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A discussão que se segue terá como fonte de dados a RAIS, muito embora os dados apresentem uma relativa incompatibilidade com os da BRACELPA, contudo esta incompatibilidade não prejudica as análises mais gerais.

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Estas variáveis foram escolhidas por nós, pois são as mais afetadas no período da incidência da globalização. Uma característica comum é que o nível escolar dos trabalhadores seja ampliado e o de salários diminuído.

A respeito dos dados especificamente do setor de celulose e papel só os encontramos a partir de 1994, deste modo estaremos apresentando num primeiro momento os dados mais gerais referentes ao setor de papel, papelão editora e gráfica.

A respeito dos dados da RAIS de 1994 a 2000, temos uma redução de 16,5% da mão-de-obra, enquanto que os da BRACELPA demonstram uma redução de 14,6%, sem contar com os trabalhadores terceirizados, apesar deste diferencial os dois bancos de dados ressaltam a tendência de queda da mesma. Sendo assim, consideramos que os dados da RAIS complementam as análises dos dados fornecidos pela BRACELPA, devido ao fato de o primeiro possuir um caráter mais qualitativo em termos de descrição da mão-de-obra, mostrando o perfil escolar e a renda do trabalhador.

Como já observamos os dados de mão-de-obra no setor de celulose e papel começam a partir de 1994, deste modo de 1989 a 1993 estaremos falando do grupo maior composto pela indústria de papel e gráfica. A partir de 1994 estaremos entrando na análise do setor de celulose e papel propriamente dita. Acreditamos que tal análise é possível, pois, ao compararmos os dados do grande grupo de papel, papelão, editora e gráfica de 1994 a 200157 com os da indústria de papel e celulose percebemos que as

mesmas tendências são encontradas.

Anteriormente observamos que a maior parte dos trabalhadores da indústria de papel e papelão58 tem escolaridade baixa, e ao longo dos anos 80 percebemos uma mudança neste perfil. Tal situação se confirma ao analisarmos os dados de mão-de- obra de 1989 a 1993 da indústria de papel, papelão, editora e gráfica, pois percebemos

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Apesar da década de 90 terminar em 2000, acreditamos que a utilização dos dados até 2001 nos é importante, visto que nossa seqüência de dados qualitativos sobre o setor de celulose e papel se inicia em 1994.

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As indústrias de celulose e papel são um subgrupo das indústrias de papel e papelão, que por sua vez são um subgrupo das indústrias de papel e gráfica.

que houve queda em todos os níveis escolares, contudo, os trabalhadores com estudo inferior a 5 anos, foram os que mais sentiram esta tendência.

-41,13 -40,03 -20,41 -6,24 -11,99 -34,90 -22,83

menos de 1 ano 1 a 4 anos 5 a 8 anos 9 a 11 anos mais de 11 anos IGN TOTAL GERAL

GRÁFICO 29 Brasil: Evolução da mão de obra da indústria de papel, papelão, editora e gráfica , 1989 a 1993 por escolaridade.

Fonte: RAIS

Esta tendência a queda na mão-de-obra com baixa escolaridade se confirma, como podemos ver no gráfico 30, com índices semelhantes no grande grupo de papel, papelão, editora e gráfica e na indústria de celulose e papel propriamente dita, muito embora a primeira tenha apresentado um aumento de 2% no período enquanto que a segunda mostra uma diminuição de 16,7%.

-27,79 27,90 -14,30 -12,09 56,42 2,40 49,55 -54,65 -54,13 34,72 -51,33 -54,53

menos de 1 ano 1 a 4 anos 5 a 8 anos 9 a 11 anos mais de 11 anos TOTAL GERAL

papel e grafica papel e celulose

GRÁFICO 30 Brasil: Evolução da escolaridade nas indústrias de papel e celulose e nas indústrias de papel, papelão, editora e gráfica, por escolaridade de 1994-2001

Fonte: RAIS

Individualmente, o número de trabalhadores com escolaridade até 8 anos foi decaindo, enquanto que os trabalhadores com mais de 9 anos de estudo foi aumentando. Assim, nossa análise a partir de agora se concentra apenas no setor de celulose e papel.

Uma mudança qualitativa pode ser vista no setor de celulose e papel, pois, se em 1994 67,4% dos funcionários possuíam escolaridade inferior a 9 anos e 32,6% escolaridade igual ou superior. Já no ano de 2001 verificamos uma evolução no que tange aos trabalhadores com mais de 9 anos de escolaridade, passando a representar 50% do quadro de funcionários do setor de celulose e papel.

Além disto, em 1994, 34,9 dos trabalhadores deste setor possuíam escolaridade de até 4 anos e os trabalhadores seguido pelos de 5 a 8 anos com 31,2%, em 2001 os trabalhadores com 9 a 11 anos de escolaridade representam sozinho 40,7%, como podemos ver no gráfico 31.

0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 40,0 45,0 (%) 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001

menos de 1 ano 1 a 4 anos 5 a 8 anos 9 a 11 anos mais de 11 anos IGN

GRÁFICO 31 Brasil: escolaridade dos trabalhadores da indústria de celulose e papel de 1994 a 2001 Fonte: RAIS

Ainda se desmembrarmos estes dados notaremos (tabela 25) que em 1994 o maior segmento de trabalhadores era constituído por trabalhadores com 4 série (fundamental) completa 24,23%, e em 2001 é constituído por trabalhadores com 2o grau

(médio) completo com 33,04%, isto significa uma mudança qualitativa no perfil dos trabalhadores das indústrias de celulose e papel, notadamente percebemos que existe uma exigência de trabalhadores “técnicos”.

indústria de celulose e papel, neste setor isto se deve ao processo de modernização que as indústrias59 passaram principalmente nos anos 90, pois, com a implementação de sistemas de produção mais integrados e computadorizados, existe a necessidade de uma mão-de-obra mais qualificada para lidar com as novas tecnologias.

Tabela 25 Brasil: Escolaridade dos trabalhadores do setor de celulose e papel de 1994-2001 Escolaridade 1994 2001 Analfabeto 1,3 0,69 4.Série Incompleta 10,66 6 4.Série Completa 24,23 12,46 8.Série Incompleta 16,91 12,84 8.Série Completa 14,3 13,45 2.Grau Incompleto 6,77 7,68 2.Grau Completo 16,56 33,04 Superior Incompleto 2,91 4,07 Superior Completo 6,35 9,75 Ignorado 0,01 0 Total Geral 100 100 Elaborado a parir da RAIS

Confirmando a tendência registrada nas indústrias de papel e papelão nos anos 80, a indústria de celulose e papel tem reduzido o número de trabalhadores com baixa escolaridade, cabe ressaltar que esta tem sido uma prática comum principalmente no setor industrial. (DIEESE, 2001). Outra observação a ser feita é que a escolaridade cada vez mais passa a ser uma exigência, que deve ser atingida pelo trabalhador e não um benefício oferecido pelo setor, muito embora exista no setor uma preocupação em fornecer cursos de especialização para seus empregados.

Esta situação pode ser confirmada quando analisamos os dados da indústria em geral no período de 1994 a 2001, percebemos que a tendência pela diminuição dos trabalhadores com baixa escolaridade se mantém. Apesar de ter sido menos intensa com os trabalhadores com menos de 1 ano de escolaridade, pois na década de 80

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Na década de 90 as empresas de maior porte do setor de celulose e papel modernizarão seu maquinário, através da ampliação ou mesmo criação de novas plantas industriais. Isso não impede no entanto que existam ainda muitas indústrias de celulose e papel que utilizam maquinário obsoleto.

registrou uma diminuição de 1,3% e de 1994 a 2001 apenas 0,61%, certamente esta menor redução registrada no segundo período se deve ao fato de que já em 1994 este tipo de trabalhador representava um percentual muito pequeno (2,68%) dos trabalhadores da indústria. 0,34 1,07 -4,92 4,56 12,33 -0,77 -12,85 17,39 -0,61 -16,43

menos de 1 ano 1 a 4 anos 5 a 8 anos 9 a 11 anos mais de 11 anos

celulose e papel industria

GRÁFICO 32 Brasil: Evolução da escolaridade na indústria de celulose e papel de 1994 a 2001 Fonte: RAIS

Para os trabalhadores com escolaridade de 1 a 4 anos esta diminuição de importância foi um pouco mais intensa, passando de uma queda de 10,31% na década de 80 para 16,43% de 1994 a 2001. Outra observação interessante no que diz respeito aos trabalhadores da indústria em geral foi a que ocorreu com os trabalhadores com escolaridade de 5 a 8 anos, pois na década de 80 registraram uma aumento de importância 3,79% enquanto que de 1994 a 2001 esse mesmos trabalhadores registram uma diminuição de –4,92%. Lembramos que podemos atribuir esta diminuição a modernização registrada no parque industrial nacional nos anos 90, que nos anos 80 apresentava-se estagnado e “obsoleto”.

Esta situação demonstra que cada vez mais nas indústrias o nível de educação formal dos trabalhadores tem aumentado, e se durante a década de 80 o trabalhador com 5 a 8 anos de escolaridade teve sua representatividade aumentada em termos percentuais, durante o período de 1994 a 2001 houve uma considerável redução, a qual é resultado de um lado de demissões, visto que neste período houve uma diminuição

de 2,97% deste tipo de trabalhador, de outro lado em função do aumento que os outros níveis de escolaridades tiveram, pois os trabalhadores com 9 a 11 anos de escolaridade tiveram seu volume aumentado em 57,06% e os com mais de 11 anos 9,56%, a despeito de todo o desemprego estrutural registrado na indústria.

Esta exigência por uma maior qualificação no setor de celulose papel como já observamos se inicia em virtude da inserção de novos equipamentos. A respeito desta situação Oliveira (2002) diz que:

Houve uma maior exigência por qualificação em 80, começou em razão da inserção de novos equipamentos. A tal ponto que sem muita escolaridade você chegava ao topo, contramestre, por exemplo, hoje é quase impossível, nesses últimos 10, 15 anos é muito difícil você conseguir isso sem qualificação escolar e profissional (informação verbal, Daura, 2002).

Contudo observa Oliveira que esta maior qualificação não se refletiu em termos salariais. Na parte em que foi discutida a questão da escolaridade dos trabalhadores da indústria de papel e papelão nos anos 80 pode verificar que existiu uma maior exigência pelo aumento no grau de escolaridade, embora isso não tenha se revertido em ganhos salariais. Em suas palavras:

Uma boa pergunta seria: E ai com o aumento do grau de escolaridade veio a contrapartida do aumento dos salários? Não, e porque que não houve, porque como estes funcionários com grau de escolaridade estão como nós estamos hoje, no aguardo de um emprego, deste modo, numa possível contratação ele já vislumbra o salário daquele que estava contratado sem pensar num salário ajustado que correspondesse ao seu nível de escolaridade (informação verbal, DAURA, 2002).

Deste modo, convém analisarmos mais atentamente os salários pagos aos trabalhadores do setor de celulose e papel, para ver em que medida isto se confirma, como podemos observar na tabela 26, as indústrias de celulose e papel de 1994 a 2001 pagaram salários, na média, mais altos do que o resto da indústria em geral, isto ocorre fundamentalmente em virtude das características inerentes a indústrias de processo contínuo, como já observamos na introdução.

Tabela 26 Brasil: Renda por escolaridade de 1994 a 2001 nas indústrias de celulose e papel e no total geral da indústria

1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001

Escolaridade Ind. Cel. e pap. Ind. Cel. e pap. Ind. Cel. e pap. Ind. Cel. e pap. Ind. Cel. e pap. Ind. Cel. e pap. Ind. Cel. e pap. Ind. Cel. e pap. Analfabeto 3,53 4,52 3,01 4,76 3,07 3,89 2,95 4 3,04 3,95 4,89 3,52 2,67 3,44 2,4 3,19 4.Série Incompleta 4,14 4,77 4,05 4,97 3,89 4,71 3,65 4,97 3,41 4,76 10,6 4,16 3 3,88 2,73 3,52 4.Série Completa 4,61 5,5 4,65 5,96 4,41 5,67 4,21 5,42 3,85 4,91 10,6 4,46 3,37 4,18 3,08 3,78 8.Série Incompleta 4,3 5,78 4,39 6,44 4,54 6,2 4,11 5,66 3,75 5,85 9,08 5,17 3,24 4,86 2,96 4,59 8.Série Completa 5,11 6,75 5,17 7,75 5,54 7,89 4,91 7,1 4,41 6,97 10,8 6,18 3,74 5,78 3,42 5,09 2.Grau Incompleto 5,91 7,63 5,88 8,06 5,68 7,62 5,31 7,5 4,79 6,84 10,1 6,24 3,95 5,89 3,46 5,39 2.Grau Completo 9,09 10,1 9,18 11,5 8,83 10,6 8,28 10,5 7,47 9,58 12,3 8,52 6,04 8,07 5,49 7,32 Superior Incompleto 13,1 13,4 13,1 14,5 13,4 13,9 12,9 14,2 11,9 13,1 14,9 12,2 10,4 11,6 9,37 10,6 Superior Completo 22,7 24 23,30 25,7 22,8 25 22,4 24,5 21,5 22,8 27 22 19,6 21,9 19,3 20,9 Ignorado 2,48 3,1 3,19 4,56 2,25 3,18 1,88 1,74 2,74 1,81 ? 0 ? 0 ? 0 TOTAL GERAL 6,3 7,95 6,42 9,09 6,26 8,7 6,1 8,82 5,75 8,44 13,3 7,92 5,06 7,72 4,77 7,28

Elaborados a partir da RAIS

As indústrias de processo contínuo costumam pagar salários melhores em relação ao resto da indústria, podemos atribuir esta conjuntura ao fato de termos no setor de celulose e papel um gasto com salários menor que o existente na indústria em geral. Desta forma os salários mais altos não representam algo que onere o setor.

Alem disso, em uma indústria de processo contínuo a produtividade depende muito mais dos equipamentos, que da mão-de-obra, sendo assim o tempo de parada do maquinário dever ser a menor possível, esta situação gera a necessidade de um trabalhador com maior responsabilidade (DRUCK, 1999), portanto, este tipo de empresa é “obrigada” a pagar melhores salários que vários outros ramos industriais, manter este trabalhador mais satisfeito e “com maior interesse no processo produtivo”.

Contudo de 1994 a 2001 percebemos uma relativa estagnação dos rendimentos dos trabalhadores deste setor de celulose e papel, e até mesmo uma redução, se tomarmos como referência 1995, veremos que os trabalhadores desse setor ganharam

em média 9,09 salários mínimos e em 2001 foram pagos em média 7,28 salários mínimos, este ápice dos salários em 1995 certamente se deve ao bom momento que o setor viveu.

Percebemos no gráfico 33 que em média o setor de celulose e papel pagou 43,33% mais que o resto da indústria, contudo, estes salários mais altos se manifestaram com maior intensidade no grupo que possui de 5 a 8 anos de escolaridade, sendo assim o setor de celulose e papel não mantém mais a tendência registrada no setor de papel e papelão nos anos 80, onde os trabalhadores com nível de instrução mais baixo tinham melhores rendimentos, que aqueles com escolaridade superior a 9 anos, se comparado com o total da indústria.

34,36 26,73 46,66 35,39 9,70 43,33 11,07

menos de 1 ano 1 a 4 anos 5 a 8 anos 9 a 11 anos mais de 11 anos Ignorado TOTAL GERAL

nivel de escolaridade

(%)

GRÁFICO 33 Brasil: Diferencial de remuneração entre os trabalhadores das indústrias de celulose e papel e o resto da indústria de 1994 a 2001

Fonte: RAIS

Comparando com os anos 80, os anos 90 remunerou melhor os trabalhadores com níveis de escolaridade maiores, contrariando parcialmente a afirmação de Oliveira (2002), na qual ele argumenta que apesar de existir a exigência por um maior nível escolar, isso não se reflete em melhores salários.

Todavia, quando analisamos mais detalhadamente os salários pagos aos trabalhadores de celulose e papel (tabela 26), percebemos que houve uma queda. No

total geral os salários foram 8,43% menor, pois como já observamos em 1994 o setor pagou 7,95 salários mínimos e em 2001 pagava 7,28, esta situação foi presente em todas os níveis de escolaridade como percebemos na tabela 27, entretanto se comparada ao total da indústria estas perdas foram menores.

Tabela 27 Variação dos salários pagos entre 1994 e 2001 em % no setor de celulose e papel e na indústria total.

Escolaridade Celulose e papel Indústria

Analfabeto -29,42 -32,01 4.Série Incompleta -26,21 -34,06 4.Série Completa -31,27 -33,19 8.Série Incompleta -20,59 -31,16 8.Série Completa -24,59 -33,07 2.Grau Incompleto -29,36 -41,46 2.Grau Completo -27,81 -39,6 Superior Incompleto -20,49 -28,31 Superior Completo -12,85 -14,73 Ignorado -41,61 10,484 Total Geral -8,43 -24,29 Fonte: RAIS

Contudo devemos observar que esta diminuição de salários não foi tão incidente no setor de celulose e papel devido às características de origem deste tipo de indústria, pois como já observamos as indústrias de processo contínuo utilizam-se de pouca mão-de-obra, desta maneira os custos com salários são menores, o que possibilita o setor pagar melhor seus trabalhadores que o total geral da indústria.

De 1994 a 2000 houve reajustes de salários em termos nominais, pois o salário mínimo aumentou, apesar destes reajustes o setor de celulose e papel não conseguiu manter os valores em temos de salários mínimos, isso reflete a lógica presente em toda as indústria independente do ramo industrial, a qual procura reduzir os custos com a mão-de-obra.

Após esta análise sobre o a escolaridade e renda dos trabalhadores do setor de celulose e papel, pretendemos detalhar alguns dados que foram apenas expostos no

início deste capítulo, mas não foram densamente analisados.