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Responsabilidade social ou sentimento de comunidade

Conceitos adlerianos básicos 1 Crianças são seres sociais

5. Responsabilidade social ou sentimento de comunidade

Outra importante contribuição de Alfred Adler é o conceito de

Gemeinschaftsgefühl, uma linda palavra alemã por ele cunhada. Não há uma

boa tradução para essa palavra, mas Adler finalmente escolheu “interesse social” (e eu uso “responsabilidade social”). Isso significa ter real preocupação por uma pessoa e um desejo sincero de fazer uma contribuição para a sociedade. A história a seguir foi compartilhada por R. Pancer no exemplar de dezembro de 1978 do periódico The Individual Psychologist para dar significado à responsabilidade social.

A história começa com dois irmãos que tinham uma fazenda juntos. Era difícil se sustentarem financeiramente por causa do solo pedregoso e seco, mas eles dividiam os lucros igualmente. Um dos irmãos tinha uma esposa e cinco filhos. O outro era solteiro. Uma noite, o casado não conseguia dormir. Ele se remexia e se virava até que lhe ocorreu o quanto o acordo entre eles era injusto. Ele pensou: “Meu irmão não tem filhos em casa para cuidar dele na velhice. Ele precisa de mais do que a metade. Amanhã vou oferecer a ele dois terços do nosso lucro. Certamente isso será mais justo.” Naquela mesma noite, o outro irmão também teve dificuldade para dormir porque ele também decidiu que o acordo de 50% não era justo. Ele pensou: “Meu irmão tem uma esposa e cinco filhos para alimentar. Eles também contribuem com mais trabalho na fazenda do que eu. Meu irmão merece mais do que metade. Amanhã vou oferecer a ele dois terços.” No dia seguinte os dois irmãos se encontraram e contaram seus planos para um acordo mais justo. Esse é um exemplo de responsabilidade social em ação.

Adler tinha o que ele chamava de Plano de Cura de 14 Dias. Ele alegava que poderia curar qualquer um com doença mental em apenas 14 dias se a

pessoa fizesse o que ele mandasse. Certo dia, uma mulher extremamente depressiva veio ver Adler. Ele disse a ela: “Eu posso curá-la da sua depressão em apenas 14 dias se você seguir meu conselho.”

Ela não estava muito animada quando perguntou: “O que você quer que eu faça?”

Adler respondeu: “Se você fizer uma coisa boa por alguém todos os dias, durante 14 dias, ao final desse período sua depressão terá ido embora.”

Ela discordou: “Por que eu faria algo por alguém se ninguém nunca faz nada por mim?”

Adler respondeu em tom de brincadeira: “Bem, talvez demore 21 dias para você.” E acrescentou: “Se você não conseguir pensar em nada que esteja disposta a fazer por alguém, apenas pense o que você faria se tivesse vontade.” Adler sabia que se ela apenas pensasse em fazer algo por alguém, já estaria no caminho para a melhora.

É extremamente importante ensinar responsabilidade social às crianças. Qual a vantagem da aprendizagem acadêmica se os jovens não aprenderem a se tornar membros participativos da sociedade? Dreikurs sempre disse: “Não faça nada por uma criança que ela possa fazer sozinha.” O motivo é que, quando fazemos demais pelas crianças, roubamos delas oportunidades de desenvolver a crença de que são capazes, por meio de suas próprias experiências. Nesse caso, elas podem desenvolver a crença de que precisam ser cuidadas ou que merecem um tratamento especial.

O primeiro passo para ensinar responsabilidade social é ensinar autoconfiança. Dessa forma, as crianças estão prontas para ajudar os outros e se sentem extremamente capazes quando o fazem. Quando os adultos assumem papéis de supermães ou superprofessores, as crianças aprendem a esperar que o mundo as sirva, e não que elas sirvam ao mundo. Essas são as crianças que acreditam que não é justo quando não conseguem as coisas do jeito delas. Quando os outros se recusam a servi-las, elas sentem pena de si mesmas ou buscam vingança de forma destrutiva e dolorosa. Ao buscar vingança, elas

sempre se machucam tanto ou mais do que machucam outros.

No outro extremo existem os pais e professores que estão ocupados demais para ensinar habilidades sociais e de vida para a formação de um bom caráter. Esses mesmos adultos ficam chateados quando as crianças não “se comportam”. Não entendo onde eles pensam que essas crianças aprendem comportamento respeitoso. Muitos adultos estão “culpando” as crianças por seu mau comportamento em vez de assumir responsabilidade (não culpa) por sua parte na equação do mau comportamento.

A Disciplina Positiva ajuda crianças e adultos a terminar esses ciclos viciosos ao encorajar responsabilidade social. Pais e professores geralmente não são conscientes do quanto estão fazendo pelas crianças quando elas poderiam estar fazendo sozinhas. Eles não dedicam tempo para ensinar às crianças como colaborar em casa e na sala de aula. Faça uma lista. Professores, quantas coisas vocês estão fazendo na sala de aula que poderiam ser feitas pelas crianças? Pais, quanto vocês estão fazendo por seus filhos por comodidade em vez de ajudá-los a se sentirem capazes ao colaborar?

No livro Positive Discipline in the Classroom1, meus coautores e eu falamos sobre a importância de envolver os alunos em listar todas as tarefas que precisam ser feitas na sala de aula. Os professores podem participar desse levantamento, mas é incrível ver quantas coisas as crianças podem pensar quando são convidadas a fazê-lo. Depois que a lista estiver completa, peça por voluntários para cada tarefa. Certifique-se de que há pelo menos uma tarefa para cada aluno. Pode inclusive haver um “monitor de tarefas”. É importante estabelecer (com a ajuda das crianças) um sistema de rodízio para que ninguém fique preso a uma tarefa menos desejável por muito tempo. É óbvio o quanto compartilhar tarefas pode aumentar o senso de aceitação, ensinar habilidades de vida e permitir que as crianças experimentem responsabilidade social.

Muitas pessoas hoje não têm problemas com o conceito de igualdade, ao menos até se falar sobre crianças. Nesse caso, muitas objeções são levantadas. “Como as crianças podem ser iguais se elas não têm a mesma experiência, conhecimento ou responsabilidade?”, elas perguntam.

Tal como foi enfatizado no Capítulo 1, igualdade não significa “o mesmo”. Adler explicava que igualdade é quando todas as pessoas têm direitos iguais à dignidade e respeito. A maioria dos adultos está disposta a concordar que crianças são iguais a eles em valor. Esse é um motivo pelo qual a Disciplina Positiva não inclui humilhação. Técnicas de humilhação são opostas aos conceitos de igualdade e respeito mútuo.