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CAPÍTULO 4 – RESULTADOS, ANÁLISE E DISCUSSÃO

4.2 A ACESSIBILIDADE E INCLUSÃO DOS SURDOS NO ENSINO SUPERIOR

4.2.4. Relacionamento interpessoal do estudante surdo

Quando perguntado aos participantes como ocorre o relacionamento dos surdos com os demais estudantes, e entre surdos e professores, algumas respostas foram positivas, e outras apresentaram um tom de dificuldade e barreira na comunicação.

A percepção de D1 revelou que o mesmo sente dificuldade para interagir com o estudante surdo, e por vezes solicita a intervenção do intérprete:

Ela (a intérprete) tem feito um papel, assim, bem importante! Ela consegue dar autonomia para ele. Então, ela fica ali apostos, interagindo também com as atividades que estão sendo feitas na sala de aula. E eu tenho sentido que isso muito positivo.

Na IES 2, analisando o relacionamento dos surdos com os ouvintes, com relação ao professor, foi possível identificar na fala do D2 que a própria figura do intérprete dentro da sala de aula prevê uma triangulação na informação, que a gente precisa aprimorar muito ainda, mas considerou que:

O maior desafio para mim é o da comunicação. Eu hoje conheço Libras como língua, estrutura, assim como eu conheço, sei lá, Alemão. Ou seja, muito pouco, mas na interação com os surdos, eu consigo entender um pouco também do funcionamento do surdo, digamos assim, mental. O fato de não ser usuária de Libras gera dificuldade de comunicação, muitas vezes, mediada só pelo intérprete.

Na visão de Lodi (2005), aqueles que se propõem a trabalhar na educação de sujeitos surdos devem fazê-lo a partir de uma visão da heterogeneidade constitutiva das relações sociais e linguísticas e, para tanto, é fundamental que uma política educacional voltada para a diversidade social e cultural seja delineada.

Para os intérpretes que lidam diariamente com o processo comunicacional entre surdos, há reflexo na interação dos ouvintes e dos próprios surdos. Para o TILS 1 as pessoas meio que se assustam e elas não estão acostumadas a lidar com a pessoa que a língua é diferente da delas. Quando os ouvintes querem falar com o surdo, eles não se dirigem ao surdo, mas ao intérprete. Ah! Fala pra ele que eu estou querendo isso! Em situações cotidianas em sala de aula, por exemplo, é importante que os ouvintes, seja o docente ou os demais colegas, procurem estabelecer um canal de comunicação com os surdos, pois muitos deles podem utilizar a comunicação por leitura labial (oralismo). Na percepção da TILS 1, o processo deveria ocorrer como uma mediação, construído no decorrer da formação desse aluno, durante sua passagem pela Educação Básica. Faz-se necessário quebrar as barreiras atitudinais. Ele (o surdo) acaba quebrando essas barreiras e chega um momento em que ele consegue se comunicar, estando o intérprete em sala de aula ou não.

De acordo com a percepção do TILS 2, a interação estabelecida entre o estudante surdo incluído na Educação Superior, com os seus pares ouvintes é bem diversificada, pode acontecer do surdo ter outros colegas surdos na mesma sala de aula e que também se comunique com eles, despertando ainda mais o interesse dos estudantes ouvintes. Também pode acontecer de o estudante surdo interagir

somente com o intérprete e viver isolado. Sobre esse contexto, o TILS 2 reiterou: percebo que, quando as turmas são específicas para surdos as coisas fluem mais; essa referência pode ser associada no caso de cursos de licenciatura voltados para o Letras/Libras.

Essa consideração da intérprete é inquietante, pois demonstra que estratégias de inclusão, quando inadequadas, favorecem a expectativa de que turmas exclusivas podem ser mais bem-sucedidas, indicando que as concepções educacionais baseadas em modelos de segregação ainda pairam sobre o universo educacional. Essa discussão é dialética, e bastante aquecida no cenário da cultura surda, pois na filosofia educacional bilinguista, que contraria a filosofia oralista, o surdo é reconhecido na sua diferença linguístico-cultural, e as iniciativas apresentadas por uma educação bilíngue têm demonstrado resultados satisfatórios, pois vêm permitindo ao surdo desenvolver suas potencialidades desde o início de sua escolarização. Expor a criança à prática bilíngue, o quanto antes, garantirá o desenvolvimento de conteúdo semântico, e a criança estaria aprendendo gradativamente a Língua Portuguesa escrita. Assim, a pessoa surda, já adulta, ao avançar em seus estudos, teria esses domínios constituídos e os requisitos de comunicação necessários ao acesso e permanência em uma instituição universitária, ou seja, os princípios inclusivos já estariam consolidados. Dessa forma, a educação do surdo, mediada por ações de acessibilidade oferecidas nas instituições, definiria a trajetória bem-sucedida e o sucesso escolar. Portanto, há que se ter cautela quanto à defesa de classes ou turmas exclusivas, principalmente quando se tratar de Educação Superior, na qual o desenvolvimento de habilidades sociais, de entendimento das diversidades e da construção da cidadania também são parâmetros da formação.

Sobre a relação estabelecida entre os docentes e os estudantes surdos, o TILS 1 relatou que podem ocorrer resistências para a aceitação, tanto dos surdos, quanto do intérprete nas aulas:

Alguns professores são meio resistentes às adaptações, resistentes até à própria comunicação, mas também tem professores que são excelentes, que estão abertos à qualquer especificidade que surja na turma e ficam até interessados.

Para o TILS 2, existem docentes que estão se esforçando bem mais para satisfazer a dúvida do estudante surdo, buscando novas estratégias para uma determinada explicação:

Muitos docentes, por vezes, ficam assustados pelas perguntas dos estudantes surdos, devido o grau de complexidade, pois ainda não estão acostumados com esses novos alunos, e que de certa forma estão recentes na Academia.

Vallentini e Bisol (2012) revelam em seu estudo sobre a inclusão no ensino superior e as especificidades da prática docente com estudantes surdos, que permanece o mito entre professores de que o sucesso ou fracasso do estudante está associado à eficiência do serviço de apoio oferecido pela instituição e, portanto, esses profissionais acabam não se preocupando em fazer adaptações que favoreçam os alunos surdos.

Quadros (BRASIL, 2004) considera a necessidade de cada ator, nesse processo educacional, identificar e reconhecer o seu papel e, de modo geral, aos intérpretes de Língua de Sinais da área da educação, é recomendado redirecionar os questionamentos dos estudantes ao professor, pois desta forma o intérprete caracteriza o seu papel na intermediação, mesmo quando este papel ultrapassa o limite de sua atribuição.

Quando perguntado aos surdos como se dá a relação com seus estudantes ouvintes, obtivemos muitos relatos interessantes:

A ES 1 a relatou que:

Sempre nos primeiros dias de aula, percebe que os colegas ouvintes ficam observando, e querem aprender a Língua de Sinais e aprendem aos poucos e vão conversando com alguns sinais. Sobre o relacionamento com os professores ouvintes, considera que às vezes uns falam muito rápido, ou até mesmo nas palestras não estão preocupados com os surdos, nos tratam de forma igual aos estudantes ouvintes. Se tenho dúvida pergunto à intérprete e ela pergunta ao professor também e ele explica, mas as vezes uns professores falam muito rápido e isso atrapalha a interpretação, outros já falam mais devagar, é melhor.

Novamente percebe-se que a interação estabelecida se torna mais frequente com o intérprete, com o qual o surdo constrói um vínculo e dessa forma esse profissional é quem explica todo o conteúdo, ao invés do professor. Como pontuado

por Martins (2007), a partir do momento em que o intérprete de Língua de Sinais se tornou um profissional presente e indispensável no contexto educacional e na educação dos surdos, cabe perfeitamente questionarmos sobre as práticas e efeitos discursivos suscitados por essa nova realidade.

O estudante ES 1b considerou que:

No início percebia certo receio da parte dos colegas ouvintes devido à surdez, aos poucos íamos nos conhecendo e eu me sentia feliz porque as pessoas se preocupavam comigo tinham a mente mais aberta para a questão da inclusão e da mesma forma queria conhecer mais da identidade e da cultura surda.

Atitudes como essas revelam algumas estratégias de acessibilidade na comunicação entre os pares. Tais estratégias representam evoluções significativas, para o aprendizado do surdo e para os ouvintes em relação ao aprendizado da Libras, quando na ausência do intérprete, essa interação se estende para a execução de outras atividades fora de sala, como na organização de trabalho em grupo.

A autonomia e a independência desenvolvidas são bastante produtivas e ganham visibilidade em momentos em que o intérprete não pode estar presente e os surdos e ouvintes procuram estabelecer uma comunicação. Para ES 2b a interação foi evoluindo, eles (colegas ouvintes) se interessavam, faziam os trabalhos comigo e queriam conhecer esse mundo da cultura e identidade surda. Outras estratégias utilizadas para essa interação entre os pares podem ser observada no relato do estudante ES 1a, quando afirmou que usa muito da comunicação por e-mail ou das redes sociais, como o facebook, pois para se encontrarem na IES 1 considera:

É mais difícil porque os colegas não têm tempo, e quando nos encontramos, alguns colegas se esforçam para se comunicar comigo em sinais porque já fizeram a disciplina de Libras, quando não tem intérprete a gente escreve no papel e trocamos as informações.

Outras percepções já relatadas como positivas, em relação aos seus pares foram identificadas pelos dois estudantes surdos da IES 2, evoluindo para a interação com outros estudantes surdos. O ES 2a relatou que conhece colegas surdos em outros cursos da pós-graduação, informando que desconhece a existência de estudantes surdos na graduação, e como já tem professores surdos no

programa, enunciou que é muito bom interagir com os outros colegas surdos porque a gente estuda e faz muitas pesquisas juntos e descobre muitas novidades.

Já o ES 2b percebeu a existência de colegas ouvintes que já sabem um pouco de Libras, e reiterou que os outros colegas ouvintes que não sabem sinais, se comunicam por bilhetes ou leitura labial, mas é normal nada de adaptação. Assim como relatado pelo estudante ES 1a, em relação ao uso de outras estratégias para comunicação, o estudante ES 2b afirmou que, às vezes, quando tenho dúvida, me comunico com os professores e demais colegas por e-mail.

O contexto universitário é desafiador e as dificuldades de adaptação à vida acadêmica podem ter como consequência o insucesso e o abandono. A integração bem-sucedida do estudante surdo com seus pares, professores, intérpretes e ambiente acadêmico são fundamentais nos primeiros anos no ensino superior, possibilitando assim melhores chances de sucesso chegando à conclusão do curso.

Quando se trata do relacionamento com os intérpretes, ES 2b considerou ser uma relação normal, de parceria, pois quando o intérprete não sabe ou tem dúvida sobre algum sinal, ambos se ajudam de forma mútua. Esse estudante afirmou que se não sabe o sinal, eu o ajudo e ele aprende novos sinais e assim como eu, bem recíproco. Sobre essa relação de parceria no momento da interpretação, seja dentro ou fora de sala, é importante ressaltar que a Língua de Sinais é uma linguagem gestual que ainda está em construção, e que devido a variação linguística, ou os próprios regionalismos existentes, também nas línguas orais, surdos e intérpretes realizam comparações de sinais para obter o melhor contexto e compreensão de seus significados pelos surdos. De fato, o intérprete necessita ter um amplo vocabulário para desenvolver esse trabalho de mediação na triangulação de interações, entre a exposição do pensamento do professor, sua adequada interferência na interpretação e tradução para o estudante surdo. Martins (2007) considera que os intérpretes vêm procurando construir, a partir de sua inserção na educação, com os ouvintes e com os surdos, seu lugar na triangulação, professor- estudante-intérprete, para a construção de um espaço em que a própria tradução se instaure.

4.2.5 Perspectivas futuras para inclusão de estudantes surdos e as

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