CAPÍTULO 3 – O MODELO PROPOSTO POR BASIL BERNSTEIN
3.3 A Teoria do Dispositivo Pedagógico
3.3.2 Regras recontextualizadoras: o discurso pedagógico
As regras recontextualizadoras, que estão subordinadas às regras distributivas, caracterizam o próprio discurso pedagógico. Bernstein (1996) define discurso pedagógico como as regras para embutir e relacionar dois discursos, mais especificamente como a regra que embute um discurso de competência (discurso instrucional - DI) num discurso de ordem moral (discurso regulativo - DR), que é dominante sobre o primeiro. Segundo o autor, “o discurso instrucional diz respeito à transmissão/aquisição de competências específicas e o discurso regulativo à transmissão de princípios de ordem, relação e identidade” (BERSNTEIN, 1996, p. 297), e as regras recontextualizadoras determinam o modo como o DI é inserido no DR. O resultado desta inserção constitui o próprio discurso pedagógico.
Neste sentido, o discurso pedagógico é um discurso sem um discurso específico. O discurso pedagógico seletivamente se apropria de outros discursos e reloca-os de acordo com os seus próprios princípios de ordenamento seletivo.
Num sentido importante, o discurso pedagógico, desse ponto de vista, é um discurso sem um discurso específico. Ele não tem qualquer discurso próprio. O discurso pedagógico é um princípio para apropriar outros
transmissão e aquisição seletivas (BERNSTEIN, 1996, p. 259, grifos do
autor).
Portanto, por meio da recontextualização, o discurso (texto) se desloca do seu contexto original de produção para outro contexto em que é modificado por meio de processos de seleção, simplificação, condensação e reelaboração, e depois é relocado. Deste modo, o princípio recontextualizador “seletivamente, apropria, reloca, refocaliza e relaciona outros discursos, para constituir sua própria ordem e seus próprios ordenamentos” (BERNSTEIN, 1996, p. 259). Nesse processo, o discurso original passa por uma transformação, criando um discurso recontextualizado. O discurso não é mais o mesmo, pois as ideias inicialmente propostas são relocadas em outros contextos que permitem releituras e reinterpretações.
Bernstein (1996) cita como exemplo a aquisição da Física na escola como um discurso recontextualizado. Argumenta que a Física aprendida na escola é
o resultado de princípios recontextualizadores que efetuaram uma seleção e deslocaram do contexto primário da produção do "discurso" (em geral, as universidades ou agências equivalentes) aquilo que conta como Física e o relocaram, o refocalizaram, no contexto secundário da reprodução do discurso. Nesse processo, a Física sofre uma complexa transformação: de um discurso original para um discurso virtual/imaginário. As regras de relação, seleção, seqüenciamento e compassamento (a velocidade esperada de aquisição das regras de seqüenciamento) não podem, elas próprias, ser derivadas de alguma lógica interna à Física, nem das práticas daqueles que produzem Física. As regras da reprodução da Física são fatos sociais, não lógicos. As regras de recontextualização regulam não apenas a seleção, a seqüência, o compassamento e as relações com outros sujeitos, mas também a teoria de instrução da qual as regras de transmissão são derivadas (BERNSTEIN, 1996, p. 260-261).
Pela citação destacada acima, entendemos que as disciplinas escolares, como a Física, a Matemática e a Geografia, são recontextualizadas ao serem deslocadas do seu respectivo campo de produção e relocadas no campo educacional. As regras de recontextualização conduzem os processos de seleção de conteúdos, bem como a sequência e o ritmo em que devem ser apresentados e trabalhados. Tais processos não seguem a lógica do campo de produção, mas possuem regras próprias geradas no campo de recontextualização. Dito de outro modo, a Matemática ensinada nas escolas é um discurso pedagógico recontextualizado, deslocado de seu campo de produção (Matemática Acadêmica) e relocado em seu campo recontextualizador. O processo de recontextualização não
segue a lógica de seu campo de produção, mas possui regras próprias, geradas no campo de recontextualização.
As regras de recontextualização criam os campos recontextualizadores e seus agentes. Bernstein (1996) categoriza dois campos de recontextualização: o Campo da Recontextualização Oficial (CRO), criado e dominado pelo Estado e seus agentes, e o Campo da Recontextualização Pedagógica (CRP), constituído por professores, departamentos de educação nas universidades, periódicos especializados, fundações de pesquisa e escritores de livros didáticos.
O CRO é “regulado diretamente pelo Estado, politicamente através do legislativo, administrativamente através da administração pública” (BERNSTEIN, 1996, p. 276). O Ministério da Educação e as Secretarias Estaduais e Municipais, além de seus conselhos, são exemplos de instâncias ligadas ao CRO. Contudo, neste espaço também podem atuar empresas privadas ou Organizações Não- Governamentais (ONG), especialmente em tempos de uma influência cada vez maior dos chamados reformadores empresariais da Educação42, que nos últimos anos têm exercido forte pressão sobre o campo recontextualizador. “O campo recontextualizador oficial pode incorporar, seletivamente, serviços especializados de agentes/agências externas a ele, os quais, por sua vez, alteram a posição desses agentes em seus respectivos campos” (BERNSTEIN, 1996, p. 276-277).
Além dos diversos grupos políticos, o campo da produção econômica (interesses empresariais) e o campo do controle simbólico (conjunto de interesses de ordem ideológica e/ou intelectual), assim como as exigências e determinações internacionais, atuam sobre o processo de constituição dos mecanismos de controle do Estado, o que gera um contexto de práticas e teorias que atuam sobre o campo recontextualizador oficial (CRO) (STEFENON, 2017, p. 63).
O CRO é responsável pela elaboração do discurso pedagógico oficial (DPO), definido por Bernstein (1996, p. 272) como “as regras oficiais que regulam a produção, distribuição, reprodução, inter-relação e mudança dos textos pedagógicos legítimos (discurso), suas relações sociais de transmissão e aquisição (prática) e a organização de seus contextos (organização)”. O DPO é formado pelo conjunto dos documentos que trazem as perspectivas e princípios da educação e do currículo e exercem o papel de orientadores para os sistemas de ensino, tanto nacionais (PCN
42
Não iremos nos estender sobre este tema por não fazer parte do escopo deste trabalho. Mais detalhes sobre essa tendência nas políticas educacionais, consultar Freitas (2012).
e BNCC, por exemplo) como locais (Programa Mais Educação São Paulo, no caso do município de São Paulo).
Segundo o modelo proposto por Bernstein (1996), o DPO é novamente recontextualizado, agora pelos agentes do Campo Recontextualizador Pedagógico (CRP). Sobre o CRP, Bernstein salienta que ele pode ter, em seu núcleo, “posições/agentes/práticas extraídos dos departamentos de educação das universidades, faculdades de educação, escolas, juntamente com fundações, meios de comunicação especializados, revistas, semanários e editoras” (BERNSTEIN, 1996, p. 277-278), sendo este campo responsável pela produção do discurso pedagógico de reprodução (DPR).
Entre os campos recontextualizadores há, por um lado, inúmeras influências e interesses envolvidos e, por outro, possibilidades de mudanças e resistência.
A regulação do discurso pedagógico oficial depende da autonomia relativa dos campos recontextualizadores pedagógicos e de contextos que não os oficiais. É uma questão de análise determinar a localização, condições e alcance dessa autonomia relativa (BERNSTEIN, 1996, p. 276).
Bernstein (1996) explica as funções dos campos recontextualizadores ao dizer que
A atividade principal dos campos recontextualizadores é a de constituir o "quê" e o "como" do discurso pedagógico. O "quê" refere-se às categorias, conteúdos e relações a serem transmitidas, isto é, à sua classificação, e o "como" se refere ao modo de sua transmissão, essencialmente, ao enquadramento. O "quê" implica uma recontextualização a partir dos campos intelectuais (Física, Inglês, História, etc.), dos campos expressivos (as Artes), dos campos manuais (artesanato), enquanto o "como" se, refere à recontextualização de teorias das Ciências Sociais, em geral da Psicologia. O campo recontextualizador junta discursos de campos que são, em geral, fortemente classificados, mas raramente junta os agentes (BERNSTEIN, 1996, p. 277).
Bernstein (1996) ainda salienta que, embora haja exceções, aqueles que fazem parte do campo da produção do discurso (regras distributivas), os criadores do discurso a ser recontextualizado, não são os agentes da sua recontextualização.