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CULTURA DA PAZ Ações pacíficas pautadas

3.6. O Contexto Relacional

3.6.1. Relações Interpessoais

A Educação em Paz implica necessariamente a qualidade das relações interpessoais, uma vez que “a paz só pode ser para todos (...) e com todos” (Rabbani, 2003, p.67).

Polônia e Senna (2005) afirmam que a variedade de contextos, de experiências individuais, de culturas e de sociedades constroem a individualidade da pessoa e promovem reflexos no próprio ambiente físico, social e histórico, bidirecionalidade que se evidencia no contexto escolar, palco de diversidades no qual interagem os participantes da vida social. Ressaltando a escola como espaço de formação relacional, as autoras afirmam que “é no cenário escolar que a criança começa a estabelecer interações diversificadas; é onde a criança se envolve com distintos grupos sociais e convive com a diversidade e com a complexidade das relações, emoções, crenças, valores e atividades” (p.199).

O encontro com a diversidade, contudo, apresenta-se por vezes permeado por posturas ainda marcadas pela exclusão social, pelo preconceito e pela estigmatização, aspectos que clamam por intervenções e cuidados no contexto educativo.

Lobo (2003) afirma que a exclusão social ocorre por falta de ética social, podendo gerar a violência por transmitir ao excluído a noção de injustiça e desrespeito aos seus direitos.

A esse respeito, Santos (2001) afirma que o preconceito refere-se a “uma desvalorização da outra pessoa tornando-a, supostamente, indigna de conviver no mesmo espaço e, conseqüentemente, excluindo-a moralmente” (p.57). Segundo o autor, o preconceito refere-se a um pré-julgamento, uma pré-concepção, um pré-juizo, marcado por uma posição irrefletida acerca de algo ou alguém, caracterizando uma atitude que viola, simultaneamente, três normas básicas: a da racionalidade, a da afeição humana e a da justiça. Nesse sentido, a discriminação caracteriza-se pela manifestação comportamental do preconceito por meio de ações que objetivam manter a posição do grupo privilegiado, e os estereótipos representam imagens construídas por meio de simplificações de comportamentos e de generalizações de semelhanças e diferenças. O autor organiza algumas características que definem os estereótipos: a) são generalizações grosseiras para classificar extensos grupos humanos; b) são aprendidos e ensinados durante a infância; c) são muito lentos para mudar; e d) são utilizados, em climas de tensão e conflito social, como instrumentos hostis contra os grupos ou pessoas estereotipadas negativamente.

Fante (2005), manifestando sua preocupação no que tange aos relacionamentos interpessoais, expressa a ênfase preventiva focada no desenvolvimento de estratégias que objetivam coibir a entrada de armas e de drogas nas escolas, “como se as causas do problema estivessem somente naquilo que os alunos trazem nas mochilas, sem, contudo, levar em conta o

que trazem no coração” (p.30). Dessa forma, “propõem a instalação de detectores de metais, de câmeras de vídeos, além de modernos aparatos de segurança, ao invés de apresentarem estratégias sócio-educativas que melhorem as relações interpessoais” (p.30-31).

Visto que a Cultura de Paz é anunciada como construção que requer participação da e reconhecimento na diversidade, não comportando passividade, camuflagem de conflitos, desigualdades e injustiças sociais (Noleto, 2004), o relacionamento intraescolar caracteriza-se como um dos pilares fundamentais nos quais deve se assentar a Educação para a Paz.

Jares (2002) afirma que o tratamento das relações interpessoais ocupa lugar preferencial na Educação para a Paz, uma vez que, por um lado, trata de um objetivo com valor em si mesmo (o desenvolvimento da capacidade comunicativa); e por outro, refere-se a um instrumento no qual se apóia a Educação para a Paz para conseguir a convivência de paz. Dessa forma, “as relações interpessoais não apenas devem estar em consonância com os objetivos propostos, como são em si mesmas um ‘conteúdo’ de aprendizagem indispensável em todo o processo educativo, visto que este se fundamenta precisamente nessas relações humanas” (p.205).

Pautando-se nos propósitos e componentes que permeiam a Educação para a Paz, o relacionamento intraescolar deve ser construído por elementos favoráveis ao estabelecimento de interações saudáveis e pacíficas entre todos os membros da comunidade educativa, marcadas pela reciprocidade, empatia, cooperação e responsabilidade.

Morin (2001) ressalta, ainda, a importância do sentimento de compreensão nos relacionamentos interpessoais, visto que “compreender inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e de projeção” (p.95). Segundo o autor, a compreensão das fraquezas ou faltas pessoais é a via para a compreensão das limitações do outro: “sempre intersubjetiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade” (p.95).

Segundo o Programa Ética e Cidadania (Brasil, 2003b), os valores e princípios éticos são construídos a partir do diálogo, na interação estabelecida entre pessoas (imbuídas de razão e emoções) em um mundo constituído de pessoas, objetos e relações multiformes, díspares e conflitantes. Por essa razão, o convívio escolar configura-se como elemento-chave na formação ética dos estudantes e, ao mesmo tempo, como o instrumento mais poderoso que a escola tem para cumprir sua tarefa nesse aspecto.

Em consonância com tais considerações, o documento Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 1997a) ressalta que “há um sério trabalho educativo a ser feito no âmbito do convívio escolar” (p.55), razão pela qual a especificação dos temas transversais pode favorecer a reflexão e o planejamento de um trabalho mais pontual.

Chrispino e Chrispino (2002) destacam, ainda, em especial no trato com a diversidade e frente à necessidade de mediação dos conflitos dela oriundos, o conceito de tolerância, entendendo-se tolerância como atitude “que solicita a ação de tolerar como prática” (p.77), interpretação que condiz com o exercício de conviver com os diferentes e divergentes, e que implica técnicas para mediar conflitos em nome da renovação de idéias e da fraternidade. Considerando que a intolerância é socialmente aprendida ao longo da vida, os autores afirmam que “a tolerância pode também ser socialmente aprendida se socialmente ensinada” (p.79).