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5.2 SISTEMATIZANDO AS RELAÇÕES

5.2.2 Religiosidade, Casamento e Celibato

5.2.2.1 Religiosidade

O sentimento religioso, de fé e de crença em santos, anjos e arcanjos, principalmente em Nossa Senhora, acompanhava o português em todas as partes do mundo, e cá no Brasil não seria diferente.

Eu me lembro, íamos todos os domingos à missa, a minha mãe, as colegas, os meus irmãos, mas o meu pai raramente ia, ficando sempre em casa. [...] A religião para mim e para a minha família significa tudo, como não se vive sem comer, sem respirar, não se vive sem pensar em Deus e na sua existência, porque Jesus te ama, morreu na cruz pelos nossos pecados, antes mesmo de

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nascermos ou pecarmos, ele morreu pelo nosso amor, então, religião é isto.253

A “memória é o campo de nossa reflexão e diálogo”.254 Quando Helena

afirma que a religião para ela e para a sua família “significa tudo”, ela dialoga, do ponto de vista da sua situação atual como religiosa, com o rigor da sua ordem cristã e com as suas recordações, refletindo sobre a importância do amor a Deus para o ser humano.

A religião é muito importante porque a minha mãe sempre dizia que quem não amasse a Deus, não amaria ninguém. E tínhamos que amar a Deus sobre todas as coisas. Íamos à missa todos os domingos às sete horas, depois me tornei filha de Maria. Assim, eu era obrigada a ir e não podia perder a missa.255

A história oral “é um campo de exercício do direito de falar, de expressar as interpretações e perspectivas de cada um”.256 Clarinha, ao se expressar, expõe as suas interpretações quanto à religiosidade, que foram influenciadas pelos ensinamentos de sua mãe e suas avós, que, segundo afirma, diziam: “[...] quem não amasse a Deus não amaria ninguém. E tínhamos que amar a Deus sobre todas as coisas.”

Glorinha, por sua vez, relata: “Nos fins de semana, eu só trocava a roupa para ir à missa, até hoje vou todos os domingos à missa, é um hábito. A minha mãe e o meu pai eram muito religiosos.”257 O hábito, portanto, faz os devotos perpetuarem as tradições inventadas. A ele pode-se atribuir um sentido amplo, pois inclui tradições idealizadas, construídas e formalmente institucionalizadas que se fazem presentes em práticas comuns no cotidiano das pessoas. É um conjunto de práticas normalmente regulado por regras ou pela

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Helena, 79 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 03/03/2005.

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FENELON, Déa et. al. Muitas memórias, outras histórias. São Paulo: Olho’Água, 2004. p.6.

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Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

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KHOURY, Yara Aun. “Muitas memórias, outras histórias: cultura e o sujeito na história.” In: FENELON, Déa et. al. Op. cit., 2004. p.123.

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aceitabilidade de seus praticantes, podendo ser de natureza ritual ou simbólica. Seus rituais procuram difundir certos valores e normas de comportamento por meio da repetição (ir todos os domingos à missa), o que implica uma

continuidade com relação ao passado.258

Os meus pais sempre falavam que em primeiro lugar vinham as obrigações, depois as brincadeiras, então, aos domingos, a primeira coisa era ir à missa, depois cuidar da casa e à tarde brincar e passear. A minha mãe quase não ia à missa porque tinha que cuidar da casa e da família, já o meu pai, sim, ia todos os domingos. Freqüentávamos a Igreja do Menino Jesus, de Tucuruvi. Nós tínhamos a roupa da missa e a roupa de passear, é lógico, aos domingos precisávamos nos “embonecar”. Nenhum deles ocupava postos na Igreja, mas sempre ajudavam em quermesse ou qualquer outro trabalho.

Todo o cristão e católico tinha as suas obrigações, os seus deveres e, se possível, algum divertimento: “[...] então, aos domingos, a primeira coisa era ir à missa, depois cuidar da casa e à tarde brincar e passear.” Uma outra tradição inventada e mantida aparece neste depoimento: “Nós tínhamos a roupa da missa e a roupa de passear, é lógico, aos domingos precisávamos nos embonecar.”

Eu ajudei durante dois anos como catequista, preparando as crianças para a primeira comunhão. Como catequista, aos domingos, depois da missa, levava as crianças para um piquenique, mas junto com os missionários, porque tinham idéias diferentes na orientação das crianças, porque agora está faltando esta orientação para as crianças. Desde pequeninos, crescemos agradecendo ao Pai do Céu por tudo o que ele nos dá. Na minha família, geralmente, rezávamos juntos o Pai Nosso, a Ave Maria, agradecíamos a Deus por estarmos vivos. A religião na minha vida significa cem por cento, porque sem ela não se faz nada porque religião é Deus. Até hoje, sempre aos domingos, junto com o meu marido, freqüento a igreja, próximo de casa, a Igreja de São Judas Tadeu, aqui em Guarulhos. Penso que as pessoas mudaram muito o comportamento nas igrejas, até as noivas estão muito audaciosas, isto me choca, porque os meus pais não iriam aprovar. Por outro lado, a igreja está mais humanitária e está conseguindo resgatar o que ela perdeu,

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porque ela mesma se afastou um pouco do seu rebanho, eu acredito que ela está se recuperando aos poucos.259

Durante todo o depoimento de Fátima, nota-se múltiplos fragmentos de tradições idealizadas: “Desde pequeninos, crescemos agradecendo ao Pai do Céu [...] rezávamos juntos o Pai Nosso, a Ave Maria, agradecíamos a Deus Por estarmos vivos.” Ao lembrar de lugares, pessoas e práticas sociais, a depoente contribui para constituir a história coletiva do grupo entrevistado: “Eu ajudei durante dois anos como catequista, preparando as crianças para a primeira comunhão.”

Viga complementa a explicação do ser cristão/católico temente a Deus quando relata: “Todos os domingos íamos à missa, na Igreja de Santa Terezinha, era a nossa obrigação, agradecer a Deus pela semana e pela saúde, íamos sempre

todos juntos, os meus pais e os meus irmãos.”260

Afirma-se que a religião representa o passado e a tradição e que é, de certa forma, um conhecimento surgido em meio a uma organização social e política, que permanece entre as pessoas, sendo que para o português essa tradição é mais exaltada. A religião se torna sublime, mesmo frente à ciência, com seus métodos e conclusões, revelando-se detentora da sabedoria de como as coisas funcionam.261

Estas palavras estão presentes em cada afirmação das entrevistadas e, segundo as suas próprias convicções, representam a tradição e o pertencimento à mesma essência, o ser português. Nesse sentido, foi na esperança de encontrar um lugar melhor para se viver que os patriarcas vieram para o Brasil. Pode-se afirmar, assim, que onde está a esperança está também a religião, e o português, arrojado e esperançoso, não deixa a religiosidade de lado, transmitindo-a propositadamente de geração a geração, como um dever, uma obrigação.

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Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/12/2005.

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Viga, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 22/04/2005.

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FIGURA 7 – A reprodução simboliza o tradicional enlace matrimonial entre duas famílias portuguesas, a noiva é Clarinha, em 1954. Fonte: Álbum de família da entrevistada.