PARTE I: DO TRONCO ÀS RAÍZES
2.2 RESPONSABILIDADE E CULPA: A NOVA ORDEM ECOLÓGICA
Além da discussão a respeito da responsabilidade socioambiental e a projeção do bem- estar humano para todo o resto do planeta, a sustentabilidade também suscita debate sobre as consequências do humanismo, da modernidade e, consequentemente, pós-modernidade15. Ora, quando nos referimos à possibilidade de uma discussão aprofundada, por que não atentarmos para os princípios que sustentaram e ainda mantêm nossa civilização? Já que estamos nos referindo à relação homem/natureza, por que não nos debruçarmos sobre os fatores que influenciaram este vínculo, já que é ele que nos deu fundamentos para o advento da ecologia profunda? E mais: como podemos conceber a noção de cultura em meio a estas diferentes concepções de homem e natureza?
São diversas as possíveis maneiras pelas quais podemos apreender a modernidade. Reconhecida como um período histórico do Ocidente, mas também como um valor ontológico, é neste momento que o homem encontra o auge de sua valorização: ele tem o livre-arbítrio para ser senhor de sua história e ganha autonomia para tomar as próprias decisões. É na modernidade que começa a se desenhar a noção de sujeito, dotado de vontades e interesses particulares, não necessariamente ligado à sua descendência ou casta. Também, amparado pelas grandes navegações, reaberturas comerciais e revolução industrial, vimos o desabrochar do capitalismo. Além disto, o Iluminismo, movimento cultura do século XVIII, termina de enterrar a tradição medieval e solidifica uma supremacia do homem em relação ao mundo (ou entroniza o humanismo), bem como põe a razão como elemento essencial, se não o único, para se chegar ao conhecimento e à emancipação de nossa situação mundana (não é mais a Deus que devemos recorrer, mas aos processos lógicos e racionais alocados em cada um dos indivíduos).
14 Termo utilizado para se referir aos custos de uma escolha a ser tomada no contexto empresarial. Está ligado à
listagem de pontos fortes e fracos, custos e oportunidades.
Somos apresentados a um princípio filosófico do desarraigamento, ou da inovação (FERRY, 2009), no qual cada ser humano é um indivíduo independente e pode romper com determinismos sociais. Como consequência, a cultura passa a ser vista como paralela à natureza: a característica diferenciadora do homem em relação aos outros seres vivos passa a ser a única possibilidade para dar sentido à existência humana. Ora, se pudemos nos desvencilhar dos laços socioculturais que nos prendem, consequentemente podemos cindir com os determinismos naturais. O homem é quem manipula a Terra e a Terra é o que é manipulado – a modernidade instaura uma cisão entre homem/natureza e, mais, o coloca como sujeito e a natureza relegada à instância de objeto16. O humanismo intensifica este
abismo e nos torna antinatureza: não somos mais parte da natureza e, também, não há o que nos prenda às nossas origens – ganhamos a liberdade para decidirmos o que fazer com a nossa existência.
Contudo, a história nos mostra que o projeto dos modernos não se concretizou como havia sido planejado. A razão não salvou a humanidade, pelo contrário, colocou-a em novos conflitos, da simples manipulação genética que se torna transgenia e causa doenças até os estudos das partículas subatômicas, capazes de produzir bombas atômicas. O auge da valorização do homem desembocou em individualismo, a autonomia se tornou autismo. A ciência e a razão não conseguiram mais responder com completude às questões dos tempos que se seguiram. Apostamos na democracia, mas não resolvemos as injustiças sociais. Criamos tecnologias, mas os problemas de ordem existencial não foram sanados.
Com uma herança moderna de necessidade de emancipação e um projeto iluminista fracassado, a humanidade necessitou de um novo olhar sobre o planeta e, mais especificamente sobre seus laços com a natureza. Foi necessário forjar o “contrato natural”17:
colocar o planeta em um mesmo patamar que o humano, como um acordo de sujeitos e não uma relação sujeito-objeto. Fomos obrigados a nos considerar simbiontes, em vínculo sinalagmático com o ambiente, não mais como dominador da natureza, nem como parasita18
atingido pela vingança de Gaia. Consequentemente, devíamos aos demais seres vivos o lugar
16 É importante observar que, desde o Gênesis bíblico (Gn, 2. 15), Deus já havia dado a homem a
responsabilidade pelo cultivo do Jardim do Éden, mostrando este último como um objeto a ser preservado. Contudo, o temor a Deus mantinha a relação homem/natureza na instância do cuidado e da responsabilidade.
17 Esta noção foi emprestada de Serres (1991).
18 Esta afirmação vai em direção ao pensamento de Lovelock (1995; 2006), reconhecendo as vontades de Gaia e
sua possibilidade de se livrar da humanidade assim como nós nos livramos de uma doença. O autor associa o aquecimento global, por exemplo, a um estado febril humano, no qual o corpo se esquenta para ativar as células que eliminarão um antígeno.
de sujeitos de Direito, reconhecendo a possibilidade de uma nova interação. Ferry (2009) ilustra esta questão ao mostrar os diversos processos, entre os séculos XV e XVIII, envolvendo comunidades humanas e ataques de animais, bem como processos de degradação de vegetação, dando à natureza garantias de direitos, assegurados inclusive por procuradores.
Daqui o ecologismo ganha duas direções filosóficas: a reformista e a da ecologia profunda. A primeira é a herdeira do humanismo moderno: temos sim o direito e a capacidade de manipular o ambiente, mas devemos fazê-lo com o cuidado necessário para que possamos continuar a extrair os recursos necessários à nossa sobrevivência. Reconhece-se o direito à vida dos outros seres vivos e, inclusive, das rochas, oceanos e paisagens naturais, mas assegura a possibilidade de o ser humano manter o cultivo animal e vegetal, bem como a exploração dos demais recursos naturais. A outra concepção busca uma ruptura com o humanismo: o ser humano não é o centro, muito menos tem qualquer direito de explorar o meio ambiente. “O humanismo não seria mais o remédio para a crise do mundo industrial moderno, mas, verdadeiro pecado original, ele constituiria sua causa primeira e maléfica” (FERRY, 2009, p. 123). A ecologia profunda aparece como uma corrente filosófica que denuncia os males do humanismo, do dualismo cartesiano, do capitalismo avançado, bem como de sua progenitora, a cultura judaico-cristã ocidental, que coloca o espírito e seus dogmas acima da natureza.
Mais do que a responsabilidade de cuidar, a concepção da ecologia profunda desloca a ação humana para uma dimensão de culpa. Ora, se consideramos os outros animais, os demais seres vivos e o ambiente natural como sujeitos, dotados de vontades, ou melhor, se projetamos o comportamento humano aos outros animais, criamos um espaço de identificação e, consequentemente, entendemos que determinadas ações humanas em direção a estes últimos podem gerar sofrimento, assim como quando causamos sofrimento a um semelhante19. Não somos somente responsáveis pelas consequências de nossos atos, mas,
quando estes atos machucam a Terra, quando cometemos os crimes contra a natureza, somos
culpados. São atribuições de valor diferentes, mas que variam de intensidade. A
responsabilidade está ligada aos atos e a culpa, aos atos que ferem outros.
Enfim, como seremos desculpados por esses supostos erros? Já que não acreditamos mais no humanismo como os modernos – já que o homem não é mais o centro e precisa dar um passo atrás para garantir sua sobrevivência – e colocamos em perspectiva as grandes
19 Ferry (2009) nos mostra isto quando apresenta a questão das touradas na Espanha: o touro merece ou não
morrer? Que sadismo é este que leva a população ao delírio pelo assassinato de um animal? Damo-nos conta de que o touro está em situação de sofrimento quando vemos sua movimentação de luta pela sobrevivência.
verdades, o que pode ser feito? Se, passados mais de quarenta anos desta preocupação com a ecologia, não conseguimos as mudanças estruturais propostas pela ecologia profunda e seguimos rumo ao abismo20, qual a solução? Vejamos: não chegamos sequer a ser simbiontes,
ainda guardamos uma herança humanista que nos coloca como únicos responsáveis (e culpados) pelas ações em direção à natureza, o desenvolvimento (sustentável) ainda se baseia nas experiências do Ocidente, em uma sociedade em crise, e vimos que as soluções até então tomadas ao longo da história – a reforma e a revolução – não dão mais conta dos conflitos de nossa época. Morin (2011) aposta em uma ideia de metamorfose: uma transformação completa do sistema, mas, diferente de um ideário de revolução, que é planejada, esta metamorfose está ligada a fatores incertos, mas que são absolutamente necessários à continuidade da espécie. Talvez isto que causa tamanha inquietação em nossa sociedade herdeira da modernidade: tirar do homem a ilusão de controle sobre os fenômenos que lhe acontecem.