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Regresso a Portugal (1897-1900)

No documento Raul Lino: arquitetura e paisagem (1900-1948) (páginas 118-125)

Capítulo 2. Circunstância e proposta

2.2 Regresso a Portugal (1897-1900)

Raul Lino, “tendo regressado a Lisboa [em 1897] quando ainda não tinha feito 18 anos, comple[tou] o [seu] curso livre autodidacticamente,”388 deixando na sua narrativa autobiográfica a convicção que havia cumprido com zelo – sem prejuízo de o ter feito em idade muito prematura – um exigente plano de estudos em arquitetura, no plano teórico assistindo a aulas na Technische Hochschule de Hanôver e no plano prático em atelier. De facto, ambas aquelas componentes da sua formação germânica foram-lhe ministradas pelo Professor Albrecht Haupt, que sendo doutor em história da arquitetura sobre a época do renascimento em Portugal e arquiteto com vasta obra executada, assegurava um patamar de rigor científico e profissional, muito para além do que seria expectável encontrar, em Portugal, ou em França, que era o destino regular dos bolseiros portugueses.

Continua argumentando Raul Lino na sua autobiografia: “Ainda pensei em praticar durante uns tempos no atelier do arquitecto Ventura Terra; abeirei-me dele, mas não cheguei a falar nisto porque não lhe via, nem de longe, o interesse e o magnetismo que me haviam seduzido na pessoa de Albrecht Haupt”389. Nesta passagem do texto, Raul Lino indica claramente que a fonte do seu desinteresse por Ventura Terra (1866-1919) deriva das suas características pessoais e espirituais e em particular a uma falta de apelo que não podemos deixar de a associar à sua produção progressista, configurada que foi nos cânones clássicos das Beaux-Arts e no centro civilizacional da europa continental, que era Paris.

Contudo, trabalhar sob a orientação de Ventura Terra no seu atelier implicava aderir à sua proposta progressista e estilhaçar toda a formação, árdua e convictamente adquirida, entre a Inglaterra e a Alemanha, no entendimento que a arquitetura é uma arte concebida em continuidade com a tradição, reinterpretando a todo o tempo as estruturas de memória e lugar, perpetuando o seu inalienável papel de padrão cultural. E esse propósito de Raul Lino sucumbiria ao internacionalismo, racionalismo e estandardização admitida no processo progressista de Ventura Terra. E essa não era opção que pudesse aceitar.

388

Cf. Lino, Raul, Raul Lino visto por ele próprio, op. cit., p. 29.

389

Raul Lino regressa a Portugal, no ano de 1897, numa conjuntura particularmente conturbada. Os primeiros indícios de instabilidade vinham da década de 1870, nas comunicações que Antero de Quental (1842-1891) e Eça de Queiroz (1845-1900) proferiram nas Conferências do Casino (1871), entre outros autores da geração de 70, que o desencanto converteu em “vencidos da vida” (1887-1894). Com o Ultimato Britânico, em 1890 essa instabilidade intensificou-se, e à ameaça da perda da soberania nacional sobre os territórios ultramarinos, contrapunham-se nas artes, expressões simbólicas como a épica Camoniana ou a telúrica paisagem rural. Entretanto e sob repto lançado em 1890, por Adolfo Coelho (1847-1919), arqueólogos e etnógrafos indagavam pela casa portuguesa, síntese de nacionalidade com o maior significado simbólico.

Um ano antes do seu regresso saía no prelo O Culto da Arte em Portugal (1896) de Ramalho Ortigão (1836-1915), obra onde o autor acusa “a hybrida confusão allucinada do chálet suíço, do cottage inglez, da fortaleza normanda, do minarete tártaro e da mesquita moira,”390 que nos últimos vinte anos vinha inquinando a paisagem dos arredores de

Lisboa. Àquela “confusão alucinada”, o autor contrapunha o exemplo de uma casa que o Conde de Arnoso construiu em Cascais (1894), e que indiciava a possibilidade de construção moderna de uma casa tradicional. Aquele diagnóstico sobre a degradação da paisagem portuguesa, implicava um tratamento que não passava pela arqueologia ou a etnografia, porque a ciência não poderia dar resposta a uma questão espiritual e cultural, que só a síntese arquitetónica contextualizada poderia dar.

Pela sua natureza, o repto de Ramalho Ortigão ficava-se pelas esferas da aristocracia e da alta burguesia cultas ou das elites intelectuais, sendo indiferente para a burguesia emergente e endinheirada que anseava pelo exotismo e originalidade de pavilhões de feira internacional à beira mar plantados. Contudo aquele repto em prol da nossa paisagem era precisamente o propósito de Raul Lino, que “quando regressou da Allemanha, trazia já o intuito, conhecido e applaudido de Haupt – o seu verdadeiro mestre, - de se dedicar de preferência, à construção de habitações, e de reagir, com todo o vigor, com toda a fé, da sua radiosa juventude, contra a corrente de banalidade e de estrangeirismo, que há muito nos invadiu.”391

390

Ortigão, Ramalho, O culto da arte em Portugal, Lisboa: António Maria Pereira – livreiro-editor, 1896, p. 115.

391

A falta de interesse e o magnetismo que sentiu no contato com Ventura Terra, colmatou-os Raul Lino de sobejo junto de Alexandre Rey Colaço, “não po[dendo] (…) deixar de relatar, a título de exemplo, o que significou para um estudante, que se conservara ausente de Portugal durante mais de oito anos, vir a encontrar no lar acolhedor da antiga Rua Nova de S. Francisco de Paula o melhor guia espiritual que se lhe poderia ter oferecido.”392

“Na casa de S. Francisco de Paula juntava-se o escol dos que não se conformavam com a vida normal e corrente do nosso meio, em que a Arte – quando muito – não passa de vago motivo de divertimento, estando longe de representar uma necessidade do espírito. Além de artistas de todos os campos – músicos, pintores, actores – e dos mais dedicados discípulos, víamos ali também frequentemente homens de boa sabedoria daquela época: Jaime Batalha Reis (1847-1935) (…) Agostinho de Campos (1870-1944) (…) Alfredo Bensaúde (1856-1941) (…) António Arroio (1856-1934) (…) Afonso Lopes Vieira (1878-1946).”393

Recém-chegado de Hanôver, em 1897, Raul Lino encontrou no círculo artístico de Alexandre Rey Colaço, campo fértil para o cultivo do espírito e incentivo no entendimento convergente das expressões artísticas na Gesamtkunstwerk (obra de arte total) wagneriana, “instinto” que fecundou no pathos do romantismo alemão. “Na ambiência daquela casa (…) [entusiasmou-se] pelas ideias mais nobres e justas que encontraram expressão nas obras de Rousseau, de Tolstoi, Ruskin, Taine e de tantos outros fanais prediletos daquele tempo.”394 Em “Evocação de Alexandre Rey Colaço” que Raul Lino proferiu no Conservatório Nacional, em 30 de abril de 1954, acentuou, “uma das características da [sua] personalidade, que chega até aos nossos dias e se nos apresenta hoje como parte integrante de um tipo ideal da modernidade.”395 Assenta essa “modernidade” no seu reconhecimento “de um cabal aniquilamento do indivíduo, por meio da crescente invasão dos foros da nossa personalidade por tendências coletivistas uniformizantes que hoje dominam a vida”396 refletindo-se numa “cultura toda pendente para o analítico e o abstracto”397 que produziu o “tipo do homem restrito.”398

392

Lino, Raul, Evocação de Alexandre Rey Colaço. Lisboa: Valentim de Rio-Carvalho, 1957, p. 8.

393 Id. Ibid., p. 10. 394 Id. Ibid., p. 11. 395 Id. Ibid., p. 12. 396 Id. Ibid., p. 12-13. 397 Id. Ibid., p. 13. 398 Id. Ibid., p. 13.

“Reconhecendo os efeitos viciosos causados pela civilização materialista e tecnicista (…) é com vista ao futuro, que podemos bem invocar o seu exemplo [Alexandre Rey Colaço], como a antítese do homo restrictus (…) como homem- artista para quem o culto da música, o apreço da Arte, a admiração pela Natureza se achavam estruturalmente ligados.”399

Imbuído do espírito da Gesamtkunstwerk (obra de arte total) e munido do instrumento do “instinto”, espiritualmente revigorado no círculo de Alexandre Rey Colaço, fermentou em Raul Lino o propósito de cumprir a missão que constava no “mapa de deveres [que] trazia no seu caderno de estudante”400, passado por Albrecht Haupt, em 1897. Raul Lino mergulha então na perceção espiritual daquele Portugal telúrico que conhecia dos “desenhos de viagem”401 de Haupt, da sua investigação sobre a arquitetura do renascimento em Portugal.

É de novembro de 1897402, o primeiro desenho de Raul Lino no âmbito das excursões de estudo que realizou, de norte a sul de Portugal, na companhia do aguarelista Roque Gameiro, que lhe havia sido apresentado pelo seu pai. “Aproveitando domingos e feriados percorríamos os sítios ao nosso alcance. Começámos pelo Sul do país onde me interessava em especial o mudejarismo e o pseudo-mudejarismo do Alentejo e Algarve.”403 Raul Lino concentrou a sua no Sul, região onde coletou a clientela da sua primeira e fecunda proposta doméstica (1900-1918), “No entanto a minha carreira profissional incipiente obrigava-me a visitar também as outras províncias por onde se foi espalhando a minha primitiva clientela”404.

399

Lino, Raul, Evocação de Alexandre Rey Colaço. Lisboa: Valentim de Rio-Carvalho, 1957, p. 17-18.

400

Id. Ibid., p. 11.

401

Albrecht Haupt (1852-1932) fundamentou a sua investigação sobre a arquitetura do renascimento em Portugal (Die Baukunst der Renaissance in Portugal von den Emmanuel's dis glucklichen bis zu dem schlusse spanischen herrschaft, 1890, 1895) sobre uma série de registos de viagem, desenhados in situ, em sete itinerários que se cumpriram entre junho de 1886 e outubro de 1888. Raul Lino terá certamente contatado com estes registos no seu estágio no atelier de Haupt. Cf. Belchior, Lucília dos Santos, Karl Albrecht Haupt (1852-1932) e o «desenho de viagem»: o registo dos monumentos nacionais: compreensão arquitetónica e fruição estética. Lisboa: Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011 (Tese de doutoramento História: Arte, Património e Teoria do restauro). Disponível em http://repositorio.ul.pt/handle/10451/3192.

402

Foi-nos dado observar através da consulta dos desenhos originais e do dossier do inventário informal do arquivo elaborado por Isolda Lino, com a assistência de Raul Lino, um “apontamento de exteriores” numerado (Gaveta 10, n.º 1), datado de 11-97, referente a um desenho de chaminés, Alvito, 11-97.

403

Lino, Raul, A vida corre – o Tempo contínua, (1970), p. 4. [palestra] Acessível no arquivo da família, Lisboa: R. Feio Terenas.

404

24. Raul Lino: “Rebor do Chão e Bragado, VII.1898”, Vila Real 405

25. Raul Lino: “Évora Monte 1-10-1899”, Évora 406

Raul Lino apreendeu os “valores-de-habitar”407 e o “estilo de vida”408 do Sul atento às estruturas da tradição, ou seja da cultura de lugar e memória, intuindo narrativas de continuidade entre a Arquitetura [a] Paisagem e a Vida, registando-as em desenho como o seu mestre Haupt. Na viragem entre séculos e no âmbito da Exposição Internacional de Paris de 1900 cujo mote era celebrar as conquistas da técnica e da ciência, Raul Lino apresenta ao concurso do Pavilhão de Portugal uma síntese de Paço, “um atrevimento (…) inspirado em estilos de várias épocas combinados numa composição verosímil e bastante harmoniosa, em que sobressaiam reminiscências amouriscadas do nosso Alentejo.”409

“A iniciativa foi arrojada, mas o terreno não estava por cá ainda preparado, e mesmo que estivesse! – Ficou como era natural desclassificado, mas foi motivo de caloroso aplauso para Rafael Bordalo Pinheiro que o estampou no primeiro número da sua revista «a Paródia». O concurso foi ganho por Ventura Terra, que com o seu feitio e a sua experiência apresentou uma construção típica francesa daquela época, de correcta composição escolar destituída, já se vê, da mínima feição que fizesse lembrar Portugal.”410

405

Créditos: Coleção da família de Raul Lino

406

Créditos: Coleção da família de Raul Lino

407

Cf. Almeida, Pedro Vieira, Raul Lino – Arquiteto moderno, op. cit., p. 130.

408

Lino, Raul, Arquitetura, Paisagem e a Vida, op. cit., p.19

409

Cf. Lino, Raul, Raul Lino visto por ele próprio, op. cit., p. 29.

410

26. Raul Lino: Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de 1900 (projeto, 1899): Alçado411 Projeto eliminado

27. Ventura Terra: Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de 1900 (projeto, 1899): Alçado412 Projeto vencedor e construído no local

411

Créditos: França, José-Augusto, Raul Lino: Arquiteto da Geração de 90, op. cit., p. 91.

412

Na leitura de José-Augusto França, excêntrico aos restantes ecletismos orientalizantes e pastiches manuelinos a sufrágio, “o jovem discípulo de Haupt, apresentou um traçado inteligente e digno, inspirado nas estruturas do Renascimento”413. Já Pedro Vieira de Almeida considera que “embora constituído a partir de elementos díspares de exemplos de arquitectura nacional, o pavilhão apresenta uma certa unidade formal e uma grande frescura inventiva. Vendo hoje lado a lado projecto de Ventura Terra e o de Raul Lino, percebem-se as vias que levaram à aprovação do primeiro, mas também se percebe a reacção que a escolha suscitou em certos meios.” 414

De facto Raul Lino agregou estilos moçarabe e manuelino numa estrutura do renascimento com elementos e simbólica da arquitetura nacional – azulejo, janelas de canto, escadas adoçadas, sacadas, arcos manuelinos e em ferradura, chaminé evocativa do Paço de Sintra beirado e telha de canudo – numa totalidade artística plausível. A composição inviabiliza uma leitura eclética ou fachadista pela desmultiplicação volumétrica do conjunto, que resulta numa síntese proporcionada e harmoniosa, e na ausência de contexto é a própria arquitetura narrativa de uma paisagem cultural, porque indutora de lugar (Sul) e plena de memória. Pelo influxo medievo, artesania e espacialidade implícita, Raul Lino projeta então uma casa do Arts and Crafts meridional português.

Já o projeto vencedor de Ventura Terra conformou o ensejo de modernidade e cosmopolitismo parisiense que o próprio, após licenciado pela Academia Portuense de Belas Artes (1881-1886), absorveu como pensionista do estado na École Nationale et

Speciale de Beaux-Arts e no atelier de Victor Laloux (1886-1896). Credor do ensejo de

progresso reclamado pela burguesia e pelo Estado, o projeto de Ventura Terra seria construído no Quay d’Orsay, e embora concordante com o tom progressista da própria exposição que consagrou o Art Nouveau, assumia um posicionamento parco de sentimento pátrio, que outras nações, em particular da Europa do Norte, lograram expressar em termos mais próximos do revivalismo Arts and Crafts, afinal como Raul Lino o propôs.415

413

França, José-Augusto, Raul Lino: Arquiteto da Geração de 90, op. cit., p. 84.

414

Cf. Almeida, Pedro Vieira, Raul Lino – Arquiteto moderno, op. cit., p. 130.

415

Esta análise resulta de uma simples constatação que a observação de postais de época demonstra cabalmente e tal é particularmente visível no cantão das Nações no Quay d’Orsay, num segundo alinhamento em relação ao Rio Sena, onde se implantou o pavilhão Português entre outras sete representações, a saber Dinamarca, Peru, Grão Ducado do Luxemburgo, Roménia, Pérsia, Finlândia e Bulgária. Cf imagens disponíveis em http://lemog.fr/lemog_expo_v2/index.php?cat=12.

No documento Raul Lino: arquitetura e paisagem (1900-1948) (páginas 118-125)