1.Teoria das representações sociais
A teoria das representações sociais foi iniciada por Durkhein, na área da sociologia, sendo desenvolvida posteriormente pela psicologia social por Serge Moscovici.
Segundo Jodelet (1989), as representações sociais são um tipo de conhecimento socialmente elaborado e partilhado, que tem como objectivo a construção de uma realidade comum e reconhecida por um grupo social.
No seio dos grupos sociais ocorrem complexas interacções comunicacionais e divulgação de informação que vão ser apreendidas e elaboradas por esse universo colectivo, produzindo representações sociais. Estas vão permitir ao grupo atribuir um significado ao novo objecto e transformá-lo num conhecimento utilizável e orientador das atitudes e dos comportamentos, mantendo a sua identidade. Desta forma, as representações sociais traduzem problemas, desafios e projectos de um grupo social, mas também as estratégias para lidar com os mesmos e para regular as relações intra- grupo e inter-grupos (Vala, 2000).
Tura (2004) citando Moscovici (1978), diz que “as representações sociais
correspondem, por um lado, à substância simbólica que entra na elaboração e, por outro, à prática que produz a dita substância” (p. 21).
Neste sentido, as representações sociais permitem conhecer uma perspectiva psicossociológica da construção de conhecimento pelos indivíduos e pelos grupos em relação com o meio social.
Neste processo, cuja base é a comunicação, coexistem duas formas diversas de descoberta e de construção cognitiva que provêem de dois universos distintos. Do universo do conhecimento comum, caracterizado pela aprendizagem prática e vivencial do quotidiano de um e de todos os actores, fortemente influenciadas pela cultura e que produz uma consciência colectiva. O outro universo é o do conhecimento científico,
produzido numa esfera social específica, por peritos de diversas áreas de competência. Este conhecimento impõe-se pela especificidade e por retratar aspectos da realidade que são divulgados e dados a conhecer.
Nesta coexistência de percursos para a construção de saberes e produção de conhecimentos emerge uma necessidade peculiar de compreensão da realidade. Assim, a informação emergente dos dois universos – senso comum e científico – é elaborada pelos indivíduos e grupos com o propósito de a simplificar e a transformar num conhecimento prático, utilizável no quotidiano (Arruda, 2002).
A mesma autora, baseando-se em Moscovici (1961) descreve os dois processos que estão implícitos na simplificação e transformação de conhecimentos científicos gerando a produção das representações sociais. Este processo é constituído pela fase da objectivação e a da ancoragem.
A objectivação refere-se a um processo que permite passar da subjectividade à objectividade de um determinado objecto. É um processo constituído por três fases, que são:
- Construção selectiva: que se destina a preservar os valores e os interesses do grupo.
Esta fase inicia-se a partir da informação disponível, a qual é seleccionada e retalhada de modo a ser adaptada à experiência prévia e aos valores dominantes do sujeito e do grupo. Deste modo, os valores, conceitos, normas, crenças e saberes pré-existentes vão determinar o acréscimo ou a subtracção de determinados elementos à informação apreendida para a adaptar aos mesmos, tornando-a mais fácil de entender e de utilizar. Exemplo desta fase é a exclusão da libido subjacente à teoria da psicanálise conforme o estudo de Moscovici sobre a representação social da psicanálise verificou;
- Esquematização: Da adaptação realizada na fase anterior surge um novo objecto que passa a ter uma objectividade e organização próprias conferindo-lhe uma imagem concreta. Essa nova imagem vai-se introduzir como uma nova realidade nas relações sociais conduzindo à última fase deste processo – a naturalização;
- Naturalização: Depois de transformado o que era abstracto em algo que passou a ser concreto e organizado, a apropriação dos sujeitos fica facilitada, pois torna entendível e comunicável o que era novo e pouco perceptível, numa nova realidade, consensual,
compreensível e coerente com as normas e os valores do grupo social. Nesse contexto social os indivíduos vão aprender sobre esse novo objecto, através das interacções entre si (Vala, 2000; Tura, 2004).
Percorridas estas fases, o processo de objectivação permite atribuir uma figura a um objecto, criando um núcleo figurativo que “se constitui de elementos que formam um
conjunto coerente e imagético, que tornam concreto o que era abstrato. Além disso, adquire o estatuto da evidência e do “não questionável” e assim se integra no senso comum.” (Guimelli, 1994 cit Tura, 2004, p.22).
Após o processo de objectivar, inicia-se o processo de ancoragem que consiste na integração do conhecimento produzido pela objectivação na realidade social, na qual vai servir como factor protector do desconhecido, proporcionando compreensão e segurança relativamente ao novo objecto.
Deste modo, um novo conhecimento é familiarizado para que seja integrado na vida real, permitindo a interpretação do confronto interindividual e dos grupos e orientando- lhes a conduta adequada nas relações entre si e com o mundo. Assim, o sentido de um objecto passa a ser instrumentalizável como saber nas interacções dos indivíduos com o meio, facilitando a comunicação interpessoal e a compreensão da realidade e enraíza-se no sistema de pensamento (Tura, 2004).
As representações sociais são produções sociocognitivas e este aspecto é o que as distingue de outras construções cognitivas. Nas representações sociais o processo cognitivo do sujeito é determinado por regras socias que podem alterar a lógica cognitiva individual, logo coexistem dimensões cognitivas e sociais que integram racionalidades e irracionalidades tornando-as por vezes aparentemente contraditórias. A significação, aspecto central de uma representação social, é por isso determinada tanto pelos discursos como pelo contexto social do grupo onde são produzidos, ancoradas nas significações mais generalizadas do campo social (Abric, 2001).
O carácter sociocognitivo das representações sociais processa-se na interacção de indivíduos e em grupos imersos num contexto cultural específico, influenciado por ideologias, condições socioeconómicas, educacionais e institucionais próprias e em que a linguagem e a comunicação têm uma forte componente de produção, divulgação e de transmissão num processo permanente e contínuo de adaptação ao que é novo.
Comunicação e representações sociais estão imbricadas entre si e em simultâneo permitem a comunicação entre os grupos, pois as representações sociais
“são fruto dos esforços que os grupos fazem para (…) penetrar um no universo do outro; (...);[as representações] não têm outro remédio se não articular-se através de imagens, linguagens, referências que reduzem as distâncias que as separam (…). Tais representações são sociais na medida em que tornam problemática a incomunicação entre os distintos grupos, induzindo-os assim a relacionarem-se entre si.” (Moscovici
cit Banchs, 2004, p.10).
A representação social é processo dinâmico e constitui uma forma de produção de valores, conceitos e comportamentos facilmente compreendido nos diferentes estratos sociais e utilizáveis na vida do quotidiano. Por isso, ele produz mudanças e influencia a relação com o meio social e o mundo (Arruda, 2002).
Assim, a função das representações sociais é a de produzir um saber prático que permita compreender e explicar a realidade e que passa a ser utilizado num grupo social para orientar e organizar as relações entre os actores sociais. Desta forma, definem identidades e especificidades grupais contribuindo para um sentido de pertença e constituem-se um guia de comportamentos e de práticas determinadas a montante da situação em que ocorrem. Permitem ainda explicar e justificar essas condutas contribuindo para a coesão identitária dos grupos e manter e reforçar a sua posição social (Jodelet, 1997; Vala, 2000; Abric, 2001).
Como se lhes refere Abric (2001), as representações são prescritivas das condutas permitidas ou proibidas. A partilha de representações num meio social vai permitir que, mesmo com o mesmo berço cultural, grupos distintos, tais como minorias e maiorias, possam comunicar entre si a partir da forma como cada um se representa e é entendido pelo outro (Banchs, 2004).
No meio social, as representações sociais permitem as interacções suportadas num conhecimento adquirido e partilhado pelo grupo que não decorre das experiências individuais. Não são rigidamente uniformes nem hegemónicas mas antes, diversas e influenciadoras do pensamento social através da diversidade de relações sociais que se estabelecem (Vala, 2000).
Vala (2000) baseando-se na Teoria das Representações Socias de Moscovici, distingue três tipos de representações sociais, que de seguida apresentamos:
- Representações sociais hegemónicas ou colectivas: Um conceito que se sobrepõe ao de Durkhein. Este tipo de representações sociais referem-se a um conhecimento fortemente enraizado num grupo que o partilha e lhe reconhece o mesmo significado. Este tipo de representações orienta o comportamento dos elementos do grupo, mesmo individualmente, de acordo com as normas, a ideologia e os valores desse mesmo grupo. Neste caso, trata-se de grupos sociais organizados, estruturados e com uma identidade sólida. São deles exemplos, os grupos religiosos, os partidos políticos, e as nações;
- Representações sociais emancipadas: São um tipo de representação social que se caracteriza por ser independente do grupo de origem e que resulta da partilha de significados e entendimento sobre um objecto, entre grupos diferentes;
- Representações sociais polémicas: Estas representações sociais emergem do confronto entre grupos sociais que assumem atitudes diferentes perante um mesmo objecto social, diferenciando-se e antagonizando-se relativamente ao que era até então entendido de maneira homogénea. São, por isso, representações sociais que surgem em momentos de conflito social.
Deste modo, as representações sociais encerram em si uma função de ordem e de orientação mas em simultâneo são também determinantes de identidades que incluem ou excluem.
“(…) vemos em actividade dois sistemas cognitivos, um que procede a associações, inclusões, discriminações, deduções, quer dizer, o sistema operatório, e outro que controla, verifica, selecciona, com o apoio de regras, lógicas ou não; trata-se de uma espécie de metassistema que retrabalha a matéria produzida pelo primeiro” (Vala,
2000, 463).
As representações sociais não são estáticas, podem sofrer alterações. As práticas sociais representam a interface das representações internas prescritas e das circunstâncias externas e evoluem em adaptação às circunstâncias do meio, em constante reequilíbrio. Entre as circunstâncias e as boas razões para comportamentos e práticas não habituais,
regressarem ao seu estado inicial com a recuperação da circunstância original. Outra forma das representações sociais se alterarem é pelo atingimento profundo do núcleo central da representação, o que lhe provoca uma ruptura. Só quando o núcleo central é de facto questionado é possível uma alteração da representação social (Abric, 2001).
1.1. O estudo das representações sociais
Sendo as representações sociais produzidas no meio social onde organizam e orientam as relações dos indivíduos e dos grupos, entre si e com o mundo, diversos campos do saber se têm dedicado ao seu estudo, nomeadamente as disciplinas que se inscrevem nas ciências humanas e sociais. Ilustres investigadores da psicologia, da antropologia, da educação e das ciências sociais têm realizado estudos de investigação e produzido conhecimento à luz da teoria das representações sociais.
Os estudos das representações sociais permitem a descoberta do saber prático, reconhecido e partilhado por um grupo e que dá resposta a questões dos indivíduos e os familiarizam com os objectos desconhecidos.
São deste modo, processos cognitivos, socialmente regulados e que assentam no processo de objectivação e de ancoragem o que confere à representação social uma complexidade psicossocial marcante que dificulta a construção de um conceito delimitador sem lhe amputar a riqueza da multidimensionalidade (Vala, 2000).
Arruda (2002) referindo-se ao preconizado por Jodelet para o estudo das representações sociais, salienta que as diversas dimensões têm que ser consideradas pois, as representações sociais resultam da sua articulação. A afectividade, a cognição, a linguagem e a comunicação, o meio social e as relações, não podem por isso ser desmembradas do todo que formam.
Assim, para estudar as representações sociais podem ser levantadas três ordens de questões:
- Quem sabe e qual a fonte desse saber?
- Sobre o que sabe e que efeito produz?
Cada uma destas três perguntas permite conhecer diferentes aspectos das representações sociais, que passamos a explanar:
- As condições de produção e da sua difusão – Para conhecer este plano das representações sociais é necessário ter em consideração a forma como se desenvolve o processo de objectivação. Sendo esta, a necessidade de familiarização com algo que é novo, acrescentando-lhe ou subtraindo-lhe elementos para que dê resposta às necessidades, normas e valores do grupo, a diferença entre o objecto real e a sua representação revela a produção da representação social em causa.
- Os processos e os estados – Este nível de conhecimento das representações sociais emerge no estudo dos conteúdos das mesmas, ou seja, conhecendo as expressões, as imagens, as ideias, as práticas e os valores que as pessoas associam a uma determinada representação social. A este nível, a representação social é estudada como um campo de saber social, no qual se procuram as informações, as significações, os saberes e as atitudes mas pode ser utilizada uma outra abordagem de estudo. Esta outra linha de estudo tem por objecto o núcleo estruturante da representação social, identificando os elementos centrais e periféricos que constituem o sistema. Os elementos periféricos, mais difíceis de apreender, são a intersecção entre as circunstâncias e a forma de conhecimento individual em que a representação social é produzida. Os elementos de núcleo central são os que formam o cerne da representação social e contribuem para a sua estabilidade como Jean Claude Abric defende na sua Teoria do Núcleo Central.
- O estatuto epistemológico – Neste nível de estudo pretende-se conhecer a génese da representação social através do estudo dos factores que explicam e dão sentido ao que o grupo atribui ao objecto alvo da representação social. Deste modo, tem-se conhecimento da relação existente entre a realidade e a representação dessa mesma realidade naquele grupo social.
Diversos estudos têm sido realizados, considerando a teoria das representações sociais como um estímulo heurístico e não tanto como um conceito bem delimitado. Em diversos domínios têm sido desenvolvidos estudos à luz da teoria das representações sociais, como por exemplo no âmbito da saúde e da doença (Herzlich, 1969), da doença mental (De Rosa, 1987; Jodelet 1989), da violência (Vala, 1981), da morte (Oliveira &
Amâncio, 1998) e do suicídio (Ordaz & Vala, 1997) mas também em estudos de problemáticas sociais como o desemprego (Marques, 1983), os sistemas económicos e as relações económicas (Emler & Dickinson, 1985; Vergès, 1987), o poder social (Vala, 1990), os conflitos sociais (DiGiacomo, 1980) e ainda estudos relativos a grupos sociais bem definidos como os enfermeiros (Milward, 1995), a criança (Chombart de Lauwe, 1971) e os estudos de género (Amâncio, 1985; Duveen & Lloyd, 1993).
Nos trabalhos de investigação acima referidos, foram utilizados métodos e técnicas diversas e centrados em paradigmas diferentes. Uns orientados por um paradigma qualitativo, com utilização da observação, da entrevista qualitativa e com análise de conteúdo. Outros norteados por um paradigma quantitativo, são estudos experimentais e quase-experimentais, com utilização de questionário, entrevista quantitativa e com resultados assentes na análise de dados quantitativos (Vala, 2000).