Em síntese, os resultados obtidos das análises realizadas indicam que:
a. A preposição DE relaciona semas de espaço e tempo com substantivos e verbos
A preposição DE, em Português Brasileiro, no uso efetivo por falantes nativos, ocorre como uma lexia híbrida, entre a lexia de designação e a lexia de relação, devido a um contexto pancrônico do latim ao português. Nesse caso, ela significa espaço e tempo, indicando origem, como, em: Cheguei DE São Paulo. (espaço-origem) / Fui DE Bauru a Campinas. (tempo-origem)
b. A preposição DE funciona como lexia de relação
i. constrói lexias compostas: Festa DE abertura. / Festa DE encerramento. ii. constrói lexias complexas: Dona-DE-casa. / Pão-DE-ló.
c. A preposição DE funciona como transformadora de estruturas frasais Veja: João tem uma casa. ˃ A casa DE João.
A inversão acima, denominada sintaticamente como adjunto adnominal, foi provocada pela inserção da preposição DE e a alteração dos semas que compõem a oração.
133
d. A preposição DE como responsável pela nominalização i. do verbo: Compraram livros. ˃ A compra Dos livros.
A inversão acima, denominada sintaticamente como complemento nominal, foi provocada pela nominalização de ‘comprar’, tornando o verbo um substantivo abstrato.
ii. do caracterizador: Maria é bela. ˃ A beleza DE Maria.
A inversão acima foi provocada pelo apagamento do verbo ‘ser’ e a pós- posição do caracterizado na frase nominal.
iii. do verbo: Maria canta. ˃ O canto DE Maria.
Ocorre a nominalização do verbo em frase de transição ou intransitiva.
e. A preposição DE projeta significado de uma lexia em outra lexia
A relação entre lexias, com a presença da preposição DE, indica: i. inclusão (fora de uso, mas registrado): Renascerá Da lama.
ii. assunto; sobre: Falaram Da escola. iii. lugar; em: Casa Da família.
iv. tempo passado: O museu estava fechado DE muito. v. percurso; por: A toalha de crochê escorria Da mesa. vi. entre: Foi diretor DE 1988 até 2018.
vii. destinação ou finalidade; para: Ela comprou fralda DE criança. viii. delimitação; com referência a: O céu estava limpo DE estrelas.
134
ix. quantidade: A escola alcança o número DE 1.000 alunos. x. posse: Fui receber a chave Do meu apartamento.
xi. conteúdo; com: Tomei uma caneca DE chocolate. xii. matéria; feito DE: A cama é feita DE madeira.
xiii. disposição ou propósito; para: O partido acabou com a missão DE luta. xiv. em forma DE: A casa foi construída em forma DE quadrado.
xv. parente DE: A filha Do governador chama-se Maria.
f. A preposição DE como responsável pela adjetivação
i. Medalha argentea. ˃ Medalha DE prata. / Moeda áurea. ˃ Moeda DE ouro. A substituição acima individualiza o ser pela caracterização.
Em síntese, os resultados obtidos do uso da preposição DE no Português Brasileiro indicam que:
- na dimensão lexical-vocabular, a preposição DE, no atual estágio da língua, é palavra invariável, que exprime “afastamento de cima para baixo”, “afastamento no sentido horizontal” e “movimento de dentro para fora”, ou seja, sentido de “afastamento” e “procedência”. Também, ainda “carrega” o sentido prototípico (espaço-temporal) que pertence a todas as preposições e, conforme o contexto, apresenta nova predicação pela subordinação de uma lexia a outra, como vimos, indicando inclusão, assunto, lugar, tempo passado, percurso, entre, destinação, delimitação, quantidade, posse, conteúdo (com), matéria (feito DE), disposição ou propósito (para); em forma DE e parente DE.
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- na dimensão proposicional, prevalecem o sentido e os sentidos de origem da preposição DE, além de outros que conhecemos pelo sentido geral do contexto que a relação entre lexias faz emergir.
- na dimensão pragmática discursiva, a preposição DE relaciona palavras de forma informativa ao sintagma, aparecendo como introdutora de complemento de verbo, de substantivo, de adjetivo, de advérbio e de locução adverbial. Também, apresenta fenômenos linguísticos ocorridos com a preposição DE como nominalização, inversão, apagamento e gramaticalização.
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Considerações Finais
Para finalizar essa dissertação, retomamos os objetivos que orientaram esta pesquisa.
Objetivo geral: contribuir com os estudos funcionais e da gramaticalização do português brasileiro. Acreditamos que esse objetivo tenha sido atingido, pois a preposição DE foi analisada nas dimensões lexical-vocabular, proposicional e pragmática discursiva, segundo os paradigmas propostos por Talmy Givón (1993).
O processo de gramaticalização resultou em: a. lexema ˃ lexema
lugar de onde ˃ espaço-temporal
Cheguei DE São Paulo ˃ Trabalha DE(as) 12h às 20h. b. lexema ˃ gramema
Fui DE Bauru a Campinas ˃ Ganhou Flores DE Maria. c. gramema ˃ gramema
A beleza DE Maria ˃ dona-de-casa.
O Objetivo específico I (rever tratamentos dados da gramática histórica e da gramática tradicional à preposição DE) também foi atingido. Vimos que no Latim os termos da oração eram marcados pelos casos de cada declinação, não necessitando da preposição para indicar transformações ocorridas entre os sintagmas nominais e verbais, dispensando a sintagmática oracional para precisar o sujeito em relação aos complementos verbais.
137
No histórico da Língua Portuguesa, os casos latinos vão desaparecendo e a preposição DE passa a funcionar como termo de relação, embora ainda mantenha certo conteúdo lexical.
Para Budin e Elia (1963), o ponto de partida do intenso uso da preposição DE está em certas construções clássicas. Com valor partitivo, era usado o genitivo (pars militum) ou o ablativo com de (pauci de nostris, Cés.). Para indicar matéria tínhamos o genitivo (sebi ac picis glebas, pedaços de sebo e pez, Cés.) ou ablativo com preposição (templum de marmore, Virg., Georg.). Em Cícero, os autores encontraram “De triumpho autem nulla me cupiditas tenuit”. Assim, pelo uso e mais pela tendência analítica, o conjunto “de + ablativo” acabou por apagar a designação do genitivo. Sabe-se, ainda, que primitivamente as preposições latinas foram advérbios.
A preposição DE, inicialmente, em Latim, era empregada com sentido de “afastamento de cima para baixo”, diferente de ab que significava “afastamento no sentido horizontal”. DE começou a confundir-se com ab e esta desapareceu. Para expressar o “movimento de dentro para fora”, o latim usava a preposição ex. DE tornou-se equivalente a ex, e essa veio a desaparecer, também. Portanto, DE passou a exprimir sentido de “afastamento” (“para onde”) e “procedência” (“de onde”).
Dessa maneira, DE passou a assumir as três noções do latim representadas pelas preposições ab, ex e DE e mais a ideia de origem encontrada no seu sentido de base.
A preposição DE tornou-se a favorita da latinidade posterior, passando a substituir não somente o ablativo, mas, também, tomando o posto do genitivo na declinação latina.
138
O Objetivo específico II (buscar, pela diacronia da Língua Portuguesa, os atuais usos pancrônicos da preposição DE), também, parece ter sido atingido, pois no estágio atual do Português Brasileiro encontramos a preposição DE indicando:
- movimento de cima para baixo: Ele caiu DE(o) 1º. andar.;
- movimento na horizontal (“em direção de”): Ele saiu DE(o) Rio de Janeiro para São Paulo.;
- movimento “de origem”: Ele saiu DE São Paulo e ainda não chegou aqui.
Os usos atuais da preposição DE são completados por outros já elencados em nosso trabalho.
Por fim, o Objetivo específico III (examinar os usos da preposição DE em segmentos de textos escritos, em busca de função lexical) parece ter sido atingido também, pois a preposição DE, no atual estágio da língua, indica movimento “de lugar de onde”, na vertical ou na horizontal, como em:
- Saiu DE São Paulo para Campinas. (de onde saiu para onde foi);
- Desceu DE(o) terceiro para o primeiro andar. (lugar vertical da descida).
Por fim, o Objetivo específico IV (examinar os usos da preposição DE em segmentos de textos escritos, em busca de função gramatical), parece ter sido atingido como os demais, pois, enquanto gramema, a preposição DE é usada em: - lexia de designação – Maria DE(o) Carmo.
- regência verbal – Gostar DE laranja.
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DE Maria.
- nominalização do verbo e posposição do sujeito – Maria chora ˃ O choro DE Maria.
- nominalização do verbo, seguido do objeto direto – João comprou livros ˃ A compra DE(os) livros.
- apagamento do verbo de ligação e a substantivação do adjetivo e a posposição do sujeito – Antonia é feliz ˃ A felicidade DE Antonia.
Em suma, a pergunta que gerou o problema desta pesquisa (no uso efetivo do Português Brasileiro, a preposição DE é um lexema ou um gramema?) indicou-nos que se trata de um termo híbrido, funcionando tanto como lexema quanto como gramema. Como lexema estabelece a relação entre palavras, inserindo sentidos conforme os contextos em que aparece. Como gramema é um morfema gramatical independente que funciona na relação entre lexias.
Esta pesquisa destacou a visão gramatical e a visão linguística para que evidenciássemos as diferentes nuances resultantes de processos de gramaticalização. No caso da preposição DE, os resultados indicam que se trata de uma preposição em estágio avançado de gramaticalização, ou seja, como resultado de longo, duradouro e contínuo processo linguístico.
Esta dissertação não se quer completa, mas com perspectivas futuras, faz-se necessário examinar o uso efetivo da preposição DE por falantes nativos brasileiros, no uso oral e escrito, na dimensão textual coesiva. Faz-se necessário, ainda, examinar o uso da preposição DE em unidades dialógicas, a partir do turno inicial e a troca de turno. Muito há que ser investigado.
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