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Responsabilidade tributária por transferência

CAPÍTULO 1 RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA E RESPONSABILIDADE

1.4 RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA NO CTN CONSIDERAÇÕES

1.4.4 Responsabilidade tributária por transferência

A responsabilidade tributária por transferência, para nós a única que se enquadra como sujeição passiva indireta, como já exposto no subitem 1.4.1, está regulada pelos arts. 129 a 135 do CTN. Pode ser resumida conforme o esquema abaixo:

a-1) aquisição de imóveis (art. 130): créditos tributários dos imóveis sub- rogam-se em nome dos adquirentes, sendo que no caso de hasta pública o preço já inclui tais créditos;

a-2) aquisição ou remição de imóveis ou móveis (art. 131, I): adquirentes ou remitentes respondem pelos tributos relativos aos bens;

a-3) sucessão causa mortis (art. 131, II e III): responsabilidade do espólio ou dos herdeiros, legatários e meeiros, pelos tributos devidos pelo

de cujus;

a-4) sucessão de pessoa jurídica, por fusão, transformação, incorporação ou cisão (art. 132, caput): responsabilidade tributária em casos de continuidade da pessoa jurídica;

a-5) sucessão de pessoa jurídica de direito privado extinta de direito, mas com continuidade de fato (art. 132, parágrafo único): responsabilidade do sócio remanescente ou do espólio;

a-6) sucessão de pessoa jurídica, por aquisição do fundo de comércio ou de estabelecimento comercial (art. 133): adquirente responde pelos tributos da alienante, integralmente se esta cessar as atividades (inc. I), ou subsidiariamente se a alienante continuar na atividade ou reiniciar nova atividade no prazo de seis meses (inc. II).

b) Responsabilidade de terceiros:

b-1) responsabilidade subsidiária das pessoas abaixo arroladas, solidariamente com os contribuintes originários respectivos, pelos atos ou omissões por elas praticados (art. 134):

I - os pais, pelos tributos devidos por seus filhos menores;

II - os tutores e curadores, pelos tributos devidos por seus tutelados ou curatelados;

III - os administradores de bens de terceiros, pelos tributos devidos por estes;

IV - o inventariante, pelos tributos devidos pelo espólio;

V - o síndico e o comissário, pelos tributos devidos pela massa falida ou pela concordatária;

VI - os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício, pelos tributos devidos sobre os atos praticados por eles, ou perante eles, em razão do seu ofício;

VII - os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas. b-2) Responsabilidade das pessoas abaixo, pelos atos praticados com

excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos (art. 135):

I - as pessoas referidas no artigo 134;

II - os mandatários, prepostos e empregados;

III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado (independentemente de se a sociedade é de pessoa ou de capital).

Como o foco deste estudo é a responsabilidade tributária dos sócios e administradores de empresas, o art. 135 e os incisos III e VII do art. 134 serão

analisados com profundidade. Por isto deixamos para tratar da responsabilidade de terceiros (item b, acima) no último capítulo (ver item 4.3).

No presente tópico cuidaremos da responsabilidade dos sucessores (item a), em breves pinceladas.

Esta independe de qualquer ilicitude que possa ser atribuída aos sucessores. O que determina a transferência da responsabilidade tributária aos sucessores são fatos como a aquisição de bem móvel ou imóvel (arts. 130 e 131), a morte do contribuinte (art. 131, I e II), a fusão, incorporação e cisão de empresa, ou aquisição de fundo de comércio (arts. 132 e 133). Realizando-se qualquer um desses eventos ocorre a sucessão (o fato jurídico posterior ao surgimento da obrigação tributária cujo devedor inicial era o sucedido), a acarretar a responsabilidade dos sucessores independentemente de qualquer ilícito porventura praticado por estes.

A sucessão ora em comento abrange os créditos tributários relativos a fatos ocorridos antes da sucessão, independentemente de já terem sido “constituídos” (ou seja, tornados líquidos por meio do lançamento) ou não à época. É o que informa o art. 129 do CTN, guardando consonância com o caráter declaratório do lançamento, que apenas declara a obrigação tributária e dá liquidez ao crédito tributário, que com ela se confunde. Realizado o fato jurídico tributário, imediatamente nasce a obrigação tributária principal, cujo crédito correspondente82 passa a ser exigível na data em que a lei dispuser: antes de qualquer participação da autoridade administrativa lançadora, nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, hoje a imensa maioria; ou após o lançamento a cargo da autoridade administrativa, nos tributos sujeitos ao lançamento por declaração.

82

O CTN, apesar de dedicar títulos separados para a obrigação tributária e para o crédito, informa o no art. 139 que “O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta.”

Como a responsabilidade do sucessor é pela obrigação tributária, pouco importa se houve (ou não) o lançamento tributário.

No esquema acima, os itens a-1 e a-2, correspondentes respectivamente aos arts. 130, e 131, I, do CTN, referem-se à sucessão inter vivos, com a diferença de que o primeiro é restrito a imóveis, enquanto o segundo abrange também os bens móveis. Por isto há autor que defende que o inc. I do art. 131 estaria melhor posicionado no art. 130,83 a nosso ver com razão.84 O item a-3, então, correspondente aos incisos II e III do art. 131, restringe-se à sucessão causa mortis. Aqui, cabe observar que a ordem dos incisos II e III está invertida,85pois inicialmente é o espólio que se torna responsável e, somente após o término do inventário, com a partilha, os sucessores a qualquer titulo (herdeiros naturais e testamentários, bem como legatários) assumem tal condição.

A responsabilidade dos adquirentes de imóveis abrange todos os tributos,86 salvo quando transcritas as certidões negativas na escritura de transmissão ou quando forem arrematados em hasta pública. Neste caso o preço pago em praça pública ou leilão já inclui o valor dos tributos devidos. Sobre a transcrição da certidão negativa na escritura, o Código Civil antigo, no seu art. 1.137, determinava expressamente a providência. O novel Código Civil é omisso, mas não faz diferença porque o art. 130 do CTN já determina tal transcrição, para fins de elidir a responsabilidade.

83

MACHADO, Hugo de Brito. Comentários ao código tributário nacional. São Paulo: Atlas, 2004. v. 2, p. 541.

84

Ver item 3.5, adiante, quando retornamos à interpretação do art. 131, I e justificamos porque o inciso deve ser interpretado em conjunto com o art. 130.

85

NASCIMENTO, Carlos Valder do (Coord.). Comentários ao código tributário nacional. Rio de Janeiro: Forense, 1997. p. 312.

86

O art. 130 do CTN se refere somente a impostos, taxas ou contribuições de melhoria porque em todo o Código não são mencionadas as contribuições sociais, mas somente as três primeiras espécies tributárias. O artigo deve ser interpretado levando-se em conta tal circunstância, de modo que atualmente sejam consideradas as demais espécies tributárias (além das contribuições, o empréstimo compulsório).

Quanto aos arts. 132 e 133 do CTN, tratam da responsabilidade na sucessão da pessoa jurídica, no primeiro com continuidade de sua existência, no segundo podendo haver descontinuidade. Embora não se refiram à cisão, a doutrina é uníssona em afirmar que se aplicam também nesta forma de alteração societária, que só foi introduzida pela Lei nº 6.404/76, posterior ao CTN.

O art. 133 do CTN foi modificado pela Lei Complementar nº 118, de 09/02/2005 (concomitante à nova Lei de Falências, sob nº 11.101, da mesma data), que restringiu a responsabilidade em tela. Após a modificação, o adquirente de empresa alienada em processo de falência, ou de parte da empresa (filial ou unidade produtiva isolada) alienada durante processo de recuperação judicial, não mais responde pelos créditos tributários. A responsabilidade tributária subsiste, no entanto, se o adquirente for sócio da sociedade falida ou em recuperação judicial, sociedade controlada pelo devedor falido ou em recuperação judicial, ou ainda parente, em linha reta ou colateral até o quarto grau, consangüíneo ou afim, do devedor falido ou em recuperação judicial ou de qualquer de seus sócios.