentença por reputar uma das partes ilegítimas, a despeito de somente o autor ter se voltado da sentença que acolhera integralmente o seu pedido mas fixara ínfimos honorários advocatícios. A atuação do Tribunal é correta por força do que lhe autoriza o §3° do art. 267230.

227 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso sistematizado de direito processual civil: recursos, processos e incidentes nos

tribunais, sucedâneos recursais – técnicas de controle das decisões jurisdicionais. v.5. 5.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2014, p.66.

228 NERY JUNIOR, Nelson. Teoria geral dos recursos. 7 ed. rev. e atual. São Paulo: RT, 2014, p.184-191; MOREIRA, José

Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro: exposição sistemática do procedimento. 29.ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2012, p.123; PINTO, Nelson Luiz. Manual dos recursos cíveis. 3.ed. ampl. e atual. São Paulo: Malheiros, 2004, p.92-93; MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Campinas: Millennium, 1999, p.147- 178. Em sentido contrário, reconhecendo que em certos casos é possível a possibilidade da reformatio in pejus à vista do princípio inquisitório e da existência de matérias cognoscíveis de ofício pelo órgão julgador: ASSIS, Araken de. Manual dos

recursos. 7.ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: RT, 2015, p.117-121.

229 NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de processo civil comentado e legislação extravagante. 14 ed. rev. ampl. e atual. São Paulo: RT, 2014, p.1007; 1055. Em sentido diverso, Humberto Theodoro Júnior

entende que as questões de ordem pública somente podem ser conhecidas pelo órgão julgador do recurso se consistirem em antecedente lógico do tema vertido nas razões de apelação. (THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito

Processual Civil: teoria geral do direito processual civil e processo de conhecimento. Rio de Janeiro: Forense, 2010, p.594). 230 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso sistematizado de direito processual civil: recursos, processos e incidentes nos

tribunais, sucedâneos recursais – técnicas de controle das decisões jurisdicionais. v.5. 5.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2014, p.67.

É, portanto, sob esse prisma, ou seja, em decorrência do efeito translativo, que devolve ao órgão julgador matérias cognoscíveis de oficio, que a reformatio in pejus poderá ocorrer no processo civil. Em outros termos, em decorrência do tantum devolutum quantum appellatum, ou seja, em virtude do efeito devolutivo da apelação, que somente leva ao conhecimento do órgão recursal a matéria impugnada no recurso, não há que se falar na possibilidade da ocorrência da reformatio in pejus no processo civil. É em decorrência do efeito translativo da apelação, que impõe ao órgão recursal o dever de julgar, de ofício, matérias de ordem pública e aquelas elencadas nos arts.267, IV a VI e 301, todas do Código de Processo Civil, que a

reformatio in pejus pode ocorrer no processo civil.

Assim, ao recorrer, está o recorrente levando ao conhecimento do órgão recursal não apenas a matéria objeto de seu recurso, mas matérias outras que podem ser conhecidas de forma oficiosa pelo órgão recursal, pouco importando se essas matérias possuem ou não vinculação com a matéria objeto do recurso.

No documento Vitor Luis Artioli Kundrat (páginas 96-98)