Fontes: Adaptado de BRASIL. Diretoria Geral de Estatística. Recenseamento do Brazil realizado em 1 de setembro de 1920: Estatística Predial e Domiciliária da Cidade do Rio de Janeiro (Districto Federal). V. II, 3ª Parte. Rio de Janeiro: Tip. da Estatística, 1925. Mapa: População, área e número de prédios do Distrito Federal segundo a divisão censitária; NORONHA SANTOS, Francisco Agenor. As freguesias do Rio antigo. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1965.
Em comparação com o Mapa 1.1, podemos perceber que as mudanças foram maiores na zona urbana, que ficou mais fragmentada em razão da criação dos distritos supramencionados. No que diz respeito aos distritos suburbanos, houve pouca mudança: com a criação do distrito das Ilhas, tanto Irajá, como Inhaúma perderam as ilhas e ilhotas que faziam
20 Não encontrei um mapa específico para a cidade do Rio de Janeiro, com a divisão distrital adotada a partir do Decreto n° 434, de 1903. Então, para produzir o Mapa 1.2, tomei como base o “Mapa: População, área e número de prédios do Distrito Federal segundo a divisão censitária”, publicado no recenseamento de 1920, quando a cidade contava com 26 distritos, em razão da criação de Copacabana em 1915. Redesenhei a fronteira entre o distrito da Lagoa e o da Gávea com base no mapa de Noronha Santos. Ainda que não possua a exatidão cartográfica ideal, devido às adaptações que foram realizadas, ele serve aos propósitos do capítulo, pois permite visualizar a dinâmica demográfica da Capital Federal em meados da década de 1900. Levando em consideração as mudanças que ocorreram na cidade após as reformas de Pereira Passos, optar por não representar a divisão distrital adotada a partir de 1903 traria prejuízos mais significativos para os esforços de análise ora empreendidos do que o uso do mapa adaptado.
Todos os mapas referentes a 1906 que se encontram adiante foram produzidos com base no Mapa 1.2 e, por isso, provêm das mesmas fontes.
parte de seus territórios para o novo distrito. Além disso, algumas ruas que pertenciam a Inhaúma foram transferidas para o distrito urbano do Méier. Jacarepaguá, por sua vez, perdeu uma pequena parte de seu território para a formação do distrito da Tijuca.
Essa nova divisão territorial foi adotada no recenseamento realizado em 20 de setembro de 1906, no final da administração de Pereira Passos. Para o prefeito, a estatística era uma ferramenta fundamental do ponto de vista administrativo. Ainda no primeiro ano de seu mandato, ele assim se manifestou diante do Conselho Municipal:
“Convencido do papel preponderante que a estatística deve ter na administração pública e compenetrado de que sem ela não há governo que atinja a perfeição, pois governar sem o seu auxílio equivale a deixar-se conduzir pelo acaso, terei muito breve a honra de propor-vos, em mensagem especial, as medidas que o conhecimento do assunto e a experiência aconselham como indispensáveis, a elevar esse ramo da administração municipal às condições em que merece ser colocado.”21
De acordo com o Decreto n° 304, de 13 de agosto de 1902, cabia à Subdiretoria de Estatística Municipal a tarefa de realizar decenalmente os recenseamentos na Capital Federal.22 O primeiro deles deveria ser feito em 1905. Porém, ele acabou sendo realizado em 1906. Essa era a décima operação censitária pela qual passava a cidade do Rio de Janeiro, a terceira do período republicano. As duas anteriores tinham sido a de 1890, que foi concluída, apesar dos problemas, e a de 1900, que foi cancelada.
No preâmbulo do Decreto n° 607, de 13 de junho de 1906, que estabeleceu as diretrizes para o recenseamento daquele ano, dentre outras considerações, foi apresentado o motivo que impediu a sua realização em 1905: naquela ocasião, “a operação censitária não se podia realizar com êxito nesta cidade, devido às condições anormais em que ela se encontrava e cujos inconvenientes se acham agora consideravelmente reduzidos;”23 Segundo Marco Aurelio Martins Santos, tais “‘condições anormais’ por que passava a cidade se referiam ao imenso canteiro de obras em que a Capital Federal tinha se transformado. Não era exatamente indicado fazer censo em uma cidade onde mais de 1600 casas foram derrubadas e havia um número superior a 20 mil pessoas procurando lugar para morar”.24 Além desse aspecto, o autor
21 “Mensagem ao Conselho Municipal lida na sessão de primeiro de setembro de 1903”. Boletim da Intendência
Municipal. Rio de Janeiro: Tipografia da Gazeta de Notícias, jan./mar. 1903. Apud: SANTOS, Marco Aurelio
Martins. “1906: o censo perfeito do prefeito Passos”. SENRA, Nelson. Op. cit., p. 189.
22 Cf. Decreto n° 304, de 13 de agosto de 1902, disponível em Gazeta de Noticias, 14/08/1902, pp. 2-3. (Ver artigos 13 e 48).
23 Decreto n° 607, de 13 de junho de 1906. Apud: SANTOS, Marco Aurelio Martins, Op. cit., p. 196. 24 SANTOS, Marco Aurelio Martins, Op. cit., p. 197.
destaca que outro motivo também contribuiu para o adiamento do recenseamento em 1905: a ocorrência da Revolta da Vacina no final de 1904.25 Os ânimos estavam muito exaltados para que tal empreitada, que dependia da colaboração da população para fornecer os seus dados pessoais e familiares, fosse bem sucedida.
Para não repetir os problemas que acabaram inviabilizando a operação censitária de 1900 na Capital Federal, em 1906, a Comissão Central responsável pelo recenseamento municipal fez ampla divulgação de sua realização na imprensa. Seu intuito foi esclarecer a população sobre como se daria a coleta dos dados, bem como justificar a importância de sua concretização. Ela também buscou enfatizar por meio dos jornais que as informações não seriam usadas para o alistamento militar ou da Guarda Nacional, nem para a cobrança de impostos.26 Nove meses após a aplicação dos questionários e o recolhimento dos dados, os resultados do censo estavam prontos para serem divulgados. Nas palavras de Martins Santos,
“Depois da debacle acontecida em 1900, por conta do Recenseamento Geral da DGE, Pereira Passos e a Comissão Central souberam conduzir aquela operação censitária com firmeza e rigor, obtendo com isto os números mais perfeitos possíveis, dentro das limitações que todo censo acaba enfrentando. Ele só aconteceu porque o de 1900 falhou. Ele foi bem-sucedido porque a Prefeitura não podia se dar ao luxo de não produzir um bom censo.”27
Em razão de restrições orçamentárias, o recenseamento geral previsto para 1910 não foi realizado.28 Dado que os censos de 1890 e 1900 careciam de credibilidade, o cancelamento da operação censitária de 1910 contribuía para a falta de informações confiáveis a respeito da população nacional durante o regime republicano. Apenas em 1920 foi empreendido outro levantamento demográfico no país, que, segundo Nelson Senra, foi “de longe, o melhor que a República fizera, até então.”29
No que diz respeito à Capital Federal, entre o recenseamento de 1906 e o de 1920, três decretos fizeram alterações em sua divisão territorial. Em 29 de abril de 1912, o Decreto n° 864 modificou os limites dos distritos, sem interferir na quantidade total deles, que permaneceu 25. A justificativa para tal reconfiguração se ancorava na necessidade de tornar o trabalho das agências municipais mais equitativo, já que com o “crescimento da cidade”, o “aumento de construções e de novas indústrias”, algumas delas estavam sobrecarregadas e não
25 Cf. Ibidem, pp. 197-200.
26 Cf. Ibidem, p. 204. 27 Ibidem, p. 221.
28 Cf. Ibidem (Ver Capítulo 13: “Em 1910, o censo que não contou”). 29 Cf. Ibidem.
tinham condições de realizar “severa fiscalização”.30 O Decreto n° 1.698, de 5 de agosto de 1915, por sua vez, determinou a criação do 26° distrito municipal, denominado Copacabana.31 Seu território foi constituído a partir de áreas que pertenciam aos distritos da Gávea e Lagoa. Por fim, o Decreto n° 1.376, de 22 de julho de 1919, estabeleceu a criação do distrito suburbano da Penha, a partir do território do distrito de Irajá.32
É curioso observar que, a despeito da sanção desse último decreto, no recenseamento de 1920 a divisão territorial adotada para o Distrito Federal contemplava apenas as modificações aprovadas até 1915. Ou seja, os dados foram coligidos levando em consideração 26 distritos e não 27. Mesmo o Almanak Laemmert, que anualmente publicava informações geográficas a respeito do Distrito Federal, não incluiu o distrito da Penha nos dados referentes a 1922.33 Tal fato, somado à sua ausência no recenseamento de 1920, coloca em dúvida a efetivação do Decreto n° 1.376, pelo menos até 1922. O mapa a seguir traz a composição distrital do Rio de Janeiro empregada no inquérito censitário de 1920, cuja principal distinção em relação ao Mapa 1.2 é a criação do distrito de Copacabana.
30 Cf. Decreto n° 864, de 29 de abril de 1912, disponível em O Paiz, 30/04/1912, p. 7. 31 Cf. Decreto n° 1.698, de 5 de agosto de 1915, disponível em O Paiz, 06/08/1915, p. 7.
32 Cf. Decreto n° 1.376, de 22 de julho de 1919, disponível em Prefeitura do Distrito Federal. Boletim da Prefeitura
do Districto Federal (1919), pp. 133-134.
33 Cf. Annuario Commercial, Industrial, Agricola, Profissional e Administrativo da Republica dos Estados Unidos