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2.2 DIMENSÕES

2.2.3 Responsabilidade de reconstruir

Deriva-se da reação o terceiro pilar da R2P que sistematiza a responsabilidade existente no momento posterior à intervenção, quando devem ser consolidadas as bases para

uma sólida pacificação e a reedificação das condições à autodeterminação do Estado afetado. Em suma, por meio da responsabilidade de reconstruir, busca-se fomentar bases para melhoria nas áreas da segurança, justiça e desenvolvimento econômico de Estados que foram devastados por catástrofes humanitárias num passado próximo. Desse panorama deflui a bilateralidade funcional dessa responsabilidade: de um lado, ela visa manter a paz que foi atingida – evitando a recorrência das circunstâncias que originaram a crise superada – e, de outro, ela intenta prestar auxílio no aprimoramento de serviços públicos e no fortalecimento de instituições. A responsabilidade de reconstruir é considerada um dos grandes avanços da doutrina R2P na esfera interventiva, uma vez que estende precauções para além da intervenção, de forma a melhor concluir o processo de pacificação e afastar os riscos que permeiam o pós-intervenção, como a transgressão de acordos de paz, a perpetuação da vulnerabilidade institucional do Estado e o ressurgimento dos agentes violadores da paz.

As medidas peacekeeping, nesse caso, estão voltadas a conferir maior segurança ao processo de transição pós-conflito, restaurando a soberania em torno de um regime governamental mais justo e sustentável. Promover o desarmamento, conscientizar a população local, reestruturar forças de segurança, desestabilizar grupos inimigos remanescentes e reestabelecer sistemas administrativos são alguns dos artifícios adotados por essa política.

Nesse diapasão, é importante discorrer que:

Por construção da paz pós-conflito, entendo que as ações tomadas ao final de um conflito com vistas a consolidar a paz e evitar a retomada de confronto armado. A experiência demonstra que a consolidação da paz após a conclusão de conflito requer mais do que ações puramente diplomáticas e militares e que se faz necessário esforço integrado de construção da paz a fim de lidar com os vários fatores que causaram o conflito ou ameaçam provocá-lo. A construção da paz pode envolver a criação e o fortalecimento de instituições nacionais, o acompanhamento de eleições, o estabelecimento de programas de integração e reabilitação, bem como a criação de condições para a retomada do desenvolvimento. A construção da paz não substitui atividades humanitárias e de desenvolvimento em países recém-saídos de crises. Ao contrário, visa a aprimorar, complementar e reorientar essas atividades de forma a reduzir o risco de retomada do conflito e contribuir para a criação de condições

voltadas para reconciliação, reconstrução e recuperação.139

Todavia, a ICISS alerta que a permanência das forças de paz após a conclusão da intervenção pode também ter efeitos negativos. Segundo o relatório The Responsibility to

Protect, os trabalhos de reabilitação a longo prazo podem ser comprometidos em virtude de

ocupações mal administradas, de programas de reconstrução ineficientes, do atraso na retomada da responsabilidade governamental e da distorção da economia local a partir da

139 UNITED NATIONS SECRETARY-GENERAL. S/2014/542 (Causes of conflict and the promotion of

durable peace and sustainable development in Africa). Disponível em:

entrada abrupta de capital estrangeiro. A ICISS ainda destaca que “a responsabilidade de reconstruir, que deriva da obrigação de reagir, deve ter como objetivo retornar a sociedade em questão àqueles que vivem nela e que, em última instância, devem assumir, juntos, a responsabilidade pelo seu destino”. 140

Sendo assim, os peacekeepers podem cumprir tal atribuição através de processos políticos de transição, incumbindo aos atores locais a responsabilidade de viabilizar a recuperação de sua própria sociedade, bem como de conciliar grupos locais antagônicos, justamente como meio de prevenção a futuros atritos. Trata-se de proposta essencial ao sucesso final da operação, na medida em que se procede à delegação da possibilidade de autocontrole à sociedade local, desde que esta já reúna condições à manutenção da paz.

Nas palavras de Trevor Findlay141, o peacekeeping consiste, acima de tudo numa

ferramenta contra reincidência de conflitos, sendo que os interventores, nesta fase, devem ser vistos como “facilitadores em vez de aplicadores”, pois já não há mais inimigos contra quem guerrear. Assim, o único desafio que resta depende unicamente da cooperação voluntária dos agentes internacionais. Além do voluntarismo, o autor também elenca outras características intrínsecas aos procedimentos de manutenção da paz. São elas:

As três principais características do peacekeeping são consideradas como sendo: (a) o consentimento relativamente voluntário de todas as partes para a presença e atividades da missão; (b) a imparcialidade das forças de paz em suas relações com o partes; e (c) o uso mínimo de força, apenas como um último recurso ou em autodefesa.142

Dessa maneira, a responsabilidade de reconstruir deve se dar mediante ações voluntárias, imparciais e, até certo ponto, não coercitivas, visando assistenciar a rescomposição do Estado, ainda que, para tanto, seja estabelecida administração interina sob a autoridade das Nações Unidas. Dentre as dificuldades à condução de missões peacekeeping estão o envolvimento internacional a longo prazo e a necessidade de investimentos financeiros expressivos, o que acentua o descaso internacional com a efetivação das medidas pós-intervenção.

Assim como a prevenção, a reconstrução igualmente se impõe como salutar condição à paz duradoura, uma vez que nela não há o que falar sobre consequências destrutivas

140 INTERNATIONAL COMMISSION ON INTERVENTION AND STATE SOVEREIGNTY. The

Responsibility to Protect, 2001. Disponível em: <http://responsibilitytoprotect.org/ICISS%20Report.pdf>. Acesso em: 28 jun. 2016. Tradução livre.

141 FINDLAY, Trevor. The use of force in UN peace operations. Oxford: Oxford University Press, 2002, p. 4.

provindas do contato direto com medidas coercitivas. Portanto, a responsabilidade de reagir coloca-se como um dos mais complexos obstáculos à confirmação R2P como doutrina remodeladora dos preceitos de direito internacional, tendo em vista que essa dimensão inova ao demonstrar que a responsabilidade internacional na promoção dos direitos humanos vai muito além do próprio desfecho do conflito armado.

3 DA ANÁLISE DAS JUSTIFICATIVAS DADAS ÀS INTERVENÇÕES