CAPÍTULO 6 – REVISÃO DE LITERATURA
6.1 Rocha e Trouche (2015)
A pesquisa de Rocha e Trouche (2015) teve como objetivo contribuir para a discussão "dos artefatos aos instrumentos: o trabalho individual e coletivo do professor de matemática" (ROCHA; TROUCHE, 2015, p. 1). O referencial teórico utilizado foi a Abordagem Documental do Didático, sendo os autores envolvidos no projeto nacional francês ReVEA (Recursos vivos para o ensino e a aprendizagem, www.anr-revea.fr) que se interessa pelo trabalho documental de professores em quatro disciplinas escolares (matemática, física e química, inglês e tecnologia). Esse artigo está inscrito nesse projeto, mais especificamente, na tese da pesquisadora em Educação Matemática, Katiane Rocha, que se interessa pelo processo de design e usos do livro didático digital desenvolvido pela associação Sésamath.
Segundo os autores, a Associação Sésamath é uma "organização aprendiz" na qual "o indivíduo se anula diante do coletivo" e que os recursos têm uma "validação
colaborativa" em um espírito de "nunca criticar por criticar". Nessa associação, a produção de recursos é, na maior parte do tempo, a distância e todos os recursos são livres, podendo ser encontrados no site da associação (www.sesamath.net). Os professores que participam desse processo não são reconhecidos como autores dos recursos, eles são apenas professores voluntários e não assalariados. Cita-se Gringoz (2015), segundo o qual, é o único caso nos direitos franceses em que uma obra, o autor da obra, é uma pessoa moral. É quando a obra é coletiva e baseada no trabalho colaborativo.
Os autores destacam que, na associação, há um grupo piloto, que se encarrega de acompanhar as evoluções da produção escrita dos capítulos, de assinalar a necessidade de finalizar uma discussão, de coordenar a produção em relação ao tempo, de apontar as partes que precisam ser relidas etc. Ocorre um trabalho contínuo de transformação e aperfeiçoamento de recursos: os professores-designers fazem, ao seu tempo, modificações ou apontam problemas que eles buscam resolver juntos. E a relação entre os membros nesse processo busca ser a mais cordial e convivial possível.
Com relação à Labomep, os autores enfatizam que é uma plataforma que permite ao professor propor planos de estudos para os estudantes por meio da criação de sessões, podendo ser utilizado tanto na sala de aula quanto em casa. Além de permitir acompanhar as evoluções dos estudantes.
Sobre o livro didático, os autores destacam que é possível encontrar sua versão digital gratuita no site, enquanto a versão impressa deve ser adquirida. Em relação aos livros didáticos para o ensino fundamental, cada capítulo é dividido em três partes:
atividades de descoberta; métodos e noções essenciais; e exercícios do tipo:
treinamento, aprofundamento, trabalho em grupo, alternativa e um exercício considerado lúdico. Conforme os autores, é importante destacar a diferença entre o livro didático digital e o impresso, pois o primeiro não se trata apenas do formato pdf do segundo. O livro digital é repleto de exercícios que são ligados a ferramentas interativas. Muitos exercícios, tanto do livro didático quanto do caderno de exercícios, possuem ajudas interativas que são feitas no formato apresentação - usando os efeitos similares aos de uma apresentação em slides: aparecer, desaparecer, riscar etc. - simulando as etapas das explicações de métodos ou resoluções de exercícios.
Quanto aos recursos para os professores, os autores afirmam que a plataforma
Sésaprof dá acesso a todos os recursos (Labomep, livro digital, Tracenpoche, entre outros) e pode ser usada para estabelecer comunicação com os membros da associação. Também afirmam que, entre as ferramentas para auxiliar o ensino, o Tracenpoche é um aplicativo que permite realizar algumas construções geométricas (usando segmentos, retas, interseções entre retas, ângulos, entre outros). Tem-se, também, o InstrumenPoche que é um aplicativo que permite a utilização de instrumentos tais como compasso, esquadro, transferidor, entre outros.
Em relação ao acompanhamento das aulas de Matemática da professora Anna, os autores afirmam que, por meio das observações da sala de aula (durante três meses no 6° ano do ensino fundamental), constatou-se que Anna utilizou diversos recursos: três livros didáticos diferentes (incluindo a projeção do livro didático Sésamath), imagens retiradas da internet, brochuras produzidas pelo grupo IREM, jogos online, desafios matemáticos propostos pelos alunos e o software GeoGebra.
Descobriu-se a origem desses exercícios por meio da caixa de diálogo presente na RI box, na qual Anna colocou, também, os recursos que ela utilizou para preparar sua classe.
Quanto à trajetória documental de Anna, os autores destacam que ela usava a plataforma, pois podia acessar atividades propostas por vários professores, atividades que muitas vezes ela desconhecia, mas que era possível de entender a proposta por meio da explicação do professor. Entretanto, com o tempo, essas explicações desapareceram e ela perdeu o interesse por utilizar tais recursos. Conforme os autores, outro ponto que a fez utilizar menos os recursos Sésamath é que ela achou, no caso do livro didático, que o fato de pessoas diferentes trabalharem em capítulos diferentes deixa a proposta não muito coerente e, ainda, quando ela queria usar exercícios do livro com os alunos que estão mais avançados em relação ao conteúdo, a versão do livro em papel apresentava poucos exercícios.
Explorando-se a trajetória documental de Anna, os autores entenderam sua maneira diferenciada de usar os recursos Sésamath, destacando que uma ferramenta que ajudou a entender sua trajetória documental e sua influência nos usos do Sésamath é o RI box, pois a interação com a professora e o fornecimento de seus recursos foi primordial para essa análise;.
Em relação ao conjunto de recursos produzidos pelo Sésamath, os autores perceberam a busca por fornecer um corpus de recursos que suprisse as
necessidades dos professores, uma vontade de ser um sistema completo, todavia, destacam que é importante saber quais desses recursos e por quais razões são usados efetivamente em sala. Nesse estudo, os autores levam esse aspecto em consideração e, por isso, foi feito um questionário com vários professores do ensino fundamental para identificar quais recursos Sésamath eles usaram e com qual intensidade, bem como seus pontos de vistas sobre os recursos propostos pela associação.
Para uma melhor compreensão do leitor, reforçamos as discussões com referências a outras pesquisas relacionadas ao trabalho de Rocha e Trouche (2015):
Essa pesquisa relaciona-se com o trabalho de Gueudet et al. (2016) discutido mais adiante, pois ambos foram desenvolvidos no âmbito da associação francesa Sésamath. Nesse aspecto, é interessante comentarmos a teoria de Comunidade de Prática (WENGER, 1998), pois os trabalhos realizados nessa associação estão respaldados nessa teoria. De acordo com Benites-Bonetti, Paulin e Richit (2018):
A teoria de Comunidade de Prática, do pesquisador Etienne Wenger e da antropóloga Jean Lave, surge em 1991 a partir da idealização de um modelo de aprendizagem que pudesse ocorrer fora das fronteiras de organizações formais, na qual as pessoas pudessem se unir, por meio de um tema de interesse, e encontrar meios para melhorarem o que fazem. Estes autores iniciaram uma discussão sobre a Teoria Social de Aprendizagem, em que a aprendizagem é vista inserida em um contexto de experiências, como um fenômeno social que reflete a natureza social dos seres humanos (BENITES-BONETTI; PAULIN; RICHIT, 2018, p. 211).
Percebemos que essa teoria conquistou notoriedade e repercussão, pois as Comunidades de Prática são eficazes em permitir a partilha de saberes entre sujeitos e grupos, motivando os indivíduos e ensejando o desenvolvimento pessoal e profissional, inclusive viabilizando a atualização das suas atividades profissionais.
Nesse aspecto, Rodrigues, Silva e Miskulin (2015) mostram a Comunidade de Prática como um ambiente de aprendizagem favorável à ação formativa de professores, pois permite a implementação de práticas colaborativas e reflexivas entre os seus participantes. Nesse ambiente, observa-se um comprometimento dos seus membros, numa dinâmica de interação e colaboração, procurando, pelas práticas compartilhadas, maneiras de resolver ou compreender uma determinada questão.
Conforme Wenger (2001), uma Comunidade de Prática se estabelece por meio de três elementos: a comunidade, o seu domínio e a sua prática. A comunidade é um coletivo de sujeitos que compartilham um domínio comum, articulando, definindo práticas, desenvolvendo relações e partilhando saberes. O domínio comum determina
a identidade da Comunidade de Prática, distinguindo-a de um coletivo de sujeitos e refere-se à preocupação da comunidade (um tema, um problema, uma necessidade, um projeto, etc.). A prática nesse ambiente, segundo Wenger (2001), apresenta três dimensões: engajamento/compromisso mútuo, empreendimento conjunto e repertório compartilhado. É uma coletânea de ações de características diferenciadas como debater, analisar, utilizar os instrumentos tecnológicos, partilhar dados, estruturar formas de comunicação, documentar, tomar decisões.
Diante do exposto, consideramos que a pesquisa de Rocha e Trouche (2015) contribuiu com a nossa pesquisa, mostrando-nos que ambientes de trabalho colaborativo são eficazes em permitir a partilha de saberes entre sujeitos e grupos, motivando os indivíduos e ensejando o desenvolvimento pessoal e profissional, inclusive viabilizando a atualização das suas atividades profissionais.